sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

«Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Neste espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Na nossa resposta está o nosso crescimento e a nossa liberdade»

- por Viktor Frankl (1946)

um dia de cada vez

acabei de entender que ando desaparecida daqui desde metade deste ano. de facto, foi meio-ano que não sei onde se meteu, passou num ápice, a uma velocidade estonteante. chegamos a dezembro e está inaugurada a época dos balanços. olhando para trás, para já, o ano 2017 continua a ser o mais duro que alguma vez vivi. o ano 2018 também teve um sabor agridoce, mas um pouco mais doce que amargo porque hey, aprendemos a estabelecer alguns limites. por um tempo, contudo, estiquei os meus. não tenho dúvida disso, pois andei muitas vezes na linha. o trabalho de investigação que estive (e ainda estou) a fazer é o que resume o grosso do meu ano, aquilo para que mais vivi. é triste dizê-lo assim, mas foi o que aconteceu. e daí, vou sair deste trabalho gritando a alto e bom som que investigação não é para todos, a carreira académica não é para todos... e sem dúvida que não é para mim. e não falo no sentido de não ter competências técnicas para isto: já me disseram que, um dia, se eu quiser, posso voltar. digo que não é para mim do ponto de vista emocional. andei muito mais afastada de mim, do que gosto de fazer, e daqueles de quem gosto. os meus fins-de-semana foram, muitas vezes, passados a trabalhar e, quando assim não o era, lá estava a culpa por não estar a fazê-lo. no início deste mês entreguei o trabalho mais difícil que me foi confiado, publiquei o meu primeiro artigo científico, e estou agora na recta final de três artigos que há muito me acompanham. e daí começar agora a respirar um pouco mais de alívio, um pouco mais de ar.* tirei, também, de mim o peso daquele estágio, que primeiro me foi de uma alegria imensa e que depressa comecei a perceber que ia accionar em mim tendências ansiosas e depressivas, que me ia afastar ainda mais de tudo o que me dá sentido à vida e a quem sou - mais do que a investigação o fez. não: não quero para mim algo que me faz mal! algo que me afasta de mim! algo que não se coaduna com os meus princípios e valores, algo que não me permite espaço para perceber o meu amor pela psicologia, criando revoltas mal direccionadas face a esta área que eu sei que me apaixona, mas cujo mercado de trabalho é, muitas vezes, cruel, fazendo-me questionar tudo.
em breve, um balanço mais bonito chegará.
em breve, estarei de volta. toda eu, de volta.

* amo muito a minha equipa e a minha chefe atual, contudo. além disso, aprendi muito este ano a nível científico e isso é algo de que me orgulho muito. mais: tanto a nível clínico como a nível científico, a minha chefe tornou-se, sem sombra de dúvida, a minha ídolo a nível profissional. duvido que algum dia vá encontrar uma chefe tão maravilhosa e com tanto para ensinar, e uma equipa que me deixe tantas saudades a nível das relações que ali se estabeleceram como esta. nem tudo foi mau, de verdade. muitas coisas boas, comigo, para sempre levarei daqui.

