sábado, 28 de fevereiro de 2015

Fez-se Luz II

- Encarnado.

(Em+carne+ado, i.e., cor da carne).

Fez-se Luz I

- Desculpa.

(Des-culpa, i.e., tirar a culpa).

28. Duvidar

Não há margem para dúvidas: posso não sair para fora das linhas ao pintar, mas quanto aos meus dedos não há limites. Outra coisa de que não se pode duvidar é do facto do meu coração, de momento, estar completamente devoto às crianças que o voluntariado me permitiu começar a acompanhar. Por elas voltei a escrever com letra à primária, por elas voltei a fazer recortes; por elas estou a guardar quase todas as horinhas do meu fim de semana para ser criativa e, por fim, de alguma maneira, cativá-las para o trabalho que temos pela frente.

27. Ridículo

- Tens um penteado ridículo ao acordar. E, por muito ridículo que possa parecer, é das coisas mais bonitas que já vi.

26. Rigor

Rigor é não ter rigorosamente ideia nenhuma para o que aqui escrever e, mesmo assim, acabar a Caixa das Palavras de fevereiro ainda em fevereiro. Mesmo que não cumprida diariamente, é - foi - conseguir acabá-la trinta minutos antes de março começar.

25. Significado

A questão não está só nos significados que atribuímos às coisas. A questão está, também, na significância desses significados. O ponto central da questão está no equilíbrio que os dois, em conjunto, tentam... E no peso final da balança.

24. Vínculo

Vínculos vincados: se não é possível passá-los a ferro, tê-los em pleno, senti-los macios... Então poderão ser-nos cortantes - ao mínimo contacto; a qualquer momento.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

23. Intervalo

No intervalo entre um transporte e outro, percebi que precisava que houvesse um intervalo, não entre transportes, mas de horas. De vinte e quatro horas, para multiplicar as forças por éne segundos. Para que os intervalos entre nós não me fizessem fraquejar assim: ao ponto de tombar num abrir e piscar de olhos, sem me valer qualquer luta que dê em contrário.

Chuva Torrencial

domingo, 22 de fevereiro de 2015

22. Observar

Há observações lindas, bem mais reais e lúcidas, feitas por intermédio de miopias, terçolhos e cataratas, do que através de uma visão intacta. Vejam lá!...

21. Requinte

Se nas simples e pequenas coisas que detens não vês um requinte, dificilmente te vais apaixonar de verdade pelas maiores e mais complexas. Quero dizer: como é isso possível? Não são os asteriscos e as letras miudinhas que acabam por fazer pesar a balança? Que ditam uma importantíssima quota parte do rumo das sentenças? Não é pelos pormenores que acabamos por nos perder? Que acabamos por nos encontrar cativados? Não são os detalhes que, simultaneamente, nos fazem perder e encontrar? Não é isso - essa contradição - nem que um bocadinho grande do que é a paixão?

Para os Curiosos

20. Tomate

Volta e meia atiram-me tomates ao palco enquanto atuo, e eu penso que ora me lançam a frio o meu próprio sangue ora é o dos outros que, por tanto ferver, salta e tinge-me a camisola. Nesses momentos torna-se premente ver no cenário uma oportunidade de ganhar tomates - isto é, agarrar no que me tenta alvejar e usá-lo como coragem para uma de duas coisas: para modificar as minhas próximas aparições, ou para manter a firmeza e sair de cena. Também erro; mas há outras vezes em que não e o público faz tudo menos aplaudir. Não se pode agradar a gregos e a troianos, já dizia o outro.

Domingos Sagrados

Ficou acordado, já desde há dois anos para cá, que aos domingos se celebraria, o mais possível, a folga do despertador. Coitado, também merece descanso. Além disso, é tão bom promover a preservação das tradições (de algumas, vá - é o caso desta)...

sábado, 21 de fevereiro de 2015

19. Trégua

- Deu-me um tiro. E depois, como se lhe acabaram as balas, sacou da bandeira em nome de tréguas... Para me pedir mais balas, claro.

