sábado, 17 de fevereiro de 2018

17. Desaparecer





















(Desaparecer passa por isto mas, muitas vezes, numa escala muito maior: deixar espaços em branco que nenhuma outra pessoa preencherá.)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

16. Penoso

Talvez isto de fazer uma formação em pós-laboral me ensine, se eu assim quiser atentar e reparar, que estar desperta pela noite não é assim tão penoso com a lua e as estrelas de companhia - mesmo que um bocadinho tímidas por detrás das luzes da cidade.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

15. Moroso

A psique é bem capaz de ser mais célere que a velocidade da luz, ou pelo menos a psique sofrida. Tem-me ensinado a psicologia (e a vida) que alguém a quem por dentro lhe dói já viu o final feliz em algum cenário hipotético e quer-lo à força, rápido, se possível agora e já. Mas depois a realidade palpável e comprovável a olho leva um processo mais moroso e, quase sempre, exige que a pisque experiencie fora da caixa para chegar à meta. Então, das duas uma: ou a pessoa acaba por aceitar essa luta e, passo a passo, fazer aproximações sucessivas ao objetivo conforme vai podendo e conseguindo, ou ainda se arrisca a se enrolar mais na sua bola de neve porque lhe dói ainda mais toda a ideia desse processo lento e de pequenas (e só por isso grandes) mudanças.

14. Musas

Quando as árvores e as montanhas são musas de alguém: já me compraram, têm toda a minha atenção.

13. Focar

A quem anda perdido sem ver futuro à vista, criar pequenos focos quando não os há ajuda muitíssimo. Já a quem colecciona planos, tarefas, prazos e responsabilidades a perder de vista, volta e meia faz bem ligar ao desfoque e combinar um café. É simples: se procuramos manter o equilíbrio dentro de nós, temos de promover o equilíbrio à nossa volta.

12. Exalar

Que melhor sítio para exalar as preocupações e frustrações que não na nossa arte? Que melhor plano para largar o peso dos dias que não numa desforra da rotina a dois? Que melhor lugar para fugir de tudo que não o final da pista de corrida? Que melhor cirurgia para abrir os pulmões que não usar um bocadinho daquilo que está no ritmo do nosso coração?

11. Ferro

Pode-me escassear ferro no sangue, mas quem disse que era esse o necessário e o imprescindível para pôr o pé no chão, seguir de pé e de cabeça erguida, fazer frente a cada dia? Digo, até, que é essa falta de dureza que me fortalece - não desenvolvesse eu, pois então, desenvoltura a cada inspirar de ar profundo, seja este puro ou perto do letal.

10. Comoção

Sei-me sortuda quando comoção é algo impossível de não acontecer quando com o meu moção.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

09. Modorra

O mal de andar com uma péssima higiene de sono (ou antes: o mal de não ter uma rotina fixa e, em consequência, deixar-me, por puro desleixo, arrastar para uma péssima higiene de sono) é uma modorra matinal diária após o despertador começar a tocar (sim, porque ele ainda toca, à vontade, uma meia-hora de cinco em cinco minutos com os meus adiares constantes do mesmo). Assim, o meu objetivo mensal principal (para além de manter as idas ao ginásio como iniciei q.b. no mês passado) passa por restabelecer horários. É muito difícil livrar-me das amarras dos lençóis quando estes são muito confortáveis e não há uma obrigação premente fora da cama à espera de ser cumprida... Mas já faz tempo que curei a minha ressaca de falta de descanso porque estágio e tese. Agora... agora é mesmo a falta de rumo aqui a estragar tudo e a fazer-me voltar às insónias quando, por alguma razão, tenho mesmo de acordar cedo no dia seguinte.

A ironia desta publicação é que foi agendada para sair às 08h09 da matina. Quanto é que apostam que estou, neste momento, a 1 minuto de adiar a alvorada pela segunda vez hoje? Mas já estou melhor - esta semana já me consegui levantar sempre uns minutos antes das 09h00. Aos poucos, tudo restabelecerei.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

08. Tributo

Mais do que tributos após a morte, há que procurar nos gestos homenagens durante a vida. Porquê? Só porque é o que parece fazer mais sentido. É onde o sentido e o significado, mais do que em todos os lugares, existem e estão mesmo lá: em bruto; no aqui e no agora; em cada segundo experimentado e então cravado na memória.
Não se interprete mal: as lágrimas do choque, da sensação do irreal, da perda, da readaptação também falam muito - são, em emoções e sentimentos, genuínas... Mas falam daquilo que foi a vida.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

07. Vocação

Em pequena, não me faltava resposta para qual a minha ambição: quando crescesse, queria ser treinadora de golfinhos, princesa, cavaleira, bailarina e patinadora. 
De facto cheguei a nadar com golfinhos - das melhores experiências da vida, mas única também. Fui princesa muitas vezes - no Carnaval (mas convenhamos que, à minha maneira, ainda gosto de pensar que sou a tempo inteiro). Cavaleira... Cavaleira podia ter sido, se a minha mãe não me demovesse de ter aulas com medo que eu caísse dos cavalos. Bailarina e patinadora foram também papéis que cheguei a vestir, mas por pouco tempo - principalmente quanto à patinadora, que se patinei foi quase sempre agarrada ao corrimão... ou então a patinar aí vida fora. 
Parece que a minha vocação não estava em nenhum dos meus primórdios desejos e, para bem dizer, apesar de hoje ter paixões muito próprias - escrita e psicologia com ela! -, a verdade é que ainda estou para ver o dia em que vou verdadeiramente brilhar e em quê.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A Genuinidade das Crianças é Muito Amor

Hoje, no autocarro, do nada...

