Há daquelas coincidências da vida em que passo de cética a inconformada com as respostas que a ciência e a lógica podem dar. Preciso muito da lógica na minha vida para me guiar (preciso mesmo, mais do que aparento)... mas convenhamos que, talvez, não pudesse ser Maria se toda eu procurasse apenas as regras e as fórmulas. Eu era aquela criança a quem a minha mãe escrevia cartas que besuntava com um creme de maquilhagem dourado fingindo que o remetente era uma fada. A partir daí, aquela carta passava a ser o meu maior tesouro. Assim sendo, sinto-me no direito de volta e meia indagar ao Universo qualquer coisa, e agora o que indago é: será que o Sr. Agostinho não é mesmo um anjo que anda por aí a saltitar entre vidas para levar sabedoria e amor a quem encontra durante os seus passeios na rua? Disse-me ele que saiu da terrinha mais a mulher para vir viver com a filha para Lisboa. Porém, não sei se esta foi a sua primeira morada. É que reparei noutro dia que, pelo menos mais uma pessoa minha conhecida, também já teve um Sr. Agostinho nos seus dias - um Sr. Agostinho assim destes, que para e cumprimenta cheio de educação e alegria toda a gente.
domingo, 7 de janeiro de 2018
Etiqueta de (re)nome:
"Estamos todos ligados no grande ciclo da vida" disse o Mufasa,
Entre dias e noites
Sou uma pessoa que precisa muito do tempo para si própria, para ficar em casa no seu cantinho ou sair para fazer as suas coisas, que necessita muito de estar só consigo mesma. Não me interpretem mal: também gosto muito de estar com as minhas pessoas - só não preciso daquela rotina de ver os amigos todas as semanas. Já muitas das pessoas do meu círculo precisam, e se fosse possível até faziam planos de dois em dois dias. Comigo, há daquelas fases em que fico satisfeita se ocorrerem encontros de três em três semanas ou de mês a mês. Então, tenho muita dificuldade em lidar com convites quando eles vêm em forma de "Maria, o que vais fazer dia x...?" em vez de "Maria, quero convidar-te para vires ao café/cinema/passear dia x". Quando os convites vêm formulados da primeira maneira sinto-me muito incomodada, porque às vezes não tenho planos mas na realidade não quero ter planos. A minha resposta acaba então por sair sempre um envergonhado "acho que até agora não tenho nada de especial, mas porquê?...", quando o que me surge na cabeça é um "oh não! Não, não vou fazer nada, mas apetece-me nada fazer". Sei que se dissesse que não estou muito disposta para sair naquele dia que, muito provavelmente, aqueles amigos do peito iam entender (e já disse umas quantas vezes, e entendem). Mas sinto-me constrangida, porque as vezes em que não me apetece sair são muitas, e se os convites chegam sempre desta forma quase que soa que não gosto nem tenho vontade de estar com as minhas pessoas. Gosto e tenho vontade, só não é uma necessidade minha constante, o que não diminuí a importância que essas pessoas têm para mim e que faço por mostrar sempre que estou com elas.
Ah, isto é especialmente verdade para os planos que são feitos à noite. A noite é muito minha, do meu pijama, da minha cama, dos meus livros, das minhas séries, das minhas escritas. A noite é o tempo em que muitas vezes me viro para dento de mim própria e que devagarinho começo a desligar de tudo do dia-a-dia para recomeçar no amanhecer seguinte. Preciso muito da noite para mim e só para mim, só consigo conceder um pouquinho dela para os outros de tempos a tempos ou quando sei que é um plano realmente importante para alguém que amo.
07. Regressar
Regressar fará sentido se há algo lá atrás que precisamos de ir buscar para o agora nos fazer sentido. Se há tempo lá atrás que precisamos para viver o tempo daqui da frente, se há espaço lá atrás que precisamos para dar balanço na vida daqui. Não fará tanto sentido, contudo, se o tempo e espaço daqui são possíveis de nos ser no que são e se só nisso já nos sabem a casa. Cabe, pois, a cada um pesar o que levam nos bolsos dos casacos de ontem e de hoje nos pratos da balança.
sábado, 6 de janeiro de 2018
06. Sugar
Sanguessuga suga menos que muita gente nos suga a vida.