ainda não foi desta

o estágio... o estágio começou por me parecer muito doce, de repente ganhou linhas agridoces, e por fim descobri que seria sempre só acidez e amargura. todas as semanas a sair alguém (estagiários, psis efetivos, terapeutas da fala). um grande quero, posso e mando face aos estagiários, mandando-lhes fazer trinta mil e uma coisas relacionadas e não relacionadas com a psicologia, contactando-os ao fim-de-semana e em horário pós-laboral, deixando-os 1 mês inteiro sem falar nas supervisões para dar prioridade aos que já são da casa há mais tempo, ignorando tentativas de abordagem quando dá jeito e pedindo reuniões com urgência quando lhes interessa. uma grande falta de clareza da chefia e coordenadores para com os técnicos no geral, comunicando em cima da hora horários e sítios para onde ir (descobri recentemente que queriam que fizéssemos deslocações a Santarém, quando ninguém me comunicou isso na entrevista nem em nenhum momento até então). um grande ego por parte da chefe, com direito a discursos megalómanos e a desresponsabilizar-se por completo da saída de cada empregado - "não me sinto minimamente culpada, a única culpa que sinto é pelos erros de casting, não entendi logo como é que as pessoas eram". uma tentativa da chefe, inclusive, de fazer queixa à desordem de uma das (várias) estagiárias que entretanto zarpou dali (e bem!). entre outras situações não bonitas de se escrever - algumas que me fazem inclusivamente questionar se não existem princípios éticos da profissão ali a ser violados em prol de dinheiro para a entidade. comecei a sentir-me cada vez pior e cada vez mais enrolada num grande esquema, baseado em valores e prioridades, no mínimo, questionáveis, e a sentir que, à mínima coisa que pudesse fazer e que não fosse do agrado deles, me iriam tentar prejudicar. então, também disse adeus. justifiquei-me dizendo que se tratava de uma situação pessoal e familiar inesperada, para não entrar em grandes detalhes. face ao meu adeus, nem uma única palavra. então, fiquei com ainda mais certezas de que foi o melhor que podia ter feito, pois parece haver primazia do rancor face à empatia. como é que há psicólogos supostamente empáticos com os seus pacientes dentro do gabinete, fora dele são tão desumanos para com os seus estagiários? estou preferindo a ansiedade de não ter nada garantido para os próximos tempos do que a ansiedade diária que iria viver durante 1 ano naquela equipa a ser espezinhada porque sou uma estagiária e está tudo desesperado para entrar na desordem.

2018 irá terminar em aberto, à semelhança de 2017. mas a luta continua, que eu não sou de desistir. psicologia há de fazer parte da minha vida.

#accionandooplanob

domingo, 30 de setembro de 2018

universo estranhamente alinhado

a semana passada correu extremamente bem, para mim e para todos à minha volta (até estou a estranhar).
quanto a mim... consegui estágio profissional!!!

explicando: é um estágio que cobre as várias áreas da psicologia e para ir começando já nestes últimos três meses do ano, intercalando com o meu trabalho de investigação pois já me tinha comprometido com determinados projetos que não me sinto bem em abandonar (não vou ter férias, vou usar os dias que ainda tinha para poder ir ao local de estágio quando for indispensável eu aparecer). ambas as entidades empregadoras aceitaram este meio-termo de ir fazendo as duas coisas, pelo que estagiar mesmo a sério começo oficialmente a full-time em janeiro. estou contente, mas ainda sem acreditar dado o caminho tão sinuoso até chegar aqui!!! lanço confetis de verdade quando começar a ir efetivamente ao local nos próximos tempos, depois de ter o projeto de estágio submetido e aprovado, e depois de verificar que efetivamente consigo dar resposta aos dois trabalhos sem problemas neste pequeno período. de qualquer forma, já tive formação na sexta-feira relativa ao estágio e gostei muito - tanto do que aprendi, como das pessoas da equipa. como estagiárias fiquei eu e ficou a minha Nês (a sorte e a alegria! juro que não foi cunha nenhuma!), mais duas raparigas da minha faculdade e uma outra rapariga que não conhecemos. um pequeno, grande achado, portanto... já é difícil contratarem um estagiário, então cinco?! fantástico! e pagam! (ah, e foi ainda contratada uma psi já efetiva na desordem e uma terapeuta da fala).
escusado será dizer que não vou ter grande vida até ao final do ano... isto de conciliar dois trabalhos exigentes vai ser dose (e eu a pensar que já estava a voltar a sério à blogosfera)... mas é por uma boa (ótima) razão!

note to self: é sempre em alturas em que me sinto verdadeiramente sintonizada comigo própria que coisas maravilhosas acontecem (olha a bela da crença a ganhar raízes!).

sábado, 22 de setembro de 2018

processo-fénix

um olá pirosão e com purpurinas-estrela para todos vocês. fui ali a outros universos um bocadinho e voltei, não diferente, mas revigorada. fui numa de reset e consegui: reencontrei-me ao virar de uma esquina, depois de muitas voltas dadas já a achar que cirandava sem rumo. encontrei-me foi pequenininha, bebé - a precisar de cuidados, com fome de reaprender e a crescer passinho-a-passinho. por isso, peço paciência. dou-me paciência. tempo, espaço, galáxias. vamos lá coordenar o gps da nossa nave (do nosso coração, entendam-me) e amar essas possibilidades e naturezas infinitas do infinito.

sábado, 28 de julho de 2018

«Melhores avós, melhores netos. Certos de que sobre modelos de relação precoces ficarão sementes que germinarão sempre, pela vida fora, mesmo à distância do que já foi vivido, mesmo depois da presença física daqueles que certamente só privaram connosco nos anos iniciais das nossas vidas, pois a sua memória é eterna e o nosso diálogo interior com cada um deles… perpétuo.» 

