quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
31. Ativa
Não acontece com todos, mas há-de haver sempre casos em que os próximos momentos serão efetivamente vividos assim: o fascínio das estrelas reais a ser trocado pelas artificiais, como quem diz pelo fogo de artifício; os desejos que para se concretizarem exigem a magia própria de cada um a serem trocados pela magia ilusória das doze badaladas, como quem diz por um(a) senhor(a) a fazer contagem decrescente na televisão; a mudança efetiva a ser trocada por promessas, como quem diz por objetivos sempre pendentes, transversais a todos os anos.
A paixão, a vontade e a determinação pela vida é coisa ativa, caros terrestres a quem a carapuça serve - exige-nos, efetivamente, atividade. O deslumbre não é passivo: estimula-nos; se verdadeiro, põe-nos a mexer... mais cedo ou mais tarde. Vá: vamos combinar uma coisa: olhem o céu... Antes e depois do fogo de artifício - tanto faz se se esquecerem de o fazer a algum destes momentos, mas olhem. Quando virem uma estrela - e basta uma -, digam-me lá se não é verdade isto que vos digo.
Ativem-se as mentes, ativem-se os corações - e ativem-se as pernas, as mãos, o corpo todo; ativem-se por todo lado! E o planeta por arrasto.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
30. Prudência
O ano não acaba sem abraçar quem mais amo. A prudência está em relembrar as pessoas que as amamos - por palavras, por gestos, por encontros. E estas pessoas, família de sangue e família que não é mas que podia ser de sangue... Estas pessoas! São elas que ajudam a assegurar o sentido dos dias que já foram, que são, que virão. Por isso o ano não podia, não pode, acabar sem mim a relembrar-lhes, seja entre pequenos-almoços, almoços, lanches ou jantares, o calor da gratidão no meio de um abraço. Venham as torradas, os scones, os galões, os cafés; venha o arroz, as massas, os legumes. Venha o Natal duas e três vezes; venha o Natal todos os dias possíveis e imaginários com estas pessoas. Quero pedir a todos os seres deste mundo e do outro para que não amemos só no Natal que já lá vai. Para que continue a ser caso de haver quem faça disto tradição: trazer para todos os dias um bocadinho de Natal; e ainda mais bonito será para aqueles que se aperceberem que, na verdade, o que fazem é isto: trazer um bocadinho de todos os dias para o Natal.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
domingo, 28 de dezembro de 2014
AH!!! Eu Tinha Cinco Anos!!!
Acabei de ver no Facebook uma foto das capas dos livros do Harry Potter "edição especial de quinze anos". QUINZE anos. Não me tinha apercebido que já tinha passado tanto tempo desde a primeira história da saga...
28. Xeque-mate
Um dia estaremos tão loucos de tão sãos que não vamos querer parar de rir das coisas que nem são sérias nem deixam de o ser - por exemplo, dos mosaicos pintados no chão; sim, dos mosaicos pintados no chão. Um dia vamos querer gozar as coisas que nunca pensámos gozar - quem alguma vez gozaria o chão? A sério: quem? Um dia seremos nós. Jogaremos xadrez nas ruas - só nós os dois, a saltitar de um quadrado para o outro entre os mosaicos. Fá-lo-emos contra todos os olhares inquietos e de surpresa de terceiros e que sabemos que vão aparecer, e em favor de todos os nossos olhares cúmplices e a desbravarem-se em (sor)risos tontos - para os outros sem sentido, para nós com todo. Por vários motivos, mas a enumerar, precisamente, os seguintes: porque a vida é inquieta e uma surpresa (já se devia saber e nem sempre se sabe); porque é nossa cúmplice nos desbravares e na (des)atribuição de significados. Xeque-mate.
sábado, 27 de dezembro de 2014
27. Túlipa
- Que flores amarelas são estas, mãe?
- São tulipas. Gostas?
- ...
- ...
- Filho?
- Mãe, não digas a ninguém. Mas gosto. E também gostei da menina que vi hoje vestida de túlipa.
- Vestida de túlipa?
- Sim. Era bonita como uma flor e tinha uma camisola amarela. Só podia ser de túlipa que ela vinha.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
26. Pão (parte II)
- Eram seis bolinhas tipo mafra, por favor.
- Sim senhora. Pode levar esta meia dúzia de pãezinhos fresquinhos, acabadinhos de sair do forno. Aqui tem.
- ... (em pensamento: fresquinhos? Forno? O quê?) Claro, claro. Obrigada.
26. Pão
Máscara versus íntimo, côdea versus miolo. Quem se sobrepõe a quem? Tudo bem: se formos pela literal a côdea é a parte de fora... Mas se não fosse o íntimo a ordenar proteção a côdea não estava lá. Quem resolve o dilema?
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
25. Salsicha
O meu primo de onze mascarou-se de Pai Natal - sempre foi real. A minha afilhada só gargalhava - ah, é o Fábio! És tu, Fábio, és tu! - e até lhe puxou a barba para confirmar a identidade, mas ele não saiu do papel mesmo que completamente desmascarado. O que também não saiu do papel - do de presente, digo - foi um cão para o meu primo. A mãe dele bem que andou semanas à procura de um cão para lhe oferecer... Porém, a chegada do novo membro à família ficou adiada. Isto tudo porque não se decidia a raça do cão. Começou por se falar em cão salsicha, rapidamente se passou para beagle por paixão súbita da minha tia e, depois, à última, já se falava em caniche por ideia repentina do meu tio. A opção beagle e a opção caniche andaram ali às turras com a minha tia a puxar para um lado e o meu tio a puxar para o outro... Acabou em empate. Conclusão: cenas do próximo episódio em janeiro, mês de aniversário do moço.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
24. Acompanhar
Este ano a Bá quis acompanhar-nos no Natal. Enfeitou-nos a árvore e também tornou a porta do meu quarto mais bonita.
(nota: o Yeti é o único que, a pedido, foi obra da minha mãe)
23. Mimo
Uns estudam, outros (e)s(t)ão (n)o mimo.
Vinte e três de dezembro de dois mil e catorze: o dia em que o Yeti se apercebeu que a época de exames voltou. Por isso, eis ele a mostrar-se o fiel companheiro de sempre - o príncipe-urso-branco-fofo enroscadinho apenas ali a mini-centímetros de distância de mim.
(Já reparei que muitas das palavras com um pendor mais querido da Caixa são, muitas vezes, por mim atribuídas ao Yeti. Mas ó p'ra ele: é inevitável.)