Há que sugar essa gente aspirador dentro, limpar o chão em que pisamos e a casa do nosso coração.
Há que sugar essa gente aspirador dentro, limpar o chão em que pisamos e a casa do nosso coração.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
04. Mamilo
Um golfinho mamã a amamentar um golfinho bebézinho. Uma cadelinha mamã a amamentar muitos cãezinhos e cadelinhas bebés. Uma gatinha mamã a amamentar os gatitos pequenotes. O conforto dessa imagem da mamã a cuidar de seus filhotes, a permiti-los crescer, a dar-lhes o que precisam para um dia vingarem felizes por aí. É o pensamento de amor que aqui deixo por hoje.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
03. Ardilosas
É preciso ardil para sobreviver neste mundo, dizem. Mas não será isso uma tamanha manha contada por si só?
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Let's Go Party
Problemas de sair à noite: no dia seguinte, se precisas de sono, ele não está nem perto. Estará com certeza dançando algures e noite dentro como se fosse dia de festa outra vez.
Em contrapartida, eu estou aqui à espera que ele chegue a casa e entretida no entretanto com isto de voltar a pôr mãos à obra na Caixa das Palavras.
Etiqueta de (re)nome:
Caixa das Palavras,
Entre dias e noites,
Sonho letras e vida em livros
02. Clarão
Com a alvorada, o clarão. A luz ofuscante a doer-lhe na vista e, ironicamente, só aí fazendo-a ver de verdade: o que acontecera não fora um pesadelo que passaria como passam os sonhos numa noite de sono. O que acontecera era real. Só se estivesse cega é que, talvez, não se aperceberia... mas a dor ia-lhe além dos olhos.
Devia saber: luz demais pode magoar.
Acordar para a realidade, por vezes, fere.
Devia saber: luz demais pode magoar.
Acordar para a realidade, por vezes, fere.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
01. Açucareiro
Querem-se dias açucareiros! Daqueles que sabem àquelas colheradas no pote de gelado enquanto sentados no sofá a ver uma bela de uma série que atinge o fundo de nós. Querem-se dias açucareiros - mas nos gestos. Destronem-se as barrigas redondas, os umbigos empinados.
Sobre a Etiqueta "Mais Mundo"
Para os curiosos: o resto do relato da minha viagem à Escócia (faltam três dias) será publicado sob a data de trinta e um de dezembro de dois mil e dezassete, que quero guardar o que for de cada ano em seu respetivo. Isto serve, também, para o resto do relato do Interrail que fiz em dois mil e dezasseis e que não terminei de escrever, assim como serve à publicação sobre a viagem a Cuba em dois mil e quinze que também ainda não saiu cá para fora mas que há séculos habita os meus rascunhos no blogger. É este ano - mais especificamente, nos próximos dias - que tudo acontecerá - não porque é ano novo e porque isso implica magicamente coisas novas, mas porque eu quero fazer tudo isto acontecer. Quero porque preciso de espaço para o que há de vir. Quero porque preciso de limpar o pó dos meus armários e baús. Quero porque, para começar, basta querer.
"Caixa das Palavras II" de Janeiro
[ dia 1 ] - açucareiro
[ dia 2 ] - clarão
[ dia 3 ] - ardilosas
[ dia 4 ] - mamilo
[ dia 5 ] - elo
[ dia 6 ] - sugar
[ dia 7 ] - regressar
[ dia 8 ] - desintegrar
[ dia 9 ] - urbano
[ dia 10 ] - entreolhar
[ dia 11 ] - leviano
[ dia 12 ] - medrar
[ dia 13 ] - cegar
[ dia 14 ] - desenterrar
[ dia 15 ] - fruteira
[ dia 16 ] - exercitar
[ dia 17 ] - fosca
[ dia 18 ] - rochedos
[ dia 19 ] - estalidos
[ dia 20 ] - torcer
[ dia 21 ] - descarnada
[ dia 22 ] - plácida
[ dia 23 ] - nefanda
[ dia 24 ] - tranquilizar
[ dia 25 ] - rumorejar
[ dia 26 ] - ermo
[ dia 27 ] - inflamável
[ dia 28 ] - subalterno
[ dia 29 ] - entidade
[ dia 30 ] - bocas
[ dia 31 ] - demonstrar
Mais Palavras em Dois Mil e Dezoito
Novo ano pede começos e recomeços. Um dos recomeços é o desafio da Caixa das Palavras, que as minhas andam a gritar por sair da caixa.
