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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Primeiro Voo: Feito


Agora sim - depois de todos os exercícios e trabalhos estarem realizados - posso dizê-lo de forma oficial:

Primeiro workshop a sério de escrita criativa - entre (muitos) outros que se seguirão - finito!


Gostei tanto desta viagem que já me pergunto para quando será a próxima. Até lá é treinar, meus amigos; até lá, é colocar força nestas mãos para voar. É estar grata e felicíssima por tudo o que descobri e continuar a descobri-lo cada vez mais - e melhor!...

T.E.S. XIX - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: escrever o monólogo da personagem (criada pelo aluno em aula) nesta situação: está em cima de uma prancha, a largos metros de altura, hesitante entre saltar ou não. Máximo de 200 palavras.

Estou muito alto! Tenho medo, não gosto disto... Não quero fazer mais natação, quero a minha mamã para ir embora! Onde ela está? Ai, está ali. Está a ver-me... Quero que ela venha aqui buscar-me! A professora diz para eu saltar mas eu não quero... Quero a mãe! Quero chamá-la e ir embora, dizer a ela que não gosto de pranchas! A professora diz que eu nado bem e consigo, mas dói a saltar porque bato na água... Se fico presa debaixo de água afogo-me e não consigo respirar! Se a mamã vir e não conseguir salvar-me fica triste... Mas se eu não salto a professora zanga-se e os meninos estão a ouvir e vão-me chamar mariquinhas! Eu não sou mariquinhas. Sou muito corajosa! Eu respiro fundo quando estou nervosa e depois consigo. Foi o vovô que ensinou-me. Se fizer o que ele disse e depois avisar a professora que vou saltar ela fica contente... Depois vou dizer a todos que tive medo mas que consegui porque sou corajosa! Mas não quero saltar... A Marta também disse-me que não. Se eu saltar assim ajudo ela depois e digo a ela que consegue também. Só se contar até três: um, dois,...

(T.E.S. escrito à criançolas porque a minha Renata é - como sabeis pela anterior publicação relativa ao curso - isso mesmo: pequenina. Eis, pois, a Renata em duzentas palavras).

terça-feira, 12 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

T.E.S. XVIII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: "Filipe encontra o seu melhor amigo a forçar um beijo com a sua mulher." Vamos contá-lo em três versões – agora temos de nos esticar mais um pouco (não menos de 150 palavras para cada um - para conseguirmos fazê-lo como deve ser):

1. 90% de coerência vs 10% de transformação;
2. 90% de transformação vs 10% de coerência;
3. 50% de transformação vs 50% de coerência.


1: Filipe e Nuno sempre haviam sido dois companheiros inseparáveis desde que se descobriram duas crianças demasiado idênticas em gostos e modos de ser para continuarem cada um por si, com a sua vida, mundo fora. Filipe sentia que encontrara em Nuno tudo o que completava as suas brincadeiras: toda a sua equipa de futebol, todo o seu exército de guerra, todos os seus colegas de aventura na selva. Na adolescência, entretinham-se a seduzir raparigas: não em tempo real, mas em competições dialogadas entre os dois para ver qual teria mais hipóteses, consoante os seus truques e trunfos, de ficar com as alvejadas moças. O tempo foi passando e ambos foram continuando a testemunhar os seus corpos e almas a crescer, juntos - e a cumplicidade com eles. Encaixavam, uma atrás doutra, as piadas de um nas do outro; os brindes feitos entre os dois (já podres de alegres), no bar da esquina, soavam-lhes como que a multidões a festejar numa autêntica folia. Partilhavam objetivos profissionais e pessoais com um sorriso aberto e uma determinação efervescente nos olhos, e já havia, inclusive, rascunhos mentais para se fazerem sócios e montarem uma companhia.
Tudo corria bem quando estavam bem: o pior foi quando um deles, pela primeira vez, se foi abaixo - realmente abaixo. Nuno acabara de perder a mãe e fechara-se num silêncio inconsolável que Filipe não arranjava maneira de contornar. Andava preocupado com o amigo, embora compreendesse o seu isolamento: ele próprio sempre fora muito reservado no que respeita a sentimentos e não gostava de lhes tocar mais do que o necessário. 
Um dia não aguentou mais: já tinha tentado de tudo e Nuno selado que nem um cofre, mudo que nem uma porta, desgostoso que nem uma fonte. Suplicou ajuda a Gabriela, sua mulher e também melhor amiga de Nuno. Gabriela conhecia Nuno desde infância, ainda antes de Filipe, sequer, ter aparecido pela primeira vez. Não fora rara a vez em que brincaram os três em pequenos e fora assim que começaram a nascer os laços que hoje os uniam. Talvez, por isso, ela fosse a sua única hipótese; talvez ela o conseguisse ajudar; talvez fosse ela a trazer o seu amigo de volta, como certamente o saberia fazer. Gabriela era, aliás, a única pessoa no mundo que conseguia fazer com que Filipe falasse do que o atormentava sem que este sentisse que o mundo ia desabar: afinal de contas, ela estaria lá para o segurar; bem dizendo, Gabriela era o seu mundo. E, por isso, Filipe julgava-a a mulher mais capaz de todas - Deus na Terra. Gabriela era-lhe Deus na Terra. Não havia o que fizesse que não fosse com bondade ou que não fosse a própria bondade. Sim: ela conseguiria, de certezinha, trazer algo de bom, de novo, a Nuno - um pouco de esperança que fosse. Quantas vezes Filipe já a vira a consegui-lo consigo mesmo? Quantas vezes um ou dois pares de palavras dela lhe bastara para subir a moral? Gabriela era a mulher mais capaz de todas, sabia-o bem - Deus na Terra. Ela iria conseguir.
E conseguiu. Efetivamente Gabriela conseguiu trazer algo de bom a Nuno, conseguiu subir-lhe a moral. Aquela mulher era tudo: um anjo, uma Deusa! Nuno começara a partilhar aos poucos a sua dor com Gabriela ao telefone. De dia para dia ia-se abrindo mais um pouco. Filipe sentia o alívio a pousar no seu rosto sempre que chegava a casa do emprego e a mulher lhe dava a boa-nova de que Nuno estava a melhorar aos poucos, que já se tinha rido e tudo.
- Amo-te - dizia Filipe, radiante de encantamento por Gabriela.
- Também te amo - devolvia-lhe ela. - Vai-te deitar. Deves estar tão estafado depois de tantas horas no escritório!... Já vou ter contigo.
- Está bem, meu amor.
E este diálogo repetia-se, diariamente. Dia após dia e Filipe sempre a receber boas notícias de Nuno. Agora o amigo já recomeçara a ir ao ginásio e tudo e estava a pensar voltar ao trabalho na semana seguinte, ainda só passara oito dias desde que Gabriela entrara em ação.
Gabriela demorava-se cada vez mais a esgueirar-se para ao pé de Filipe à noite. Dizia sempre que já ia. Fazia sempre mais um ou dois telefonemas antes de se juntar ao marido.
Começou a ser Filipe a ficar desanimado.
Um dia chegou a casa e nem sinal da mulher. Cozinha vazia; na sala de estar, ninguém. Estranhou tudo aquilo mas não se deteve. Chamou por Gabriela por todo o lado e continuou à procura.
Filipe saiu para o jardim em desespero e... entrou num desespero ainda maior. Ali, a um canto: lá estava o amigo, lá estava o danado a lançar-se para a boca de Gabriela; a sua Gabriela, a sua mulher - a sua Deusa! Nuno: o bandido, o irmão traidor, o danado do Diabo - Diabo na Terra! Como fora ele capaz?! Como?!... Ai, se ele tivesse lido os sinais da sua Gabriela, da sua mulher - da sua Deusa!... Bem que ele a achara mais ausente. Bem que ele achara! Ai: se a sua Deusa afinal também fosse Diabo!...