- Autor desconhecido

18. Cozinha

As fadas também usam caldeirão - não são só as bruxas, não. Isso é nas histórias de fantasia, na realidade a coisa é bem diferente. É que tenho a certeza que a minha madrinha prepara uma poção de amor imediato que depois junta a todas as tartes de amêndoa que cozinha. Mas a certezinha absoluta.

17. Volume

Permite-te a gozar dos altos e baixos. Aumenta o volume da aparelhagem para te desligares do mundo; baixa-o até não se ouvir nem uma nota, nem um burburinho, para te ligares a ele.

16. Interferir

Podemos querer as paredes brancas e fazê-las assim. Contudo, é imprudente de nós não esperar que nunca haja reflexos cinza de um ou outro objeto em volta, a interferir com o branco pintado. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

15. Tatuagem

Deixas-me adivinhar-te sem sequer falares, só por te olhar. Porque há imagens que valem mais do que mil palavras; porque trazes histórias à flor da pele.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Cães, cães, cães

Do Exercise Because

14. Abraçar

Quem se ama abraça-se mesmo que com flechas trespassadas no peito; mesmo que lhes fuja todo o fôlego, mesmo que seja por poucos segundos, mesmo que seja a última coisa que façam: quem se ama abraça-se acima de tudo. Diz que são setas do cupido.

13. Sotaque

Por esta hora está a Cláudia a adestrar os primeiros trejeitos típicos do sotaque australiano. E está tão empenhada que ainda não deu notícias. Eu bem disse que ela na primeira semana se ia esquecer da existência de Portugal.

12. Liberdade

A liberdade alcancei-a, muitas vezes, quando estabeleci limites.

11. Imitar

Tenho a mente a deambular por aí, à procura de se sincronizar a um qualquer ponteiro de bússula. Os olhos imitam faróis, em rota giratória, em busca do que poderá estar no fundo da esquina. Nada veem, e logo os dedos, sensíveis à passagem dos ventos rentes às ranhuras que os separam, pedem preenchimento. A que momento me agarro? A que momento me estou a agarrar? Assim os ouvidos se põem à escuta, vasculham o ruído de fundo para desvendar que banda sonora faz dançar o ar. Talvez continue a ter a sorte de descobrir nos ritmos perscrutados o meu pulso tímido algures. É isso que espero - sempre.

10. Teatro

Sobe os estores, afasta as cortinas. Não, não estou a brincar nem a fazer teatro nenhum: há mesmo um novo dia lá fora.

09. Soturno

Fechado pelo corpo, o interior está inundado por sombras - é inevitável. Somos humanos, temos este corpo sujeito a todas as sensações. Mas o mal é quando também está fechado pela alma e se deixa afogar; quando deixa de nadar, de bracejar, de dar aos pés. O grande grande mal é deixar-se morrer por tão soturno, esquecendo-se que, por muito que difícil, é possível remar contra a maré em vez de se deixar por ela enrolar. Dói, custa, às vezes temos de inventar forças... Mas não somos nós que tanto dizemos que estamos aqui para lutar pelos nossos sonhos? Pelo sucesso? Por nós? Pelos outros? Pelo (espaço em branco a preencher com o que se quiser)? Vou repetir a palavra-chave: lutar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

domingo, 8 de fevereiro de 2015

08. Inovar

De um papel amachucado fazer uma bola de jogar. De uma ideia fazer outra.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

07. Subir (parte II)

Sentes um formigueiro a subir por ti quando te sabes uma formiguinha no mundo e, ainda assim, degrau a degrau, és capaz de alcançar os patamares que tanto querias.

07. Subir


Já disse por uma entrelinha ou outra que faço parte do grupo de pessoas que sofre horrores ao quadrado - e há vezes que ao cubo - com o frio. Hoje tem sido ao cubo e cheguei ao ridículo de colocar luvas dentro de casa... Depois lá as tirei ao fim de cinco minutos porque, claro está, não dão jeito nenhum para mexer nas coisas (se servir de desculpa, tenho má circulação nas mãos; estão constantemente como se acabadas de sair do frigorífico ou do congelador, a sério). 
Por favor, por favor: a temperatura que suba!