22. Propor
Toca o tambor e caí a notícia, ou toca a campainha e corre a conversa - não importa o que o despoleta: em momentos de alegria genuína a minha voz propõe-se a fazer a festa, começa logo a soar em falsete. Aconteceu-me isso anteontem no jantar de regresso da Cati; conversa puxa conversa e às tantas estou a falar e a rir ao mesmo tempo em tons agudos. Quando isto está prestes a apetecer-me em público, como já sei que se acontecer faz com que uns quantos olhares incidam sobre mim, tento ser o mais cautelosa e conscienciosa possível... Mas, quando é genuíno, é genuíno e acabou-se: esteja onde estiver, se estiver contente, sai-me; ouve-se esta e aquela nota exagerada e pronto - nem podia não ser assim ou deixava de ser eu (pelo menos, da mesma forma carregada de como sou agora). O que queria dizer com isto era que, ali, então entre amigos, não tive (nunca tenho, a bem dizer) de me preocupar com absolutamente nada. Ri-me, expressei-me inteira; e foi tão bom aperceber-me disso de novo com aquelas pessoas em específico e que já não via há tanto, tanto tempo; foi tão bom sentir que aquilo que para uns pode ser defeito e para outros qualidade, para eles sou só eu: a Maria - minha, deles, de sempre.
Há que ter cuidado com os falsetes, mas liberar quem se é. Há que mediar certas reações de entusiasmo, mas nunca ousar erradicá-las a todas. O equilíbrio é bonito - e o desequilíbrio, às vezes, também.
21. Aeróbio
Tal como a chama da vela dança sempre mais depressa perante a ameaça de se apagar, somos capazes de alinhar em esforços aeróbios para nos cravarmos aos segundos que sabemos nossos para respirar.
20. Serenata
Mal possas, assiste com um amor às serenatas - até pode, e deve, ser com o próprio para começar. Sê espectador(a) e artista dessa serenidade nata.
19. Validade
Eu bem tento descentrar-me, mas a palavra validade só me leva à matéria de Psicometria. E ainda agora começámos.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
18. Segredo
Pela primeira vez em vinte anos a não-existência do Pai Natal deixou de ser segredo na família. Tudo começou comigo, sou a mais velha dos primos todos. Estava eu a deixar de acreditar no senhor de barbas brancas - não fosse ele chegar-me com umas botas de salto iguaizinhas às da minha madrinha e a eu deparar-me com um fato vermelho guardado no armário - quando se deu o nascimento da bebezada toda. A coisa foi-se arrastando... Mas já de há dois anos para cá que me dei conta que, mais dia menos dia, tudo ia acabar: só a minha afilhada é que ainda acreditava no enredo. Contudo, este ano a pequena entrou para a primária e, como já era de esperar, uma menina disse-lhe que a mítica figura não existia. Descoberto o facto e passados os momentos de desilusão inicial, ela achou por bem não acabar com a tradição e pediu ao meu primo de onze anos que este ano fosse ele a mascarar-se... e ele acedeu. Se isto sempre for para se concretizar, então aguardo ansiosamente por amanhã.
17. Barulho
Tinha uma cabeça de alfinete - tão minúscula, tão minúscula que não conseguia fazer grandes lógicas. As ideias estavam-lhe todas condensadas, amontoadas - faziam barulho, autênticos chifrins, todas elas a pedirem-lhe, ao mesmo tempo, nem que três segundos de total e exclusiva atenção. Mas não dava: tinha uma cabeça de alfinete quando comparada com o tamanho do planeta Terra - planeta esse demasiado estimulante para o que ele se achava capaz de absorver e reter fielmente.
14. Comprar
Vá que as compras de Natal já estão todas feitas. E parece-me que as dos quatro aniversários quase quase consecutivos de janeiro também.
Época de férias para exames e a correria para tentar recuperar tudo ao mesmo tempo: o tempo (quase que me repeti com esta), a matéria, a escrita dentro e fora da Caixa das Palavras, o sono, o aviar das papeladas disto e daquilo, as viagens pela rua feitas de carro ou pelo próprio pé, os reencontros com a velha guarda do canto superior esquerdo do tronco, entre toda uma série de outras coisas que de certeza que me estou a esquecer de momento.
13. Sufixo
A força da gramática na conversão total de emoções:
"O dia não acabou... felizmente";
"O dia não acabou... feliz".
Tudo conta quando se trata de palavras. Tu-do. Não me canso de dizer.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
12. Senha
Se algum dia, num passeio, der de caras com uma casa que me pareça o perfeito esconderijo, atribuo-lhe uma senha de acesso - não relativa à porta mas às janelas: contos-de-fada.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
11. Vilão
Caro vilão dos sonhos, das histórias,
De caro não tens nada, não me custa nada criar-te num papel - tivesse eu de sacar da carteira e tudo seria mais complicado, pois os gastos dela destinam-se sobretudo a cafés e chocolates... Só se agora visse no chocolate um pirata, gatuno da preciosa dieta. Só se for. Mas não; a única coisa que dou por ti é tinta à folha, e quem sabe um borrão ou outro por obra desastrada das minhas mãos. A desastres estás tu acomodado, não é? Oh vilão. Vandalizada tens a cabeça e por isso és vândalo - fosse só isso relativo às ideias idiotas que te percorrem, mas não é: a boca torta e mal-humorada intercalada com sorrisos de escárnio e risos maníacos, a testa enrugada, as sobrancelhas franzidas, o olhar fixo e flamejante. Oh vilão. Porque é que até de nome pendes para a crueldade? Porque é que não podes ser o simples habitante de uma vila?
De caro não tens nada, não me custa nada criar-te num papel - tivesse eu de sacar da carteira e tudo seria mais complicado, pois os gastos dela destinam-se sobretudo a cafés e chocolates... Só se agora visse no chocolate um pirata, gatuno da preciosa dieta. Só se for. Mas não; a única coisa que dou por ti é tinta à folha, e quem sabe um borrão ou outro por obra desastrada das minhas mãos. A desastres estás tu acomodado, não é? Oh vilão. Vandalizada tens a cabeça e por isso és vândalo - fosse só isso relativo às ideias idiotas que te percorrem, mas não é: a boca torta e mal-humorada intercalada com sorrisos de escárnio e risos maníacos, a testa enrugada, as sobrancelhas franzidas, o olhar fixo e flamejante. Oh vilão. Porque é que até de nome pendes para a crueldade? Porque é que não podes ser o simples habitante de uma vila?
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
10. Transformar
O café cheio da manhã a transformar-se em trabalho; o relógio a continuar mas a transformar-se verdadeiramente em tempo; a insegurança a transformar-se em abraços (nem que dados de si para si); o chocolate que não se queria (quem queria só a gula) a transformar-se em não obrigada; o frio a transformar-se em casacos e cobertores; a chuva a transformar-se em campos, os chapéus a transformarem-se de refúgio de um para dois; a pressão interior a transformar-se em lufadas de ar fresco (tomadas de livre e espontânea vontade) no exterior; o cansaço do dia a transformar-se em energia de trazer pelo ginásio e por casa; o lápis afiado e a folha em branco a transformarem-se e de súbito (ou nem tanto, não interessa) era uma vez (interessa só que foi).
