terça-feira, 30 de setembro de 2014

30. Sensibilizar

O mundo desequilibrado na sua missão de sensibilização: a professora de Psicometria a falar-nos do enquadramento histórico da cadeira durante DUAS HORAS (a senhora não é minimamente sensível à passagem do tempo, pois não?) e eu em modo bomba-relógio para me desfazer em lágrimas porque , numa qualquer parte do mundo, houve uma borboleta que acabou de poisar numa flor (por assim dizer). 
Oh S. Pedro! Faz fabor: também é o senhor o santo responsável por estes tipos de tempo, por acaso? Hum? É que (não sei se reparou) a coisa não está muito harmoniosa... Não, não.

Future Is Coming, They Say

A Rute é uma fofinha.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

29. Vocabulário

Hoje sonhei que eu e o meu irmão tínhamos entrado numa biblioteca gigantesca, com prateleiras cheias de livros do chão ao teto encaixadas na parede (estilo Bela e o Monstro versão real). Era eu fascinada que nem vos conto, mas notando imediatamente o meu mano a ficar um pouco tristinho por prever que por ali iríamos passar as próximas horas e que depressa se iriam esgotar possibilidades de coisas com que ele se poderia entreter (convenhamos que aquela biblioteca tinha ar de ser demasiadamente direcionada para gente crescida), fui logo procurar pela secção de crianças. Lá estava ela: uma área quadradada num cantinho daquela imensidão. Mostrei-lha, pois, para ver se ele se entusiasmava um pouco... Qual pouco qual quê - entusiasmou-se foi mais do que devia. Em poucos segundos descobriu que a zona de livros para crianças se estendia para mais do que um andar; foi vê-lo a encontrar umas escadas secretas numa ponta mal iluminada da sala e a subi-las com uma agilidade que me era complicada de acompanhar. Eram quatro andares de livros; quatro; e, se fossem só de livros, estava tudo muito bem... Mas não. A cada andar, para além de livros, havia um gigante sentado num sofá a ver televisão; e, a cada andar, o gigante era cada vez mais perigoso (não me perguntem como o sabia porque tanto eu como o meu irmão nos conseguimos escapar aos primeiros dois gigantes sem eles darem pela nossa passagem). Chegada, assustada e cheia de cautela, ao terceiro andar (nem sequer cheguei a espreitar o quarto), passei por um gigante que, desta vez, também era um papão. Este ouviu-me os passos porque se mexeu quando passei ao lado dele. Porém, como demorou a reagir, tive tempo de me escapulir para o pé do meu irmão, que entretanto tinha parado a correria e também estava num outro sofá em frente a uma outra televisão.
- Ele convidou-nos para jantar - disse-me, muito baixinho, mal me fixei a seu lado. Ahhh pois, está-se mesmo a ver, pensei; percebi logo o que o meu mano quis dizer com aquilo... E eis que o papão chega.
- És a irmã do Rafael?
- Sou.
- Estava a pensar fazer almôndegas com esparguete.
E eu, esperta, a fazer-me de inocentezinha, resolvi nem improvisar muito e colocar-lhe logo o dilema mais básico de todos - aquele que toda a gente que me tenta arrastar para uma refeição com carne tem:
- Mas eu sou vegetariana!
Pronto: era uma vez um papão todo atrapalhado. Daquela é que ele não estava à espera e ficou uns bons momentos a balbuciar sílabas sem sentido nenhum. Via-se perfeitamente que não sabia o que dizer, com medo que lhe fosse descoberta a sua verdadeira intenção (sim, sim: com medo! Quem é a maior, quem é?!).
- Só se ficares para a sobremesa. Faço um esparguete à lagatucini.
Claro que sim, senhor papão. Para além de se pôr para aí a inventar vocabulário totalmente novo que nem o senhor percebe, não é nada estranho sugerir esparguete para sobremesa...
Entretanto acordei - fresquinha que nem uma alface.
Só tenho a dizer o seguinte:
Longa vida aos legumes! Urra! Urra!