2: Filipe e Nuno sempre haviam sido dois companheiros inseparáveis desde que se descobriram duas crianças demasiado idênticas em gostos e modos de ser para continuarem cada um por si, com a sua vida, mundo fora. Filipe sentia que encontrara em Nuno tudo o que completava as suas brincadeiras: toda a sua equipa de futebol, todo o seu exército de guerra, todos os seus colegas de aventura na selva. Na adolescência, entretinham-se a seduzir raparigas: não em tempo real, mas em competições dialogadas entre os dois para ver qual teria mais hipóteses, consoante os seus truques e trunfos, de ficar com as alvejadas moças. O tempo foi passando e ambos foram continuando a testemunhar os seus corpos e almas a crescer, juntos - e a cumplicidade com eles. Encaixavam, uma atrás doutra, as piadas de um nas do outro; os brindes feitos entre os dois (já podres de alegres), no bar da esquina, soavam-lhes como que a multidões a festejar numa autêntica folia. Partilhavam objetivos profissionais e pessoais com um sorriso aberto e uma determinação efervescente nos olhos, e já havia, inclusive, rascunhos mentais para se fazerem sócios e montarem uma companhia.
Um dia, Nuno foi-se abaixo - realmente abaixo. Acabara de perder a mãe e fechara-se num silêncio inconsolável que Filipe não arranjava maneira de contornar. Andava preocupado com o amigo, embora compreendesse o seu isolamento: ele próprio sempre fora muito reservado no que respeita a sentimentos e não gostava de lhes tocar mais do que o necessário. Mas não: Nuno, simplesmente, deixara de lhe falar. Começara por lhe abrir a porta de casa com uma cara carrancuda e, às tantas, já nem a porta lhe abria. Quanto aos telefonemas: todos ignorados ou explicitamente desligados.
Nuno regressara ao ativo passado um tempo, produto de uma retoma da rotina pouco a pouco. Mas tornara-se uma pessoa amarga - no entanto, e aparentemente, apenas para Filipe. Gabriela, mulher de Filipe e também amiga de longa data de Nuno, continuava a ser interpelada normalmente por ele: com um sorriso aberto. Filipe já discutira com Gabriela o assunto várias vezes e nenhum dos dois arranjava explicação para aquele comportamento de Nuno. Gabriela já fizera frente a Nuno e tudo e este respondera-lhe como se entre ele e Filipe estivesse tudo bem e como se continuassem a ser os melhores amigos de sempre, inseparáveis que só eles: até perguntava pela ascensão dos projetos de Nuno na empresa e dizia que tinham de agendar aí uma churrascada num fim-de-semana.
Eis, pois, que o imprevisível dos imprevisíveis acontece: numa tarde em que passeava o cão, Filipe cruza-se com Nuno... que se lança para a boca de Gabriela - a sua Gabriela!!! A sua Garbiela que regressava, tranquilamente, passeio fora, das compras. Nuno: o bandido, o irmão traidor, o danado do Diabo - Diabo na Terra! Como fora ele capaz?! Como?!?! Mas afinal o que é que lhe dera na cabeça, que agora ninguém lhe achava coerência nos passos?! Que passos absurdos!!! Mas o que vinha a ser isto?! E é ver Filipe em estado de choque, sem saber se bater em Nuno e gritar-lhe um bom par de verdades, se permanecer ali, boquiaberto, estanque que nem uma menina inocente sem forças para continuar, sem forças para mais lutar: sem forças nenhumas e com vontade de se largar num pranto.

