quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Das Borboletas e dos Laços (Parte III)

A propósito da junção de palavras que se deu no título das últimas mensagens: 

Alguém já reparou que sentimos borboletas na barriga na eminência de um laço mais forte com alguém se formar? Ou quando este se está, efetivamente, a formar?
E a mudança que um laço proporciona à vida? Toda a metamorfose, qual borboleta, que ocorre no laço e com o laço? Já viram?
Ou seja: já repararam quão bonitas ficam as palavras "borboletas" e "laços" juntas? Quanta poesia pode daí advir? Hum?

18. Sorvete

"Queres um sorvete?", perguntava-me a minha avó, sempre que a visitava em pequena. A minha avó sempre disse sorvete em vez de gelado, e sempre guardou no congelador lá de casa duas ou três caixas de sabores diferentes para quando os netinhos a visitassem. Assim, durante muito tempo e enquanto a minha inocência não o permitiu questionar, achei que gelados e sorvetes fossem coisas diferentes. Para mim, todos os gelados de colher eram, na verdade, sorvetes, enquanto que todos os outros com pauzinho tratavam-se de gelados. Até que percebi que não havia distinção nenhuma e que as duas palavras serviam ambos os tipos.

Das Borboletas e dos Laços (Parte II)

dezassete de agosto de dois mil e quinze.

- Madrinha, qual é a tua cor preferida?
- Vermelho.
- A minha é azul. 
- Também gosto muito de azul.
- As minhas cores preferidas são todas. Só não gosto de preto e de cinzento. Gosto de todas as cores alegres.
- Eu também. Eu não gosto muito de castanho.

(Inês passeia-se pelo meu quarto.)

- Madrinha, podes dar-me o pote das missangas que está ali?
-  Posso sim.
- Da outra vez estivemos a brincar com as missangas.
- Pois foi. Queres fazer pulseiras agora?
- Sim! Vou fazer uma pulseira para ti.
- Vais?
- Sim. Não vejas, é surpresa.
- Está bem.

(Passado uns segundos, estende-me a pulseira.)

- Ohh! Está tão linda! Obrigada.
- Tem vermelho, que é a tua cor preferida, e dois corações. Assim faz um laço.
- (Eu a derreter) ohh, tão querida! Está mesmo mesmo linda!... Adorei!
- Agora és tu a fazer uma pulseira para mim.
- Está bem. Como queres a pulseira? Igual?
- (Com os olhos a brilhar e um sorriso de uma ponta à outra do mundo) siiiiiim!!!
- Queres com que fio? O azul, a tua cor preferida?
- (Sorriso) pode ser.

Das Borboletas e dos Laços

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Look for Yourself; Look to Yourself

17. Sintomático

Tenho um amigo que há dias, em conversa, se queixou de dores de costas e nos ombros. "É como se andasse a acumular stress", disse-me, "mas eu ando sempre de um lado para o outro e não sinto stress". Pois... Cá para mim está explicado. Não se permite a sentir o stress todo a nível psicológico e pimbas: eis toda a sintomatologia corporal em força.

domingo, 16 de agosto de 2015

Serão Mesmo Desimportantes?

16. Sapo

Não engulas sapos. Beija-os (como quem diz: transforma-os em algo).

sábado, 15 de agosto de 2015

So Good!

Assentar no Papel


Do Código da Estrada e a Forma dos Sinais*


* retangular para informação, circular para obrigação

15. Retratar

Andei a tentar organizar os meus emblemas da capa do traje por forma a que a sua ordem de colocação retrate o mais possível o meu percurso académico até agora. Ainda não os cosi e queria pedir ajuda à minha avó este fim-de-semana para o fazer. Infelizmente, vou ter de adiar uma vez mais a tarefa: falta-me um emblema para conseguir colocá-los em número ímpar como ditam as regras. Raios. As boas notícias: já sei qual quero comprar. E por enquanto, até ter emblemas dos meus pais, Yeti, Agni e demais familiares que ainda faltam, ficaremos com a coisa compostita.

14. Salientar

Não temas em salientar o que te faz bem.