 - por Strecht (2016)

domingo, 22 de julho de 2018

"Caixa das Palavras II" de Julho

(Fica a promessa de pôr a Caixa das Palavras de junho em dia, juntamente com esta e com as restantes.)

[ dia 1 ] - silvas
[ dia 2 ] - prato
[ dia 3 ] - ressaca
[ dia 4 ] - emergência
[ dia 5 ] - desordenado
[ dia 6 ] - ameaça
[ dia 7 ] - ranço
[ dia 8 ] - esganiçar
[ dia 9 ] - bravata
[ dia 10 ] - canteiro
[ dia 11 ] - atípico
[ dia 12 ] - outrora
[ dia 13 ] - estática
[ dia 14 ] - tosca
[ dia 15 ] - desespero
[ dia 16 ] - escarpada
[ dia 17 ] - pomar
[ dia 18 ] - charneca
[ dia 19 ] - espantalho
[ dia 20 ] - tangível
[ dia 21 ] - cortina
[ dia 22 ] - descascar
[ dia 23 ] - escrevinhar
[ dia 24 ] - gorjeio
[ dia 25 ] - místico
[ dia 26 ] - assintomático
[ dia 27 ] - escamar
[ dia 28 ] - torneira
[ dia 29 ] - hálito
[ dia 30 ] - vogais
[ dia 31 ] - comedida

São Ciclos

Parece que estamos de férias deste espaço por uns tempos. Preciso de mim noutros locais.
Voltarei entre outro sol e outra lua, ou das letras não me posso manter afastada por muito.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Uma Pessoa "(Es)força(-se)", Mas...

Pronto. Esqueaçam lá. Hoje já não quero fazer doutoramento nenhum outra vez.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Vira-Casacas

Às vezes, penso: queres ver que mesmo depois de tanto fincar o pé que, de tão volátil nas minhas ideias que sou, no fim de tudo, ainda vou acabar a fazer o doutoramento por livre vontade?

Aguardemos. Ontem um potencial tema atraiu-me e já vamos no dia de hoje e ainda o acho giro. Portanto, aguardemos.*

* se bem que o fascínio estava mais em altas durante a manhã; a moleza depois de almoço está a fazer-se sentir.

domingo, 24 de junho de 2018

21. Arrastão

Por vezes, sabe bem ir de arrastão - quando, claro, não nos faz ir de raspão.

20. Exangue

Enxaguou a cara um cento de vezes, mas a vergonha não saiu. A vergonha é uma nódoa que só sai com o produto certo.

19. Extremo

Diz-se que, no extremo, somos irracionais. Mas não é a racionalidade que nos leva a extremos?

18. Calcário

Uma das coisas que mais me diverte no meu amor é ele ser uma mini-enciclopédia andante, fico fascinada a ouvi-lo. Ontem falámos sobre lagos. Parece que existe um na Venezuela onde estão constantemente a cair trovões, que há um outro na Tanzânia que tem tanto calcário que calcifica animais e que até existe um outro em Los Angels que é uma espécie de poço natural de alcatrão. O que eu não sei sobre este planeta.

17. Máquina

Sintra serve-me sempre como máquina do tempo. Desde que comecei a trabalhar que os fins-de-semana me parecem fugir que nem areia por entre os dedos, mas depois visitei Sintra como visito sempre que preciso de uma pausa e eis que quatro horas de vida pareceram doze ou mais. Fossem todas as terrinhas e terriolas (ainda) como Sintra e havia maior saúde mental.

16. Insolência

Insolência e insegurança partilham mais do que as três primeiras letras - olhem que sim.

15. Vibrar

Vibra o despertador, vibra a mesa.
- Ah! Um tremor de terra!!!
O caos instala-se por dentro, afinal não é por fora - mas ele não sabe. Vive o cenário catastrófico de acordar para um dia novo, coitado, achando que ainda é um dia velho.