Meu Caro Dois Mil e Dezassete,
Apeteceu-me escrever-te este ano, porque em muita coisa me foste caro, de facto. Não sei qual o significado de caro aqui: se estamos a falar de riqueza e de amor ou se estamos a falar daquilo que me fizeste dar de mim, tirar de mim, sentir o meu espírito e aqueles das pessoas que me são muito queridas de bolsos vazios. Deverá ser uma mistura dos dois, no fim de tudo. Tu, caro dois mil e dezassete, deste-me um estágio que despertou em mim muitas lágrimas ao final do dia e um abate físico e psicológico incomportáveis por muitos, muitos meses, meses estes em que questionei um cento de vezes se era a psicologia que eu queria para a minha vida ou se tinha só tido um azar desgraçado com o local e população que escolhera para começar o meu caminho profissional. Tu, caro dois mil e dezassete, também me mostraste que afinal a psicologia me faz todo o sentido, que afinal aquele local até me apaixonava e que a sua população tinha conquistado um pedaço do meu coração; tu, caro ano, fizeste-me perceber que todo o meu conflito interno era, de facto, puramente interno; de mim para comigo; de mim para com a minha falta de autocompaixão; de mim para com a minha pobre capacidade autorregulação da ansiedade; de mim para com a minha urgência de ser perfeita e ter medo de falhar; de mim para com a falta de tempo concedida para mim mesma e para os meus. Tu, caro ano, fizeste-me cair de joelhos perante o estado para que caminhava a minha saúde mental e, por isso, foste a minha alavanca para procurar o meu corrimão. Parei. Respirei. Procurei soluções. Encontrei-as, aos poucos... Enquadrei tudo o que sentia; descobri sobre as minhas emoções e pensamentos, porque é que estavam lá e principalmente como ressoavam enfim na minha vida; fui desarmando uma grande percentagem da minha tricotilomania e orgulhei-me, em muito tempo, da quase ausência de marcas nas minhas pernas dos pêlos arrancados, embora tenha sempre piorado um pouco em fases críticas, como já estou preparada para que possa acontecer ao longo da minha vida e que não me devo culpabilizar por isso, mas consciencializá-lo sempre e tentar de novo no fim. O percurso até terminar a tese também não ajudou a acalmar a atribulação externa e interna deste ano. Ver o meu avô, aqui pelo meio, a saltar de lar para lar, a perder o foco do olhar, a acolher as visões como algo recorrente do dia-a-dia, a perder a coerência do discurso, a perder peso, a ir-se devagarinho e eu sem poder estar todo o tempo que queria junto dele apesar de me ter esforçado para estar o mais frequentemente possível... tudo isso também me custou muito. A morte do meu avô... a morte do meu avô pressenti-a eu sem saber, chorei muito no dia antes, tive de ganhar coragem para o ir visitar porque sentia que tinha de ir. Fui. Mas não esperava que fosse a última visita, apesar de tudo. Acho que não chorei o meu avô em tudo o que queria chorar (ainda noutro dia deitei umas lágrimas a caminho de casa, agora que escrevo também as sinto a espreitar). Dei-me alguns dias no momento, mas tinha uma tese para fazer e o tempo à queima roupa. Usei como força o facto de ele sempre ter dito que queria viver até eu acabar o curso (e até me casar; mas isso são outras histórias) para retomar as minhas tarefas. Dou-me grata, contudo, de o ter ido ver no dia da bênção das fitas. Dou-me grata por, no último dia, lhe ter dito que o amava muito. Dou-me grata por todos os minutos passados com ele neste último ano. Dou-me grata por este amor que lhe tenho e que nunca vai desaparecer. Dou-me grata pela sensação que fica de ter de aproveitar o tempo ao máximo com as minhas duas avós que me restam e que tão preciosas são para mim em tanto de indescritível.