3: Filipe e Nuno sempre haviam sido dois companheiros inseparáveis desde que se descobriram duas crianças demasiado idênticas em gostos e modos de ser para continuarem cada um por si, com a sua vida, mundo fora. Filipe sentia que encontrara em Nuno tudo o que completava as suas brincadeiras: toda a sua equipa de futebol, todo o seu exército de guerra, todos os seus colegas de aventura na selva. Na adolescência, entretinham-se a seduzir raparigas: não em tempo real, mas em competições dialogadas entre os dois para ver qual teria mais hipóteses, consoante os seus truques e trunfos, de ficar com as alvejadas moças. O tempo foi passando e ambos foram continuando a testemunhar os seus corpos e almas a crescer, juntos - e a cumplicidade com eles. Encaixavam, uma atrás doutra, as piadas de um nas do outro; os brindes feitos entre os dois (já podres de alegres), no bar da esquina, soavam-lhes como que a multidões a festejar numa autêntica folia. Partilhavam objetivos profissionais e pessoais com um sorriso aberto e uma determinação efervescente nos olhos, e já havia, inclusive, rascunhos mentais para se fazerem sócios e montarem uma companhia.
Tudo corria bem quando estavam bem: o pior foi quando um deles, pela primeira vez, se foi abaixo - realmente abaixo. Nuno acabara de perder a mãe e fechara-se num silêncio inconsolável que Filipe não arranjava maneira de contornar. Andava preocupado com o amigo, embora compreendesse o seu isolamento: ele próprio sempre fora muito reservado no que respeita a sentimentos e não gostava de lhes tocar mais do que o necessário. 
Um dia não aguentou mais: já tinha tentado de tudo e Nuno selado que nem um cofre, mudo que nem uma porta, desgostoso que nem uma fonte. Suplicou ajuda a Gabriela, sua mulher e também melhor amiga de Nuno. Gabriela conhecia Nuno desde infância, ainda antes de Filipe, sequer, ter aparecido pela primeira vez. Não fora rara a vez em que brincaram os três em pequenos e fora assim que começaram a nascer os laços que hoje os uniam. Talvez, por isso, ela fosse a sua única hipótese; talvez ela o conseguisse ajudar; talvez fosse ela a trazer o seu amigo de volta, como certamente o saberia fazer. Gabriela era, aliás, a única pessoa no mundo que conseguia fazer com que Filipe falasse do que o atormentava sem que este sentisse que o mundo ia desabar: afinal de contas, ela estaria lá para o segurar; bem dizendo, Gabriela era o seu mundo. E, por isso, Filipe julgava-a a mulher mais capaz de todas - Deus na Terra. Gabriela era-lhe Deus na Terra. Não havia o que fizesse que não fosse com bondade ou que não fosse a própria bondade. Sim: ela conseguiria, de certezinha, trazer algo de bom, de novo, a Nuno - um pouco de esperança que fosse. Quantas vezes Filipe já a vira a consegui-lo consigo mesmo? Quantas vezes um ou dois pares de palavras dela lhe bastara para subir a moral? Gabriela era a mulher mais capaz de todas, sabia-o bem - Deus na Terra. Ela iria conseguir.
E conseguiu. Efetivamente Gabriela conseguiu trazer algo de bom a Nuno, conseguiu subir-lhe a moral - baseado naquilo que Filipe viu acontecer naquele momento, Gabriela só o podia ter conseguido! E até pôs o amigo a falar, aquele anjo: a soltar um par de desculpas, o safado!... Filipe entrou na sala de estar do amigo e lá estava o danado a lançar-se para a boca de Gabriela: a sua Gabriela, a sua mulher - a sua Deusa!!! Nuno: o bandido, o irmão traidor, o danado do Diabo - Diabo na Terra! Como fora ele capaz?! Como?!?! Diz que aquele silêncio não se devera só à morte da mãe; não: diz que aquela incapacidade de partilhar fosse o que fosse com o seu melhor amigo naquele período de dor também se devia a uma dor tão grande quanto a perda que sofrera; diz que sempre amara Gabriela e que não conseguira travar o crescimento daquele amor; que mal Filipe começara a falar dela nos primeiros nuances de paixão que ele próprio também se apercebera de que estava apaixonado por ela; que era um amor que, de dia para dia, atingia tamanhos cada vez mais desproporcionais. Diz Nuno que não tinha como encará-lo a ele, Filipe, e agir como sempre agira: a sorrir, a gargalhar, a olhar o futuro com uma efervescência determinada no olhar. Diz Nuno que ele e Filipe sempre foram demasiado iguais para ele alguma vez achar que tinha mais direito ao amor de Gabriela do que Filipe tinha e que, por isso, optara por nunca fazer nada - mas que não aguentava mais; mas que não tinha aguentado mais perante tamanha mulher. Eis, pois, Filipe - também ele - a deixar a sua dor matar-lhe a voz. Eis, pois, os três, a deixarem tudo aquilo desfazer-lhes a voz em fanicos. Eis eles a morrerem em profundo silêncio: os três companheiros mortos pela calada naquela sala.

Psicologia vs. Tensão - Exercício do Workshop de Escrita Criativa IV (Aula XVIII)

Tarefa: "Carlos toma o pequeno-almoço sozinho junto ao mar." Vamos contá-lo agora mesmo em três versões (cada uma delas com não menos de 50 palavras e não mais de 80 palavras):

1. 90% de psicologia vs 10% de tensão;
2. 90% de tensão vs 10% de psicologia;
3. 50% de tensão vs 50% de psicologia.

1: Entre embates de maré contra as rochas, Carlos vai alternando goles no chá gelado com dentadas na sandes que trouxe consigo para junto da costa. Consegue sentir-se em perfeita harmonia na falésia, envolvendo o mar no olhar e deixando-se envolver com ele. Toma o pequeno-almoço e sente, simultaneamente, que se vai alimentando da natureza - sobretudo a de si próprio; são séries de imagens que lhe percorrem a cabeça: vão e vêm como ondas do mar nas quais mergulha constantemente.