14. Misterioso

Tudo corre melhor quando aceitamos o misterioso ao invés de lhe fugir, de fingir que não existe. Tudo corre melhor, na verdade, quando aceitamos, quando encaramos de frente, quando admitimos, quando lidamos - quando abraçamos. Não será à toa que o abraço é das melhores coisas que existem, das que mais acalmam, das que mais seguram, das que mais dá forças.

13. Pródigo

Pródigos conheço uns quantos. Não lhes é o maior prodígio, mas também não lhes é o pior defeito, a meu ver. Para mim, o maior defeito de todos será sempre tudo o que tenha a ver com desamor.

12. Forjar

Forjar o conjunto de palavras certas: o orgasmo tanto do escritor como do psicólogo.

11. Sinistro

Sinistro. Diz que somos animais e que temos instinto de sobrevivência, certo? Mas quantos de nós vivem no e para o futuro? Quantos de nós estão ansiosos pelo avançar do relógio? Por aquele tempo  e momento que nunca mais vem? Por chegar mais e mais rápido ao final das nossas vidas?

10. Melindrar

Ninguém me disse que ser adulta era, muitas vezes, sentir-se mais melindrada que uma criança com medo do escuro. Melhor: ninguém me disse que, muitas vezes, ser adulta é igual a estar fechada num quarto escuro - seja a jogar para ver o que se encontra, seja a tremer a um canto, seja,... bom. Que seja antes a relembrar-me que posso sempre acender uma lanterna.

09. Inverosímil

«Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.» Um dos ditados que mais me chateiam - a mim e aposto que à maioria dos seres humanos à face da Terra. Vamos a votos?

08. Bioluminiscência

Não fazia a mínima ideia que, por vezes, à noite, é possível ver como se pirilampos à tona da água. Saber da existência do fenómeno da bioluminiscência revolucionou, pois, a minha bucket list.

07. Povoar

Quero povoar a minha pequena vivência neste mundo com entrega tête-à-tête. Não menos do que isso ou esse será o meu maior arrependimento, maior do que qualquer outro possível, tenho quase cem por cento de certeza.

06. Dependurar

Essa vontade de nos dependurarmos de cabeça para baixo no baloiço, rir, gargalhar, abrir os braços, despentear os cabelos, soltar uns gritinhos histérios. Essa alegria pura de viver e as saudades que deixa em tantos dias. Porque paras por aqui, saudade? Queres-me dizer alguma coisa? Sim. Cada emoção, cada sentimento fala; fala connosco, sobre nós. Há que escutá-los.

05. Amachucar

Amachucar o que machuca, fazer pontaria ao ecoponto. Preferimos transformar o inútil em útil, por aqui. Retenhamos, pois é assim a vida: "essa não me serve, mas talvez sirva a outro". Há que pôr as coisas em perspetiva e saber qual é a nossa no meio de tudo. Cada um calça determinados sapatos, cada um tem os seus formatos e tipos preferidos para caminhar, mas nem todas as dicas e opiniões nos vão chegar em bons modos, assentar que nem uma luva. Não: muitos parecerão lixo, saberão a lixo, cheirarão a lixo. Por isso, reciclemos. Separemos cada coisa de outra, coloquemos cada uma no seu devido lugar para surtir transformações noutras paragens, noutras vidas. Em vez de amontoar tudo no caixote, paremos para ver, para realmente compreender, e tomemos opções conscientes, integras, descansadas - por nós, por todos.

sábado, 23 de junho de 2018

04. Espalhar

Junho: o mês em que me espalhei no chão; ou melhor, nas escadas rolantes; ou melhor, foi o meu rabo que se espalhou. Mas está tudo bem, ando a gelo e pomadinha. Fica, contudo, já aqui divulgado: não recomendo a experiência.

03. Sistemático

Sistemática a procura pela parte que falta, sistemático o falhanço. Faltará, mesmo, alguma coisa?



02. Memória

Desenganem-se aqueles que defendem as partidas da nossa cabeça enquanto atribuíveis ao processo de recuperar do que já foi. A memória é tão traiçoeira quanto a percepção aqui-agora dos nossos sentidos... Umas vezes mais mas, às vezes, até menos.

