Tarefa: "Filipe encontra o seu melhor amigo a forçar um beijo com a sua mulher." Vamos contá-lo em três versões – agora temos de nos esticar mais um pouco (não menos de 150 palavras para cada um - para conseguirmos fazê-lo como deve ser):
1. 90% de coerência vs 10% de transformação;
2. 90% de transformação vs 10% de coerência;
3. 50% de transformação vs 50% de coerência.
1: Filipe e Nuno sempre haviam sido dois companheiros inseparáveis desde que se descobriram duas crianças demasiado idênticas em gostos e modos de ser para continuarem cada um por si, com a sua vida, mundo fora. Filipe sentia que encontrara em Nuno tudo o que completava as suas brincadeiras: toda a sua equipa de futebol, todo o seu exército de guerra, todos os seus colegas de aventura na selva. Na adolescência, entretinham-se a seduzir raparigas: não em tempo real, mas em competições dialogadas entre os dois para ver qual teria mais hipóteses, consoante os seus truques e trunfos, de ficar com as alvejadas moças. O tempo foi passando e ambos foram continuando a testemunhar os seus corpos e almas a crescer, juntos - e a cumplicidade com eles. Encaixavam, uma atrás doutra, as piadas de um nas do outro; os brindes feitos entre os dois (já podres de alegres), no bar da esquina, soavam-lhes como que a multidões a festejar numa autêntica folia. Partilhavam objetivos profissionais e pessoais com um sorriso aberto e uma determinação efervescente nos olhos, e já havia, inclusive, rascunhos mentais para se fazerem sócios e montarem uma companhia.
Tudo corria bem quando estavam bem: o pior foi quando um deles, pela primeira vez, se foi abaixo - realmente abaixo. Nuno acabara de perder a mãe e fechara-se num silêncio inconsolável que Filipe não arranjava maneira de contornar. Andava preocupado com o amigo, embora compreendesse o seu isolamento: ele próprio sempre fora muito reservado no que respeita a sentimentos e não gostava de lhes tocar mais do que o necessário.
Um dia não aguentou mais: já tinha tentado de tudo e Nuno selado que nem um cofre, mudo que nem uma porta, desgostoso que nem uma fonte. Suplicou ajuda a Gabriela, sua mulher e também melhor amiga de Nuno. Gabriela conhecia Nuno desde infância, ainda antes de Filipe, sequer, ter aparecido pela primeira vez. Não fora rara a vez em que brincaram os três em pequenos e fora assim que começaram a nascer os laços que hoje os uniam. Talvez, por isso, ela fosse a sua única hipótese; talvez ela o conseguisse ajudar; talvez fosse ela a trazer o seu amigo de volta, como certamente o saberia fazer. Gabriela era, aliás, a única pessoa no mundo que conseguia fazer com que Filipe falasse do que o atormentava sem que este sentisse que o mundo ia desabar: afinal de contas, ela estaria lá para o segurar; bem dizendo, Gabriela era o seu mundo. E, por isso, Filipe julgava-a a mulher mais capaz de todas - Deus na Terra. Gabriela era-lhe Deus na Terra. Não havia o que fizesse que não fosse com bondade ou que não fosse a própria bondade. Sim: ela conseguiria, de certezinha, trazer algo de bom, de novo, a Nuno - um pouco de esperança que fosse. Quantas vezes Filipe já a vira a consegui-lo consigo mesmo? Quantas vezes um ou dois pares de palavras dela lhe bastara para subir a moral? Gabriela era a mulher mais capaz de todas, sabia-o bem - Deus na Terra. Ela iria conseguir.
E conseguiu. Efetivamente Gabriela conseguiu trazer algo de bom a Nuno, conseguiu subir-lhe a moral. Aquela mulher era tudo: um anjo, uma Deusa! Nuno começara a partilhar aos poucos a sua dor com Gabriela ao telefone. De dia para dia ia-se abrindo mais um pouco. Filipe sentia o alívio a pousar no seu rosto sempre que chegava a casa do emprego e a mulher lhe dava a boa-nova de que Nuno estava a melhorar aos poucos, que já se tinha rido e tudo.
- Amo-te - dizia Filipe, radiante de encantamento por Gabriela.
- Também te amo - devolvia-lhe ela. - Vai-te deitar. Deves estar tão estafado depois de tantas horas no escritório!... Já vou ter contigo.
- Está bem, meu amor.
E este diálogo repetia-se, diariamente. Dia após dia e Filipe sempre a receber boas notícias de Nuno. Agora o amigo já recomeçara a ir ao ginásio e tudo e estava a pensar voltar ao trabalho na semana seguinte, ainda só passara oito dias desde que Gabriela entrara em ação.