2: Um embate de ondas contra as rochas, um gole no chá gelado; outro embate de ondas e eis os dentes de Carlos a rasgar com vigor miolo e côdea. Um homem abancado numa toalha de piquenique velha numa falésia junto à costa: é esta a imagem com que um forasteiro se depararia. Já Carlos tem mil e uma imagens a percorre-lhe a cabeça naquela manhã de domingo: vão e vêm como ondas do mar enquanto olha o horizonte.

3: Embate de maré contra as rochas, gole no chá gelado; embate de maré contra as rochas, dentes de Carlos a rasgar com vigor miolo e côdea. Um homem que ali, abancado numa falésia, se sente em harmonia - sintonizado; toma o pequeno-almoço e sente que se vai alimentando da natureza - sobretudo a de si próprio. Como tal, por vezes, dá-se ao regozijo de pausar a refeição para observar o horizonte e vê, finalmente, por um bocadinho, como o mundo é belo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

T.E.S. XVII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: "Uma mulher beija um homem." Vamos contá-lo em três versões (em não menos de 80 palavras e não mais de 120 palavras):

1. 90% de comum vs 10% de único;
2. 90% de único vs 10% de comum;
3. 50% de comum vs 50% de único.

1: Um dia chuvoso e um pensamento triste: quantas vezes estes dois não faziam par? Mas tinha de sair à rua: ir trabalhar e contrariar a sua indisposição.
Ao caminhar no passeio, questionava-se sobre o que é que poderia fazer para realizar os meus sonhos, sempre adiados: seja por compromissos no emprego, seja por outros fenómenos da vida.
Não sabia o que fazer. Se calhar tinha de se forçar a fazer qualquer coisa. Talvez conseguisse alguma coisa do mundo se se (es)forçasse de alguma forma.
Ao primeiro homem sozinho e distraído que viu, surpreendeu-o com um beijo no rosto. 
Desejava dar amor a alguém, fosse como fosse.
E disse, para si mesma, que beijar um desconhecido, beijá-lo no rosto, também era forma válida de amar e acarinhar.

2: Um dia chuvoso e um pensamento triste: quantas vezes estes dois não faziam par? Mas tinha de sair à rua: ir trabalhar e contrariar a sua indisposição.
Ao caminhar no passeio, começou logo a executar mentalmente as suas funções: não as do emprego que lhe dava de comer, mas as do que a mantia realmente viva: que cada gota de chuva seja um conta-gotas quanto ao momento em que realizarei pelo menos um desejo meu. - Pensava. - Pelo menos um.
De repente: uma ideia genial: uma promessa de sucesso.
Ao primeiro homem sozinho e distraído que viu, surpreendeu-o com um beijo. Não nos lábios: no rosto. Interessava-lhe dar amor a alguém, fosse como fosse.
Desejo de amar alguém: concretizado.

3: Um dia chuvoso e um pensamento triste: quantas vezes estes dois não faziam par? Mas tinha de sair à rua: ir trabalhar e contrariar a sua indisposição.
Ao caminhar no passeio, começou logo a executar mentalmente as suas funções: não as do emprego que a alimentava, mas as do que a mantia realmente viva: o que posso eu fazer para realizar os meus sonhos, sempre adiados?
Enquanto pensava: uma ideia: podia não ser o que imaginara, mas sabia que às vezes tinha de contornar os seus ideais para ser bem sucedida no mundo.
Ao primeiro homem sozinho e distraído que viu, surpreendeu-o com um beijo no rosto. 
Desejava dar amor a alguém, fosse como fosse; e, de alguma forma: consegui-o.

Profundidade vs. Economia Narrativa - Exercício do Workshop de Escrita Criativa III (Aula XVII)

Tarefa: "João roubou a carteira da mãe e fugiu de casa." Vamos contá-lo agora mesmo em três versões (com no mínimo 60 palavras e no máximo 80 palavras):

1. 90% de profundidade vs 10% de economia;
2. 90% de economia vs 10% de profundidade; 
3. 50% de profundidade vs 50% de economia.

1: Tinha a certeza que a mãe nem ia dar pela sua falta. A tristeza por saber que ela apenas choraria a sua carteira roubada enublava-lhe o pensamento. Sentia-se mergulhado num passado e num futuro cinzentos.
Queria sobreviver, viver feliz. Como cuidar de si? A mãe nunca lho ensinara. Ela própria não sabia fazê-lo.
Tinha de começar por algum lado. Por onde? Entrou numa loja.
- Vai fugir?
Empregada de balcão assertiva. Não sabia era se fugia da solidão ou para ela.

2: Certificou-se de que a mãe já estava a dormir e roubou-lhe a carteira. Munido, esgueirou-se até à loja da bomba de gasolina mais próxima e fez o seu pedido.
- Vai fugir?
- Não querendo ser indelicado, não lhe diz respeito.
Pegou nas coisas compradas e fez-se à estrada.

3: "Onde está a minha carteira" era tudo o que a sua mãe iria perguntar. "Onde está o João": isso nunca - como nunca perguntou.
- Eram três latas de salsichas e um saco de pão. E aqueles pacotes de sumo.
Viu o rosto da empregada da loja a contorcer-se de desconfiança. Desconfiado estava ele de que aquela era a sua única hipótese.
- Vai fugir?
Sim. Não sabia era se da solidão ou para ela.
Pegou nas coisas compradas e fez-se à estrada.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Só para saberem

Somos trinta e sete sobreviventes na reta final do Workshop de Escrita Criativa. Quando começámos, há cinco meses, éramos setenta e oito pessoas (à progressiva dizimação de pessoal, acustomei-me a atribuir culpas a vários fatores: falta de tempo, dinheiro e disposição para prosseguir caminho). Atente-se, porém, que somos só uns vinte e poucos que continuam a pôr-se a par das aulas. E eu pergunto: qué dos outros dez que lá estão... mas não estão?

T.E.S. XVI - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: "João é ganancioso." Toca a mostrar, no nosso TES, e não gastando mais de 200 palavras, isso mesmo - sem nunca o dizermos.