01. Adormecido

Adormecido do mundo, desligado para a realidade depois de um dia difícil. E, ainda assim, não estará, enquanto dorme, a viver verdadeira e honestamente na mesma?

domingo, 10 de junho de 2018

Boa noite, até amanhã

Love Will Set You Free

'cause this is it

Little Reminder:

(E escrevi eu no diário dos meus 14/15 anos que "nunca vou ser dessas que liga a roupas"... Amm...)

(Quem Não Adora BD Psi?)


Diz que o Estômago é o Segundo Cérebro

100% Accurate

"Caixa das Palavras II" de Junho

[ dia 1 ] - adormecido
[ dia 2 ] - memória
[ dia 3 ] - sistemático
[ dia 4 ] - espalhar
[ dia 5 ] - amachucar
[ dia 6 ] - dependurar 
[ dia 7 ] - povoar 
[ dia 8 ] - bioluminiscência
[ dia 9 ] - inverosímil 
[ dia 10 ] - melindrar
[ dia 11 ] - sinistro
[ dia 12 ] - forjar
[ dia 13 ] - pródigo
[ dia 14 ] - misterioso
[ dia 15 ] - vibrar
[ dia 16 ] - insolência
[ dia 17 ] - máquina
[ dia 18 ] - calcário
[ dia 19 ] - extremo
[ dia 20 ] - exangue
[ dia 21 ] - arrastão
[ dia 22 ] - combativo
[ dia 23 ] - catedral
[ dia 24 ] - enigmático
[ dia 25 ] - sobressalto
[ dia 26 ] - rumo / sem rumo
[ dia 27 ] - pressentir
[ dia 28 ] - secar
[ dia 29 ] - redes
[ dia 30 ] - dunas

31. Rubro

Há pessoas que nos mudam e o Arlindo é uma delas. Agora fico ao rubro com filmes da Marvel e da DC, sendo ainda fã assumida da saga Star Wars. Então, o dia de ontem teve basicamente como principal dilema escolher entre ir ver o Han Solo ou o Deadpool 2. O resto dos filmes no cinema? Puff, interessam lá!...

30. Antigamente

Alto lá! Sendo o tempo relativo e uma invenção do Homem... até que ponto existe o antigamente? Não será tudo o presente? Até porque, tendo acontecido, está presente de alguma maneira.

29. Esquecimento

A Maria do presente nunca estará livre da Maria do passado, uma vez que a do passado resolveu documentar toda a sua adolescência em trinta mil diários. Estava meio que em esquecimento, essa Maria que fui. Acontece que, noutro dia, a minha mãe reencontrou uns tesourinhos e eu dediquei o resto do dia a passar os olhos nas páginas por mim escritas. Resultado? Fui dormir com a barriga a doer de riso, tais eram os meus dramas da altura. Se eu me conhecesse agora, enquanto adolescente, não me aturava. Como tal, resta-me agradecer muito a todos os meus amigos que lealmente cresceram a meu lado sem nunca terem pensado abandonar-me.
(A sério, eu era terrível. Uma pita histérica autêntica, lunática, muito apaixonada mas a roçar ali no psicótico. De verdade.)

28. Azulíneo

Cresci menina toda cor-de-rosa para agora descobrir que sou muito mais menina de azulíneos. Azul pacifica, rosa excita. Rosa lembra-me purpurina e brilhantes pirosões; um mundo de doces, unicórnios, fantasia. Acontece que eu já me excito sozinha que nem criança princesa, sem precisar de cor nenhuma. Assim, uma dose de azul no resto da vida faz-me bem.

27. Entornar

- O que é que te aconteceu? Estás toda encharcada! Apanhaste chuva? Não dei por ela.
- Entornaram-me um copo de lágrimas em cima. Sabes como é que é: não saímos imunes às dores dos que nos são queridos.