28. Silêncio

Calçava meias de lã para que a noite não fizesse muito barulho ao correr; tinha a certeza que a noite corria e, por isso, não queria acordar com o barulho - afinal de contas, adormecia e puff: num instantinho, sem dar por isso, ao outro dia já tinha chegado. É como este post: veio, pela calada, em silêncio, em pézinhos de lã (o mais disfarçado que conseguiu para que ninguém desse pela sua chegada tardia), parar ao dia 29 em vez de, como era suposto, ter vindo ainda a 28.

sábado, 27 de setembro de 2014

When Writing Turns "Real"

27. Palavra

Se as palavras se medissem aos palmos e toda a gente no mundo abrisse as mãos, haveria alguma palavra maior do que todas as mãos juntas?
O que faz o tamanho das palavras? O comprimento ou a profundidade? O que querem as pessoas saber quando perguntam qual é que é a maior palavra que existe?
E se, em vez de palmos, as palavras se medissem em palmas: os aplausos seriam a falta ou o sobejo delas?

26. Saia

- Nem vais acreditar...
- ...
- Acabou de me ligar... Mudou de ideias.
- Outra vez?!
- Outra vez! E ainda me perguntou sobre o que vestir logo à noite. Tens sugestões?
- Mas ela agora não estava toda convicta e a dizer que não, que não ia sair? Ah, pá. Já estou a ficar um bocado farta disto tudo... Se é assim: saia, então!

Em Caso de Tempestade:


Como Colar uma Maria ao Ecrã


Há mais... Muito mais! Na volta, vamos a ver, e a série Once Upon a Time - que tem o costume de interligar todas as histórias de fantasia e mais algumas - ainda é, na verdade, um Once Upon a Time 2  - porque à volta da Disney (que já tem anos e anos de existência ao contrário da série), aparentemente, teorias para as coisas se intercalarem umas com as outras também não faltam.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lua de Prata


Pronto: que a greve de Metro tenha servido para se acabarem as greves de histórias.
Prometi-o e, a bem ou a mal, subi de novo ao telhado
Ainda hei de subir mais vezes e, pelo menos, com três temas de conversa: um sol num dia de chuva, 5 velas e 1 violino e alegria (sejam, claro, livres para aumentar a lista a qualquer altura que eu gosto muito de ir visitar a Lua).
Mereço que medalha? Assim é média, vá... A de prata? É que a história (como anunciado) é sobre prata.

25. Travessura

O meu irmão demora eternidades a calçar-se de manhã - não por não saber fazer nós e laços, mas porque acorda feito num caracol de lençóis, preguiça e passadas. Imaginem-lhe então a frustração por a travessura mais recente do Yeti ser desatar-lhe os atacadores dos sapatos mesmo, mesmooo, antes de ele sair para a escola.
Não se ponham com traquinices: os cães são inteligentes e ponto final.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

24. Restaurante

- O que é que estás a fazer?
- Estou a pensar na palavra do dia.
- Qual é a palavra do dia?
- Restaurante.
- Chicha. Sangria. Bolo de Bolacha. Azeitonas. Pão de alho. Pão de alho com azeitonas. As entradas, adoro as entradas. Coca-cola. Ice Tea. Buffet. Sushi.
- Tu a dares-me todo um menu de opções. E se, quando entrasses num restaurante e pedisses a carta, te trouxessem uma carta mesmo, com mensagem dentro?

terça-feira, 23 de setembro de 2014

23. Sim

- Mamã, porque é que ultimamente nunca sabemos se estamos no verão ou no outono? E porque é que parece primavera no inverno?
- Porque o amor não conhece estações. Queres que te conte a história do que aconteceu?
- Sim!
- Olha, foi mesmo assim que tudo começou: sim, aceito, disse a nuvem cinzenta, lavada em lágrimas, ao céu azul e solarengo. E casaram debaixo do arco-íris.
- Então quando me constipo por a meteorologia se confundir uma com a outra ando doente de amor.
- Quando te constipas por a meteorologia se confundir uma com a outra andas doente de amor.

