Quero povoar a minha pequena vivência neste mundo com entrega tête-à-tête. Não menos do que isso ou esse será o meu maior arrependimento, maior do que qualquer outro possível, tenho quase cem por cento de certeza.
domingo, 24 de junho de 2018
06. Dependurar
Essa vontade de nos dependurarmos de cabeça para baixo no baloiço, rir, gargalhar, abrir os braços, despentear os cabelos, soltar uns gritinhos histérios. Essa alegria pura de viver e as saudades que deixa em tantos dias. Porque paras por aqui, saudade? Queres-me dizer alguma coisa? Sim. Cada emoção, cada sentimento fala; fala connosco, sobre nós. Há que escutá-los.
05. Amachucar
Amachucar o que machuca, fazer pontaria ao ecoponto. Preferimos transformar o inútil em útil, por aqui. Retenhamos, pois é assim a vida: "essa não me serve, mas talvez sirva a outro". Há que pôr as coisas em perspetiva e saber qual é a nossa no meio de tudo. Cada um calça determinados sapatos, cada um tem os seus formatos e tipos preferidos para caminhar, mas nem todas as dicas e opiniões nos vão chegar em bons modos, assentar que nem uma luva. Não: muitos parecerão lixo, saberão a lixo, cheirarão a lixo. Por isso, reciclemos. Separemos cada coisa de outra, coloquemos cada uma no seu devido lugar para surtir transformações noutras paragens, noutras vidas. Em vez de amontoar tudo no caixote, paremos para ver, para realmente compreender, e tomemos opções conscientes, integras, descansadas - por nós, por todos.
sábado, 23 de junho de 2018
04. Espalhar
Junho: o mês em que me espalhei no chão; ou melhor, nas escadas rolantes; ou melhor, foi o meu rabo que se espalhou. Mas está tudo bem, ando a gelo e pomadinha. Fica, contudo, já aqui divulgado: não recomendo a experiência.
03. Sistemático
Sistemática a procura pela parte que falta, sistemático o falhanço. Faltará, mesmo, alguma coisa?
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02. Memória
Desenganem-se aqueles que defendem as partidas da nossa cabeça enquanto atribuíveis ao processo de recuperar do que já foi. A memória é tão traiçoeira quanto a percepção aqui-agora dos nossos sentidos... Umas vezes mais mas, às vezes, até menos.
01. Adormecido
Adormecido do mundo, desligado para a realidade depois de um dia difícil. E, ainda assim, não estará, enquanto dorme, a viver verdadeira e honestamente na mesma?
domingo, 10 de junho de 2018
"Caixa das Palavras II" de Junho
[ dia 1 ] - adormecido
[ dia 2 ] - memória
[ dia 3 ] - sistemático
[ dia 4 ] - espalhar
[ dia 5 ] - amachucar
[ dia 6 ] - dependurar
[ dia 7 ] - povoar
[ dia 8 ] - bioluminiscência
[ dia 9 ] - inverosímil
[ dia 10 ] - melindrar
[ dia 11 ] - sinistro
[ dia 12 ] - forjar
[ dia 13 ] - pródigo
[ dia 14 ] - misterioso
[ dia 15 ] - vibrar
[ dia 16 ] - insolência
[ dia 17 ] - máquina
[ dia 18 ] - calcário
[ dia 19 ] - extremo
[ dia 20 ] - exangue
[ dia 21 ] - arrastão
[ dia 22 ] - combativo
[ dia 23 ] - catedral
[ dia 24 ] - enigmático
[ dia 25 ] - sobressalto
[ dia 26 ] - rumo / sem rumo
[ dia 27 ] - pressentir
[ dia 28 ] - secar
[ dia 29 ] - redes
[ dia 30 ] - dunas
31. Rubro
Há pessoas que nos mudam e o Arlindo é uma delas. Agora fico ao rubro com filmes da Marvel e da DC, sendo ainda fã assumida da saga Star Wars. Então, o dia de ontem teve basicamente como principal dilema escolher entre ir ver o Han Solo ou o Deadpool 2. O resto dos filmes no cinema? Puff, interessam lá!...