26. Interromper

Sei bem que não estou a produzir grandes textos. Sei bem que não estou a escrever com todo meu coração agora. Mas também sei, de coração, que mais vale ir digitando do que interromper por completo a ação. 
Diz que a prática é tudo e que o que mais custa é começar. Depois, seguir sem julgar. Diz que continuar apesar dos tropeços é o que nos faz andar para a frente - e já há muito aprendi que, de facto, é assim que se desbrava caminho. Viajar nas letras não é muito diferente das viagens feitas pelo próprio pé: umas vezes andamos por andar; outras... há algo que nos chama - algo que promete, de nós para nós, baixinho, deslumbrar.

sábado, 9 de junho de 2018

25. Aliviar

Falei cedo demais, ainda que o que tenha dito na altura seja verdade na mesma: tudo se resume à qualidade da comunicação - e dessa qualidade há que cuidar. No mês de maio, eu e o meu amor discutimos feio pela primeira vez. Adivinhem? Coisas não ditas ou meio ditas. No mês de maio, contudo, também relembrámos que bem comunicar é o melhor para aliviar o que está cá dentro. E assim começámos junho prometendo falar tudo na hora certa, conversando ao invés de gritando palavras, silêncios ou gestos que doem. Tudo já está bem.

24. Rancor

Sou dessas em que se conta pelos dedos das mãos as vezes em que sinto rancor por alguém. Mas, quando sinto, fica o aviso: fujam.

23. Verduras

A partir do momento em que um amigo teu partilha uma piada seca sobre as vegetarianas, uma pessoa não tem mais maturidade para encarar a palavra "verduras" da mesma maneira.
Segue a peça (pedindo desde já desculpas a eventuais suscetibilidades; não é da minha autoria e sou vegetariana, mas tem muita graça na mesma):

«- Porque é que a maior parte das putas são vegetarianas?
- Porque as adoram ver-duras.»

22. Bodas

Diz o dicionário que as bodas estão associadas ao casamento. Mas diz que hoje em dia também há bodas de namoro - ou o amor, existindo, não se deve celebrar em todas as suas formas?

21. Lancinante

Feridas na alma são, muitas vezes, mais lancinantes do que aquelas que se levam no corpo. Não é novidade nenhuma, mas ainda somos poucos face àqueles que devíamos ser que realmente dão atenção a esse facto. E o mais curioso é que o ser humano é feito de emoções quase tanto quanto é feito de músculos, ossos e pele, mas isso não chega. Há todo um cepticismo face àquilo que sentimos precisar de ser cuidado. É quase como se estivéssemos a falar na existência de um Deus - por não se ver as pessoas torcem o nariz, ficam de pé atrás. Quando vamos aprender que lá por nossos olhos não verem tudo, não quer dizer que uma coisa não exista, que não é assim tão importante ou que "não é bem assim que funciona"? Quando é que vamos deixar de priorizar apenas um dos 5 sentidos face a todos os outros na nossa conexão com a realidade?

20. Findar

Findam-se prazos mas também se findam trabalhos. So, take it easy.
(Nota-se muito que estou acelerada? Se calhar sim. Mas diz que, entre várias outras coisas que eventualmente depois explicarei, vamos submeter uma comunicação oral para o congresso da Ordem e só falta uma semana para a deadline. Diz que vou ser eu a ir lá em nome da equipa. Ah!!!)

19. Carruagem

Perco carruagens atrás de carruagens e o resultado é ficar ansiosa. Contudo, esqueço que há comboios mais lentos que outros e que basta balancear o atraso recorrendo a um comboio mais rápido do que aquele anterior que já partiu. Tudo se resolve, tudo se faz - e o que não se fizer, paciência. Se não dá para solucionar, não vale a pena por isso soluçar.

18. Aborrecimento

Note-se a ironia da expressão "que aborrecimento!" ser usada para descrever tanto um estado em que nada se passa e nos sentimos à deriva como um estado em que tudo se passa e rebenta dentro de nós. É assim a vida: um fenómeno em que o "é isso ou sopas" não reflete uma escolha concreta entre isso ou sopas mas sim a relatividade, as mais diversas possibilidades, perspetivas e valências.

17. Alarme

Nada do que acontece de preocupante passa do toque de um alarme: faz-se ouvir, vibra, chocalha; por vezes, atordoa. Obriga a sair do nosso estado de adormecimento face à vida, a pôr os pés no chão. Faz acelerar o passo, carregar no botão, tomar decisões entre continuar a ignorar que algo chama ou atender logo ao pedido desse chamamento e desligá-lo por fim. 
Contudo, vamos a ver e depois de tudo passar era só o toque de um alarme. Passou o sobressalto - o equilíbrio voltou.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Brincando de Vidente