22. Carácter

Se não gosto de ti, não gosto de ti. Uma vez nesse extremo, o meu carácter não me permite dirigir-te (nunca - nem é às vezes) quaisquer caracteres. Não vou inventar travessões à espera de falas - se me conhecesses ficavas a saber que prezo muito as palavras para as usar ao desbarato. Se, por outro lado, insistir em dizer-te um olá que seja (mesmo que baixinho, mesmo que tímido), então é porque valorizo os nosso encontros; sabe que se ao cumprimentar os meus dias fico feliz é porque, em parte, os vejo no teu rosto.

domingo, 21 de setembro de 2014

Digitalizar Significados

data dia 20 de setembro de 2014

21. Sacrifício

Sacrifício: para alguns, o primordial dos sacros ofícios. 
Cruzes credo que se perde a fé toda só de os pensar constantemente sem amor a si mesmos. Soubessem eles que nem todas as cedências tocam o sagrado.
Deus os tenha se Deus a vida tiver.

sábado, 20 de setembro de 2014

20. Amadurecer

Quando o dia amadurecer cairá o anoitecer - como quem diz: quando a criança crescer a adulta saberá erguer-se e caminhar sob mantos negros.
Mas não se julgue que é da cor da noite o aspeto de um coração maduro... A não ser que contenha estrelas dentro, claro.

19. Beijar

Protagonistas: agrafador e bloco de notas cá do sítio (o que eu invento...).

- Acredita em sapos que se transformam em príncipes, menina?
- Não sei. Diria-lhe que sim se se parecesse efetivamente com um sapo, mas não sei o que se parece. E diria-lhe que sim pela simples razão de que ficaria muito espantada perante a existência de um sapo falante... existe lá isso. E aí colocaria, evidentemente, a hipótese de haver bruxaria para aí metida e, em última análise, a remota possibilidade de se esconder um príncipe por detrás de tamanho feito.
- Fique a saber que sapo, crocodilo, lagarto, pessoa, seja o que for que a menina veja em mim, para além de príncipe sou um romântico. Quer que eu lho prove, menina?
- Prove lá.
- Permita-me, então, agora mesmo, provar-lhe os lábios.
- Como?
- Vai um beijo à chuva, menina?

Don't You Remember What Ladybugs Said?

Se vires uma Joaninha, escuta com muita atenção o que ela te disser.
Uma disse-me isto há muito tempo atrás:


18. Nunca

Num piscar de olhos já me estavas a ligar para combinarmos tudo - e noutro piscar tudo apostos ficou.
Há coisas a que nunca se consegue dizer que não por muitos compromissos que se tenha e, todas as que te envolverem - arrisco-me a dizer -, muito dificilmente deixarão de fazer parte dessas coisas.
Já lá iam, pelo menos, dois anos que não recebia um abraço teu. Não te disse: vinha no autocarro a caminho da estação para te reencontrar e só dava pelos meus olhos a pedirem para serem cascatas. Em trinta minutos de viagem fiquei com a sensação que vivi os últimos dois anos, brutalmente de repente, outra vez. Tanta coisa se passou e nós tão longe uma da outra!... Quantas vezes não teria eu ido ter contigo para te contar as últimas, se pudesse? Quantas vezes não teríamos aparvalhado cidade fora como só nós sabemos ser tontas juntas? Quantas vezes não ter-te-ia agarrado na mão com força (para te dar força, lá está) e tu o mesmo? Quantas? Tantas. E, no entanto, habitamos agora locais distintos não deixando de manter as palavras e os gestos possíveis de uma vizinhos dos da outra. A amizade sabe unir-nos à parte tudo o resto que de material nos separa e penso que isso já é algo bem claro desde há sete anos para cá.
Mas afinal o que são os quilómetros quando se gosta assim?
Mas afinal o que vale o tempo a perder(-te) de vista quando te e me sei presente todos os dias acima de tudo e der por onde der?