Ainda dizem que não existe magia... Esquecem-se é de especificar a qual magia se referem - porque, se for ela assim (como me é), existe.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
09. Labirinto
Nove da manhã. Vencido o labirinto que é uma casa ensonada e que então nos desorienta, o labirinto de pessoas que se forma nos transportes. Tudo porque se insiste em seguir rumo ao labirinto que pode ser a mente das pessoas - bom dia faculdade de Psicologia.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
08. Semestre
São oito da manhã e eu a dormir, mal sei o que vai acontecer quando acordar; mal sei nada: não sei de todo e pronto - nunca sei ou saberei que tijolos vou aglomerar quando, uma vez mais, os pés se juntarem ao chão das manhãs. Adormeci apenas a saber que as grandes coisas acontecem de dia para dia em doses pequeninas; sempre em doses pequeninas, é claro: em doses tão pequenas que só daqui a sensivelmente seis meses é que se vão notar prontas (se não prontas então quase quase prontas) as construções que estiveram a ser feitas a médio prazo. Não me esquecesse eu que cada movimento dado em frente, para trás ou para os lados, seja com sapatos de andar por casa ou de percorrer ruas, são o cimento que, por pequenas e consecutivas camadas, tudo estrutura. Pedra a pedra, bloco a bloco. E, ao fim de muitos semestres, toda uma nova cidade terá sido construída; todo um novo mundo para nós e para os outros.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Dois Mil e Catorze Não Podia Acabar Sem Acontecer Algo do Género
Acabou de ocorrer o momento histórico do ano; de uma vida, até:
Nunca, NUNCA em tempo algum e até onde a minha memória permite chegar me tinham chamado de pessimista. Nunca. Bem destacado a negrito e sublinhado.
(Os créditos de tal feito vão para a Inês.)
07. Impulso
Por favor: se sentires o impulso de voltar a cabeça para trás não te esqueças de ver o que te impulsiona para a frente.
sábado, 6 de dezembro de 2014
06. Lista
- Filho, vou às compras. Queres que ponha alguma coisa na lista? Precisas de alguma coisa?
- Já não, mãe. Agora que perguntaste já não, preocupaste-te comigo e por isso já tenho o que preciso para aguentar o dia. Obrigado.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
05. Sacudir
Estar no meio de uma luta e subitamente alguém à frente a tropeçar; cai lentamente no fundo do poço e começa a ficar anestesiado/a pelo já longo - mas indeterminado - tempo de queda e pela força do embate que no fim se prevê. Acorda, acorda - dizemos qual alma desesperada, então a gritar-lhe, para que a queda passe de passiva a estado de alerta; para que a pessoa se veja com mãos e se agarre às paredes. Gritamos-lhe enquanto contraditoriamente lhe sacudimos o corpo... Tolos. Como se a agilidade da alma estivesse no corpo.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
04. Sorrir
A razão para, por vezes, as confusões ficarem a parecer um autêntico jardim zoológico? As pessoas deixarem de ser pessoas, deixarem de saber falar; haver quem dê para leão e mostre os dentes, e quem dê para pinguim e não faça nada.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
03. Pão de Ló
- Hoje a minha avó mandou-me pão de ló.
- NECAS!... Acabaste de me salvar. Não fazia a mínima ideia do que fazer com a palavra da Caixa das Palavras de hoje.
Isto aconteceu, é verídico. Ficam então a saber que há coincidências que amo assim para imenso - principalmente hoje, que não estou nada de nada virada para pensar muito.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
02. Óbice
Era o ás dos saltos em barreira; quando de repente lhe pediram para saltar, simplesmente saltar, sem quaisquer barreiras à frente... Criou uma:
- Não sei se sou capaz - pensou. - Não sei se tenho talento suficiente para saltar sobre o nada, saltar o mais que possa. Não sei se sou capaz de ultrapassar obstáculos imaginários... Imagino-os tão mais altos do que todos os reais que conheço!
01. Resumir
É um verbo que não consigo. É dar uma ideia do que em mim em vez de todas as ideias que em mim, é sufocar-me no que precisa de respirar, compilar o que é e por isso deixar de ser da mesma maneira. Resumir será sempre resumir-me. No fundo é isto.
"Caixa das Palavras" de Dezembro
[ dia 1 ] - resumir
[ dia 2 ] - óbice
[ dia 3 ] - pão de ló
[ dia 4 ] - sorrir
[ dia 5 ] - sacudir
[ dia 6 ] - lista
[ dia 7 ] - impulso
[ dia 8 ] - semestre
[ dia 9 ] - labirinto
[ dia 10 ] - transformar
[ dia 11 ] - vilão
[ dia 12 ] - senha
[ dia 13 ] - sufixo
[ dia 14 ] - comprar
[ dia 15 ] - tabagismo
[ dia 16 ] - bem estar
[ dia 17 ] - barulho
[ dia 18 ] - segredo
[ dia 19 ] - validade
[ dia 20 ] - serenata
[ dia 21 ] - aeróbio
[ dia 22 ] - propor
[ dia 23 ] - mimo
[ dia 24 ] - acompanhar
[ dia 25 ] - salsicha
[ dia 26 ] - pão
[ dia 27 ] - túlipa
[ dia 28 ] - xeque mate
[ dia 29 ] - verso
[ dia 30 ] - prudência
[ dia 31 ] - activa
«- Já imaginaste a puta da sorte que é haver amanhã, pá? Já viste como é? Estamos aqui, hoje, os dois. E amanhã pode existir. Amanhã pode mesmo existir. Estar aqui, só hoje, já é do caralho, meu. Mas haver amanhã, haver pelo menos a possibilidade de um amanhã, é mesmo incrível. Incrível. Não é? Imagina que caías aqui na Terra sem saberes de nada. E começavas a viver. E começavas a sentir tudo o que há para sentir (e há tanto para sentir, não há? O cheiro das árvores, o raio dos pássaros a voar, como é que eles conseguem, como? E depois as pessoas, pá: as pessoas são qualquer coisa, qualquer coisa mesmo... parecem impossíveis. As pessoas parecem impossíveis. Tão complexas e tão únicas. Não há uma igual, nada igual, à outra. É tudo diferente. O toque delas, e os olhos delas. Que cena. Os olhos delas são uma coisa inexplicável, não é?)