- Durante anos, João, anos! Pensei que o pai me desvalorizava por admitir ser gay. Estás a ver estas marcas? As putas destas cicatrizes? Soubesses tu as vezes que ias ficando sem irmão. Cabrão, que para além dos sentimentos, tenho os pulsos todos deformados. Há anos que dava comigo a receber menos mesada do que tu. E agora apanho-te a moveres dinheiro do meu envelope para o teu?!
O pai de João e Miguel quase nunca parava em casa: trabalhava horas e - às vezes - dias a fio. Como tal, deixava-lhes cartas na mesa do hall de entrada.
- Entrámos para a faculdade e foste o único que vi receber um cartão de felicitações e dinheiro para pagar os estudos. Eu fui para medicina, João, como o pai sempre quis. Tive de trabalhar para o pagar, tive zero de apoio monetário. Fiz de mim gato e sapato... Por tua culpa! Tu, que ainda por cima seguiste os teus sonhos. Eu abdiquei dos meus para poder ser um bocadinho, nem que num aspeto, um sonho de filho para o pai. Insolente. Não fizeste isto por eu ser gay, de certeza. Também és! Só que eu tive tomates para contar ao pai.

(Voilá: centro e noventa e nove palavras).

A Trave-Mestra - Exercício do Workshop de Escrita Criativa II (Aula XVI)

Tarefa: construir uma micro narrativa, com no mínimo 60 palavras e no máximo 100 palavras, que mostre que a Joana é uma pessoa muito sensível – sem dizer que ela o é.

- Oh António, que bonito que tu estás. Dá cá dois beijos. Esse casaco!... Assenta-te tão bem! Pareces um senhor. Abraça-me, que tenho tantas saudades tuas.
Tinha estado com a avó Joana ainda ontem.
- A avó também está muito bonita. Com essa alegria toda parece mais nova. Como está?
- Agora bem. Que atencioso, trazeres o casaco do teu avô vestido hoje... Por minha causa! Continuas a pôr-me alegre com pequenos gestos. Sabes quanto sinto a falta do meu homem.
Aqueles olhos lacrimosos e brilhantes sorriram-lhe. Como era hábito, não tinha planeado nada. A avó ficara emocionada sem querer, uma vez mais.

(Cem palavras: certinhas).

domingo, 27 de julho de 2014

T.E.S. XV - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: misturar os nomes com os adjetivos de outros campos lexicais. Criar um texto com oito frases em que usemos pelo menos quatro desses pares.
  • Dois nomes comuns relacionados com gastronomia: comida, garfo
  • Dois nomes comuns relacionados com amor: vontade, indiferença
  • Dois nomes comuns relacionados com geografia: carta, território
  • Dois adjetivos relacionados com astronomia: cadente, brilhante
  • Dois adjetivos relacionados com automóveis: veloz, magnífico
  • Dois adjetivos relacionados com moda: magra, curta

Os quatro pares criados e usados: território veloz, indiferença magra, carta cadente, comida curta.

Para objetivos tão grandes quanto os seus o amor era comida curta. Não tinha tempo para isso, dizia. Era um rotineiro de passos rápidos, declarava não se poder dar a coisas que saltassem da agenda e o obrigassem a estar com gestos cuidados. Soubesse ele que o facto de ser humano também faz com que tenha uma indiferença magra, que de um momento para o outro fica cadavérica e perece a seus pés (pois a seus pés cai o coração). Oh, meu homem: na verdade o amor é um território veloz e que nos envolve sem mais nem menos - damos um passo e já lá entrámos; não há tempo, pois não - mas é para nos darmos conta. Deixe-se de cálculos matemáticos para prever os resultados dos seus dias. Escreva antes uma carta cadente: ponha a descoberto os seus picos de força e de fraqueza numa mesma folha. Descubra-se e ame; ame-se a si e ao que lhe surgir.

T.E.S. XIV - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: construir um texto, com trezentas palavras no máximo, em que criem e usem três pares únicos.

Os três pares únicos criados e usados: penas esmifradas, caminho tigrado, refeição rasteada.

Andas tão feroz - de tal maneira que, quando corres, parece que o tens de fazer lentamente, não te tivesses feito mestre imponderado dos teus passos. Contigo anda a morrer tudo o que precisaria de plano prévio, o que tem de ser feito de repente, e apressas-te a tornares-te homicida sem arquiteturas. Das asas que tinhas já só restam penas esmifradas e pergunto-me constantemente se o que deixaste para trás é o rasto dos teus sonhos. Parece-me que te meteste por um caminho tigrado: ora te safas, ora te lixas. Vais de encontro ao teu próprio perigo e depois, se necessário, acomodas-o na pele; isso vê-se à distância, de tão riscada que ela está com as feridas que ganhaste e que acabaram por desenhar um padrão bem demarcado no teu ser. Chegas ao pé de mim e deparo-me logo com a tua refeição rasteada: estiveste a rasgar com os dentes o que te seria saudável de digerir. Não engoliste nenhuma palavra doce que te dirigiram. Deixaste-te, mais uma vez, consumir pela raiva - pela tua zanga insaciável com a vida.

(Cento e oitenta palavras, olé).

sexta-feira, 25 de julho de 2014

T.E.S. XIII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: Esta semana vamos usar uma palavra nova em cada dia. Todos os dias: escrever um texto, de não menos de quatro ou cinco linhas, em que usemos uma palavra que não conhecíamos antes. Palavras que não conheçamos de todo. Podemos ir ao dicionário e tirar à sorte. Depois usamo-las num texto - pelo menos um por dia.


