segunda-feira, 10 de julho de 2023

vi.

Fico a pé até tarde, neste mundo.
Tão tarde.
Vou à janela e observo o cerrar da noite. Os grilos já deixaram de cantar. Um silêncio colossal impera. Ao longe, pouco mais se percebe do que o cheiro a álcool vindo de um beco qualquer, os passos destrambelhados de almas cansadas, caminhando por socorro e por abrigo. Vozes na rua só dos loucos, dos perdidos. É verão, mas nos ossos a existência gela.
Os gatos vagueiam mansinho, em alerta para qualquer movimento. Não se vêem pássaros ou cães, dormem aconchegados nos seus esconderijos, esquecidos dos dias. Ali vai uma ratazana, apressada. Um morcego avista-se quase sem se ver. 
Podia ser o fim, o aproximar do apocalipse; podia faltar apenas um segundo. Aflijo-me, sinto o ar estrangular numa única inspiração. Se expirar, parece que se concretiza: que qualquer coisa rebenta e que é o fim.
O fim.
Fiquei, sem dúvida, a pé até demasiado tarde. Vivi o quase vazio e, no entanto, esse quase é a palavra-chave.
Quando acaba o fim e começa o início? Em que limbo termina o dia e recomeça o outro?
A nossa vida extingue-se e depois? O que vem depois? Quando?
Não sei bem quando, mas o sol começou a nascer.
Começam a escutar-se piares tímidos. A meia-luz, um cão espreguiça-se. Junto a si, flores abrem devagarinho. Uma criança que chora e, algures, o som de uma panela que se pousa numa cozinha por perto. Os gatos regressam a casa, os morcegos e ratazanas às suas tocas. 
Os perdidos e loucos afinal não estavam assim tão perdidos e loucos. E quem procurava socorro, salvou-se. Sobreviventes. Mal eles sabem que o são, mas têm mais um dia para tentar descobrir. 
Enquanto os raios de sol tocarem as plantinhas mais pequenas que brotam rebeldes entre as ranhuras da calçada e a chuva as alimentar, podemos ter esperança, certo?
Deixou de faltar um segundo para o fim e há tempo que baste para recomeçar; basta acertar o relógio.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

v.

Às vezes sou montanha, muralha, estrutura, pilar, casa, abrigo. Venham os ventos, as chuvas, os terramotos, os furacões, as tempestades, os assaltos, os exércitos e os dragões. Sou soberana, mãe, guerreira, dona, chefe e mulher do Universo.
Mas há vezes em que sou só uma pedrinha, um tijolo, uma parte, uma peça, um lugar qualquer; propriedade do mundo, tão grande e imenso, tão cheio de possibilidades e impossibilidades. E, aí, o mundo engole-me. Para o bem e para o mal.

iv.

Às vezes, sinto-me longe dos meus sonhos e dói, aperta. Na verdade, o facto de (talvez) estar mais perto do que nunca, dilacera ainda mais - supostamente, estar tudo mesmo ali... e, no entanto, não estar. Ainda ser tudo tão incerto... tão inalcançável e difícil de conceber.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

iii.

Superar-me, superar-nos a.k.a. superar-me, superar-nos.
Pois super bem que podia ser verbo e a sua conjugação indicar transcendência.

ii.

A malfadada da ansiedade, que nos faz o coração bater mais e mais forte, mais rápido. Mais vivo que nunca. Tão vivo que parece encher o peito até rebentar, rasgar, sangrar, ou até jorrar. Tão intenso que, ao mesmo tempo que salta, parece encolher-se todo numa fração de segundo, cravar-se mais fundo, atirar-se para as profundezas de nós.
Essa malfadada ansiedade, que abre o peito todo para engolir todo o ar do mundo, como se fosse uma necessidade sôfrega, uma necessidade última. Quase que como um último suspiro, para um último passo para a frente ou para um recôndito esconderijo, longe de tudo, imediatamente ali ao lado.
Essa malfadada ansiedade, que rouba todo o espaço, todo o tempo, todos os sentidos e razões da existência, querendo o foco inteiro só para si. Ela, a mais importante de todas as coisas, um instinto de sobrevivência.
Ai, malfadada ansiedade, que me roubas a visão lá do horizonte, das estrelas, da lua e dos sonhos; que me esbugalhas os olhos, me obrigas a ordenar as mãos, pés, membros ao trabalho, a servir-te de todas as formas e feitios, sem pestanejar ou emitir um único som, uma única vez. Já não sei falar. Não sei onde foi a minha voz. Sumiu para um lugar indefinido, desconhecido, que não sei encontrar.
Ai, malfadada ansiedade. No fundo, imploras por colo, pilares, casa, uma qualquer segurança que te encaixe e te faça perceber vida além. Desafios ultrapassáveis, paz almejável.
Ai, ansiedade. O que fazes por amor. Que guerras estas te dispões a travar, que imaginas e reimaginas para treinar. Empunhas escudos, empunhas espadas. Tudo vale, no amor e nas batalhas.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

i.