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar

«O que me fizeste é imperdoável
mas não vires imediatamente aqui para te perdoar
não tem perdão.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Vamos até ao fim do que dói se for preciso ir lá para nunca mais doer assim, vamos até ao final do sonho se for preciso ir lá para não pararmos de sonhar.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Só o que faz chorar tem cabimento.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Só quem nunca deixa de ser completamente de si consegue ser completamente de outra pessoa.
Sou em ti o que nunca poderia deixar de ser, a mulher que nunca fugiu do que a pele lhe dá, que nunca se entregou ao tanto se me dá. Se faço faço-me toda, se quero entrego-me toda, se preciso curvo-me toda. Se estou aqui a viver estou aqui também para ceder. Para saber que não sou menos só porque não sou rainha, e para que todos os reinos se governem por dentro.
Só quem consegue ficar em cacos consegue ser-se por inteiro.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«- Se pudesse ter escolhido o que queria sentir ficaria aquém do que realmente sinto.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar

Não é bem assim, MAS ♥


Maria e a Crónica dos Transportes Públicos

Maria entra no autocarro e cumprimenta o motorista:
- Bom dia.
- Bom dia. O pai, como é que está?
Maria acha estranha aquela pergunta, mas responde:
- Está bem, obrigada.
Maria começa a dirigir-se para um lugar no autocarro, ainda totalmente vazio, quando ouve mais uma pergunta:
- Mas o que é que aconteceu?
- Ahn?
Depois de verificar que o senhor do autocarro não está a olhar para ela é que Maria percebe que ele tem um auricular no ouvido e que está em chamada.

Reação de mim para mim, em relação a mim:


quarta-feira, 17 de setembro de 2014


17. Colaborar

- Co-laboras comigo na preguiça, por favor?

16. Prover

Sobre as minhas mentorandas: provê-las de todas as boas-vindas existentes no globo já está e também já estou pró em vê-las a agradecer galáxias, a mim e aos restantes mentores, por toda a ajuda inicial e por todo acolhimento em geral. Fica agora por vê-las sentirem-se realmente integradas na faculdade mais e mais a cada dia.

15. Responsabilidade

A responsabilidade não veste fato e gravata, anda a nu. Onde quer que se vá está-se exposto à possibilidade de dar por ela em alguém a qualquer momento. 
Haja quem não tem nada a esconder e assuma o que faz.

domingo, 14 de setembro de 2014

14. Branco

E se o ovo, em vez de branco na clara, fosse preto? Aí tínhamos um problema de coerência lexical.

sábado, 13 de setembro de 2014

13. Tinta

- Como estás?
- Branca que nem cal. Não me restam palavras minhas, já só consigo dizer o que toda a gente diz. Sinto-me em branco: num vazio.
- (silêncio prolongado)
- ... E tu? Como estás?
- Sinceramente? Estou-me nas tintas para ti!
- (rosto em choque)
- Não me percebeste. Estou-me nas tintas para ti porque mergulho pincéis, rolos e até braços nos baldes de todas as cores por ti. Sim, isso mesmo: quero oferecer-te tintas contra a palidez das paredes que te limitam e que também tu tas ofereças. Vem comigo, junta-te a mim: suja as mãos com a tonalidade que quiseres e sente-a na pele. Vamos trabalhar juntos, fazer por dar novos tons à tua vida para que te encontres de novo e no que é novo. Estou-me nas tintas para ti e essa é uma das maneiras que uso e usarei para te mostrar que me importo.

12. Ternura

Yeti a caminho de se ir deitar na sua caminha e...
- Vamos dar beijinho à Maria, vamos, Yeti?
É presenciar a mãe a dirigir-se ao meu quarto para me desejar boa noite e o Yeti a voltar para trás, muito rápido, para seguir atrás dela.
Maria dá mil festinhas à bola de pêlo recém-chegada. A bola de pêlo resmunga com rosnares contidos - qual refilão por orgulho e não por motivo - enquanto abana a cauda a uma velocidade imensa. 
Podia já ser isto o enternecimento total, não era? Se calhar até é, mas há coisas que vão além do total: transbordam - estão fartos de saber. Digo: alguns estão fartos de saber, eu não - não me consigo fartar. 
Logo a seguir, o pequeno lança-se numa missão de tornar tudo ainda mais meloso e enche as pernas de Maria com lambidelas sem fim. 
É-me isto o terno e o eterno numa mesma frase.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