Caro dois mil e dezassete: feriste muito e até ao último momento - é inacreditável. Acabo de vir do velório do pai do meu Afonso. Morte na morte do ano, do mais cruel que podia ter acontecido. O meu amor também perdeu a avó paterna pouco tempo depois do meu avô se ir do corpo, e eis que não me diz ele que a materna caiu e foi parar ao hospital neste fechar de dois mil e dezassete - felizmente, vá lá, está tudo bem e não partiu nada (obrigada pelo alívio e lufada de ar fresco, dois mil e dezoito). Ontem... ontem, para além do DJ terrível a estragar as danças da pista, também vi a minha Nês a ressacar não só do álcool da passagem mas da grande traição que sofreu no verão e que lhe roubou o chão todo em tanta coisa, mais do que alguma pessoa que não lhe seja próxima e lhe conheça a história pode imaginar. E depois... depois, em dois mil e dezassete, também houve os dramas familiares de sempre a juntar àqueles que surgiram de surpresa e que abalaram aquilo que se julgava conhecer. Os problemas psicológicos e funcionamentos psicológicos não-adaptativos em pessoas diferentes, cada um de sua expressão e impacto diferentes. Cirurgias para resolver potenciais problemas graves adiadas. A má situação profissional ou o medo dessa má situação em mais do que uma pessoa do meu círculo. O meu amor a ver, também, situações familiares inesperadas a acontecer umas atrás de outras, sem descanso.
Caro dois mil e dezassete: talvez, por tudo isto que brevemente expressei, também tenhas dado muito. As aprendizagens são imensas, e o caminho que me mostraste a mim e aos meus se, num primeiro momento, pareceu que nos deixou completamente perdidos, sem saber para onde nos virarmos, na verdade, foi um caminho direto para dentro de nós. Tu, caro ano, que tanto pareceste não ser o nosso ano, se calhar foste o ano mais nosso dos últimos tempos. Não foste, de longe, o ano predilecto, o preferido, o melhor, aquele que guardaremos com o nosso maior carinho. Mas talvez tenhas sido, mesmo, o mais nosso; o que nos fez ir mais fundo; o que nos fez descobrirmo-nos e descobrir os mais diversos recantos da vida. Fica o meu desejo, contudo, que dois mil e dezoito e os anos que se sigam sejam um pouco mais doces que o pouco doce explícito que dois mil e dezassete teve - sim, porque felizmente nem tudo são espinhos. Fale-se do simples facto de ter terminado o curso, e com melhor desempenho do que achava. Da escapadinha em abril para Porto e de me ter encantado por tal cidade. De ter visto a minha Té duas vezes. Da minha viagem de sonho à Escócia se ter concretizado após ser dada como finalista, e ter casado a fingir e de repente, sem eu nem o Arlindo termos tido tempo de pensar bem na vergonha (e para mim alegria) que o nosso guia nos estava a fazer passar. De ver o amor que vivo e partilho com este meu príncipe encantado e real a crescer sem igual à medida que o tempo passa. De ter visto o Jorge duas vezes. De ter conhecido o senhor Agostinho durante os passeios à rua com o Yeti e encher-me sempre de amor com a conversa, histórias e conselhos para a vida que este velhote com olhos e voz de anjo sempre dá quando me vê. De ter visto éne filmes de super-heróis como se de filmes de princesas da Disney se tratassem, numa euforia e entusiasmo que não se diz nem se conta. De ter transformado muito do meu pessimismo face ao mercado de trabalho numa abertura um pouco maior e mais serena face àquilo que o mundo poderá vir a dar. De ter escutado que o teu ponto fraco é não teres pontos fracos, e então complicas onde não há complicação e não dês importância àqueles que não conseguem ver mais longe e acompanhar a tua ambição, vai em frente tu mesma. De ter aprendido um pouco mais a respeitar o meu ritmo e o que sinto que posso dar em determinado momento e circunstâncias, mesmo que não seja na velocidade e quantidade ideal para os outros. De ter aprendido a impor algumas barreiras para mim mesma