... E depois tu chegas aqui, como eu te dizia, e cais aqui e imagina, imagina mesmo, tenta imaginar mesmo, que não sabes de nada até chegares aqui. Chegas aqui como adulto, cais aqui como adulto e estiveste não se sabe onde, foste não se sabe o quê, mas não foste humano, não viveste isto tudo como humano, e chegas aqui e vês isto e começas a sentir isto. E isto tudo começa a entrar-te pelas veias, a correr-te pelo sangue. E apetece-te chorar. Não me fodas, pá. Não me fodas que não há outra hipótese: se caísses nisto tudo e começasses a sentir isto tudo de uma vez a entrar em ti pela primeira vez tu tinhas de chorar, meu. É grande demais. É intenso demais. É impossível demais, sabes? Esta merda é como se não existisse. Vivermos como vivemos, com todas estas possibilidades (podes correr, saltar, gritar, cheirar, tocar, provar, ouvir... e amar, meu. Amar é do caralho. Amar é mesmo impossível. Imagina que chegas aqui e de repente percebes que amas, que tens a inacreditável capacidade de amar. O que deve ser essa cena do amor para quem chega aqui de repente? Deve ser de morrer, meu. Deve ser uma coisa que te faz apetecer ficar por ali, a sentir aquilo. São tantas possibilidades, tanta coisa à tua disposição só por estares. Só tens de estar. E as coisas estão ali, e as sensações estão ali)... E acho que já me perdi outra vez, não foi? Ah! Dizia-te que com estas possibilidades todas viver é como se não existisse. É como estarmos num espaço imaginário. E é essa a magia disto tudo. A magia é mesmo essa: nada existe, pá. Nada disto existe se tu não existires. Pelo menos para ti. Isto é tudo teu. Isto só é porque tu és. És e isto existe e é esta coisa imensa que parece impossível. Se não és esta coisa não existe, desaparece, caput, finito, game over, entendes? Mas acho que já estou a falar demais e se calhar ainda não entendeste o que quero dizer desde o princípio. Deixa cá começar do começo. Então: o fundamental do que te quero dizer é isto: amanhã há um dia novo. Percebes a grandiosidade disto? Esta merda é tão grande e tão avassaladora mesmo que só por um dia, mesmo que só por uns minutos. Se estivesses aqui, caído do nada, por um ou dois ou três minutos já irias embora a dizer que isto foi a melhor experiência que tiveste, a mais filha da puta de tão boa experiência que tiveste. Bastava-te um minuto, pá. E já está: já estavas conquistado, arrebatado. Bastava-te um minuto e já estavas feliz para sempre. Mas não, meu. Não, pá. Tu vais ter, e com sorte vais ter ainda muitas vezes, amanhã. Amanhã vais acordar (e até dormir é do caralho, até dormir é uma experiência-limite, uma morte dos pequeninos, entrar noutro território, viver outras vidas na tua; foda-se, é tão bom. Tão bom. Mas nem vou por aí porque senão nunca mais saía daqui)... Amanhã vais acordar e tens a possibilidade de sentir mais. Ainda mais, já viste bem? Mais coisas novas. Mais coisas pela primeira vez. Podes beijar como nunca antes, comer o que nunca antes, ver o que nunca antes, dizer e ouvir o que nunca antes, fazer o que nunca antes. É incrível, meu. É um milagre. É um cabrão de um milagre. Uma cena impensável. Amanhã podes acordar e mudar tudo ou manter tudo na mesma. Acordas com isso tudo na tua mão. O mundo todo, esta imensidão toda, outra vez. Parece impossível, não é? E ainda tens a puta da lata de chorar tanto, de te queixares tanto, de te martirizares tanto. Ganha mas é juízo. Não me dês cabo da paciência. Vai-te embora, pá, e experimenta ser impossível. Só mais uma vez. E depois outra, vá. Vai. Sê impossível. Até que te seja mesmo impossível.»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Não lhe perdoava amá-la assim.
Um dia pediu-lhe que deixasse de ser perfeita, ela respondeu com toda a perfeição que sim, fez uma cara feia e ele disse "linda", depois despiu-se, o corpo inteiro, os defeitos todos, chamou-lhe a atenção para as estrias na parte de trás das pernas, uma cicatriz no meio da barriga, implorou-lhe que olhasse com atenção, e quando percebeu já ele chorava, os olhos e a perversidade de até o que a estética reprova ser admirável, o amor é cego e abre-nos tanto os olhos.
Depois da tempestade vem o orgasmo.
Abraçaram-se com a vida toda nos braços, não se sabe ao certo quanto apertaram mas sabe-se que quando se despregaram, mais de meia hora depois, havia marcas profundas nas costas e na pele de cada um, havia que regressar aos empregos, a rotina a limitar o eterno, ela falou-lhe da dimensão do medo, do intervalo curto entre a coragem e a loucura, ele preferiu dissertar sobre o intervalo curto entre a morte e a rotina, tudo em segundos e o relógio a doer, há um momento em que há que escolher entre perder-se na vida e vida perdida.
Restava-lhes a loucura para se manterem sãos.
Perderam horas a debater a inutilidade de amar e quando terminaram tinham mudado as suas vidas, ela disse que o amor doía, apagava, acendia, chorava, criava, destruía, construía, adoecia, saltava, gemia, desconfiava, sobrava, ria, rasgava, cortava, colava, cosia, tocava, fugia, libertava, prendia, olhava, escondia, ele acrescentou que para além disso o amor ainda matava, mentia, seduzia, ensinava, conduzia, possuía, descobria, dominava, excitava, contagiava, controlava, alegrava, receava, e era por isso tudo que não servia para nada.
Perceberam profundamente a estupidez de amar e só então amaram.
Não houve notícias de que tivessem regressado aos empregos, nem sequer alguém alguma vez percebeu de que viveram e como subsistiam, soube-se apenas que estiveram sempre juntos, e quando lhes perguntaram, mais de quarenta anos depois, o que faziam, responderam apenas "amamos", e quem perguntou percebeu a palermice absurda do que tinha acabado de perguntar.
Os contos de fadas não existem, contou a fada.»
Um dia pediu-lhe que deixasse de ser perfeita, ela respondeu com toda a perfeição que sim, fez uma cara feia e ele disse "linda", depois despiu-se, o corpo inteiro, os defeitos todos, chamou-lhe a atenção para as estrias na parte de trás das pernas, uma cicatriz no meio da barriga, implorou-lhe que olhasse com atenção, e quando percebeu já ele chorava, os olhos e a perversidade de até o que a estética reprova ser admirável, o amor é cego e abre-nos tanto os olhos.
Depois da tempestade vem o orgasmo.
Abraçaram-se com a vida toda nos braços, não se sabe ao certo quanto apertaram mas sabe-se que quando se despregaram, mais de meia hora depois, havia marcas profundas nas costas e na pele de cada um, havia que regressar aos empregos, a rotina a limitar o eterno, ela falou-lhe da dimensão do medo, do intervalo curto entre a coragem e a loucura, ele preferiu dissertar sobre o intervalo curto entre a morte e a rotina, tudo em segundos e o relógio a doer, há um momento em que há que escolher entre perder-se na vida e vida perdida.