30. Antigamente
Alto lá! Sendo o tempo relativo e uma invenção do Homem... até que ponto existe o antigamente? Não será tudo o presente? Até porque, tendo acontecido, está presente de alguma maneira.
29. Esquecimento
A Maria do presente nunca estará livre da Maria do passado, uma vez que a do passado resolveu documentar toda a sua adolescência em trinta mil diários. Estava meio que em esquecimento, essa Maria que fui. Acontece que, noutro dia, a minha mãe reencontrou uns tesourinhos e eu dediquei o resto do dia a passar os olhos nas páginas por mim escritas. Resultado? Fui dormir com a barriga a doer de riso, tais eram os meus dramas da altura. Se eu me conhecesse agora, enquanto adolescente, não me aturava. Como tal, resta-me agradecer muito a todos os meus amigos que lealmente cresceram a meu lado sem nunca terem pensado abandonar-me.
(A sério, eu era terrível. Uma pita histérica autêntica, lunática, muito apaixonada mas a roçar ali no psicótico. De verdade.)
28. Azulíneo
Cresci menina toda cor-de-rosa para agora descobrir que sou muito mais menina de azulíneos. Azul pacifica, rosa excita. Rosa lembra-me purpurina e brilhantes pirosões; um mundo de doces, unicórnios, fantasia. Acontece que eu já me excito sozinha que nem criança princesa, sem precisar de cor nenhuma. Assim, uma dose de azul no resto da vida faz-me bem.
27. Entornar
- O que é que te aconteceu? Estás toda encharcada! Apanhaste chuva? Não dei por ela.
- Entornaram-me um copo de lágrimas em cima. Sabes como é que é: não saímos imunes às dores dos que nos são queridos.
26. Interromper
Sei bem que não estou a produzir grandes textos. Sei bem que não estou a escrever com todo meu coração agora. Mas também sei, de coração, que mais vale ir digitando do que interromper por completo a ação.
Diz que a prática é tudo e que o que mais custa é começar. Depois, seguir sem julgar. Diz que continuar apesar dos tropeços é o que nos faz andar para a frente - e já há muito aprendi que, de facto, é assim que se desbrava caminho. Viajar nas letras não é muito diferente das viagens feitas pelo próprio pé: umas vezes andamos por andar; outras... há algo que nos chama - algo que promete, de nós para nós, baixinho, deslumbrar.
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sábado, 9 de junho de 2018
25. Aliviar
Falei cedo demais, ainda que o que tenha dito na altura seja verdade na mesma: tudo se resume à qualidade da comunicação - e dessa qualidade há que cuidar. No mês de maio, eu e o meu amor discutimos feio pela primeira vez. Adivinhem? Coisas não ditas ou meio ditas. No mês de maio, contudo, também relembrámos que bem comunicar é o melhor para aliviar o que está cá dentro. E assim começámos junho prometendo falar tudo na hora certa, conversando ao invés de gritando palavras, silêncios ou gestos que doem. Tudo já está bem.
24. Rancor
Sou dessas em que se conta pelos dedos das mãos as vezes em que sinto rancor por alguém. Mas, quando sinto, fica o aviso: fujam.
23. Verduras
A partir do momento em que um amigo teu partilha uma piada seca sobre as vegetarianas, uma pessoa não tem mais maturidade para encarar a palavra "verduras" da mesma maneira.
Segue a peça (pedindo desde já desculpas a eventuais suscetibilidades; não é da minha autoria e sou vegetariana, mas tem muita graça na mesma):
«- Porque é que a maior parte das putas são vegetarianas?
- Porque as adoram ver-duras.»
22. Bodas
Diz o dicionário que as bodas estão associadas ao casamento. Mas diz que hoje em dia também há bodas de namoro - ou o amor, existindo, não se deve celebrar em todas as suas formas?
