Tarefa: Esta semana vamos usar uma palavra nova em cada dia. Todos os dias: escrever um texto, de não menos de quatro ou cinco linhas, em que usemos uma palavra que não conhecíamos antes. Palavras que não conheçamos de todo. Podemos ir ao dicionário e tirar à sorte. Depois usamo-las num texto - pelo menos um por dia.
Dia 1, cubicar: medir o volume de um sólido ou a capacidade de um espaço; medir em unidades cúbicas = cubar
Neurónios à obra: está na hora de cubicar a mente. Mas advirto-o já: não julgue, ao se cruzar comigo no caminho e ao dar com o alerta amarelo das obras colocado no canto do passeio, que ando a martelar em ideias fixas, seguido de um limar de arestas para que estas ganhem uma forma mais consistente. Não, senhor; nem pensar! Eu cá não quero sujar mãos - nem nada - nessas coisas. Sou uma exploradora, sabe? E caso também fosse um saberia, pois - se explorasse algumas páginas do dicionário - que cubicar significa medir uma coisa qualquer em centímetros cúbicos (e digo centímetros a título de exemplo, que também me podia ocupar de procurar os milímetros ou até mesmo os metros e quilómetros). Olhe, senhor: tudo o que eu quero saber é quantos molhos de ideias diferentes cabem na minha cabeça. Por isso é que estou para aqui armada em arquitecta. Agora que já andei para aí com régua e esquadro - e descobri que não há régua nem esquadro que chegue para achar a capacidade da massa cinzenta - veja lá o que acha da primeira ideia que tive de um conjunto infinito delas que ainda terei. Estava para aqui a imaginar: até seria engraçado que alguém, ao ver-me nestes propósitos e a ouvir-me dizer que está na hora cubicar, pensasse que o que eu quero é construir um prédio de cubos, não seria?
Dia 2, franchinote: rapaz pretensioso e atrevido; janota presumido.
Tira uma pessoa férias do que é sufocante no dia-a-dia, mete-se a todo o vapor (do que lhe sobrou do ano que passou) a caminho da praia para limpar, com o mar, os olhares de um mundo - por vezes demasiadamente convencido de que é janota - e, de tão contaminada que está, julga que tem o azar de o acaso estar a favor desse "por vezes" - uma vez mais. Até na praia! - pensaria uma qualquer mulher desesperada, ao dar de caras com o homem musculado em calções de banho. Que franchinote, para se estar a exibir assim, comentaria ela, de si para si. Bom seria ser a consciência dessa mulher, nem que por uma vez, para lhe dizer algo como: ó minha senhora, tenha calma. O senhor não é presunçoso nenhum. Está na praia. Lembre-se de avaliar as situações de acordo com os seus contextos.
Dia 3, cavouqueiro: o mesmo que cabouqueiro: aquele que faz caboucos; aquele que escava; cavador; aquele que trabalha em minas.
Caro sentimento mau, quero informá-lo que só me é caro por fazer a minha alma pagar caro por se vender a si. É que não há nada que lucre consigo: vendo-me a si e ainda pago por isso. Assim deixa-me enterrada. Com os dois pés na cova. Quando trocamos de papéis, meu caro? Já está na sua hora. Eu faço de cavouqueiro desta vez, mas com a diferença de que lhe torno a terra cheia de destroços um lugar confortável para poisar. Talvez veja no mundo subterrâneo uma casa ideal para morar, em que se encaixe, e desabite o meu coração, demasiado apertado para guardar restos de tudo e de mais alguma coisa.
Caro sentimento mau, quero informá-lo que só me é caro por fazer a minha alma pagar caro por se vender a si. É que não há nada que lucre consigo: vendo-me a si e ainda pago por isso. Assim deixa-me enterrada. Com os dois pés na cova. Quando trocamos de papéis, meu caro? Já está na sua hora. Eu faço de cavouqueiro desta vez, mas com a diferença de que lhe torno a terra cheia de destroços um lugar confortável para poisar. Talvez veja no mundo subterrâneo uma casa ideal para morar, em que se encaixe, e desabite o meu coração, demasiado apertado para guardar restos de tudo e de mais alguma coisa.
Dia 4, vetustez: qualidade do que é vetusto (muito velho, antigo, deteriorado pelo tempo, respeitável pela sua ancianidade) = vetustade
Não aprendeu a vestir-se bem nem a ter os cabelos alinhados. O dinheiro não chegava para pagar extravagâncias. Aprendera a ver a humanidade a nu e a embelezar o que é desarrumado. Podia ser que fosse melhor assim: acabar uma velha sábia e nunca chegar a ser princesa. Ao menos podia ter quase cem por centro de certezas de que quem a admirava o fazia pelo que ela tinha dentro. Um dia, em conversa com o seu marido - o seu aldeão encantado (como lhe chamava em segredo) -, ouviu-o surpreendê-la nestas palavras: "antes fazer vénias a vossa vetustez do que a vossa majestade".