06. Surdina

Não ouvi lágrimas nos teus risos. Quem me dera que em vez de isso me soar a assustador soasse a assusta-dor; quem me dera que só o ato de rir sobressaltasse as tuas angústias, fizesse-as dar um e dois pulos para trás, fugir a sete e oito pés.

05. Completar

As imperfeições não impedem o encaixe. Há puzzles que, ainda que com uma peça ou outra colocadas ao contrário, são possíveis de completar.

04. Marulho

- Esta é a minha praia. Garanto-te com toda a certeza: não há perigo. Podemos aventurar-nos à vontade.
Ice-se já a bandeira vermelha - imediatamente! Por muito que tua, se é praia não está isenta de marulho. O que nos é familiar não é - nunca foi - sinónimo de irrevogável segurança.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

03. Viver

«Viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio.» Li-o hoje numa plaquinha daquelas de metal de se pendurar nas paredes, agora muito na moda nas lojas de coisas para a casa (a internet diz que é do Albert Einstein). E tão verdade é o dito que finalmente me convenci a arrancar com todas as limpezas que tinha pendentes, umas há mais tempo que outras. Ah, e não se deixem enganar: as reviravoltas materiais estão em estreita conexão com as mentais, servindo mais às últimas do que a outra coisa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

02. Lura

De agora. Agora mesmo. 
Há agoras em que sinto que preciso de enterrar o coração, os pulmões, tudo, tudinho numa lura. Penso que preciso de esvaziar-me para não me esvaziar; pegar em tudo e pôr debaixo de terra por não saber bem de onde vem a dor, por isso levar de mim tudo de uma vez. Até que percebo que não é pelo econderijo que melhor me poderão servir as tocas e os covis. Vejo então que, na verdade, preciso-os para me ver melhor mesmo que no escuro; para treinar a visão felina enquanto tento fixar as dores, seguir-lhes os movimentos. Preciso-os para tratar as dores como presas e atacá-las por fim. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015


01. Café

Tarde com amigos e as alcunhas acidentais (as Inêses sofrem):
- Quem quer vir tomar café? Nês... Café!
- ...
- Ah!!! Nês-café!...
Às tantas já tinhámos ora a Nêscafé ora Necasfé... e ainda a Nêspresso.*

* Para quem possa ainda não ter apanhado ao longo das publicações que vou fazendo no blog, há duas Inêses no grupo: uma é tratada por Nês e outra por Necas.

Janeiro Foi...

01/01. Primeira macaquice na primeira noite do ano,
em plena Vilamoura: saída à rua de pijama, robe com
pintas de dálmata colorido, casaco e botas pretas. 
Dois mil e quinze a começar entre amigos e em grande estilo.

02/01. Despedidas algarvias, regressares à capital. 
A vida em movimento.

03/01. Época de exames e os objetivos
diários cor de laranja - cor da Psicologia, claro.

04/01. O amor serve-se (de coração) quente.
Surpresas da melhor família do mundo.

05/01. Janela de sonhos - que, no entanto,
não se concretizam sozinhos.
É tempo de estudar.

06/01. Encontrar no que é importante o cor de rosa; destacá-lo.
Sujar as mãos de cor de rosa.

07/01. Primeiro dia do ano passado com pijama e nervos sem fim.

08/01. Da escuridão à luz, por favor. Medos vencidos.

09/01. Domingos e os lanches adocicados.
Chá acabado de fazer e scones saídos do forno.
Aconchegares do estômago ao espírito.

10/01. Ficar sozinha em casa com o peludo:
sinónimo de disparates, estava-se mesmo a ver.
O abuso de poder versus "és o palerma
mais fofo do mundo, como me zangar contigo?".

11/01. No meio do escuro e do frio,
umas quantas luzes e um pouco de calor.
As boleias da amizade.

12/01. Precisar de parar por uns momentos. Deitar-me no chão.

13/01. Divagares; pensamentos súbitos.

14/01. Nunca disse, mas por vezes escolho as meias do dia
consoante o que pretendo para ele. Sendo dia de exame,
levei a seriedade do cinzento e do azul escuro nos pés...
sem esquecer uma pitadinha de rosa para não
faltar um bocadinho de mim em tudo o que faço.