21. Lancinante
Feridas na alma são, muitas vezes, mais lancinantes do que aquelas que se levam no corpo. Não é novidade nenhuma, mas ainda somos poucos face àqueles que devíamos ser que realmente dão atenção a esse facto. E o mais curioso é que o ser humano é feito de emoções quase tanto quanto é feito de músculos, ossos e pele, mas isso não chega. Há todo um cepticismo face àquilo que sentimos precisar de ser cuidado. É quase como se estivéssemos a falar na existência de um Deus - por não se ver as pessoas torcem o nariz, ficam de pé atrás. Quando vamos aprender que lá por nossos olhos não verem tudo, não quer dizer que uma coisa não exista, que não é assim tão importante ou que "não é bem assim que funciona"? Quando é que vamos deixar de priorizar apenas um dos 5 sentidos face a todos os outros na nossa conexão com a realidade?
20. Findar
Findam-se prazos mas também se findam trabalhos. So, take it easy.
(Nota-se muito que estou acelerada? Se calhar sim. Mas diz que, entre várias outras coisas que eventualmente depois explicarei, vamos submeter uma comunicação oral para o congresso da Ordem e só falta uma semana para a deadline. Diz que vou ser eu a ir lá em nome da equipa. Ah!!!)
19. Carruagem
Perco carruagens atrás de carruagens e o resultado é ficar ansiosa. Contudo, esqueço que há comboios mais lentos que outros e que basta balancear o atraso recorrendo a um comboio mais rápido do que aquele anterior que já partiu. Tudo se resolve, tudo se faz - e o que não se fizer, paciência. Se não dá para solucionar, não vale a pena por isso soluçar.
18. Aborrecimento
Note-se a ironia da expressão "que aborrecimento!" ser usada para descrever tanto um estado em que nada se passa e nos sentimos à deriva como um estado em que tudo se passa e rebenta dentro de nós. É assim a vida: um fenómeno em que o "é isso ou sopas" não reflete uma escolha concreta entre isso ou sopas mas sim a relatividade, as mais diversas possibilidades, perspetivas e valências.
17. Alarme
Nada do que acontece de preocupante passa do toque de um alarme: faz-se ouvir, vibra, chocalha; por vezes, atordoa. Obriga a sair do nosso estado de adormecimento face à vida, a pôr os pés no chão. Faz acelerar o passo, carregar no botão, tomar decisões entre continuar a ignorar que algo chama ou atender logo ao pedido desse chamamento e desligá-lo por fim.
Contudo, vamos a ver e depois de tudo passar era só o toque de um alarme. Passou o sobressalto - o equilíbrio voltou.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
Brincando de Vidente
De momento, no centro de investigação, tenho dois projetos em mão. A responsável de um deles sempre me deu prazos, a outra não. Desde início que previa que isto ia correr mal quanto à que não deu datas limite. Dizia-me sempre "vá fazendo" e quando lhe perguntei se queria que fosse enviando à medida que fosse completando o trabalho respondeu-me "não, prefiro tudo no fim". Tudo certo então, pensei eu, mas logo a fazer a nota mental de que assim sendo a senhora ainda ia ter de esperar um bocado até ter tudo tudo prontinho, porque digamos que da última vez que verifiquei ainda não era uma máquina.
Ora pois: o que previa aconteceu. De repente, chegou a pedir tudo para ontem. A mim e a todos, que pelos vistos ela tirou o dia para se zangar com tudo o que estava a chateá-la... Quanto a mim, queria que a esta hora já tivesse um artigo todo escrito em português, lido por ela e reescrito em inglês para submetermos em junho. É verdade que já fez um mês desde que comecei a trabalhar, mas digamos que transformar uma dissertação de mestrado em artigo, dissertação essa que está cheia de erros e incompleta, conciliando as tarefas de reorganizar o texto todo, ler mais artigos para encaixar informação e formatar tudo segundo as regras da APA e da revista... Tudo isso, ao mesmo tempo que também se investe num outro projeto de investigação com análise qualitativa (com a qual nunca tinha trabalhado) e com uma temática da qual tão pouco estava informada... Oh 'miga, 'cê 'tá louca. Escrever e ler pode não ser uma tarefa complicada - porque não é - mas é trabalhosa na mesma e leva o seu tempo, ainda para mais quando estamos a falar de algo que a meu ver é muito sério (i.e., trazer ciência cá para fora) e que não pode ser só visto como algo a fazer só porque sim, para pôr um check na lista e adicionar mais uma publicação ao CV. Agora... se a senhora me tivesse avisado com antecedência que queria que eu só demorasse um mês a fazer tudo, aí talvez nos tivéssemos conseguido organizar de outra maneira, não é verdade? Porque sim, um mês dá para muita coisa - agora, se dá para tudo... Diria que é questionável. Seja como for, agradecia muito que me fosse logo dito o que se espera de mim desde início, ao invés de no fim virem cascar por algo que eu não sabia se estava a levar tempo de mais ou não.