Menino, todo sorridente: - Posso contar-te uma piada?
Eu, abrindo o sorriso: - Podes.
Menino: - Porque é que a água foi presa?
Eu: - Porquê?
Menino, todo divertido: - Porque matou a sede!
Eu, soltando um pequeno riso: - Que gira! É uma piada muito engraçada.

O menino desconhecido foi embora todo feliz. Fazer elogios faz bem, sabem? E atender às crianças que passam por nós também.

06. Invólucro

Todas as noites retiro o anel que me deste e guardo-o na sua caixinha. Tenho sempre receio que, se não no seu invólucro, se corromperá pela ação do ar, do pó, de algum fantasma que se atravesse a meio caminho e o mande ao chão. Não o mantenho sempre no dedo porque, desastrada como eu sou, durante um qualquer pesadelo do meu sono vejo uma grande probabilidade de algum cenário catastrófico da minha mente se concretizar: lá vai o anel prender-se em algum lado e sair, perdendo-se para sempre; lá vai o anel raspar na parede e ficar cheio de riscos. Não senhor: não quero que estes episódios improváveis, mas ainda assim possíveis, tenham a mínima hipótese de ter lugar. Sim senhor: pretendo proteger este querido símbolo como almejo preservar o nosso amor.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

05. Mavioso

Olha bem, repara: de mavioso a mafioso poderá ir uma pessoa numa só letra, num mero ajuste de lentes.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

«– Quer dizer que cada ação que concretizo, cada dor que experimento, serão experimentadas por toda a infinidade? – perguntou Breuer.
– Sim, o eterno regresso significa que, cada vez que escolhe uma ação, deve estar disposta a escolhê-la por toda a eternidade. O mesmo acontece com cada ação não realizada, cada pensamento nado-morto, cada escolha evitada. Toda a vida não vivida ficará a latejar dentro de si, não vivida por toda a eternidade. A voz ignorada da sua consciência continuará a gritar para sempre.»

- Irvin D. Yalom in "Quando Nietzsche Chorou"

04. Fazenda

Numa pequena fazenda cosia-se roupa para vestir, plantava-se comida para comer. Numa pequena fazenda cosia-se e plantava-se conforto e amor,  vestia-se e colhia-se vida e alma. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

03. Estraçalhada

Vernizes que se estilhaçam, estes: os que temos nas pontas dos dedos, os que cobrem o nosso chão. E a vida... a vida lá segue a mesma sequência, e um dia lá fica estraçalhada também. 
Porque optámos por vernizes? Diz-me: porque é que não escolhemos deixar tudo a nu? 
Fica mais bonita a pintura... É isso? Pergunto-me se será. Será que no fim fica mesmo mais bonita? Que valerá a pena, apesar de tudo? Assim: com a verdade descascada lá por baixo?

02. Depósito

O mundo será tanto melhor quanto mais depressa a ideia das energias renováveis chegar também aos depósitos de energia dos seres humanos. O planeta será um lugar mais feliz e sustentável quando as pessoas começarem a mover-se pela energia da luz, do vento, das ondas, da natureza - etenda-se, de si. A Terra terá mais alma quando as pessoas limparem as suas mãos de uma vez e para sempre do petróleo, da fumaça. Este corpo celeste será um lugar melhor quando as pessoas olharem para o que já está em si e à sua volta - quando escolherem trazer e agarrar o que de celestial têm e o celestial do qual vivem e podem viver.

01. Reino

No reino das flores, é rei o colibri. Faz-se territorial das cores de seus campos, mas defende-os de vento em popa e distribui beijos e amor constantes por cada botão que estica suas pétalas.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"Caixa das Palavras II" de Fevereiro

[ dia 1 ] - reino
[ dia 2 ] - depósito
[ dia 3 ] - estraçalhada
[ dia 4 ] - fazenda
[ dia 5 ] - mavioso
[ dia 6 ] - invólucro
[ dia 7 ] - vocação
[ dia 8 ] - tributo
[ dia 9 ] - modorra
[ dia 10 ] - comoção 
[ dia 11 ] - ferro
[ dia 12 ] - exalar 
[ dia 13 ] - focar 
[ dia 14 ] - musas 
[ dia 15 ] - moroso 
[ dia 16 ] - penoso 
[ dia 17 ] - desaparecer 
[ dia 18 ] - esculpir 
[ dia 19 ] - planalto 
[ dia 20 ] - fermentado 
[ dia 21 ] - placenta
[ dia 22 ] - elefantes 
[ dia 23 ] - consistência 
[ dia 24 ] - cessar 
[ dia 25 ] - torvelinho 
[ dia 26 ] - lúnula 
[ dia 27 ] - andragogia 
[ dia 28 ] - movediço