Dia 1, cubicar: medir o volume de um sólido ou a capacidade de um espaço; medir em unidades cúbicas = cubar

Neurónios à obra: está na hora de cubicar a mente. Mas advirto-o já: não julgue, ao se cruzar comigo no caminho e ao dar com o alerta amarelo das obras colocado no canto do passeio, que ando a martelar em ideias fixas, seguido de um limar de arestas para que estas ganhem uma forma mais consistente. Não, senhor; nem pensar! Eu cá não quero sujar mãos - nem nada - nessas coisas. Sou uma exploradora, sabe? E caso também fosse um saberia, pois - se explorasse algumas páginas do dicionário - que cubicar significa medir uma coisa qualquer em centímetros cúbicos (e digo centímetros a título de exemplo, que também me podia ocupar de procurar os milímetros ou até mesmo os metros e quilómetros). Olhe, senhor: tudo o que eu quero saber é quantos molhos de ideias diferentes cabem na minha cabeça. Por isso é que estou para aqui armada em arquitecta. Agora que já andei para aí com régua e esquadro - e descobri que não há régua nem esquadro que chegue para achar a capacidade da massa cinzenta - veja lá o que acha da primeira ideia que tive de um conjunto infinito delas que ainda terei. Estava para aqui a imaginar: até seria engraçado que alguém, ao ver-me nestes propósitos e a ouvir-me dizer que está na hora cubicar, pensasse que o que eu quero é construir um prédio de cubos, não seria?

Dia 2, franchinote: rapaz pretensioso e atrevido; janota presumido.

Tira uma pessoa férias do que é sufocante no dia-a-dia, mete-se a todo o vapor (do que lhe sobrou do ano que passou) a caminho da praia para limpar, com o mar, os olhares de um mundo - por vezes demasiadamente convencido de que é janota - e, de tão contaminada que está, julga que tem o azar de o acaso estar a favor desse "por vezes" - uma vez mais. Até na praia! - pensaria uma qualquer mulher desesperada, ao dar de caras com o homem musculado em calções de banho. Que franchinote, para se estar a exibir assim, comentaria ela, de si para si. Bom seria ser a consciência dessa mulher, nem que por uma vez, para lhe dizer algo como: ó minha senhora, tenha calma. O senhor não é presunçoso nenhum. Está na praia. Lembre-se de avaliar as situações de acordo com os seus contextos.

Dia 3, cavouqueiro: o mesmo que cabouqueiro: aquele que faz caboucos; aquele que escava; cavador; aquele que trabalha em minas.

Caro sentimento mau, quero informá-lo que só me é caro por fazer a minha alma pagar caro por se vender a si. É que não há nada que lucre consigo: vendo-me a si e ainda pago por isso. Assim deixa-me enterrada. Com os dois pés na cova. Quando trocamos de papéis, meu caro? Já está na sua hora. Eu faço de cavouqueiro desta vez, mas com a diferença de que lhe torno a terra cheia de destroços um lugar confortável para poisar. Talvez veja no mundo subterrâneo uma casa ideal para morar, em que se encaixe, e desabite o meu coração, demasiado apertado para guardar restos de tudo e de mais alguma coisa.

Dia 4, vetustez: qualidade do que é vetusto (muito velho, antigo, deteriorado pelo tempo, respeitável pela sua ancianidade) = vetustade

Não aprendeu a vestir-se bem nem a ter os cabelos alinhados. O dinheiro não chegava para pagar extravagâncias. Aprendera a ver a humanidade a nu e a embelezar o que é desarrumado. Podia ser que fosse melhor assim: acabar uma velha sábia e nunca chegar a ser princesa. Ao menos podia ter quase cem por centro de certezas de que quem a admirava o fazia pelo que ela tinha dentro. Um dia, em conversa com o seu marido - o seu aldeão encantado (como lhe chamava em segredo) -, ouviu-o surpreendê-la nestas palavras: "antes fazer vénias a vossa vetustez do que a vossa majestade".

Dia 5, jusante: refluxo da maré = baixa-mar, vazante; lado para onde desce a água da maré vazante, ou para onde se dirige a água corrente de um curso de água, em oposição a montante; local situado depois de um determinado facto ou situação (ex.: queremos prever problemas a jusante)

Maré jusante não significa que esta esteja a vazar, ao contrário do que se pensa. A maré está lá toda, tão cheia quanto antes; apenas há momentos em que tem de dar um ou outro passo atrás para, depois, com todo o balanço, irromper para a frente. Nunca o sentiram na pele? Somos como a maré. Quando recuamos é para que sejamos capazes de dar o salto mais tarde... ou não é? E recolhermo-nos em nós não significa que algo nos ameace de que iremos ficar vazios. Recolhemo-nos cheios e, depois, brotamos de repente: ainda (ou mais) cheios.

Dia 6, remir: adquirir de novo = conseguir, resgatar; conseguir a libertação de outrem ou de si = libertar, livrar; tirar ou sair do perigo ou da condenação = salvar; ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a = expiar; oferecer ou receber compensação = compensar, ressarcir; sentir arrependimento = arrepender-se; sinónimo geral = redimir

Esgueirou-se para o quarto a seguir a jantar o mais rápido que pôde. Com a comida já há muito preparada e, por fim, totalmente ingerida, mais um segundo na cozinha e não teria como se escapulir das palavras e dos olhares inquiridores dos restantes; seria inútil culpar cebolas acabadas de cortar pelas suas lágrimas. Chegada ao quarto, atira-se para a cama e aí se deixa ficar. Permite o choro molhar todo e cada remir que aprisionava dentro há tanto tempo e que vê finalmente em liberdade. Acaba por adormecer, consolada - há muito tempo que se queria livrar daquelas grades e correntes em torno dos seus arrependimentos e que lhe limitavam o espaço de manobra ainda mais do que as próprias culpas.
Que chovesse à vontade, desde que ela pudesse sentir essa chuva. Antes livre e à chuva do que presa com o sol a brilhar.

Dia 7, flostria: folgança, fanfarronada, brincadeira.