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Desabafo/Spoiler: OUAT
Deixei de ver Once Upon a Time faz um tempo - estava a tornar-se uma história demasiado rebuscada e complicada, com maldições atrás de maldições no fim de tudo estar bem, para ainda fazer sentido existir. Entretanto, a série foi cancelada (já se esperava). Então, o episódio final aconteceu e, Maria curiosa como sou, fui ver só essa parte. Bom... Digamos que o final foi (spoiler alert) algo tão foleiro quanto a Rainha Má acabar por ser coroada Rainha Boa pela Branca de Neve e pelo Príncipe Encantado. Digamos que fiquei muito desiludida: a série no início tinha potencial para tanto mais... Enfim, a parte boa foi mesmo que deixei de ver ou tinha ficado muito chateada com este fim depois de tanto acontecimento.
You Only Live Once
Não sei se já o disse, mas gosto de me despedir da minha idade à medida que se aproxima o meu aniversário. Então, ontem adormeci a pensar que hoje seria a minha última segunda-feira da vida - de sempre - com vinte e três anos. Até acordei com outra disposição!...
Seize the day.
À Parte: Questão
Ando com problemas a comentar as páginas da blogosfera. Alguém mais?
(A ironia de ninguém responder na caixa de comentários é que talvez sim.)
sábado, 19 de maio de 2018
16. Índias
Começo a escrever e embarco daqui até às tribos índias. Ergo âncoras, iço as velas, assumo e delego comando do leme, sigo e ignoro mapas. A minha tripulação (de letras) é tão grande quanto for a alma e o horizonte tão infinito quanto for a vontade. Sou simultaneamente uma simples marinheira e a mais ilustre capitã. Apaixona-me isto escrever porque posso tudo.
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15. Esplendor
Fecho os olhos e consigo encontrar sempre esplendor numa distância feita de frações de segundo percorrida pela imaginação. Obrigada à minha família por me ter permitido e ainda permitir crescer assim.
14. Ostra
Humanos são tal e qual ostras, já viram? Seres moles, que se protegem dentro de conchas altamente calcificadas e que têm a capacidade de transformar os invasores em pérolas.
13. Anafado
Se os social media nos tornassem anafados, vai na volta e havia mais obesidade do que aquela que existe hoje em dia pela comida.
12. Abc
Tudo começa com a aprendizagem do abc. Existe uma linguagem diferente para cada coisa e, daí, não devemos martirizar-nos por cada calinada dada no seu "português próprio". É tentar de novo - e de novo, e de novo. Por exemplo: sou ainda muito iletrada nisto da vida adulta no geral. Quanto ao trabalho então, só agora comecei a desenhar a letra a e juro que ela me sai torta mais de quinhentas vezes. Mas não há mal nenhum - só não se pode é desistir. A melhoria é uma constante.
11. Encobrir
Pegar em metáforas para pensar sempre correu muito bem para mim. Desta vez, vou usufruir-me do Sol e do enublado: foi a última vez que te encobri, pois entendi que assim, por muito que ainda emanes alguma luz, te estou a impedir de brilhar.
09. Derredor
Passava horas ao derredor de folhas brancas e cadernos de pintar, criando e pintando universos como quisessem ver meus olhos. Ainda faço isso um pouco - ainda que não só diante de folhas e lápis de cor.