Aos anos que as letras partiram numa viagem sem bilhete de regresso, mas têm-me feito sinais de fumo lá de onde estão. Creio que longe, mas tão mais perto do que entretanto me acostumei. Chamam-me, imploram-me que as vá salvar. Relembram-me (ao escutar o palpitar do meu coração) que me arrependerei se não mais as acudir.
Treme-me a alma de pensar se o tempo nos consumiu ao ponto de nos desunir para sempre. E, no entanto, esta pequena nota de lembrança de uma outra época, feita de encontros diários marcados, é-me esperança suficiente de que, talvez, estejamos mais perto do que as amarras da exaustão fazem parecer.

Talvez nunca nos tenhamos afastado. Talvez nunca nos tenhamos ido embora. Talvez só tenhamos estado em silêncio, e as histórias e os poemas se libertem mal lhes seja dada voz.

sábado, 7 de novembro de 2020

Amores Unidos

Namoro um artista; namoro um artista e sou psicóloga. Achei que seria, eventualmente, o único ponto da minha vida em que poderia dizer que a arte e a psicologia andam de mãos dadas, se abraçam, se beijam. Mas enquanto psicóloga, num dia qualquer e de formas que nem sei, pintei um quadro - e, assim, de repente, sem querer, fui calhar a trabalhar no SPO de uma escola de artes (faz hoje uma semana e três dias).

sábado, 10 de outubro de 2020

Dia(s) da Saúde Mental

A diz lá, Beatriz vem do coração e das mãos de uma humana linda, psicóloga, que foi minha colega de curso.
Lançou ainda agora um livro que todos podem (e devem) adquirir e deu uma entrevista ao P3.

Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. 

É, pois, um dia de todos e para todos. O dia daquilo que sentimos, pensamos, fazemos, experienciamos, vivemos e de como tudo isso ressoa em nós, nos outros e no (nosso) mundo. 

E esse dia... Mesmo que não o assinalemos com uma data e um nome, mesmo que não falemos dele... É, na verdade, todos os dias.

Não é para malucos. Não é (só) por causa da COVID.

É para todos, porque existimos. E existir implica sentir, pensar, fazer, experienciar... Viver. Nem sempre é fácil... E não há mal nenhum nisso.

(Hoje faz também 4 anos desde que comecei a exercer, de alguma forma, enquanto Psicóloga. Na altura, uma Psicóloga a sair do ovinho: o primeiro dia do meu estágio curricular. O dia em que cheguei ao hospital pronta para abraçar aquilo que se vinha a afigurar um sonho: dar de mim para os outros.)

Tenho alguma vergonha em escolher (mais) um título

Vamos dizê-lo: a tentativa de regresso a este blog quase que parece a Odisseia do Coronavírus versão internet. 

Confinamento durante uma data de meses... vamos lá tentar desconfinar. Ups, se calhar não: confinados outra vez, sem previsão de regresso. Vamos anunciar o regresso - põe uma publicaçãozita de fora (como quem diz um pézinho)... ai, se calhar não: mais uns meses até ao próximo post, que nem sabe bem àquilo que devia; que se esperava, que se queria.

E já que o garantido, para já, é o mero anúncio de coisas...

Venho dizer ao povo que já sou psicóloga reconhecida pela Desordem, que não pude continuar a trabalhar no sítio (indescritivelmente) bonito onde estagiei e que estou de volta à procura de um sítio onde possa ser feliz. Supostamente fiquei com um cliente para dar sessões privadas, mas continuo a aguardar notícias dos responsáveis legais da criança e também não tenho feito demasiada pressão para as ter - por estar a tentar perceber, precisamente, em que sítio é que, a seguir, irei ser feliz. Ainda não tratei de registar o livro que escrevi faz meio século nem tentei enviá-lo para muitas editoras (algo que está nos meus planos não deixar mais em águas de bacalhau assim que perceber como ficará a minha vida profissional nos próximos meses). Não obstante, não gosto de estar parada e resolvi recentemente abraçar a causa que mais me faz sentido à alma, ao sangue que me corre nas veias e me bombeia à vida, neste momento: vou ser voluntária num programa para pôr as crianças a brincar mais na rua, ao ar livre, em contacto com a natureza e construindo relações com a comunidade do seu bairro (chamo-me Guardiã do Brincar - ou não é o título e missão maaaaaaais belos!). Tenho um sobrinho emprestado lindíssimo, de derreter qualquer um - o Benjamin - nascido a 3 de fevereiro deste louco ano e só me chateia não acompanhar mais de perto o seu crescimento - em parte, graças ao corona. Morreu-me também uma prima esta semana, de forma inesperada e absolutamente inexplicável, em nada relacionada com o corona mas sem ainda razão apurada; deixa uma filha, um marido, pais, tios, toda uma família e amigos inconsoláveis para trás, mas que estou certa que ganharão forças e coragem no seu sorriso, alegria e energia de viver aos poucos e poucos, a seu tempo e compasso. Tenho ainda o objetivo de, algures no próximo ano, se assim for possível, arranjar um ninho com o meu amor. E, sinceramente, para já, penso que mais não há de muito relevante ou importante para relatar.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Piu, Foi um Psi-rinho que Me Viu