Nunca duvido de nada - sou uma corajosa. Noutro dia (tinha eu catorze anos - agora tenho vinte) uma amiga minha resolveu preparar-me uma bela surpresa. Com um sorriso em tudo radiante - e que, aparentemente, eu vi a metades (não dei conta de uma matreirice ali escondida no canto da boca) - dirigiu-se a mim com uma caixa de sapatos forrada com folhas de papel. "É para ti, tem desenhos lá dentro", disse-me, esticando o presente homemade até às minhas mãos. Eu, na minha inocência aventureira, acreditei sem olhar a quem, e removi empolgada a tampa de cartão. Até dei um salto e um grito - de susto, que dali de dentro saiu de imediato uma abelha hiperativa a voar; cá para mim aquela hiperatividade toda ainda era, mas é, stress pós-traumático - tanto da própria abelha como meu, que me descaí num valente susto. Já a minha amiga descaiu-se em gargalhadas imensas, tal fora a facilidade da flostria.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

T.E.S. XII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: escrever um texto absolutamente LIVRE com não mais de 150 palavras.

“Dá asas à imaginação” disseram eles. Eu pensava que a imaginação já tinha asas – que já era como um pássaro por si só, embora possivelmente preso numa gaiola e à espera de uma corrente de sorte que obrigasse a abertura da portinhola; de uma corrente de ar (entenda-se). Tudo muito bem que, tenha o pássaro as asas que tiver, se estiver preso é como se não as tivesse… Mas tem: deixem-se de metáforas; as asas estão lá – não servem é para nada. Em vez de pássaro, a imaginação até podia ser dragão; contudo, se após cuspir fogo contra o metal da jaula para o derreter continuar presa, serve de quê ter a capacidade de voar milhares de quilómetros, planar mundo fora? Há que reformular: a resolução do problema não está em oferecer asas mas em combater a prisão da imaginação – libertá-la, deixá-la ir. Deveriam dizer, antes, “dá liberdade à imaginação”.

TAC Estrutural & Teste de QI Linguístico - Exercício do Workshop de Escrita Criativa

Sobre a Tarefa: TAC porque este é o exercício em que, com toda a transparência, todos os possíveis problemas virão ao de cima. E Teste de QI Linguístico porque esta é, sem dúvida, uma bela forma de percebermos qual é a nossa capacidade ao nível da produção escrita. Aqui vai:

4 - 3 - 5; 1,4,3: 5. 1,3,1,5 - 2 - 1.
(parágrafo)
3: 4! 4, 2, 5; 5 - 3 - 3; 3, 2?
(parágrafo)
2 (3), 4 – 3...
(parágrafo)
1,2, 4. 3: 5, 3, 3; 1, 4, 6 - 4 -, 5, 3, 2: 4, 2. 
(parágrafo)
3.

Esse é o molde para o exercício.

Em que consiste: escrever um texto que encaixe no molde. Tal como nos exercícios anteriores deste género: os números presentes correspondem ao número de palavras. Por exemplo:

4 - 3 - 5; 1,4,3: 5.
Naquele dia de sol - um grande dia - resolvi ir à praia sozinho; feliz, mas mesmo muito feliz, dei um mergulho: o mortal mágico do costume.



4 - 3 - 5; 1,4,3: 5. 1,3,1,5 - 2 - 1.
Um dia vou vencer - na maior descontração - o campeonato contra mim mesma; e, sem mais ilusão alguma, entender a verdade: este fora em meu favor. Eu, então absolutamente encantada, sorrirei, sorrirei imenso e em gargalhadas - como nunca - estrondosas.

3: 4! 4, 2, 5; 5 - 3 - 3; 3, 2?
Sempre dei gargalhadas: mas nunca nessa forma! Numa forma de excitação, absolutamente pura, por nunca ter havido problemas; problemas verdadeiramente alarmantes e descabidos - fora do normal - face à coerência; coerência da vida, faço-me entender?

2 (3), 4 – 3...
Por enquanto (não sei quanto), ainda não consegui vencer - os obstáculos desafiam-me...

1,2, 4. 3: 5, 3, 3; 1, 4, 6 - 4 -, 5, 3, 2: 4, 2.
Contudo, se atenta, compreendê-los-ei como meros desafios. Obstáculos são desafios: não há qualquer anormalidade neles, nem lados lunares, nem fados mortais; sei, apesar de ser contra-indutivo, que não há quaisquer artimanhas obscuras - revoltas mundanas contra mim -, pois por muito que sofra, que doa intensamente, faz parte: lutar contra mim fere, é natural.

3.
Mas vencerei naturalmente.

domingo, 13 de julho de 2014

"Caixa das Palavras" de Julho

"Marimbei-me" - e aparenta ter sido assim: à grande - para a caixa das palavras do mês anterior, dados os já referidos exames da faculdade. Como já fazem, também, alguns dias do mês de julho (e visto que agora quero é organizar a minha vida e esticar dedos, mãos, pernas - tudo e mais alguma coisa), tive uma ideia brilhante - e que, por vezes (nas palavras que o justificarem), até poderá ter algumas parecenças com os exercícios de escrita criativa que foram propostos no workshop que ando a fazer (e que em breve publicarei aqui pelo blog).

Em agosto, a partir de dia 1, vou tentar criar um texto com a palavra do dia, não só do mês em questão, como de julho e junho. Isso mesmo: no dia 1 de agosto, vou escrever um texto com a palavra de dia 1 de agosto, 1 de julho e 1 de junho - assim por diante, até ao fim do mês.

Para já, aqui fica a lista de palavras de julho, para depois ser mais fácil fazer a misturada.