06. Adorno
Gosto tanto de adornos como de máscaras: prefiro sem. Sou pelo vai como és e conquista o mundo.
05. Égide
O amor será sempre égide e cura, por muito que haja quem injustamente lhe atribua como sinónimos o desamparo e inúmeras feridas abertas. Ainda assim, podemos aprender muito sobre o amor em momentos de desalento e de sangue a escorrer. Aliás: é, muitas vezes, nesses momentos que mais se aprende sobre o amor.
04. Longevidade
Comentei noutro dia que se tivesse qualidade de vida não me importava de viver muitos anos, mas que se fosse para ficar acamada já não queria. A Vanessa riu-se ironicamente e anunciou que só quer viver até aos 75 anos porque o avô tem 90, perfeita saúde, mas que "não tem qualidade de vida" dados todos os cuidados que é preciso ter quando se acumula longevidade. Deu o exemplo do avô querer viajar de avião e não poder por tal não ser aconselhável. "O corpo não foi feito para viver tanto tempo", argumentou.
Tenho as minhas reservas quanto a esta troca de ideias por conhecer um idoso com bastante saúde, também na casa dos 90 e que, ainda assim, é feliz e aproveita o melhor que os dias têm (acho que é tudo uma questão de perspetiva e da forma como escolhermos adaptar-nos às novas condições a que estamos sujeitos - mesmo que se gostasse muito de andar de avião e de repente tal já não ser possível). Não obstante tudo isto, esta semana choquei com uma frase num artigo que me fez todo o sentido e que seria perfeita para resumir a conversa. Dizia mais ou menos o seguinte: não foi o life span que aumentou, foi o health span. Estou em completo acordo, pois podemos viver muito tempo e não ter saúde; da mesma maneira, também podemos ter saúde mas não necessariamente sentir que estamos a viver coisa alguma*.
Tenho as minhas reservas quanto a esta troca de ideias por conhecer um idoso com bastante saúde, também na casa dos 90 e que, ainda assim, é feliz e aproveita o melhor que os dias têm (acho que é tudo uma questão de perspetiva e da forma como escolhermos adaptar-nos às novas condições a que estamos sujeitos - mesmo que se gostasse muito de andar de avião e de repente tal já não ser possível). Não obstante tudo isto, esta semana choquei com uma frase num artigo que me fez todo o sentido e que seria perfeita para resumir a conversa. Dizia mais ou menos o seguinte: não foi o life span que aumentou, foi o health span. Estou em completo acordo, pois podemos viver muito tempo e não ter saúde; da mesma maneira, também podemos ter saúde mas não necessariamente sentir que estamos a viver coisa alguma*.
* sim, aqui usei life span para falar mais de quality of life, mas foi a analogia que o meu cérebro fez automaticamente ao chocar com a frase.
03. Polvo
Sofremos todos um bocadinho, em algum momento, o síndrome do polvo - sete dias tem a semana, mas achamos que esse tempo não chega; era preciso haver mais um dia para equacionar oito tentáculos, e aí sim termos mãos e pernas para fazer tudo e ir a todo o lado.
02. Explorador
O meu espírito explorador é mais pelas pequenas aventuras do que pelas grandes; é o ato de descobrir nas pequenas coisas um mundo que me traz borboletas à barriga.
(Brincando um pouco: talvez por isso descer uma simples rampa seja o auge da adrenalina para mim.)
quinta-feira, 10 de maio de 2018
terça-feira, 8 de maio de 2018
(...)