13. Rádio

Sabe-me lá coisa melhor do que entrar no carro ou nos transportes pela manhã e ouvir rádio. Por muito que também me embale ouvir a minha seleção de músicas, tenho de admitir que nada bate tais manhãs: é acordar com risos; é ir acordando a sorrir mais por dentro e por fora. Não vos sei explicar: há qualquer coisa na alegria das equipas de radioemissão, e a influência que esse estado de espírito tem em mim é quase imediata, nem que numa migalhinha - fico logo muito mais bem disposta. E pronto: aqui fica conhecido o meu amor aos programas matinais de radioemissão.

Acalma o Teu Chão


A Estrada Não é (Im)Perfeita


«Oh, I think I did it again
Quem sabe não esquece
É como andar de bicicleta

Tu mereces muito mais
És forte, abanas mas não cais
Mesmo que sintas o mundo a ruir
Quando as nuvens passarem vais ver o sol a sorrir
A estrada não é perfeita
Apenas uma vida, aproveita
Só perdes se não tentares
E não desistas se falhares

O que não mata engorda
Torna o teu sonho real, acorda
Limpa as lágrimas e luta
Segue o teu caminho e escuta
A voz dentro de ti
As respostas que procuras, dentro de ti
Acredita em ti que tu és
Mais forte e tens o mundo a teus pés

Tu és mais forte e sei que no fim vais vencer
Sim, acredita num novo amanhecer
Não tenhas medo, sai à rua e abraça alguém
E vai correr bem, tu vais ver

Um dia tudo fará sentido
E vais ver que terás o prémio merecido
És o que és, não és o que tens
A tua essência não se define pelos teus bens
Às vezes as pessoas desiludem
Mas não fiques em casa parado à espera que mudem
Muda tu rapaz
Muda a tua atitude, vais ver ver que és capaz

E nada te pode parar
Os cães vão ladrar e a caravana a passar
O teu sorriso de vitória no rosto
Nem tudo é fácil mas assim dá mais gosto
Quando acreditas a força nunca se esgota
Só a reconheces a vitória se souberes o que é a derrota
Vais ver que no fim acaba tudo bem
Sai à rua e abraça alguém»

Entre o Sol e a Lua: um menino crescido


A caminhar para os dois anos de existência e - qual o meu espanto quando noto - mil publicações - ora feitas, ora por fazer. Nem no Letra a Letra, Olhos nos Olhos, o meu primeiro blog e a datar vida desde dois mil e seis, fiz tanta publicação - que foi encerrado (não eliminado, atenção!) com oitocentas e cinquenta e três. Wow.

Saudades de trabalhar?

Até agora ainda não li um único livro que fale de psicologia nestas férias. Não me tem apetecido. Ando numa onda muito mais de histórias, como que num summer break total para com o meu trabalho de curso e, espero, de profissão. Contudo, desde que acordei que fui assaltada por uma vontade gigante de procurar e ler artigos.

Última hora: Project 364? Talvez não.

Há esperança. Afinal há uma fotografia: uma selfie de todos nós no jantar dos Jorges (tirada por um dos dois). Servirá? Representa uma das partes mais importantes do dia de ontem, por isso, apesar de não ter sido eu a tirar (e como já houve duas ou três fotografias que para aqui andam que não fui eu que tirei mas que representam momentos em que estive mais do que presente), para mim, chega na perfeição.

Project 364

Ontem foi um dia tão cheio - desde a avaliação da primeira unidade temática das aulas de código, a conhecer uma pessoa nova, começar as aulas no simulador, passar a tarde com a Rute a cozinhar, e acabar no jantar de despedida dos Jorges (que partem hoje para a Escócia para lá tirarem o mestrado) - que me esqueci completamente de fotografar fosse que momento ou pormenor fosse. Bem... No fim de contas, acho que é bom sinal: estive tão envolta no dia que mais nada me passou pela cabeça. Não que não tenha vivido mais dias assim, mas "ontem", quando me lembrei e apercebi do sucedido, já eram quase duas da manhã e eu a chegar a casa. E para mal dos males do projeto, eu respeito a transição das vinte e quatro horas quando o realizo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Chatice

O mal dos agendamentos automáticos no blog feitos às tantas da noite: só reparas nos erros ortográficos e de sintaxe que dás nas publicações milénios depois, aff.