Gabriela demorava-se cada vez mais a esgueirar-se para ao pé de Filipe à noite. Dizia sempre que já ia. Fazia sempre mais um ou dois telefonemas antes de se juntar ao marido.
Começou a ser Filipe a ficar desanimado.
Um dia chegou a casa e nem sinal da mulher. Cozinha vazia; na sala de estar, ninguém. Estranhou tudo aquilo mas não se deteve. Chamou por Gabriela por todo o lado e continuou à procura.
Filipe saiu para o jardim em desespero e... entrou num desespero ainda maior. Ali, a um canto: lá estava o amigo, lá estava o danado a lançar-se para a boca de Gabriela; a sua Gabriela, a sua mulher - a sua Deusa! Nuno: o bandido, o irmão traidor, o danado do Diabo - Diabo na Terra! Como fora ele capaz?! Como?!... Ai, se ele tivesse lido os sinais da sua Gabriela, da sua mulher - da sua Deusa!... Bem que ele a achara mais ausente. Bem que ele achara! Ai: se a sua Deusa afinal também fosse Diabo!...
2: Filipe e Nuno sempre haviam sido dois companheiros inseparáveis desde que se descobriram duas crianças demasiado idênticas em gostos e modos de ser para continuarem cada um por si, com a sua vida, mundo fora. Filipe sentia que encontrara em Nuno tudo o que completava as suas brincadeiras: toda a sua equipa de futebol, todo o seu exército de guerra, todos os seus colegas de aventura na selva. Na adolescência, entretinham-se a seduzir raparigas: não em tempo real, mas em competições dialogadas entre os dois para ver qual teria mais hipóteses, consoante os seus truques e trunfos, de ficar com as alvejadas moças. O tempo foi passando e ambos foram continuando a testemunhar os seus corpos e almas a crescer, juntos - e a cumplicidade com eles. Encaixavam, uma atrás doutra, as piadas de um nas do outro; os brindes feitos entre os dois (já podres de alegres), no bar da esquina, soavam-lhes como que a multidões a festejar numa autêntica folia. Partilhavam objetivos profissionais e pessoais com um sorriso aberto e uma determinação efervescente nos olhos, e já havia, inclusive, rascunhos mentais para se fazerem sócios e montarem uma companhia.
Um dia, Nuno foi-se abaixo - realmente abaixo. Acabara de perder a mãe e fechara-se num silêncio inconsolável que Filipe não arranjava maneira de contornar. Andava preocupado com o amigo, embora compreendesse o seu isolamento: ele próprio sempre fora muito reservado no que respeita a sentimentos e não gostava de lhes tocar mais do que o necessário. Mas não: Nuno, simplesmente, deixara de lhe falar. Começara por lhe abrir a porta de casa com uma cara carrancuda e, às tantas, já nem a porta lhe abria. Quanto aos telefonemas: todos ignorados ou explicitamente desligados.
Nuno regressara ao ativo passado um tempo, produto de uma retoma da rotina pouco a pouco. Mas tornara-se uma pessoa amarga - no entanto, e aparentemente, apenas para Filipe. Gabriela, mulher de Filipe e também amiga de longa data de Nuno, continuava a ser interpelada normalmente por ele: com um sorriso aberto. Filipe já discutira com Gabriela o assunto várias vezes e nenhum dos dois arranjava explicação para aquele comportamento de Nuno. Gabriela já fizera frente a Nuno e tudo e este respondera-lhe como se entre ele e Filipe estivesse tudo bem e como se continuassem a ser os melhores amigos de sempre, inseparáveis que só eles: até perguntava pela ascensão dos projetos de Nuno na empresa e dizia que tinham de agendar aí uma churrascada num fim-de-semana.
Eis, pois, que o imprevisível dos imprevisíveis acontece: numa tarde em que passeava o cão, Filipe cruza-se com Nuno... que se lança para a boca de Gabriela - a sua Gabriela!!! A sua Garbiela que regressava, tranquilamente, passeio fora, das compras. Nuno: o bandido, o irmão traidor, o danado do Diabo - Diabo na Terra! Como fora ele capaz?! Como?!?! Mas afinal o que é que lhe dera na cabeça, que agora ninguém lhe achava coerência nos passos?! Que passos absurdos!!! Mas o que vinha a ser isto?! E é ver Filipe em estado de choque, sem saber se bater em Nuno e gritar-lhe um bom par de verdades, se permanecer ali, boquiaberto, estanque que nem uma menina inocente sem forças para continuar, sem forças para mais lutar: sem forças nenhumas e com vontade de se largar num pranto.