De momento, no centro de investigação, tenho dois projetos em mão. A responsável de um deles sempre me deu prazos, a outra não. Desde início que previa que isto ia correr mal quanto à que não deu datas limite. Dizia-me sempre "vá fazendo" e quando lhe perguntei se queria que fosse enviando à medida que fosse completando o trabalho respondeu-me "não, prefiro tudo no fim". Tudo certo então, pensei eu, mas logo a fazer a nota mental de que assim sendo a senhora ainda ia ter de esperar um bocado até ter tudo tudo prontinho, porque digamos que da última vez que verifiquei ainda não era uma máquina.
Ora pois: o que previa aconteceu. De repente, chegou a pedir tudo para ontem. A mim e a todos, que pelos vistos ela tirou o dia para se zangar com tudo o que estava a chateá-la... Quanto a mim, queria que a esta hora já tivesse um artigo todo escrito em português, lido por ela e reescrito em inglês para submetermos em junho. É verdade que já fez um mês desde que comecei a trabalhar, mas digamos que transformar uma dissertação de mestrado em artigo, dissertação essa que está cheia de erros e incompleta, conciliando as tarefas de reorganizar o texto todo, ler mais artigos para encaixar informação e formatar tudo segundo as regras da APA e da revista... Tudo isso, ao mesmo tempo que também se investe num outro projeto de investigação com análise qualitativa (com a qual nunca tinha trabalhado) e com uma temática da qual tão pouco estava informada... Oh 'miga, 'cê 'tá louca. Escrever e ler pode não ser uma tarefa complicada - porque não é - mas é trabalhosa na mesma e leva o seu tempo, ainda para mais quando estamos a falar de algo que a meu ver é muito sério (i.e., trazer ciência cá para fora) e que não pode ser só visto como algo a fazer só porque sim, para pôr um check na lista e adicionar mais uma publicação ao CV. Agora... se a senhora me tivesse avisado com antecedência que queria que eu só demorasse um mês a fazer tudo, aí talvez nos tivéssemos conseguido organizar de outra maneira, não é verdade? Porque sim, um mês dá para muita coisa - agora, se dá para tudo... Diria que é questionável. Seja como for, agradecia muito que me fosse logo dito o que se espera de mim desde início, ao invés de no fim virem cascar por algo que eu não sabia se estava a levar tempo de mais ou não. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Desabafo/Spoiler: OUAT

Deixei de ver Once Upon a Time faz um tempo - estava a tornar-se uma história demasiado rebuscada e complicada, com maldições atrás de maldições no fim de tudo estar  bem, para ainda fazer sentido existir. Entretanto, a série foi cancelada (já se esperava). Então, o episódio final aconteceu e, Maria curiosa como sou, fui ver só essa parte. Bom... Digamos que o final foi (spoiler alert) algo tão foleiro quanto a Rainha Má acabar por ser coroada Rainha Boa pela Branca de Neve e pelo Príncipe Encantado. Digamos que fiquei muito desiludida: a série no início tinha potencial para tanto mais... Enfim, a parte boa foi mesmo que deixei de ver ou tinha ficado muito chateada com este fim depois de tanto acontecimento.

You Only Live Once

Não sei se já o disse, mas gosto de me despedir da minha idade à medida que se aproxima o meu aniversário. Então, ontem adormeci a pensar que hoje seria a minha última segunda-feira da vida - de sempre - com vinte e três anos. Até acordei com outra disposição!...

Seize the day.

À Parte: Questão

Ando com problemas a comentar as páginas da blogosfera. Alguém mais?
(A ironia de ninguém responder na caixa de comentários é que talvez sim.)

sábado, 19 de maio de 2018

16. Índias

Começo a escrever e embarco daqui até às tribos índias. Ergo âncoras, iço as velas, assumo e delego comando do leme, sigo e ignoro mapas. A minha tripulação (de letras) é tão grande quanto for a alma e o horizonte tão infinito quanto for a vontade. Sou simultaneamente uma simples marinheira e a mais ilustre capitã. Apaixona-me isto escrever porque posso tudo.

15. Esplendor

Fecho os olhos e consigo encontrar sempre esplendor numa distância feita de frações de segundo percorrida pela imaginação. Obrigada à minha família por me ter permitido e ainda permitir crescer assim.

