sábado, 3 de fevereiro de 2018

03. Estraçalhada

Vernizes que se estilhaçam, estes: os que temos nas pontas dos dedos, os que cobrem o nosso chão. E a vida... a vida lá segue a mesma sequência, e um dia lá fica estraçalhada também. 
Porque optámos por vernizes? Diz-me: porque é que não escolhemos deixar tudo a nu? 
Fica mais bonita a pintura... É isso? Pergunto-me se será. Será que no fim fica mesmo mais bonita? Que valerá a pena, apesar de tudo? Assim: com a verdade descascada lá por baixo?

02. Depósito

O mundo será tanto melhor quanto mais depressa a ideia das energias renováveis chegar também aos depósitos de energia dos seres humanos. O planeta será um lugar mais feliz e sustentável quando as pessoas começarem a mover-se pela energia da luz, do vento, das ondas, da natureza - etenda-se, de si. A Terra terá mais alma quando as pessoas limparem as suas mãos de uma vez e para sempre do petróleo, da fumaça. Este corpo celeste será um lugar melhor quando as pessoas olharem para o que já está em si e à sua volta - quando escolherem trazer e agarrar o que de celestial têm e o celestial do qual vivem e podem viver.

01. Reino

No reino das flores, é rei o colibri. Faz-se territorial das cores de seus campos, mas defende-os de vento em popa e distribui beijos e amor constantes por cada botão que estica suas pétalas.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"Caixa das Palavras II" de Fevereiro

[ dia 1 ] - reino
[ dia 2 ] - depósito
[ dia 3 ] - estraçalhada
[ dia 4 ] - fazenda
[ dia 5 ] - mavioso
[ dia 6 ] - invólucro
[ dia 7 ] - vocação
[ dia 8 ] - tributo
[ dia 9 ] - modorra
[ dia 10 ] - comoção 
[ dia 11 ] - ferro
[ dia 12 ] - exalar 
[ dia 13 ] - focar 
[ dia 14 ] - musas 
[ dia 15 ] - moroso 
[ dia 16 ] - penoso 
[ dia 17 ] - desaparecer 
[ dia 18 ] - esculpir 
[ dia 19 ] - planalto 
[ dia 20 ] - fermentado 
[ dia 21 ] - placenta
[ dia 22 ] - elefantes 
[ dia 23 ] - consistência 
[ dia 24 ] - cessar 
[ dia 25 ] - torvelinho 
[ dia 26 ] - lúnula 
[ dia 27 ] - andragogia 
[ dia 28 ] - movediço

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

31. Demonstrar

Nossos monstros algo demonstram.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

30. Bocas

As bocas que falam sem voz são, tantas vezes, as mais importantes de escutar.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

29. Entidade

Hoje uma entidade cumprimentou-me pela energia que emana a minha candidatura. Vamos ficar felizes? Vamos ficar felizes.

domingo, 28 de janeiro de 2018

28. Subalterno

Quem age por amor, por amizade, por ética e integridade não procura subalternos. Fica a nota para o mundo inteiro registar e levar para todo o lado no bolso e, sempre que for preciso, usar como cábula.

27. Inflamável

O oxigénio relembra-nos que na vida há tanto de respirável como de inflamável.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

26. Ermo

Precisava de um ermo agora para esvaziar a cabeça e não me importar com nada. Era. Sem esse ermo, a cabeça continuará cheia. Continuará em guerra até quebrar de cansaço (talvez até desmaiar, mais do que adormecer). Já agora, posso deixar o coração aqui antes de partir? Ia ajudar a conseguir manter a paz... Não, o meu coração também não está em paz. Como se vê, assim, não o posso levar. As espingardas continuarão a ressoar, as espadas a ferir. Mas também não é comigo que ele está, de qualquer forma - não comigo só, pelo menos... pelo que, como se vê, nunca o conseguiria levar inteiro.

Sobre a Primeira Entrevista de Clínica

Assim, numa primeira análise... e após um entusiasmo ingénuo de quem sai de uma entrevista que parece ter condições muito boas comparativamente às oportunidades que existem.. A pulga atrás da orelha por não me terem feito perguntas nenhumas acerca do meu percurso cresceu de tamanho ao trocar impressões sobre o que aconteceu dentro daquela sala e me foi dito quanto ao funcionamento do estágio.
Conclusão: acho que fui apresentada à podridão dos estágios de autêntica exploração que andam para aí. Agora só falta perceber, caso liguem a chamar-me, se há cedências nos termos impostos ou não. Porque se não houver, meus amigos, é impossível uma pessoa fazer aquele estágio e não se arriscar a desenvolver uma doença mental (a ironia) ou até a gastar mais dinheiro (e em favor da entidade, atenção) do que se ganha.

[Fora os aspetos e garantias que não me foram esclarecidos e que terei de pôr a pratos limpos à posteriori, aqui fica um resumo das condições por eles estabelecidas: primeiro mês à experiência sem pagar, cerca de 10h por dia, 12 meses, sem férias e com a possibilidade de ter de fazer uns sábados de vez em quando, 500 euros, gasolina ao meu encargo se num raio de 30km - sendo que há deslocações constantes porque a intervenção é feita em contexto e tendo em conta que daqui ao centro de Lisboa são 20km... Ou seja: gasolina paga coisa nenhuma. A não ser que eles concordem em estabelecer que pagam a partir de x número de km acumulados, pois convenhamos que é possível fazer 300km num raio de 30km e isso é incomportável. Há mais, pessoas! Há mais. Mas se calhar aí os motores de busca já me acusam, pelo que deixo apenas estes aspetos - já muito agradáveis por si só - no ar.]