face ao quanto as palavras das outras pessoas me podem afetar, mesmo que não dê mostras descaradas disso a ninguém. Do meu amor ter arranjado emprego ao final de muito tempo calando tudo e todos, mesmo que não o ideal, e estar a tentar afincadamente estabelecer novos objetivos para a sua vida. Da minha mãe ter iniciado um curso de ilustração e contos infantis e estar a entusiasmar-se. De ter filtrado, ainda mais, aqueles que são os verdadeiros amigos, diferenciando-os dos que não são e deixando de os tratar por igual. De ter despendido mais tempo junto desses amigos genuínos. Da minha Cláudia ter arranjado emprego num banco como sempre quis, da minha Joaninha andar a fazer furor em Londres no mundo das artes, da minha Cati ter tido duas empresas a escolher quanto ao seu primeiro emprego após o mestrado e da minha Cata estar a tratar de todos os preparativos para ir viver com o Rui. De ter visto a minha Mafalda ao fim de tantos anos. De ter decidido desfiliar-me do partido político em que estou (estou lá por mero favor) e sem dar satisfações a ninguém, porque tenho o direito de não dar e ponto final, e neste caso específico há o acrescento de ter a consciência tranquila de nem sequer ter de dar um aviso prévio por respeito porque respeito ao contrário também não há. De ter recebido um convite para publicar a investigação da minha tese, ainda que tenha sido um convite muito estranho e para um jornal com um aspeto algo rasca e que não aparenta ter grande alcance (daí que ainda não seja nada oficial e que ande a contar às gentes, pois é algo a ser considerado cautelosamente por mim e pela minha orientadora e que, após a pouca pesquisa que já fiz e fazendo a lista de prós e contras, sinceramente, acho que é algo que não irá a lado nenhum). De ter passado a passagem de ano junto da minha Nês e da minha Rute e de nos termos divertido até de madrugada (mesmo com um mau DJ a fazer o ambiente da festa).
Dois mil e dezassete, meu caro: foste difícil e, ao mesmo tempo, valioso. Mas no fundo julgo que serviste para perceber que a vida está na simplicidade e nos recomeços a cada dia - às vezes, a cada segundo.
P.s.: Perdoa-me, dois mil e dezasseis, a falta de atenção que te dei em reflexões anuais, e perdoem-me também quaisquer outros anos a que não tenha escrito. Creio que nem sempre será viável ou sobrará tempo para escrever grandes coisas além das já registadas ao longo do ano aqui, no meu caderninho de bordo, em fotografias, ou simplesmente cravadas na memória ou na alma.
Caro dois mil e dezassete: feriste muito e até ao último momento - é inacreditável. Acabo de vir do velório do pai do meu Afonso. Morte na morte do ano, do mais cruel que podia ter acontecido. O meu amor também perdeu a avó paterna pouco tempo depois do meu avô se ir do corpo, e eis que não me diz ele que a materna caiu e foi parar ao hospital neste fechar de dois mil e dezassete - felizmente, vá lá, está tudo bem e não partiu nada (obrigada pelo alívio e lufada de ar fresco, dois mil e dezoito). Ontem... ontem, para além do DJ terrível a estragar as danças da pista, também vi a minha Nês a ressacar não só do álcool da passagem mas da grande traição que sofreu no verão e que lhe roubou o chão todo em tanta coisa, mais do que alguma pessoa que não lhe seja próxima e lhe conheça a história pode imaginar. E depois... depois, em dois mil e dezassete, também houve os dramas familiares de sempre a juntar àqueles que surgiram de surpresa e que abalaram aquilo que se julgava conhecer. Os problemas psicológicos e funcionamentos psicológicos não-adaptativos em pessoas diferentes, cada um de sua expressão e impacto diferentes. Cirurgias para resolver potenciais problemas graves adiadas. A má situação profissional ou o medo dessa má situação em mais do que uma pessoa do meu círculo. O meu amor a ver, também, situações familiares inesperadas a acontecer umas atrás de outras, sem descanso.