14. Ostra

Humanos são tal e qual ostras, já viram? Seres moles, que se protegem dentro de conchas altamente calcificadas e que têm a capacidade de transformar os invasores em pérolas.

13. Anafado

Se os social media nos tornassem anafados, vai na volta e havia mais obesidade do que aquela que existe hoje em dia pela comida.

12. Abc

Tudo começa com a aprendizagem do abc. Existe uma linguagem diferente para cada coisa e, daí, não devemos martirizar-nos por cada calinada dada no seu "português próprio". É tentar de novo - e de novo, e de novo. Por exemplo: sou ainda muito iletrada nisto da vida adulta no geral. Quanto ao trabalho então, só agora comecei a desenhar a letra a e juro que ela me sai torta mais de quinhentas vezes. Mas não há mal nenhum - só não se pode é desistir. A melhoria é uma constante.

11. Encobrir

Pegar em metáforas para pensar sempre correu muito bem para mim. Desta vez, vou usufruir-me do Sol e do enublado: foi a última vez que te encobri, pois entendi que assim, por muito que ainda emanes alguma luz, te estou a impedir de brilhar.

10. Celestial

Gasta-se muito com a eterna procura pelo celestial; investe-se pouco no encontro.

09. Derredor

Passava horas ao derredor de folhas brancas e cadernos de pintar, criando e pintando universos como quisessem ver meus olhos. Ainda faço isso um pouco - ainda que não só diante de folhas e lápis de cor.

08. Esticar

Nem sempre é digna a alegria. Quando estamos a esticá-la à força, não será.

07. Indigno

Não é indigna a tristeza. É indigno nunca sair dela.

06. Adorno

Gosto tanto de adornos como de máscaras: prefiro sem. Sou pelo vai como és e conquista o mundo.

05. Égide

O amor será sempre égide e cura, por muito que haja quem injustamente lhe atribua como sinónimos o desamparo e inúmeras feridas abertas. Ainda assim, podemos aprender muito sobre o amor em momentos de desalento e de sangue a escorrer. Aliás: é, muitas vezes, nesses momentos que mais se aprende sobre o amor.

04. Longevidade

Comentei noutro dia que se tivesse qualidade de vida não me importava de viver muitos anos, mas que se fosse para ficar acamada já não queria. A Vanessa riu-se ironicamente e anunciou que só quer viver até aos 75 anos porque o avô tem 90, perfeita saúde, mas que "não tem qualidade de vida" dados todos os cuidados que é preciso ter quando se acumula longevidade. Deu o exemplo do avô querer viajar de avião e não poder por tal não ser aconselhável. "O corpo não foi feito para viver tanto tempo", argumentou.
Tenho as minhas reservas quanto a esta troca de ideias por conhecer um idoso com bastante saúde, também na casa dos 90 e que, ainda assim, é feliz e aproveita o melhor que os dias têm (acho que é tudo uma questão de perspetiva e da forma como escolhermos adaptar-nos às novas condições a que estamos sujeitos - mesmo que se gostasse muito de andar de avião e de repente tal já não ser possível). Não obstante tudo isto, esta semana choquei com uma frase num artigo que me fez todo o sentido e que seria perfeita para resumir a conversa. Dizia mais ou menos o seguinte: não foi o life span que aumentou, foi o health span. Estou em completo acordo, pois podemos viver muito tempo e não ter saúde; da mesma maneira, também podemos ter saúde mas não necessariamente sentir que estamos a viver coisa alguma*.

* sim, aqui usei life span para falar mais de quality of life, mas foi a analogia que o meu cérebro fez automaticamente ao chocar com a frase.

03. Polvo

Sofremos todos um bocadinho, em algum momento, o síndrome do polvo - sete dias tem a semana, mas achamos que esse tempo não chega; era preciso haver mais um dia para equacionar oito tentáculos, e aí sim termos mãos e pernas para fazer tudo e ir a todo o lado.

02. Explorador

O meu espírito explorador é mais pelas pequenas aventuras do que pelas grandes; é o ato de descobrir nas pequenas coisas um mundo que me traz borboletas à barriga.

(Brincando um pouco: talvez por isso descer uma simples rampa seja o auge da adrenalina para mim.)

01. Fervoroso

- Esse teu discurso é fervoroso demais. Queima os ouvidos de quem escuta.