De muitos ontens:

Tenho visto tanta gente que adoro tão triste e com tantos problemas que muitas das minhas viagens de autocarro têm sido passadas sem saber para onde dirigir o olhar. Vale-me que os olhos perdem-se mas o coração não - dele são heróis os ouvidos e, por sua vez, a criatividade que estes fazem por escutar. É da criatividade que emergem soluções, não é? Não dispenso a música firmemente encaixada nas orelhas enquanto tento encontrar um pouco de esperança nos sons emitidos pelos passos do mundo. Até agora, pelo caminho, tenho dado por poucos castelos e há certos locais a que chego que me fazem mesmo pensar que, se calhar, é porque existem, de facto, poucos. Mas... muito sinceramente? Nem eu nem estas pessoas que carinhosamente gosto de guardar como minhas de alguma forma precisamos de muitos castelos. Basta que existam, sim? À última só precisamos que existam e que sejam espaçosos para albergar quem lhes é de real merecimento. E que existem uns quantos: existem. Por isso gosto de acreditar que meia parte (ou lá perto) do trabalho está feita.

De ontem:

No meio de um universo que é um monte de nada e que não serve para nada (mas alguém disse que tinha de servir?), vi um passarinho a dormir; estava eu num parque com flores cor de rosa caídas no chão de cimento molhado (devido à tempestade da manhã) e que, portanto, me anunciava (inúteis mas) belos pedaços de nada por todo o lado.
Não imaginam quão bonito pode ser o nada que é um passarinho a dormir... É tão - mas tão!... Quase que podia, mesmo, dizer: nunca vi nada tão bonito.

11. Salada

- Cuidado com isso. Pode ser demasiado pesado para (nos) consumir a certas horas. Ah, e com isso também! Isso aí é uma autêntica salada. Uma misturada de coisas leves, é certo... Porém, uma misturada tão, tão grande, que é preciso não engolires tudo com rapidez por muita fome que tenhas. Digere uma coisa de cada vez ou ainda acabas agoniada.

10. Moda

Dá-me um minuto que já volto com uma aparência diferente, vou só um bocadinho ali a sós com o que me é íntimo. Fica aí à espera que já volto recomposta, não apenas para junto de ti como para junto de mim; deixa-me só despir as lágrimas, deixá-las escorregar pela minha pele abaixo, atirá-las ao chão - elas que caiam todas por terra. Não há o que nos deixe mais a nu do que as lágrimas - e, chorando bem as coisas, antes nua do que a seguir mais esta moda feita para alguém que não eu. Para vestir: outra coisa qualquer, por favor.

09. Saxofone

Há uns dias foi assim:
"Mariaaa! Dei por mim a cantar o Let It Go! :O estou a ver o Factor X e como música de fundo deu essa e eu cantei e sabia a letra +.+ gosto mesmo muito de ti! <3"
O que eu faço às pessoas...
A propósito de eu ser a maluca incondicional da Disney: o Youtube deu-me a conhecer esta maravilha:
Casava-me.

08. Resposta

Aqui somos todos humanos, meus pequenos. Vocês, eles, até eu; todos. Irei tentá-lo - mas não sei se vou conseguir dar-vos uma resposta assertiva para cada uma das vossas dúvidas... Contudo, podem, e já, parar de duvidar se vou ou não responder-vos com amor: vou.
«A Joana espirrava com tanta força que o tempo voltava atrás num minuto. No Inverno, aproveitava para corrigir erros, acertar frases e gestos. Uma espécie de "Ctrl+Z" providencial. Quando o namorado acabou com ela, saiu à rua descalça. À chuva.»