Restava-lhes a loucura para se manterem sãos.
Perderam horas a debater a inutilidade de amar e quando terminaram tinham mudado as suas vidas, ela disse que o amor doía, apagava, acendia, chorava, criava, destruía, construía, adoecia, saltava, gemia, desconfiava, sobrava, ria, rasgava, cortava, colava, cosia, tocava, fugia, libertava, prendia, olhava, escondia, ele acrescentou que para além disso o amor ainda matava, mentia, seduzia, ensinava, conduzia, possuía, descobria, dominava, excitava, contagiava, controlava, alegrava, receava, e era por isso tudo que não servia para nada.
Perceberam profundamente a estupidez de amar e só então amaram.
Não houve notícias de que tivessem regressado aos empregos, nem sequer alguém alguma vez percebeu de que viveram e como subsistiam, soube-se apenas que estiveram sempre juntos, e quando lhes perguntaram, mais de quarenta anos depois, o que faziam, responderam apenas "amamos", e quem perguntou percebeu a palermice absurda do que tinha acabado de perguntar.
Os contos de fadas não existem, contou a fada.»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«[...] quando era criança os velhos eram criaturas estranhas, figuras distantes, de um mistério absurdo, estava tão longe deles como estou de mim, na verdade, mas preciso de um corpo para viver, é essa a maior injustiça disto tudo,
já viste do que seríamos capazes se não houvesse a necessidade de carne, pele e ossos?,
não é o que tem de ser que tem muita força, é o que já não pode ser,
só um estúpido pode ter inventado a fotografia,
que felicidade podem trazer as imagens do que já morreu em nós?,
era uma vez e já foi, a melhor maneira de um velho sofrer é acreditar no que não existe em si, como o coitado que mora aqui à frente, um mês no hospital porque quis competir com um puto de bicicleta, bastava trocarem de corpo e o velho ganhava, tenho a certeza,
bastava trocarmos de corpo para continuarmos, parece simples para um Deus que inventou isto tudo, não parece? [...]»
já viste do que seríamos capazes se não houvesse a necessidade de carne, pele e ossos?,
não é o que tem de ser que tem muita força, é o que já não pode ser,
só um estúpido pode ter inventado a fotografia,
que felicidade podem trazer as imagens do que já morreu em nós?,
era uma vez e já foi, a melhor maneira de um velho sofrer é acreditar no que não existe em si, como o coitado que mora aqui à frente, um mês no hospital porque quis competir com um puto de bicicleta, bastava trocarem de corpo e o velho ganhava, tenho a certeza,
bastava trocarmos de corpo para continuarmos, parece simples para um Deus que inventou isto tudo, não parece? [...]»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Garantiram-me que nunca mais ia conseguir caminhar, e eu aceitei à minha maneira, disse-me um dia o meu avô enquanto corria ao meu lado no parque, eu menino e ele a puxar por mim,
Garantiram-me que nunca mais ia conseguir ter filhos, e eu aceitei à minha maneira,
terá nascido um ano depois o meu pai, e então eu fui percebendo que aceitar não é desistir, há que prosseguir depois da aceitação,
[...]»
Garantiram-me que nunca mais ia conseguir ter filhos, e eu aceitei à minha maneira,
terá nascido um ano depois o meu pai, e então eu fui percebendo que aceitar não é desistir, há que prosseguir depois da aceitação,
[...]»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior. Intragável é não perdoar, não ilibar. E só criticar, só apontar, só atacar. E não criar, não refazer, não imaginar. Intragável é não acreditar. Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso. Intragável é acordar para o dia a recusar o dia, a não querer o dia, a não apetecer o dia, a não pensar nas mil e uma maneiras de o tornar inesquecível. Deixar estar. Não mexer, não querer a ferida se for através da ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido. Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcionado, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito. Intragável é repetir. Hoje como réplica exata de ontem e como réplica exata de amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos atos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo. Intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver. Intragável é o normal, o regular. O que nunca matou ninguém mas que também nunca mudou a vida de alguém. O que não mexe nas entranhas. O texto que não resolve, a decisão que não transforma, o beijo que não arrepia, o sexo que não faz gemer, gritar, saltar. Intragável é não estar apaixonado. Por uma mulher, por um homem, por um gato, por um cão, por um cheiro, por um sol, por uma casa, por uma pele, por um sabor, por um sonho, por um trabalho, por um caminho, por um desejo, por um pecado. Apaixonado. Como um louco. Apaixonado. Inconsequentemente, desvairadamente. Sem parar. Apaixonado. Com todas as veias à procura da paixão, com todo o corpo à procura do prazer. Intragável é o que não é extraordinário. E as coisas extraordinárias não exigem atos extraordinários. As coisas extraordinárias só pedem momentos fáceis. Tão ordinários como aconchegar um cobertor, partilhar uma sobremesa, dar um mergulho no mar, roubar laranjas da árvore do vizinho, passar a tarde a contar anedotas, ouvir as histórias dos pais, ir ao parque com os filhos, partilhar a mesa com os amigos. As coisas extraordinárias não te exigem nada de extraordinário. E é precisamente por isso que são extraordinárias. Como as pessoas extraordinárias. As, as pessoas extraordinárias. Sou viciado em pessoas extraordinárias. As que conseguem feitos incríveis. Como fazerem-me feliz, por exemplo. A minha mulher é extraordinária. Tão linda que nem se diz. E ama-me. Como me ama. Como me quer. Como a quero. E todos os dias é extraordinária. Ai de mim se não fosse. E o mais difícil é manter a paixão. Evitar o intragável. O intragável replicar, o intragável vamos andando, o intragável vai-se aguentando. O intragável gerúndio. Ir vivendo é o mesmo que ir morrendo. Intragável é o normal. Eu exijo o extraordinário. E todos os que amo são extraordinários. Sou tão feliz, meu Deus. Tão feliz. Mesmo quando choro, mesmo quando dói, mesmo quando custa, mesmo quando parece tão pouco isto tudo que sou, isto tudo que vivo, isto tudo que preciso. Sou tão feliz. É tão extraordinário sentir assim, querer assim, existir assim. Até ao final das vísceras, até ao fundo dos ossos. Intragável é não sofrer, não custar. Intragável é o que não é demais. E só o que não é demais é erro. Intragável é não errar, disso estou certo. Mas mais intragável é não amar. Amo-te excessivamente, desculpa. Mas intragável mesmo, não sei se te disse, é não amar.»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«[...] sei que vamos cair de podres também, a pele, estes corpos que agora se encostam, vão ficar flácidos, posso até ficar ainda mais rezingão e tu ainda mais teimosa, vê lá tu, e o que resta quando as pessoas deixam de valer pelas peles e pelos corpos é o que define as pessoas, algumas ficam insuportáveis e feias, porque tudo o que tinham se está a ir, e depois há as outras, as que continuam para além do que perderam, ganham novas vidas à medida em que esta terminada, deixam de ter a pele e o sonho, mas ficam tão lindas, os olhos profundos, têm histórias para contar, dizem a sabedoria de quem já viveu muito e acredita viver outro tanto [...]»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«[...] antes de ti acreditava na possibilidade de não existir a felicidade, seria uma fábula infantil contada desde cedo, os escritores seriam criaturas diabólicas que haviam criado o que só nos fazia sofrer, e amar para sempre só existia nos filmes, duas pessoas apaixonadas a correrem uma para a outra no centro do areal quente de uma praia, mas depois tu chegaste à minha pastelaria, não é minha mas é como se fosse porque só é meu aquilo que eu amo, sorriste a medo e pediste um queque laranja, eu não sei como, até porque não sou de piadolas nem nada disso, disse-te queque não, que não era um queque, muito menos laranja porque nem gosto de política, e tu, ainda me derreto todo quando me lembro disto, garanto-te, riste muito, até tiveste de tapar a boca com a mão, de tão envergonhada do teu riso que estavas, e eu acreditei, logo aí, nesse segundo, em todos os escritores do mundo, afinal os sacanas inventaram o que já existia, e provavelmente é esse o papel primeiro da arte (o que sei eu da arte?, mas aqui vai): inventar o que já existe é a maior de todas as criações.»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«O que ninguém acredita que exista é o que vale pelo que existimos, e a realidade é uma sucessão de enfados até encontrares o que te descalça e te deixa confortável. Quando me pedirem para definir a vida vou dizer "tolos", e eu e tu sabemos que apenas a tolice prova que a felicidade existe.