Vim só dar os ares da minha graça, sem ainda previsão de regressar.
Comecei o curso da Desordem.
Pronto, era só.
Boa noite que daqui a bocadinho vou ao cinema e, chegada a casa, vou dormir muito como se não houvesse amanhã - que o cansaço acumulado durante esta semana está agressivo.

domingo, 25 de agosto de 2019

25. Elasticidade

A vida é elástica e o ser humano previsível. Mesmo assim, nunca sabemos o que dele esperar ao longo de uma história que tende a ser cíclica.

sábado, 24 de agosto de 2019

24. Ressequido

Pouca esperança não é o mesmo que nenhuma esperança. A esperança poderá estar ressequida, mas isso ainda não quer dizer que se reduziu a pó.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

23. Carunchoso

- Ainda nem se fez fruto completo e já está carunchoso.
- O quê?
- O futuro da humanidade.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

22. Canivete

Dei-o na faculdade e sinto-o na pele. Como psicóloga, às vezes (muitas vezes), gostaria de ser canivete suíço e ter comigo todas as ferramentas possíveis e imaginárias; mas a verdade é que, às vezes (muitas vezes - centenas, milhares, incontáveis vezes), basta ter-me lá, de mãos vazias mas abertas para o momento.

21. Fundir

- Fundiram-se-lhe os fusíveis. Anda para ali todo apaixonado que já se esqueceu que é laranja inteira. Só a vê a ela, só a quer a ela; anda como se a tentar ser metade dela.
- É que sabes, há uma diferença entre paixão e amor. Na paixão quer-se sofregamente o outro, há algo em nós que grita em urgência pelo outro em nós e nós no outro; como se fossemos um só, sem poder existir de outra forma. No amor... No amor sabe-se que o outro está lá sendo outro, e nós cá sendo nós. Não nos precisamos para sobreviver, mas queremo-nos para viver. E há algo de muito belo nisso.
- Então... Mas a paixão e o amor podem coexistir.
- Claro. Mas quando há amor, a paixão é um encontro connosco, com o outro, e com o nós. Quando não há... Andamos perdidos de todo. De tudo. Loucamente perdidos, perdidamente loucos.

20. Incolor

Não é porque algo é incolor que não deve ser notado, e não é porque algo é colorido e espampanante que deve ser.

19. Acutilante

O mundo está a morrer e nós estamos a morrer com ele. Questiono-me qual será a dor mais acutilante: a morte em si ou o momento antes da morte, em que sabemos que fomos nós que a provocámos.
Nós já morremos por dentro e por isso morre o mundo. Quem sabe, depois de morrermos por fora, o mundo renasça.

18. Orvalho

Fossem todos os espelhos gotas de orvalho e talvez em vez de repararmos apenas em nós mesmos repararíamos na Natureza em redor.

sábado, 17 de agosto de 2019

17. Sofisma

Não importa qual religião tem razão; na verdade, nenhuma religião tem. Não se trata de razão ou ciência; não se trata de verdade ou sofisma: trata-se de fé, de coração; do "essencial ser invisível aos olhos".

A minha fé não vai ao encontro de religião nenhuma. Não creio num Deus, nem em vários deuses, nem em nada. Creio, sinto, que somos demasiado pequenos e insignificantes para achar o que seja deste Universo - o que é, para que é, porque existe, de onde veio. Para mim, isto é tudo um grande "nada" sem sentido, que não está cá para ser compreendido porque não foi para isso que foi feito: está cá para ser vivido. Então, sigamos caminho.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Venho e vou;
Vou e venho.

Olá a todos, de novo; não sei quanto tempo ficarei. Mas informo que: tenho estado de férias desde o início do mês, que o meu local de estágio fecha agosto inteiro (nunca eu pensei que voltasse a ter 1 mês inteiro de férias na vida e estou en-can-ta-da); estou a gostar muito do meu estágio (milhões!), do trabalho com os mais pequenos e em contexto de creche e pré-escolar (embora já me tenham tentado converter para freira que aquilo é gerido por elas, ups - not gonna happen, sorry); ando encantada, no geral, com crianças e bebés, sendo que o relógio biológico está a começar a fazer tic-tac embora os meus (nossos) planos ainda nem por isso; vou ser "tia" que a minha Rute vai ter bebé no início do ano (yay, first baby of the gang!); já tenho mais um par de publicações científicas de psicologia concretizadas, não tendo mexido um único dedo mais face ao trabalho que fechei no ano passado (a isto chama-se felicidade). 

And that's all folks. Estas são as big news. Sem promessas ou garantias, tentarei retornar aqui nos próximos dias e pegar na Caixa das Palavras, que grita por conclusão há mais de um ano.

Até lá!