Sabem aquele estado de vai-se andando? É muito aquilo que sinto que está a acontecer enquanto trabalho em investigação. Não é um mau trabalho mas, para mim, também não me enche as medidas. Dou por mim a desejar arduamente que (mais) este ano acabe de uma vez por todas, que chegue finalmente 31 de dezembro, que o dinheiro que vou ganhar por aqui esteja todo na conta e que a minha liberdade seja conquistada uma vez mais para tentar pôr as mãos na massa enquanto clínica pura. Pois é: nunca pensei dizê-lo, mas parece que a minha maior motivação para estar aqui é mesmo o dinheiro que vou conseguir juntar para ficar mais perto de outros sonhos. E, claro, porque mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, e assim ao menos o meu currículo não tem um espaço vazio relativamente à minha formação de base. É só isto - é só e exclusivamente isto que me faz levantar da cama todos os dias para vir trabalhar. Isso e impedir-me de pensar muito no que estou a fazer, assim como repetir para mim própria aquilo que todos os outros que me rodeiam acham: ah, isto é uma boa oportunidade.
Uma boa oportunidade... sim, é. Se eu quisesse fazer disto carreira então, já cá estava dentro. Mas eu não sou feliz aqui. Sinto-me um bocado como quem vai para medicina porque há a convenção social de que é muito bom, mesmo se, se formos a ver, o verdadeiro sonho profissional seja na área da pintura. Mas claro, não sejamos injustos: não é só a convenção social que me faz estar aqui. Como disse, não é uma má coisa de se estar a fazer. A meu ver, e tendo em conta os meus gostos pessoais, pode-se dizer que estou satisfeita q.b., não estou infeliz - simplesmente, também não estou feliz. E isso chateia-me muito - não estar a viver plenamente de acordo com o coração como estou habituada a fazer desde que sou gente. Só que, enfim, a vida não me deixou, ainda, alinhar o meu modo de estar no mundo com as oportunidades do meu caminho... Tanto que, pronto: mais vale um pássaro na mão do que dois a voar e aceitei o mais-ou-menos por não haver o ideal.
Agora: estou rodeada de pessoas doutoradas, a fazer o doutoramento, ou que estão altamente motivadas para concorrer a uma bolsa de doutoramento a seguir. Ou seja, sinto-me um verdadeiro peixe fora de água. Eu? Fazer doutoramento? Ainda por cima... já? Eu estou farta da vida académica, pessoas! Fartinha! Gosto muito de aprender mais dentro da minha área, mas se ainda não cheguei ao meu limite de estudo constante sem dar consultas pelo caminho - o que eu chamo de trabalhar efetivamente - com certeza que vou chegar até dezembro. Neste momento, não me sinto nem trabalhadora nem estudante - sinto-me ali no meio termo. A questão é que eu quero sentir-me trabalhadora.
Raios parta a porcaria da desordem, que não serve mais para desordenar a vida às pessoas e dizer (como se acima da lei constitucional?) que a educação superior não chega para trabalhar...
A parte lógica de mim vê várias vantagens em seguir o mesmo caminho que todas estas pessoas que se regem para e pela vida de PhD, mas importa-me mais o peso pessoal que as vantagens e desvantagens têm em mim do que propriamente a quantidade delas que constam na lista...
quinta-feira, 3 de maio de 2018
"Caixa das Palavras II" de Maio
[ dia 1 ] - fervoroso
[ dia 2 ] - explorador
[ dia 3 ] - polvo
[ dia 4 ] - longevidade
[ dia 5 ] - égide
[ dia 6 ] - adorno
[ dia 7 ] - indigno
[ dia 8 ] - esticar
[ dia 9 ] - derredor
[ dia 10 ] - celestial
[ dia 11 ] - encobrir
[ dia 12 ] - abc
[ dia 13 ] - anafado
[ dia 14 ] - ostra
[ dia 15 ] - esplendor
[ dia 16 ] - índias
[ dia 17 ] - alarme
[ dia 18 ] - aborrecimento
[ dia 19 ] - carruagem
[ dia 20 ] - findar
[ dia 21 ] - lancinante
[ dia 22 ] - bodas
[ dia 23 ] - verduras
[ dia 24 ] - rancor
[ dia 25 ] - aliviar
[ dia 26 ] - interromper
[ dia 27 ] - entornar
[ dia 28 ] - azulíneo
[ dia 29 ] - esquecimento
[ dia 30 ] - antigamente
[ dia 31 ] - rubro
segunda-feira, 30 de abril de 2018
domingo, 29 de abril de 2018
29. Estante
Tantas estantes cheias de livros e tanto aborrecimento porquê?