Antes dois tolos a voar que um certinho no chão.
À volta há amores regulares, amores que se estabilizam, amores que se tornam sólidos a cada dia de concessão. Mas entre nós não há concessões. Entre nós há uma batalha sem restrições que envolve, muitas vezes, choques frontais. E tantas vezes sem qualquer roupa a cobrir-nos o corpo.
A parte boa de estar em guerra contigo é saber que mesmo quando perco saímos a ganhar.
Porque estamos os dois em trincheiras diferentes mas ainda assim do mesmo lado. Tu queres amar-me à tua maneira, eu quero amar-te à minha. Mas ambos queremos que este amor continue.
E o que é a vida senão lutar todos os dias para que o amor continue?
São tão estúpidas, as pessoas que não são estúpidas.
E não percebem que até a rotina pode ser excitante, que todos os dias existem para que o imprevisível aconteça, para que algo nos deixe de coração nas mãos. E sustêm. Guardam desejos para mais tarde, fantasias para depois, revoltas para até nunca. E é assim que se vão adiando à espera do dia da felicidade marcada, do momento da libertação agendada. Mas a felicidade pode ser tudo mas nunca pode ser agendada. Se é uma felicidade agendada não passa de uma pessegada, de uma imensa chachada. Porque só o que nos tira o ar nos enche o peito [...].»
Antes dois tolos a voar que um certinho no chão.
À volta há amores regulares, amores que se estabilizam, amores que se tornam sólidos a cada dia de concessão. Mas entre nós não há concessões. Entre nós há uma batalha sem restrições que envolve, muitas vezes, choques frontais. E tantas vezes sem qualquer roupa a cobrir-nos o corpo.
A parte boa de estar em guerra contigo é saber que mesmo quando perco saímos a ganhar.
Porque estamos os dois em trincheiras diferentes mas ainda assim do mesmo lado. Tu queres amar-me à tua maneira, eu quero amar-te à minha. Mas ambos queremos que este amor continue.
E o que é a vida senão lutar todos os dias para que o amor continue?
São tão estúpidas, as pessoas que não são estúpidas.
E não percebem que até a rotina pode ser excitante, que todos os dias existem para que o imprevisível aconteça, para que algo nos deixe de coração nas mãos. E sustêm. Guardam desejos para mais tarde, fantasias para depois, revoltas para até nunca. E é assim que se vão adiando à espera do dia da felicidade marcada, do momento da libertação agendada. Mas a felicidade pode ser tudo mas nunca pode ser agendada. Se é uma felicidade agendada não passa de uma pessegada, de uma imensa chachada. Porque só o que nos tira o ar nos enche o peito [...].»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«- Então o que fazes?
- Invento.
- O que inventaste hoje?
- Uma nova maneira de abraçar.
Ensinou-me logo ali aquele abraço, a rua toda imóvel a rir-se de nós, alguns olhares de escárnio, e o Zambé e eu aos saltos numa forma de abraço que ninguém entendia mas que sabia bem comó caraças. No final das contas, o que levamos da vida é aquilo que ninguém entende mas que sabe bem comó caraças.»
- Invento.
- O que inventaste hoje?
- Uma nova maneira de abraçar.
Ensinou-me logo ali aquele abraço, a rua toda imóvel a rir-se de nós, alguns olhares de escárnio, e o Zambé e eu aos saltos numa forma de abraço que ninguém entendia mas que sabia bem comó caraças. No final das contas, o que levamos da vida é aquilo que ninguém entende mas que sabe bem comó caraças.»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Ela encontrou um homem perfeito e ele encontrou uma mulher perfeita. Foram andando e, com o tempo, foram desaprendendo a maneira como um dia correram, o que um dia os fazia correr e saltar - mas nunca andar. Vieram os filhos, novos desafios, as rugas, os netos, a pele a ceder e o tempo todo a fazer-se de episódios cada vez mais raros de paixão. Haveriam de morrer distantes, tão distantes quanto a geografia o permitia, até o tamanho insuportável de um mar a separá-los. Certo é que, estranhamente, as lápides de ambos continham o mesmo erro, "uma gralha imperdoável" [...]: a data do falecimento apontava para há mais de trinta anos, nunca ninguém conseguiu entender porquê. A inscrição, essa, imediatamente abaixo da data, é que não tinha qualquer falha.
"Não é parar que é morrer; é ir andando."»