3: Filipe e Nuno sempre haviam sido dois companheiros inseparáveis desde que se descobriram duas crianças demasiado idênticas em gostos e modos de ser para continuarem cada um por si, com a sua vida, mundo fora. Filipe sentia que encontrara em Nuno tudo o que completava as suas brincadeiras: toda a sua equipa de futebol, todo o seu exército de guerra, todos os seus colegas de aventura na selva. Na adolescência, entretinham-se a seduzir raparigas: não em tempo real, mas em competições dialogadas entre os dois para ver qual teria mais hipóteses, consoante os seus truques e trunfos, de ficar com as alvejadas moças. O tempo foi passando e ambos foram continuando a testemunhar os seus corpos e almas a crescer, juntos - e a cumplicidade com eles. Encaixavam, uma atrás doutra, as piadas de um nas do outro; os brindes feitos entre os dois (já podres de alegres), no bar da esquina, soavam-lhes como que a multidões a festejar numa autêntica folia. Partilhavam objetivos profissionais e pessoais com um sorriso aberto e uma determinação efervescente nos olhos, e já havia, inclusive, rascunhos mentais para se fazerem sócios e montarem uma companhia.
Tudo corria bem quando estavam bem: o pior foi quando um deles, pela primeira vez, se foi abaixo - realmente abaixo. Nuno acabara de perder a mãe e fechara-se num silêncio inconsolável que Filipe não arranjava maneira de contornar. Andava preocupado com o amigo, embora compreendesse o seu isolamento: ele próprio sempre fora muito reservado no que respeita a sentimentos e não gostava de lhes tocar mais do que o necessário.
Um dia não aguentou mais: já tinha tentado de tudo e Nuno selado que nem um cofre, mudo que nem uma porta, desgostoso que nem uma fonte. Suplicou ajuda a Gabriela, sua mulher e também melhor amiga de Nuno. Gabriela conhecia Nuno desde infância, ainda antes de Filipe, sequer, ter aparecido pela primeira vez. Não fora rara a vez em que brincaram os três em pequenos e fora assim que começaram a nascer os laços que hoje os uniam. Talvez, por isso, ela fosse a sua única hipótese; talvez ela o conseguisse ajudar; talvez fosse ela a trazer o seu amigo de volta, como certamente o saberia fazer. Gabriela era, aliás, a única pessoa no mundo que conseguia fazer com que Filipe falasse do que o atormentava sem que este sentisse que o mundo ia desabar: afinal de contas, ela estaria lá para o segurar; bem dizendo, Gabriela era o seu mundo. E, por isso, Filipe julgava-a a mulher mais capaz de todas - Deus na Terra. Gabriela era-lhe Deus na Terra. Não havia o que fizesse que não fosse com bondade ou que não fosse a própria bondade. Sim: ela conseguiria, de certezinha, trazer algo de bom, de novo, a Nuno - um pouco de esperança que fosse. Quantas vezes Filipe já a vira a consegui-lo consigo mesmo? Quantas vezes um ou dois pares de palavras dela lhe bastara para subir a moral? Gabriela era a mulher mais capaz de todas, sabia-o bem - Deus na Terra. Ela iria conseguir.
E conseguiu. Efetivamente Gabriela conseguiu trazer algo de bom a Nuno, conseguiu subir-lhe a moral - baseado naquilo que Filipe viu acontecer naquele momento, Gabriela só o podia ter conseguido! E até pôs o amigo a falar, aquele anjo: a soltar um par de desculpas, o safado!... Filipe entrou na sala de estar do amigo e lá estava o danado a lançar-se para a boca de Gabriela: a sua Gabriela, a sua mulher - a sua Deusa!!! Nuno: o bandido, o irmão traidor, o danado do Diabo - Diabo na Terra! Como fora ele capaz?! Como?!?! Diz que aquele silêncio não se devera só à morte da mãe; não: diz que aquela incapacidade de partilhar fosse o que fosse com o seu melhor amigo naquele período de dor também se devia a uma dor tão grande quanto a perda que sofrera; diz que sempre amara Gabriela e que não conseguira travar o crescimento daquele amor; que mal Filipe começara a falar dela nos primeiros nuances de paixão que ele próprio também se apercebera de que estava apaixonado por ela; que era um amor que, de dia para dia, atingia tamanhos cada vez mais desproporcionais. Diz Nuno que não tinha como encará-lo a ele, Filipe, e agir como sempre agira: a sorrir, a gargalhar, a olhar o futuro com uma efervescência determinada no olhar. Diz Nuno que ele e Filipe sempre foram demasiado iguais para ele alguma vez achar que tinha mais direito ao amor de Gabriela do que Filipe tinha e que, por isso, optara por nunca fazer nada - mas que não aguentava mais; mas que não tinha aguentado mais perante tamanha mulher. Eis, pois, Filipe - também ele - a deixar a sua dor matar-lhe a voz. Eis, pois, os três, a deixarem tudo aquilo desfazer-lhes a voz em fanicos. Eis eles a morrerem em profundo silêncio: os três companheiros mortos pela calada naquela sala.