E de repente até estou mais ou menos disposta a experimentar a empresa de RH, se for RH que querem que eu faça - porque não tem de ser um destino fatalista para abandonar Clínica só por aceitar RH, e até pode ser uma coisa que me abra caminhos para o que eu quero e para outras coisas que eu ainda nem sei que quero.
O que aconteceu para eu mudar de ideias e tornar as minhas ideias mais flexíveis? Pois claro que tinha de ser uma razão do coração: a minha pessoa a chorar a meu lado, no meu colo, porque acabou o curso há três anos mas a arte em Portugal está às portas da morte no mercado de trabalho e não arranja nada na área, vê os sonhos a evaporarem-se todos, as expectativas degoladas, os trinta anos a baterem à porta, o arrependimento de não ter aproveitado certas oportunidades que, apesar de não serem aquilo que ele mais gostava, se calhar não se tinha importado tanto assim de as agarrar se fosse hoje em dia, se calhar a função não tinha sido assim tão má.
Não me devo reger pelos outros e pelo que correu mal aos outros para tomar as minhas decisões, eu sei. Não há como adivinhar o que me vai acontecer e que possibilidades é que eu vou ser capaz de abrir. E daí estar em permanente conflito interno nos últimos dias - daí a ter uma parte de mim a gritar para ir só atrás do meu sonho para já porque é muito cedo para não me focar exclusivamente nisso (nem há dois meses estou formada) e outra parte de mim ter as lágrimas ao canto dos olhos porque sei que as coisas não estão fáceis e que também não me posso propriamente dar ao luxo de pôr oportunidades de lado. Assim, julgo que o que vai acontecer na terça-feira é sair da entrevista a pedir nem que um dia para pensar melhor na proposta, pois sinto-me toda divididinha, partidinha, estilhaçadinha em mil versões de mim, mil perspetivas, mil possibilidades, mil cenários. Tenho medos, tenho desejos, tenho objetivos em várias áreas da minha vida, tenho aquele fantasma do no fim, tudo também depende um bocado da sorte a assolar-me. Tenho dúvidas, tenho-me a mim e a tudo aquilo que amo nas mãos sem saber bem onde nos colocar.
(Ou seja: eu continuo a não querer esse caminho de RH para mim; mas vou de mente aberta ver o que pretendem de mim e depois logo se vê do que me sinto capaz de abraçar ou não agora.)
(Sinto-me não eu só de ter escrito este post - acho que isso já diz o bastante do quão alto e com quanta força grita aquela parte de mim que quer que a deixem sonhar e lutar pelos sonhos só e apenas para já. Eu preciso de pessoas, eu preciso de pessoas, e à pala disso já estou a criar relutâncias, intolerâncias, mini-ódios, ideias pré-concebidas face a outras coisas - diz que não é um bom princípio.)
(Porque é que te candidataste então, Maria? Porque também pediam alguém que gostasse de escrever. Pronto, já disse. Foi essa a principal razão para me candidatar. Psicologia e escrita juntas? Não pude como não. O que me está a matar é mesmo não saber mais nada da função e estar a fazer filmes pelo meio.)