Não aprendeu a vestir-se bem nem a ter os cabelos alinhados. O dinheiro não chegava para pagar extravagâncias. Aprendera a ver a humanidade a nu e a embelezar o que é desarrumado. Podia ser que fosse melhor assim: acabar uma velha sábia e nunca chegar a ser princesa. Ao menos podia ter quase cem por centro de certezas de que quem a admirava o fazia pelo que ela tinha dentro. Um dia, em conversa com o seu marido - o seu aldeão encantado (como lhe chamava em segredo) -, ouviu-o surpreendê-la nestas palavras: "antes fazer vénias a vossa vetustez do que a vossa majestade".
Dia 5, jusante: refluxo da maré = baixa-mar, vazante; lado para onde desce a água da maré vazante, ou para onde se dirige a água corrente de um curso de água, em oposição a montante; local situado depois de um determinado facto ou situação (ex.: queremos prever problemas a jusante)
Maré jusante não significa que esta esteja a vazar, ao contrário do que se pensa. A maré está lá toda, tão cheia quanto antes; apenas há momentos em que tem de dar um ou outro passo atrás para, depois, com todo o balanço, irromper para a frente. Nunca o sentiram na pele? Somos como a maré. Quando recuamos é para que sejamos capazes de dar o salto mais tarde... ou não é? E recolhermo-nos em nós não significa que algo nos ameace de que iremos ficar vazios. Recolhemo-nos cheios e, depois, brotamos de repente: ainda (ou mais) cheios.
Maré jusante não significa que esta esteja a vazar, ao contrário do que se pensa. A maré está lá toda, tão cheia quanto antes; apenas há momentos em que tem de dar um ou outro passo atrás para, depois, com todo o balanço, irromper para a frente. Nunca o sentiram na pele? Somos como a maré. Quando recuamos é para que sejamos capazes de dar o salto mais tarde... ou não é? E recolhermo-nos em nós não significa que algo nos ameace de que iremos ficar vazios. Recolhemo-nos cheios e, depois, brotamos de repente: ainda (ou mais) cheios.
Dia 6, remir: adquirir de novo = conseguir, resgatar; conseguir a libertação de outrem ou de si = libertar, livrar; tirar ou sair do perigo ou da condenação = salvar; ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a = expiar; oferecer ou receber compensação = compensar, ressarcir; sentir arrependimento = arrepender-se; sinónimo geral = redimir
Esgueirou-se para o quarto a seguir a jantar o mais rápido que pôde. Com a comida já há muito preparada e, por fim, totalmente ingerida, mais um segundo na cozinha e não teria como se escapulir das palavras e dos olhares inquiridores dos restantes; seria inútil culpar cebolas acabadas de cortar pelas suas lágrimas. Chegada ao quarto, atira-se para a cama e aí se deixa ficar. Permite o choro molhar todo e cada remir que aprisionava dentro há tanto tempo e que vê finalmente em liberdade. Acaba por adormecer, consolada - há muito tempo que se queria livrar daquelas grades e correntes em torno dos seus arrependimentos e que lhe limitavam o espaço de manobra ainda mais do que as próprias culpas.
Que chovesse à vontade, desde que ela pudesse sentir essa chuva. Antes livre e à chuva do que presa com o sol a brilhar.
Dia 7, flostria: folgança, fanfarronada, brincadeira.
Nunca duvido de nada - sou uma corajosa. Noutro dia (tinha eu catorze anos - agora tenho vinte) uma amiga minha resolveu preparar-me uma bela surpresa. Com um sorriso em tudo radiante - e que, aparentemente, eu vi a metades (não dei conta de uma matreirice ali escondida no canto da boca) - dirigiu-se a mim com uma caixa de sapatos forrada com folhas de papel. "É para ti, tem desenhos lá dentro", disse-me, esticando o presente homemade até às minhas mãos. Eu, na minha inocência aventureira, acreditei sem olhar a quem, e removi empolgada a tampa de cartão. Até dei um salto e um grito - de susto, que dali de dentro saiu de imediato uma abelha hiperativa a voar; cá para mim aquela hiperatividade toda ainda era, mas é, stress pós-traumático - tanto da própria abelha como meu, que me descaí num valente susto. Já a minha amiga descaiu-se em gargalhadas imensas, tal fora a facilidade da flostria.
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