- Francisco Gomes in Nanocontos
«O mais perigoso é o que é razoável.
O que não é bom nem mau - é bonzinho, é mauzinho. O que não entusiasma nem deprime, o que não oferece orgasmos nem lágrimas. O que nem aquece nem arrefece.
O mais perigoso é o que é razoável.
E a razão. A cabra da razão. Noventa por cento das pessoas passam noventa por cento do tempo à procura daquilo que em noventa por cento dos casos serve para absolutamente nada. A cabra da razão. E depois há o "eu bem te disse", o "se fosse eu tinha feito diferente", o abominável "foi o que eu disse". Tudo pela cabra da razão. Tudo pela besta da razão.
Só os que não têm medo de não ter razão podem ser bestiais.
Os que sabem que podem falhar. Os que sabem que fazem a toda a hora merda atrás de merda. Não porque querem. Não porque não tentaram. Mas apenas porque fizeram, porque arriscaram, porque deram o passo em frente quando todas as bestas que estavam à volta, cagadinhas de medo, lhes diziam para parar por ali.
Antes um idiota que tenta do que um génio que aguenta.
E eu sou o gajo que tenta. O gajo que quer diferente de tudo o que vê. O gajo que quando vê algo genial não critica, ressabiado, quem o fez - e que procura, ao invés, fazer ainda melhor. Eu sou o arrogante que acredita que pode fazer melhor do que tudo o que vê. E que faz tudo o que pode para o fazer mesmo. Pode não conseguir (e só ele sabe como custa ficar sempre aquém, ficar sempre a milhas daquilo que gostaria de ter feito, daquilo que gostaria de ter produzido). Mas tenta. Tenta mesmo. Tenta sem hesitar. E sujeita-se à crítica dos bestiais de trazer por casa. Dos que passam a vida a apontar o dedo (e é tão fácil apontar o dedo; qualquer um consegue apontar o dedo; quando não tens mais do que um dedo para apontar apontas o dedo para aguentar: para te aguentares com o peso da tua incapacidade para fazer). Dos que têm sempre a puta da razão porque nunca ousam, por um momento, fazer mais do que aquilo que outros já fizeram. Dos que são, e serão sempre, adjuntos. Eternos adjuntos. Gajos e gajas que nunca perderão o emprego - porque estão acolitados atrás dos que dão a cara, a alma, a vida, por aquilo em que acreditam.
Antes um idiota chapado do que um génio acobardado.
Quando alguém me vir replicar a ideia de alguém pode dar-me um tiro no meio dos olhos. Quando alguém me vir fazer apenas o que os outros já fizeram, escrever como os outros já escreveram, criar o que outros já criaram, pode dar-me um tiro na cabeça. Porque será então que estarei morto. Completamente (e todos sabemos como é possível estar apenas parcialmente) morto. Quando alguém me vir criticar alguém que fez diferente, que ousou diferente, que inventou diferente, pode dar-me um tiro na cabeça. Estou aqui e dou a cara. Sou o Pedro Chagas Freitas e fabrico ideias. Esbofeteiem-me. Sou o Pedro Chagas Freitas e não há um dia só que passe sem inventar algo de novo. Pode ser um texto, uma construção frásica, um uso radical de um sinal de pontuação. Ou então um jogo para crianças, um conceito de programa de televisão, um livro que é tão especial que nem ordem tem. Eu sou o Pedro Chagas Freitas e sou um idiota: eis tudo.
Antes um idiota ostracizado do que um génio domesticado.
E as capelas. E a meia dúzia de iluminados. Os que definem o que é bom e o que é mau com um piscar de olhos. Coitados dos iluminados. Os artistas. Coitados dos artistas. Que ninguém ouse, um dia, chamar-me artista - porque eu sou apenas um suador profissional. O gajo que trabalha que nem um cão para criar o que um dia sonhou que ia criar. E cria mesmo. E é pouco. É sempre pouco. Há sempre mais para criar. E quando não houver mais para criar é porque e tempo de desligar. As máquinas, o coração, a respiração. Parar tudo. Quando já não houver o que criar já não haverá o que viver. Matem-me antes de esse dia chegar. E escrevam na campa, bem claras, as seguintes palavras: aqui está o idiota que só quis fazer o que quis. E conseguiu.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Se tens oitenta anos e queres ainda sentir o orgasmo melhor da tua vida: vai; tenta. Se tens noventa anos e queres ainda escrever o livro da tua vida: ai; tenta. Se tens cem anos e queres ainda encontrar a mulher que vais amar: vai; tenta. O mais provável até pode ser não o conseguires. Mas só o improvável vale a pena. Até a felicidade, se for previsível, é uma tristeza.
Acreditar no improvável é, provavelmente, a melhor decisão que podes tomar na vida.
E ver. Arrisca ver. Ver de verdade. Ver o que só tu consegues ver. Tu vês coisas que mais ninguém vê; eu vejo coisas que mais ninguém vê. Toda a gente vê coisas que mais ninguém vê. E é dessas visões que eu tenho e tu tens que se faz a evolução do mundo. O mundo só avança quando essas visões se transformam em execuções: em atos reais, em matéria palpável. Acreditares no que vês e arriscar apostar no que vês é a única forma de altruísmo que o mundo te dá a executar. Aposta no que é só teu. É só assim que estarás a apostar em tudo o que é nosso.
O mais cego não é o que não vê; nem sequer é o que não quer ver. O mais cego é o que só vê.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«[...] ninguém no seu estado mental perfeito aguenta a vida, o segredo da felicidade é o segredo da dose exata de loucura, haja alguém que tenha coragem para o assumir, e eu tenho, [...]»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar

domingo, 7 de setembro de 2014

07. Meninice

A expressão adulta da minha alegria é sempre, sempre igualzinha à que é própria da meninice - à desses tempos idosos.
«[...] o amor é estar incansavelmente preparado para aquilo que sabemos que nunca acontecerá, [...]»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«Gosto de quando és homem, sabias?,
da maneira como corajosamente te encolhes e me mostras que és tão grande, um gigante imenso que dói,
há tanta gente que não tem tamanho suficiente para ficar pequena, já viste?,
às vezes há tetos insustentáveis dentro de nós, dias que nos pedem desistência, e é então que te deitas e te deixas ir à espera do que te vá buscar,
o mundo precisa de desistências periódicas para continuar, foi o que me ensinaste,
és tanto cobarde como herói e é assim que te amo, o menino que se faz grande para me poder defender,
gosto muito do heroísmo da tua fragilidade,
quando nos deitamos e nos apertamos nas nossas carências sabemos que nos atravessa o que não tem solução, o mal que nos afeta não tem cura, e mesmo assim curamo-nos,
o amor pode muito bem ser apenas a impossibilidade de curar um mal, e depois obviamente curá-lo.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«[...] há um texto para escrever, o drama de um escritor é haver sempre um texto para escrever, e é também a sua sorte, [...]»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
« [...] ias à loja sempre que te apetecia mimar-te, todos os dias, portanto, gostavas daquelas gomas de Coca-Cola, ainda nem as tinhas pago e já tinhas duas ou três na boca, não era elegante mas eras tu,
a elegância é o momento em que tu aconteces, só isso, [...]»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«[...] sabem que viver assim é passageiro, que sentir assim é passageiro,
mas também sabem que viver assim é eterno, que sentir assim é eterno,
são jovens inconsequentes e não sabem o que o futuro lhes reserva, ninguém sabe, mas estão reservados um para o outro, é um bom começo afinal, [...]»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar
«- Só a corda bamba te prende à vida.
- Mas dói. Mas treme.
- E no entanto segura-te. E no entanto agarra-te. Faz-te querer mais daquilo, para sempre daquilo. Só o que te escorrega por entre os dedos te prova verdadeiramente que tens dedos. Só quando estás perante a quase morte valorizas a vida.
- Gostas de tremer?
- Preciso de tremer. Preciso de sentir a corda bamba, as pernas bambas, o corpo bambo. Só o que me tira de mim me alimenta. Um orgasmo faz-me tremer, uma euforia faz-me tremer.
- Uma dor também.
- Tenho de entender o que sou. Mesmo que doa. Só quem treme entende o que é. Os outros não são: vão sendo. E nunca tremem. Tenho uma pena tão grande de quem nunca tremeu. O que andam eles a fazer por aqui? Nada do que não me fez tremer foi inesquecível.
- A vida serve para ter momentos inesquecíveis.
- Nunca te esqueças disso. Só existe vida se algo em ti estiver bambo. Só o que te faz tremer te impede de esquecer.
- Faço-te tremer.
- Sempre.
- E quando parar?
- Teremos de encontrar outros caminhos. Outras formas.
- Outras pessoas?
- Se tiver de ser. As pessoas servem para te manter alerta, para te manter atento, para te manter ligado. Quando uma pessoa que amas serve para te desligar já não é uma pessoa que devas amar. O amor tem de exigir vigilância máxima, tens de ser um soldado no campo de batalha, todo o teu corpo à espera de um ataque, de uma bala perdida. E se há algo em que o amor é imbatível é na quantidade de balas perdidas que liberta. Por vezes és atingido e nem percebes. E já não existe amor, só uma dor que se vai alargando no meio do teu peito, uma dor que te consome, que te dilacera, que te abate. Pensas ser amor e é apenas uma ferida. Há feridas que parecem amor.
- Uma distração e o amor acaba.
- Uma distração e a vida acaba.
- Foi o que eu disse.»