Tantos dias repletos de histórias e tanto enfado porquê?
Tanta vida a abarrotar de... bem, vida, e tanto tédio por-quê?
sábado, 28 de abril de 2018
28. Esmero
Incrivelmente, é quando menos alinho no perfecionismo que mais sinto que me esmero - para com a minha qualidade de vida, pelo menos.
sexta-feira, 27 de abril de 2018
27. Maçada
Óbvio que nossa massa cinzenta, por vezes, não consegue ser mais nada que uma verdadeira maçada para nós. Está-lhe nas entranhas - na etiologia - não é?
quinta-feira, 26 de abril de 2018
26. Ais
A vida até me é bastante justa, não me posso queixar. Na balança, tenho muitos ai ai ais de aflição em equilíbrio com ai ai ais de entusiasmo. Nem sempre ao mesmo tempo, nem sempre na mesma área - mas, se pensar em modo geral, encontro harmonia.
quarta-feira, 25 de abril de 2018
25. Soldar
Tenho botas mal soldadas e que por várias vezes me humidificam as meias em dias de chuva. É das sensações mais desconfortáveis, essa; contudo, das recordações mais felizes que trago comigo respeitam a dias em que estava tão nas nuvens que não me importei nem um pouco de chegar a casa encharcada da cabeça aos pés. Estava confortável por dentro, sabem? Julgo que, no fim de tudo, é isso que mais conta.
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Do Baú,
Entre dias e noites,
Excertos de Amor
terça-feira, 24 de abril de 2018
Dois Dias de Bolseira Depois...
Este trabalho não me vai dar só salário, conhecimento, estaleca e artigos publicados. Vai dar-me também umas pernas bem tonificadas, ou não passa na cabeça de ninguém quanto elas me doem de tanto subir e descer escadas... Todo o edifício é feito de escadas - até para ir à casa de banho: tenho de descer dois andares e depois subir de novo para o centro de investigação. Uma das minhas colegas fez questão de contar os degraus: quarenta e cinco só para uma ida à casa de banho. Fora todos os outros para ir ao bar, aos serviços administrativos, entre outros.
segunda-feira, 23 de abril de 2018
domingo, 22 de abril de 2018
22. Sulfuroso
Curiosidade sulfurosa: diz que o açúcar refinado leva com enxofre lá para o meio do processo de refinamento. O meu amor tinha-me dito aqui há tempos que era o açúcar amarelo o alvo, mas após uma pequena pesquisa descobri que não, que é mesmo aquele que usamos com maior frequência em tudo. Ainda estou para descobrir como é que isto me faz sentir (é uma pena não haver Google que sirva para momentos de questionamento existencial como este).
sábado, 21 de abril de 2018
21. Ferrugem
Ironicamente, poderemos pensar que estará cheio de ferrugem o coração que de ferro apenas se faz e que nunca se molha, que nunca se emociona, que nunca chora.
sexta-feira, 20 de abril de 2018
quinta-feira, 19 de abril de 2018
19. Desandar
Por muito que pareça o contrário, os relógios não desandam no compasso mesmo quando nos sentimos a cair em retrocessos e atrasos. A vida avança ao mesmo ritmo de sempre mesmo que não seja no sentido que queríamos. Não há tempos que precisemos obrigatoriamente de cumprir e que resultem em fatalismos - e isso é algo que demoramos a reter.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
18. Nutritivo
De nutritivo, vamos aprendendo que não têm só os alimentos por convenção mas também todos aqueles alternativos que dão sentido ao rumo do nosso sangue.
terça-feira, 17 de abril de 2018
segunda-feira, 16 de abril de 2018
domingo, 15 de abril de 2018
15. Melodioso
Quem disse que a rouquidão não tem nada de melodioso? Quem disse que as pequenas interferências na música não se podem pautar por aquilo que precisamos escutar? Quem disse que não é nas pausas que vamos encontrar a pista perfeita para dançar?
sábado, 14 de abril de 2018
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