domingo, 23 de dezembro de 2018

We cry and bleed on paper

um luto mais cá dentro. um luto para o qual não há palavra que pareça suficiente, porque o amor é além fronteiras.

quatro pais. tenho quatro pais - seja desde há 24, 18 ou 10 anos; seja de sangue e de coração ou só de coração; e o número de anos continuará a aumentar se a vida seguir o que o meu coração quer. nada se perde, tudo se transforma, dizia o outro. mais ou menos, digo eu. perdi uma família a três, mas não foi comigo que os laços se quebraram. então, só tenho de tentar transformar a maneira como continuo a cuidar desses laços que ficaram.

*olha eu toda sistémica na vida real*

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

«Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Neste espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Na nossa resposta está o nosso crescimento e a nossa liberdade»

- por Viktor Frankl (1946)

um dia de cada vez

acabei de entender que ando desaparecida daqui desde metade deste ano. de facto, foi meio-ano que não sei onde se meteu, passou num ápice, a uma velocidade estonteante. chegamos a dezembro e está inaugurada a época dos balanços. olhando para trás, para já, o ano 2017 continua a ser o mais duro que alguma vez vivi. o ano 2018 também teve um sabor agridoce, mas um pouco mais doce que amargo porque hey, aprendemos a estabelecer alguns limites. por um tempo, contudo, estiquei os meus. não tenho dúvida disso, pois andei muitas vezes na linha. o trabalho de investigação que estive (e ainda estou) a fazer é o que resume o grosso do meu ano, aquilo para que mais vivi. é triste dizê-lo assim, mas foi o que aconteceu. e daí, vou sair deste trabalho gritando a alto e bom som que investigação não é para todos, a carreira académica não é para todos... e sem dúvida que não é para mim. e não falo no sentido de não ter competências técnicas para isto: já me disseram que, um dia, se eu quiser, posso voltar. digo que não é para mim do ponto de vista emocional. andei muito mais afastada de mim, do que gosto de fazer, e daqueles de quem gosto. os meus fins-de-semana foram, muitas vezes, passados a trabalhar e, quando assim não o era, lá estava a culpa por não estar a fazê-lo. no início deste mês entreguei o trabalho mais difícil que me foi confiado, publiquei o meu primeiro artigo científico, e estou agora na recta final de três artigos que há muito me acompanham. e daí começar agora a respirar um pouco mais de alívio, um pouco mais de ar.* tirei, também, de mim o peso daquele estágio, que primeiro me foi de uma alegria imensa e que depressa comecei a perceber que ia accionar em mim tendências ansiosas e depressivas, que me ia afastar ainda mais de tudo o que me dá sentido à vida e a quem sou - mais do que a investigação o fez. não: não quero para mim algo que me faz mal! algo que me afasta de mim! algo que não se coaduna com os meus princípios e valores, algo que não me permite espaço para perceber o meu amor pela psicologia, criando revoltas mal direccionadas face a esta área que eu sei que me apaixona, mas cujo mercado de trabalho é, muitas vezes, cruel, fazendo-me questionar tudo.
em breve, um balanço mais bonito chegará.
em breve, estarei de volta. toda eu, de volta.

* amo muito a minha equipa e a minha chefe atual, contudo. além disso, aprendi muito este ano a nível científico e isso é algo de que me orgulho muito. mais: tanto a nível clínico como a nível científico, a minha chefe tornou-se, sem sombra de dúvida, a minha ídolo a nível profissional. duvido que algum dia vá encontrar uma chefe tão maravilhosa e com tanto para ensinar, e uma equipa que me deixe tantas saudades a nível das relações que ali se estabeleceram como esta. nem tudo foi mau, de verdade. muitas coisas boas, comigo, para sempre levarei daqui.

ainda não foi desta

o estágio... o estágio começou por me parecer muito doce, de repente ganhou linhas agridoces, e por fim descobri que seria sempre só acidez e amargura. todas as semanas a sair alguém (estagiários, psis efetivos, terapeutas da fala). um grande quero, posso e mando face aos estagiários, mandando-lhes fazer trinta mil e uma coisas relacionadas e não relacionadas com a psicologia, contactando-os ao fim-de-semana e em horário pós-laboral, deixando-os 1 mês inteiro sem falar nas supervisões para dar prioridade aos que já são da casa há mais tempo, ignorando tentativas de abordagem quando dá jeito e pedindo reuniões com urgência quando lhes interessa. uma grande falta de clareza da chefia e coordenadores para com os técnicos no geral, comunicando em cima da hora horários e sítios para onde ir (descobri recentemente que queriam que fizéssemos deslocações a Santarém, quando ninguém me comunicou isso na entrevista nem em nenhum momento até então). um grande ego por parte da chefe, com direito a discursos megalómanos e a desresponsabilizar-se por completo da saída de cada empregado - "não me sinto minimamente culpada, a única culpa que sinto é pelos erros de casting, não entendi logo como é que as pessoas eram". uma tentativa da chefe, inclusive, de fazer queixa à desordem de uma das (várias) estagiárias que entretanto zarpou dali (e bem!). entre outras situações não bonitas de se escrever - algumas que me fazem inclusivamente questionar se não existem princípios éticos da profissão ali a ser violados em prol de dinheiro para a entidade. comecei a sentir-me cada vez pior e cada vez mais enrolada num grande esquema, baseado em valores e prioridades, no mínimo, questionáveis, e a sentir que, à mínima coisa que pudesse fazer e que não fosse do agrado deles, me iriam tentar prejudicar. então, também disse adeus. justifiquei-me dizendo que se tratava de uma situação pessoal e familiar inesperada, para não entrar em grandes detalhes. face ao meu adeus, nem uma única palavra. então, fiquei com ainda mais certezas de que foi o melhor que podia ter feito, pois parece haver primazia do rancor face à empatia. como é que há psicólogos supostamente empáticos com os seus pacientes dentro do gabinete, fora dele são tão desumanos para com os seus estagiários? estou preferindo a ansiedade de não ter nada garantido para os próximos tempos do que a ansiedade diária que iria viver durante 1 ano naquela equipa a ser espezinhada porque sou uma estagiária e está tudo desesperado para entrar na desordem.

2018 irá terminar em aberto, à semelhança de 2017. mas a luta continua, que eu não sou de desistir. psicologia há de fazer parte da minha vida.

#accionandooplanob