- Pedro Chagas Freitas in Prometo Falhar

sábado, 6 de setembro de 2014

06. Série

(Hoje vou provocar aqui uma quebra na sequência de escritos com que têm sido presenteados neste desafio e trazer-vos uma fotografia.)
Das pancas "o meu caderno é amarelo, por isso chama-se limão":


Inspiração vinda certinha direitinha e muito lindinha diretamente da série Modern Family.

05. Sublime

Aquele encontro foi tudo menos perfeito: um dia cinzento, a ameaçar chuva, com dois seres humanos empurrados, de repente e quase quase que ainda de pijama, da cama para a rua pelos seus cães para um passeio matinal. Dois pares de pálpebras vira-casacas (ora a abrir, ora a fechar), dois tufos de cabelo altamente despenteados, dois conjuntos de passos ensonados... e cruzaram-se dois desejos de bom dia tímidos que se concretizaram logo ali à descarada.
Mas quem é que foi o responsável por desencantar os sinónimos de "sublime", afinal? Quero fazer-lhe uma reclamação. É que é o que está desalinhado que, não raramente, detém poder de sua majestade; e também estou cada vez mais convencida de que mostram mais esplendor as pequenas coisas do que as grandes.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

04. Nobreza

A verdadeira nobreza dispensa títulos. A bem dizer, a verdadeira nobreza dispensa títulos, introduções, descrições,... todas as palavras! Por isso é que há tanta coisa que escapa aos jornais.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014


03. Avisar

Entre mil e um recados encontrados numa casa vazia ao acordar há uns que, tenham o que tiverem lá escrito, se leem assim:

Tenho-te deixado todos os dias um post-it na mesa ao pequeno-almoço só para te avisar que cuido de ti como se fosses (porque és) uma das coisas mais importantes do meu dia.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

02. Sofá

Que se troquem as poltronas por um sofá: para que haja mais espaço para pessoas acompanhadas umas pelas outras; e para que haja mais lugares para as múltiplas possibilidades de nós próprios.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Clarificando...

As insónias acontecem no escuro... No entanto, deixam-te em claro.

01. Metáfora

Olho para a minha pequenina e vejo-a mover-se, falar, vestir-se, pentear-se, enfim, pensar como uma princesa; tal como todas as meninas deviam poder ser. Olho-a e vejo nela concretizados, através de doses diárias de faz de conta, tantos sonhos... Oh, meu amor. Que continue a vida que às vezes é tão crua, mesmo assim, a encantar-te como essas metáforas que preenchem os teus contos. Sim: metáforas. O mundo da fantasia está cheio de metáforas a transportar para a realidade. Não as interpretes na literal, não é isso que é suposto... Mas também não as desprezes. Que continues a ver aqui e ali, nem que meio escondido, algo que te faça respirar a plenos pulmões. O próprio ar é magia, sabes? Só para que o vejas é invisível. É este o dom que te concedo, sim? Para sempre.
Da tua, 
Fada Madrinha.