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

25. Rumorejar

Aos meus dedos, hoje, deu-lhes para rumorejar: mal se escutam, mal se lêem... mal escrevem.
[Shhh! Acabou de sair qualquer coisa. Guardem segredo!]

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

May The Luck Be With You

Quem é que declinou ir à segunda fase do recrutamento da empresa de RH e conseguiu para esse mesmo suposto dia uma entrevista para Clínica, quem foi?!
*dançando, torcendo, cantando, sorrindo, lutando*

24. Tranquilizar

Vamos brincar de significados e acrescentar um pontinho ao dicionário?

Tranquilizar.
(tranquilo + -izar)
verbo transitivo
1. Sossegar; acalmar; aquietar; fazer perder a inquietação.
verbo pronominal
2. Recuperar a tranquilidade.
sinónimo de
3. Escrever; namorar; correr; dançar; nadar; ler; rir; chorar; dormir; viajar; ver as estrelas; sentar ao pé de uma árvore e mirar o vento a passar entre as folhas; passear ao pé do mar; ir ao cinema; fazer do sofá um cinema em casa; cozinhar; comer um gelado; beber uma xícara de chá; dar cafunés ao cachorro; desenhar; pintar; tudo o que a alma pedir.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

23. Nefanda

Convenhamos: há pedagogias e pedagogias, psicologias e psicologias, éticas e éticas dependendo de quem as pratica. Parece-me (ou antes: tenho a certeza absoluta sintética analítica) que há para aí uma estação de televisão muito nefanda em todas estas práticas.
Já dizia o Telminho em supervisão e com toda a razão do seu lado: a intervenção psicológica não faz bem só porque é intervenção psicológica
Esta coisa que está a ocorrer em televisão não tem em vista melhorar a vida de ninguém nem nunca teve. Qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe-o a milhas daqui. Pena que escasseiem desses com dois dedos. Pena que alguns até têm três e quatro dedos mas prefiram continuar a colaborar no dark side porque, ops, we have money on the dark side, not cookies (antes fossem bolachas e que o monstro das bolachas os comesse a todos pelo caminho também, durante um qualquer acesso descontrolado de fome e gula).

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

22. Plácida

Decidi que os fins-de-semana são pura e exclusivamente para descanso. E assim foi neste primeiro trial do ano: passei o sábado inteirinho sentada, enrolada numa manta, devorando um livro página atrás de página - prazer a que já não me dava há muito, muito tempo. Fi-lo muito tranquila, muito despreocupada, muito plácida. Pensei em levantar-me umas quantas vezes para mudar de atividade, mas depois pensava para mim "não estás aqui bem?" e, sendo isto retórica e consciencialização de estado, permaneci no meu cantinho. Depois veio domingo e decidi que podia pefeitamente voltar a deitar-me na cama depois do pequeno-almoço - já com os estores abertos, já com os olhos bem abertos, mas dar-me ao direito de disfrutar do pijama com macaquinhos, do edredon quentinho, da almofada fofinha. Despachei-me sem pressas, almocei com menos pressa ainda, pintei as unhas de vermelho rosado, publiquei e agendei escritos no blog, fui ao café conviver. 
Começa a semana e recomeçam as tarefas, a organização, as regras - por cinco dias, apenas. Decidido foi, decidido está: os últimos dois em falta são, doravante, para as não-obrigações. Não há cá mandar currículos, pensar em ligar à Desordem, em ir aqui e acolá tratar dos mais diversos assuntos - nada; era isso ou nunca sentiria que tenho descanso apesar de ainda não ter estágio (pensam o quê? Só o preocupar-me com candidaturas suga energia e disposição). Melhor decisão da vida nos últimos tempos, só vos digo.

domingo, 21 de janeiro de 2018

21. Descarnada

Por vezes, dou por mim presa num segundo de dúvida cortante; volta e meia, dou por mim numa posição de como quem mira o gume da faca: penso em falar-te, em dirigir-te a palavra - mesmo que uma só... 
Logo me sinto descarnada. 
Aí, pois, desisto. Decido hoje não. Escolho assim, e não tanto pelo medo de pôr o dedo numa ferida que não sei, sinceramente, se sarada - não... Isso, na verdade, também mete medo. Mas escolho assim mais pelo medo de desferir golpes profundos e letais onde corre sangue quente, onde corre vida que traz rubor ao rosto - rosto esse que, se rasgado, agora, é apenas por sorrisos. Então, escolho assim; escolherei assim enquanto for isso que encarnar o mais certo e o mais íntegro.

sábado, 20 de janeiro de 2018

20. Torcer

Torço por ti a todas as horas. Mesmo que te torça o juízo - sabe que, quando o faço, faço por ti, para ti, junto a ti; sempre.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

19. Estalidos

- A minha mente tem som de estalidos que nem pipocas. Quando anunciam ideias é bom, sabes? É fantástico, na verdade! É um pleno entretém, melhor que ir ao cinema e levar os aperitivos de graça. Mas às vezes é só ruído de fundo. Tipo a televisão sem sinal, mas pior: mais alto, mais intenso, mais estonteante; mais tudo.
Não sou claustrofóbica nem nada do género, mas o comboio da linha de Sintra às oito da manhã faz-me muito sentir como se fosse. Então, dou por mim a pensar que quem for de facto claustrofóbico e tenha de apanhar tal comboio, das três uma: (i) ou se levanta ainda mais com as galinhas e apanha os comboios de madrugada para não chegar atrasado; (ii) ou tem uma incrível capacidade de autorregulação; (iii) ou entra em pânico, desmaia, vomita - todas as reações que conseguirem imaginar.