"Não é parar que é morrer; é ir andando."»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«A prova de que as palavras são mentirosas é saber que "roubo" é uma palavra tão má e ainda assim pode ser tão linda, como quando alguém como tu entra pelo meu corpo e me leva a alma, e ficas a saber que foi um roubo, nada menos do que isso, e se eu pudesse gostava era de ser roubada assim por ti todos os dias,
Um dia escrevo um dicionário de palavras feias que tu transformaste em poemas,
Como "sequestro", por exemplo, coisa horrível, toda a gente sabe, menos eu, depois daquele dia em que vieste buscar-me ao trabalho e me disseste "anda que eu não aguento mais", e eu disse "não posso", e tu disseste "podes podes", e a verdade é que podia mesmo, pode-se sempre tudo quando se quer com tudo, e lá fomos os dois, eu sequestrada por ti, amar-nos na parte de trás do teu carro estacionado numa rua suja e sem saída do bairro, e foi aí que percebi que os lugares também são como as palavras, nunca se sabe o que eles são ou valem até sabermos como os vamos ter, como os vamos viver [...]»
Um dia escrevo um dicionário de palavras feias que tu transformaste em poemas,
Como "sequestro", por exemplo, coisa horrível, toda a gente sabe, menos eu, depois daquele dia em que vieste buscar-me ao trabalho e me disseste "anda que eu não aguento mais", e eu disse "não posso", e tu disseste "podes podes", e a verdade é que podia mesmo, pode-se sempre tudo quando se quer com tudo, e lá fomos os dois, eu sequestrada por ti, amar-nos na parte de trás do teu carro estacionado numa rua suja e sem saída do bairro, e foi aí que percebi que os lugares também são como as palavras, nunca se sabe o que eles são ou valem até sabermos como os vamos ter, como os vamos viver [...]»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Pedes-me um conselho, agora que me vou, agora que nesta cama há mais um morto do que um vivo, e eu penso que poderia falar-te em tantas coisas, dizer-te tantas palavras bonitas, que te inspirassem; poderia até citar-te um poema de Pessoa ou de Rilke, um pensamento de um qualquer filósofo famoso; poderia contar-te da importância de aproveitar cada segundo, ou da magia que é saber que se ama; poderia ser o velho mais culto do mundo mas prefiro dizer-te apenas para olhares. Tão simples, apenas isso. Olhar.
Olha. Olha sempre. Olha muito. Olha com olhos de tocar, com olhos de sentir, com olhos de abraçar, de amar, de odiar até. Mas olha. Nunca deixes de olhar. É pelos olhos que a vida acontece. Mesmo que estejas com eles fechados, mesmo que eles não consigam ver. É pelos olhos que a vida acontece.
Olha o espaço inútil entre o sonho e a realidade. Preenche-o. Tenta preenchê-lo com tudo o que és. Há dificuldades grandes para ultrapassar, momentos em que te vai apetecer não olhar. É nesses momentos que tens de olhar mais ainda, é nesses momentos que tens de abrir mais os olhos. Para veres o que podes fazer para passares a ver outra coisa. O segredo do sucesso é ver bem. Perceber quem tens à frente, quem tens ao lado, quem tens atrás. Tens de ver bem para escolheres bem, para decidires bem. Nem que doa, nem que custe, nem que apeteça não olhar. Olha. Olha sempre.
[...] Arrebata-te. Nunca queiras menos do que arrebatar, nunca dês menos do que tudo, nunca entres numa qualquer tarefa se não for para devorar, para consumir, para lamber, para saborear sem deixar um único pedaço intacto. Olha com olhos de viver. Olha com olhos de querer, com olhos de raptar, com olhos, mesmo, de roubar. Rouba o mundo que te está destinado e rouba mais ainda o mundo que não te está destinado. Olha tudo o que puderes, tudo o que souberes. Os mais felizes são os que veem melhor [...] - e sobretudo os que veem do lugar certo. Tudo tem um lugar certo para ser visto. Procura o teu. Todos os olhares têm um lugar feliz. Olha pelo ângulo exato. Podes até cansar-te, fraquejar, porque fraquejar é de homem. Mas nunca deixes de olhar.»
Olha. Olha sempre. Olha muito. Olha com olhos de tocar, com olhos de sentir, com olhos de abraçar, de amar, de odiar até. Mas olha. Nunca deixes de olhar. É pelos olhos que a vida acontece. Mesmo que estejas com eles fechados, mesmo que eles não consigam ver. É pelos olhos que a vida acontece.
Olha o espaço inútil entre o sonho e a realidade. Preenche-o. Tenta preenchê-lo com tudo o que és. Há dificuldades grandes para ultrapassar, momentos em que te vai apetecer não olhar. É nesses momentos que tens de olhar mais ainda, é nesses momentos que tens de abrir mais os olhos. Para veres o que podes fazer para passares a ver outra coisa. O segredo do sucesso é ver bem. Perceber quem tens à frente, quem tens ao lado, quem tens atrás. Tens de ver bem para escolheres bem, para decidires bem. Nem que doa, nem que custe, nem que apeteça não olhar. Olha. Olha sempre.
[...] Arrebata-te. Nunca queiras menos do que arrebatar, nunca dês menos do que tudo, nunca entres numa qualquer tarefa se não for para devorar, para consumir, para lamber, para saborear sem deixar um único pedaço intacto. Olha com olhos de viver. Olha com olhos de querer, com olhos de raptar, com olhos, mesmo, de roubar. Rouba o mundo que te está destinado e rouba mais ainda o mundo que não te está destinado. Olha tudo o que puderes, tudo o que souberes. Os mais felizes são os que veem melhor [...] - e sobretudo os que veem do lugar certo. Tudo tem um lugar certo para ser visto. Procura o teu. Todos os olhares têm um lugar feliz. Olha pelo ângulo exato. Podes até cansar-te, fraquejar, porque fraquejar é de homem. Mas nunca deixes de olhar.»
- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
30. Escutar
...até que um dia me disse "hoje até ouvi passarinhos de manhã". Os passarinhos sempre estiveram lá, sempre cantaram ali ao pé ao amanhecer, mas só naquele dia é que a pessoa os escutou.
A Psicologia a permitir a profissão mais linda e interessante do planeta, desta vez na voz do professor Paulino. E nem vos estou a transcrever o mais emocionante do que ocorreu na jornadas deste sábado - só mesmo tendo estado lá, não consigo dizer-vos; ia-me comovendo centenas de vezes por me ter apercebido que sou ainda mais apaixonada por isto do que pensava que era.
29. Velho
Se é hábito é velho - quais "novos hábitos", quais carapuças; se é novo ainda é algo que salta da rotina.