[ dia 1 ] - viajar
[ dia 2 ] - cheirar
[ dia 3 ] - yoga
[ dia 4 ] - retribuir
[ dia 5 ] - afocinhar
[ dia 6 ] - solidificar
[ dia 7 ] - safadez
[ dia 8 ] - sensatez
[ dia 9] - elástico
[ dia 10 ] - roda
[ dia 11 ] - recortar
[ dia 12 ] - transmitir
[ dia 13 ] - retocar
[ dia 14 ] - admoestar
[ dia 15 ] - transparecer
[ dia 16 ] - trabalho
[ dia 17 ] - mentira
[ dia 18 ] - revolto
[ dia 19 ] - galhofar
[ dia 20 ] - voar
[ dia 21 ] - soneto
[ dia 22 ] - adiantar
[ dia 23 ] - ponto
[ dia 24 ] - ziguezague
[ dia 25 ] - ubiquidade
[ dia 26 ] - batalhar
[ dia 27 ] - saborear
[ dia 28 ] - treze
[ dia 29 ] - solidariedade
[ dia 30 ] - senão
[ dia 31 ] - repousar

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Folha de linhas. Linhas de um Caminho de Ferro. De um Caminho Ferranho. A seguir.

Aquele momento em que estás a pôr em dia a leitura de todas as sessões do workshop de escrita criativa em atraso (estive com exames da faculdade, daí a ter negligenciado o tempo para tudo e mais alguma coisa exterior à vida académica, inclusive todos os escritos aqui do blog) e lês O comentário. Aquele que te obriga a parar porque algo dentro do peito saltou, estremeceu - não sei bem.


Não quisesse eu ser escritora e esse ser um dos meus sonhos mais upa-upa, não estava estarrecida e enternecida (sim, sim - exatamente assim: tudo ao mesmo tempo e à molhada) a olhar para o ecrã. Sem, ainda, conseguir continuar a ler as sessões.

Sim, Maria: estás a lutar por um sonho. Já reparaste? Já paraste mesmo para pensar nisso? Para o consciencializar?
Estás a ir a passos de bebé  - mas a caminhar. Quão poderoso soa isto? Quão audível é o som dos teus pés a tocar o chão? Ainda que devagarinho, devagarinho.

Devagarinho, devagarinho... vamos ver onde é que vamos dar.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

T.E.S. XI - Trabalho Entre Sessões

(Nota: o T.E.S. IX e X não foram muito relevantes para publicar aqui no blog, por isso saltemos para o XI)

Tarefa: colocar, em cada frase (acrescentando palavras, se necessário): pelo menos duas vírgulas; pelo menos um travessão e/ou dois pontos e/ou par de parêntesis.

"Parecia completamente surreal toda aquela situação. Era de facto estranho. A incerteza de ela estar na sua frente fazia-o esquecer-se da razão. Não havia distinção alguma do que era real e do que não era. Os sonhos e a realidade fundiam-se naquele instante. Não dá para acreditar a que ponto tudo isto chegou. Tudo parecia difuso e enublado."

Parecia (completamente) surreal que toda aquela situação estivesse, contra todas as suas expectativas, a acontecer. Era, de facto, estranho - muito estranho. Não o podia negar: tinha a incerteza de ela estar mesmo, ali, na sua frente - e isso fazia-o esquecer-se da razão. Não havia distinção alguma, que pudesse fazer, do que era real e do que não era - não se julgava capaz disso naquele momento. Os sonhos e a realidade fundiam-se, naquele instante, como se os milagres fossem possíveis: sempre havia julgado que não eram. Não dá para acreditar a que ponto tudo isto chegou: o seu mundo tinha, como acontecia a tantos outros (e tantas outras vezes), rodado a trezentos e sessenta graus. Tudo parecia difuso e enublado - mas o coração, esse, era claro: não aguentava nem mais um minuto longe dela.

domingo, 11 de maio de 2014

T.E.S. VIII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: criar um texto - com princípio, meio e fim - com seis frases e em que haja quatro dois pontos.

Deitou-se ao fim de mais um dia, questionando-se o que é que tinha feito de errado: nada; não encontrava nada - nenhum momento em que não tivesse dado o máximo (o melhor possível) de si. Aparentemente, não tinha sido o que suficiente - ela: não tinha sido o suficiente. Apesar de toda a sua entrega, dedicação, compreensão - apesar da pessoa maravilhosa que era a toda a hora -, o seu amor deixou-a no último minuto. Largou-se a chorar noite dentro, só pensando no quão imensa era a sua falta de coragem para enfrentar o futuro: no quão desejava estar morta - tudo o que fizera, tudo o que era, tinha sido em vão. 
Acabou por adormecer (quiçá, achado que para sempre); contudo, acordou na manhã seguinte, lavou-se, vestiu-se, foi trabalhar - recebeu imensas chamadas do mundo. Uma delas foi da mãe: queria relembrá-la de como a avó sorria com tanta vitalidade sempre que a via e que, com certeza, nunca quisera deixá-la - que se havia lição a retirar dos tempos difíceis que se haviam passado (e que ainda iriam ocorrer no futuro) era a de que a força conseguia lá estar apesar da doença.

T.E.S. VII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: Criar três exemplos de uso do travessão seguido de vírgula e três usos de travessão isolado - se possível num texto só (com, no máximo, oito frases).

Não era uma criança dada a desportos de velocidade - se era para fazer algo por desporto que fosse outra coisa. Não gostava de ocupar o seu tempo a correr de um lado para o outro no parque; dava-lhe a sensação que o tempo urgia - coisa que queria evitar que acontecesse a todo o custo e pela qual, portanto, não pretendia ser apanhada. Era uma criança que preferia - por exemplo - trabalhar em torno da sua resistência às brincadeiras. Preferia passar horas e horas a fio trancada num ginásio mental de diálogos entre os seus brinquedos e ver até quando os conseguia continuar a desenvolver. No entanto, chegando um ponto em que não os conseguia estender mais, eram os exercícios de flexibilidade os que acabavam escolhidos pois - já se sabe - ela não gostava de momentos encolhidos. Era pequena e gostava de tudo quanto pudesse puxar por si - não desejasse ela crescer a todos os níveis -, desde que fosse devagarinho - para não se ver logo acabada.