Caro dois mil e dezassete: talvez, por tudo isto que brevemente expressei, também tenhas dado muito. As aprendizagens são imensas, e o caminho que me mostraste a mim e aos meus se, num primeiro momento, pareceu que nos deixou completamente perdidos, sem saber para onde nos virarmos, na verdade, foi um caminho direto para dentro de nós. Tu, caro ano, que tanto pareceste não ser o nosso ano, se calhar foste o ano mais nosso dos últimos tempos. Não foste, de longe, o ano predilecto, o preferido, o melhor, aquele que guardaremos com o nosso maior carinho. Mas talvez tenhas sido, mesmo, o mais nosso; o que nos fez ir mais fundo; o que nos fez descobrirmo-nos e descobrir os mais diversos recantos da vida. Fica o meu desejo, contudo, que dois mil e dezoito e os anos que se sigam sejam um pouco mais doces que o pouco doce explícito que dois mil e dezassete teve - sim, porque felizmente nem tudo são espinhos. Fale-se do simples facto de ter terminado o curso, e com melhor desempenho do que achava. Da escapadinha em abril para Porto e de me ter encantado por tal cidade. De ter visto a minha Té duas vezes. Da minha viagem de sonho à Escócia se ter concretizado após ser dada como finalista, e ter casado a fingir e de repente, sem eu nem o Arlindo termos tido tempo de pensar bem na vergonha (e para mim alegria) que o nosso guia nos estava a fazer passar. De ver o amor que vivo e partilho com este meu príncipe encantado e real a crescer sem igual à medida que o tempo passa. De ter visto o Jorge duas vezes. De ter conhecido o senhor Agostinho durante os passeios à rua com o Yeti e encher-me sempre de amor com a conversa, histórias e conselhos para a vida que este velhote com olhos e voz de anjo sempre dá quando me vê. De ter visto éne filmes de super-heróis como se de filmes de princesas da Disney se tratassem, numa euforia e entusiasmo que não se diz nem se conta. De ter transformado muito do meu pessimismo face ao mercado de trabalho numa abertura um pouco maior e mais serena face àquilo que o mundo poderá vir a dar. De ter escutado que o teu ponto fraco é não teres pontos fracos, e então complicas onde não há complicação e não dês importância àqueles que não conseguem ver mais longe e acompanhar a tua ambição, vai em frente tu mesma. De ter aprendido um pouco mais a respeitar o meu ritmo e o que sinto que posso dar em determinado momento e circunstâncias, mesmo que não seja na velocidade e quantidade ideal para os outros. De ter aprendido a impor algumas barreiras para mim mesma face ao quanto as palavras das outras pessoas me podem afetar, mesmo que não dê mostras descaradas disso a ninguém. Do meu amor ter arranjado emprego ao final de muito tempo calando tudo e todos, mesmo que não o ideal, e estar a tentar afincadamente estabelecer novos objetivos para a sua vida. Da minha mãe ter iniciado um curso de ilustração e contos infantis e estar a entusiasmar-se. De ter filtrado, ainda mais, aqueles que são os verdadeiros amigos, diferenciando-os dos que não são e deixando de os tratar por igual. De ter despendido mais tempo junto desses amigos genuínos. Da minha Cláudia ter arranjado emprego num banco como sempre quis, da minha Joaninha andar a fazer furor em Londres no mundo das artes, da minha Cati ter tido duas empresas a escolher quanto ao seu primeiro emprego após o mestrado e da minha Cata estar a tratar de todos os preparativos para ir viver com o Rui. De ter visto a minha Mafalda ao fim de tantos anos. De ter decidido desfiliar-me do partido político em que estou (estou lá por mero favor) e sem dar satisfações a ninguém, porque tenho o direito de não dar e ponto final, e neste caso específico há o acrescento de ter a consciência tranquila de nem sequer ter de dar um aviso prévio por respeito porque respeito ao contrário também não há. De ter recebido um convite para publicar a investigação da minha tese, ainda que tenha sido um convite muito estranho e para um jornal com um aspeto algo rasca e que não aparenta ter grande alcance (daí que ainda não seja nada oficial e que ande a contar às gentes, pois é algo a ser considerado cautelosamente por mim e pela minha orientadora e que, após a pouca pesquisa que já fiz e fazendo a lista de prós e contras, sinceramente, acho que é algo que não irá a lado nenhum). De ter passado a passagem de ano junto da minha Nês e da minha Rute e de nos termos divertido até de madrugada (mesmo com um mau DJ a fazer o ambiente da festa).
Dois mil e dezassete, meu caro: foste difícil e, ao mesmo tempo, valioso. Mas no fundo julgo que serviste para perceber que a vida está na simplicidade e nos recomeços a cada dia - às vezes, a cada segundo.
P.s.: Perdoa-me, dois mil e dezasseis, a falta de atenção que te dei em reflexões anuais, e perdoem-me também quaisquer outros anos a que não tenha escrito. Creio que nem sempre será viável ou sobrará tempo para escrever grandes coisas além das já registadas ao longo do ano aqui, no meu caderninho de bordo, em fotografias, ou simplesmente cravadas na memória ou na alma.
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