28. Estranho
Onde para o amor? No quadrado que piso e me detenho porque te vi. Ah pá, pronto: já está. Já disse a palavra que pesa, já tornei os teus olhos assustados, já corei e tive vontade de fugir. Já perdi a coragem das palavras pelo teu sorriso, já me calei só para te ouvir, só para manter um pouco mais os segundos de ti. Não te sei, não me sabes, não sei nada do que é isto e muito menos posso ousar saber o que somos nós, outra palavra pesada, nós, outra tentativa de virar avestruz e esconder o rosto, não é o típico romântico e nem sei se o atípico, mas é o genuíno; e há lá mais genuíno e desconhecido maior que o fascínio, aquilo que não se compreende e no entanto nos desarma como se a verdade acabasse de ter sido revelada em nós. Perdoa-me se sou inconveniente e se pareço louca, mas nunca nenhum amor que senti o conheci regrado e racional, só cheio de razão, isto é, de ti, tu como a razão para tudo. Ou então não me perdoes porque não há nada para perdoar, porque num texto à partida estranho (estranhamos sempre o que nos revolva a barriga, não é?) acabou de se fazer o bem maior e o mal maior, não fosse isso o amor ou as consequências que dele vêm sempre juntas, se é que se pode definir o que é o amor. Não pode, e por isso nada há a perdoar, ninguém sabe se para o alcançar e tocar é este o caminho ou se é outro, é avançar e estar sujeito a nos transformarmos ora em príncipes e princesas ora em palhaços, conheço onde estou mas nunca poderei conhecer o que acontecerá nos sítios onde posso vir ou não a estar. Não te conheço além do olhar que tens, além do sorriso que tens, além do carinho que transmites só por existires, acredita que se há carinho no mundo é porque também existes, se não existisses não conhecia eu a pequena (grande) parcela de conforto que trazes contigo por seres tu, a vida teria menos um pedaço de nuvem, que é como quem diz fofura, asas e céu, há que chamar as coisas pelos nomes, e principalmente as pessoas. Incrível, não é? É o desconhecido que comporta o mistério e nada mais, se vires bem só há mistério porque há o que se desconhece; é só o estranho que nos aguça a curiosidade de viver, e é precisamente não te conhecer que ultimamente me tem feito descobrir um bocadinho mais do que é viver. É estar viva, estares vivo, estarmos vivos e não saber o que pode sair daqui, tantas possibilidades, umas mágicas, outras não, mas ainda assim o não saber chega para nascerem borboletas e isso é mágico, só pode ser, já reparaste que são as borboletas dos únicos animais que também se pode dizer que nascem de outras formas que não a natural? É óbvio que então tem de ser mágico, e depois o mágico e o natural também é maravilhar-me por ti, que és tão bonito mesmo que ainda só te tenha visto alguns ângulos, repara, vi-te apenas alguns e já sei que és bonito, por isso imagina só se visse todos, creio que se fosse isso possível eu acabava arrebatada, ou então começava, recomeçava, renascia, isso, fica mais correto dizê-lo assim. E fica a saber que não estou preocupada com defeitos, se és humano é óbvio que os tens, também eu os tenho, e não há quem se ame que não os tenha e no entanto vês quem se ama a beijar-se, não é caso de suportar o carácter uns dos outros mas sim de abraçá-lo, repara que há diferenças nas palavras, uma é um fardo e outra é paixão; quero-te direito, às avessas, de todas as maneiras e feitios, e ai de ti que duvides disso ou agarro-te nos braços e puxo-te para mim, faço-te sentir que estou aqui para ti, ou onde quer que estejas na altura. É só deixares-me, é só quereres, agora ainda estou longe mas é só pedires-me e eu vou com tudo o que tenho, que é como quem diz pego no coração e em mim e vou, que se lixe quem inventou os bilhetes de regresso, e lixa-se mesmo porque não levo nenhum, para quê se não é esse o caminho que quero? Eu a tentar escrever-te uma coisa bonita e só depois me apercebo que não há nada bonito para escrever se já existes tu, para quê inventar-te se já estás aqui e te posso dar a mão, isto é, se me deixares posso dar-te a mão, claro, senão fico a olhar-te porque todos os segundos de ti são importantes, para ti, obviamente, e para mim também, ficas a saber. Where you invest your love, you invest your life, ouvi noutro dia numa música que não a tua voz mas que só me fez lembrar dela, a verdade é que na falta de melhor saio sempre com um bocadinho mais de vida de onde estás, o melhor só mesmo não sair de lá nunca, quem me dera, ficávamos antes a fazer a nossa vida toda. Não podendo deixa-me ao menos desejar-te tudo de bom para os teus dias, ou antes desejar tudo de bom para os dias porque assim acordas sempre tu, e se existes o mundo ainda roda para ti e por ti, é isso que se quer. Que te cheguem as manhãs como devia chegar o natal, alegre, fresco mas aquecido pela lareira e pelos mimos, sempre pelos mimos. E nem sei se gostas do natal, nem sei se o celebras, se há em casa um pinheiro que reluz ou se é antes o brilho te chega o das estrelas e pronto; chegue-te ele do pinheiro e das estrelas ou só das estrelas, sabe que se há estrelas basta e sobra, valem mais os brilhos que guardamos e levamos no horizonte, sempre.
Obrigada por me dares sempre gratidão como presente, e como a mim a tantos outros, arrisco-me a dizê-lo.
27. Transferir
Um homem num banco de um parque e uma mulher num outro; ou melhor: a mulher - percebeu ele depois por entre o folhear das páginas do seu jornal, havia lá notícia de última hora que fosse mais urgente do que essa. Poisou as folhas, poisou tudo, só não poisou a alma porque precisava dela - algo havia que correr atrás do coração que tinha acabado de lhe fugir, e as pernas não podiam ser porque em condições assim, de nervosismo, só sabiam fraquejar. Foi então até ela medindo cada passo, o mais devagar possível para não tropeçar.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Vou só fazer uma transferência bancária, está bem?
- ...
- ...
- Está bem.
E assim foi: sentou-se ao lado dela.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
26. Abertura
Nunca podemos revelar algo sem esconder algo, e nunca podemos esconder algo sem revelar alguma coisa. Mantendo o metafórico do professor Moreira, a coisa funciona assim: se um muro, o sinal de que há algo que não se quer ao descoberto, algo por dentro a proteger; se uma fenda apesar do muro, a abertura para o que cá no fundo, para o que nos é íntimo.
25. Testar
Testar: o sinónimo esquecido de acordar - percebe quem tiver dois ou mais dedos de testa.
24. Só
Para ser dos magos aprendiz, tinha na solidão a companhia mais sábia dos dias. Já tinha ouvido sobre esses homens mestres, com espírito de barbas longas e branqueadas, e tudo porque sabiam recatar-se no silêncio do mundo para que por fim as profundezas de si. E então também quis ver se sim, se só quem sabe ser só pode ambicionar a um total génio - era isto que lhe chegava e que por isso tanto queria experimentar; tanto quis que foi mesmo, tentou e tentou, tanto tanto treinou que por fim a interiorização. Procurou-se até serem dispensados todos os feitiços de aparição - foi quando a epifania de que o talento era o próprio, o que já vinha consigo por si só sem a interferência nem de terceiros nem de mais nada; foi quando isso, só isso.
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