Hoje sonhei que eu e o meu irmão tínhamos entrado numa biblioteca gigantesca, com prateleiras cheias de livros do chão ao teto encaixadas na parede (estilo Bela e o Monstro versão real). Era eu fascinada que nem vos conto, mas notando imediatamente o meu mano a ficar um pouco tristinho por prever que por ali iríamos passar as próximas horas e que depressa se iriam esgotar possibilidades de coisas com que ele se poderia entreter (convenhamos que aquela biblioteca tinha ar de ser demasiadamente direcionada para gente crescida), fui logo procurar pela secção de crianças. Lá estava ela: uma área quadradada num cantinho daquela imensidão. Mostrei-lha, pois, para ver se ele se entusiasmava um pouco... Qual pouco qual quê - entusiasmou-se foi mais do que devia. Em poucos segundos descobriu que a zona de livros para crianças se estendia para mais do que um andar; foi vê-lo a encontrar umas escadas secretas numa ponta mal iluminada da sala e a subi-las com uma agilidade que me era complicada de acompanhar. Eram quatro andares de livros; quatro; e, se fossem só de livros, estava tudo muito bem... Mas não. A cada andar, para além de livros, havia um gigante sentado num sofá a ver televisão; e, a cada andar, o gigante era cada vez mais perigoso (não me perguntem como o sabia porque tanto eu como o meu irmão nos conseguimos escapar aos primeiros dois gigantes sem eles darem pela nossa passagem). Chegada, assustada e cheia de cautela, ao terceiro andar (nem sequer cheguei a espreitar o quarto), passei por um gigante que, desta vez, também era um papão. Este ouviu-me os passos porque se mexeu quando passei ao lado dele. Porém, como demorou a reagir, tive tempo de me escapulir para o pé do meu irmão, que entretanto tinha parado a correria e também estava num outro sofá em frente a uma outra televisão.
- Ele convidou-nos para jantar - disse-me, muito baixinho, mal me fixei a seu lado. Ahhh pois, está-se mesmo a ver, pensei; percebi logo o que o meu mano quis dizer com aquilo... E eis que o papão chega.
- És a irmã do Rafael?
- Sou.
- Estava a pensar fazer almôndegas com esparguete.
E eu, esperta, a fazer-me de inocentezinha, resolvi nem improvisar muito e colocar-lhe logo o dilema mais básico de todos - aquele que toda a gente que me tenta arrastar para uma refeição com carne tem:
- Mas eu sou vegetariana!
Pronto: era uma vez um papão todo atrapalhado. Daquela é que ele não estava à espera e ficou uns bons momentos a balbuciar sílabas sem sentido nenhum. Via-se perfeitamente que não sabia o que dizer, com medo que lhe fosse descoberta a sua verdadeira intenção (sim, sim: com medo! Quem é a maior, quem é?!).
- Só se ficares para a sobremesa. Faço um esparguete à lagatucini.
Claro que sim, senhor papão. Para além de se pôr para aí a inventar vocabulário totalmente novo que nem o senhor percebe, não é nada estranho sugerir esparguete para sobremesa...
Entretanto acordei - fresquinha que nem uma alface.
Só tenho a dizer o seguinte:
Longa vida aos legumes! Urra! Urra!