15/01. Quarto preparado para o estudo e para o conforto canino.

16/01. Bom dia com chuva à janela.
Primeiro dia de chuva e granizo do ano nestas bandas.

17/01. Então está certo...

18/01. Aqui há gato... de novo. O Agni demasiado
mansinho. Dá-me turrinhas e pede-me miminhos.
Passa o dia todo a meu lado. Descobre que o
candeeiro da secretária é um ótimo aquecedor.

19/01. A saga dos animais a preto e branco
continua, desta vez em peluche. Dia de formação de
voluntariado com crianças e a Nês leva o Tenuki à faculdade.

20/01. Acordares e registos rápidos do que se sonhou.
Se ao menos eu pudesse fotografar os sonhos...

21/01. Maria em "já não posso com isto".

22/01. Coroa com um Psi na porta do armário,
ao pé de conceitos-chave. Os motivadores de
estudo parvos para um último esforço.

23/01. Último exame: Maria e finalmente o mundo lá fora.

24/01. Dolce far niente e o primeiro filme das (pseudo)férias:
The Theory of Everything. Encanto (pelo) infinito.

25/01. Primeiro dia da vida em que pus um carro a trabalhar.
Obrigada pai.

26/01. Finalmente conheci a Lua, a nova pequenina da família.
É linda, linda, linda. E, como diz a foto,
uma irrequieta mega fofa.

27/01. Rosa ou azul? Azul ou rosa? 
Regressares à infância. O "não sei bem o que vou fazer hoje" 
e apanhar a Bela Adormecida na programação da TV.


28/01. Jantar e saída de despedida da minha 
melhor amiga, que vai de intercâmbio para a Austrália 
por seis meses. Os sonhos a concretizarem-se, 
a saudade a apertar; momentos para guardar e 
repetir tanto quanto possível.

29/01. Aproveitar o descanso pós-saída à noite
para retomar as leituras pendentes. Aproveitar o livro
para pensar as mais diversas situações de vida que 
me chegaram; aproveitar o estado de espírito para 
magicar teorias na cabeça.

30/01. A desilusão generalizada em registo fotográfico.
Sexta-feira e o cinema em casa com a família; sexta-feira, o 
entusiasmo inicial e o maior fiasco da  Disney e dos musicais 
de sempre: Into the Woods. A mãe adormeceu, o padrasto 
levantou-se a menos de meio e foi trabalhar.  Eu e 
o meu irmão a resistir, sempre esperançosos nem que 
por um grande final... mas até o Yeti veio pedir consolo.

31/01. Pela primeira vez um pássaro a subir-me pelos
braços, a memória mais pura deste dia (obrigada pela segunda 
vez este mês, pai). Ou, então, o dia em versão poética:
Tens um pássaro nos braços - não te esqueças que
tens um pássaro nos braços. Há asas nos teus braços 
e por vezes vais querer ferrar-te aos abrigos de lã, 
outras vezes vais querer batê-las com força. Seja
como for, tens o amparo e o apoio dos que te querem bem,
tens neles o travão e o empurrão para os teus passos e voos.

"Caixa das Palavras" de Fevereiro

[ dia 1 ] - café
[ dia 2 ] - lura
[ dia 3 ] - viver
[ dia 4 ] - marulho
[ dia 5 ] - completar
[ dia 6 ] - surdina
[ dia 7 ] - subir
[ dia 8 ] - inovar
[ dia 9 ] - soturno
[ dia 10 ] - teatro
[ dia 11 ] - imitar
[ dia 12 ] - liberdade
[ dia 13 ] - sotaque
[ dia 14 ] - abraçar
[ dia 15 ] - tatuagem
[ dia 16 ] - interferir
[ dia 17 ] - volume
[ dia 18 ] - cozinha
[ dia 19 ] - trégua
[ dia 20 ] - tomate
[ dia 21 ] - requinte
[ dia 22 ] - observar
[ dia 23 ] - intervalo
[ dia 24 ] - vínculo
[ dia 25 ] - significado
[ dia 26 ] - rigor
[ dia 27 ] - ridículo
[ dia 28 ] - duvidar