12. Proteínas

Abraços: uma das mais fortes fontes de proteína da alma.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

No nono ano pedia para mim mesma um amor tão bonito que me fizesse chorar. E tive-o. Foi indescritivelmente bonito; porém chorei porque me doeu tantas e inúmeras vezes que perdi as contas de quanto me verti em pedaços ao longo de quatro anos passados. Depois, na faculdade, tive um amor bonito, o mais bonito até hoje, e o qual prefiro guardar para mim. Só que não me fez chorar. Mal me fez chorar, na verdade - tanto de dor como de felicidade. Fez-me sorrir, isso sim. Muito. As lágrimas, doridas e gratas, vieram depois, como seria de esperar que viessem.
Bem... Ao fim de dois anos sem me sentir apaixonada - mas em muito encantada com algumas pessoas que se foram cruzando no meu caminho -, finalmente lembrei-me de pedir algo mais a mim mesma: um amor tão bonito que me faça chorar de alegria. Pode ser? Fico à espera. Entretanto vou-me emocionando com o amor pelas pequenas e grandes coisas do mundo. Talvez seja nelas que esteja mesmo escondido o amor maior. E está, ou não fosse o amor que ainda poderei vir a ser capaz de construir parte do mundo.

[Editado a 01/01/2016: ver isto e tirar as próprias conclusões ♥].

11. Atrevimento

A esperança namora o atrevimento.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Já todos sabemos como isto acaba, certo?

Socorro, tenho brownie em casa e sinto-me carente e stressada.

10. Revista

Revejo-me em ti. Ou será que, na verdade, revejo-te em mim? Uma coisa ou outra será: ou estou certa e sou-te siamesa em muita coisa, ou é só aquilo que quis ler na capa da revista a deturpar-me o seu real conteúdo. 
Agarro numa lupa, visto-me a rigor, ponho o chapéu e faço revista a tudo. Examino atenta os nossos momentos e as suas pistas, o meu interior e aquilo que desejo. 
Quiçá descubra algo. Quiçá. Poderei não descobrir e nem ser suposto descobrir. Há enigmas e enigmas - resolvidos ou não, são dignos da nossa admiração e respeito (ou as coisas não tinham metade da piada ou da magia). Então, seja como for, irei acabar por tirar o chapéu. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Ser Pessoa

De verdades não sou feita. Só de conjeturas.

Parece mentira


Depois de meses e meses de atrasos constantes, dou por mim a adiantar-me na Caixa.

Missão de salvamento

Quando o Yeti resolve saltar, saltar, saltar sem dares conta e, quando então reparas, vês um pequeno ladrãozinho a conseguir abocanhar o teu Baymax de peluche que estava na bordinha da cama junto a uma almofada. Ah...! O Baymax não! Anda cá! E de repente a tua casa transforma-se numa maratona entre ti e o teu cão, com muitos risos à mistura. Porque por muito que gostes do peluche e temas pela sua vida, o teu amor pelo teu cão faz-te fraquejar de ternura por ele só querer brincar.

09. Investir (parte II)

Quando acordar vou investir em mim. Prometo.

09. Investir

Alguém vai fazer-se amiga do "manual" e dedicar todoooo o dia a estudar as primeiras aulas de código com toda a atenção.
Investir ainda mais à séria na carta de condução: o que me espera ao acordar.
«- Missão, qual missão? Missão é uma palavra parva. Eu não tenho missão nenhuma. Ninguém tem missão nenhuma. E é um alívio enorme uma pessoa perceber que é livre, que não tem missão nenhuma.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Todos temos tendência para culpar a força e ver na fraqueza uma vítima inocente. Mas, Tereza dava-se agora bem conta disso, no caso deles era precisamente o contrário! Até os seus próprios sonhos, como se adivinhassem qual era a única fraqueza daquele homem forte, lhe ofereciam o espetáculo do sofrimento de Tereza para forçá-lo a recuar! A fraqueza de Tereza era uma fraqueza agressiva perante a qual ele fora sempre obrigado a capitular, sempre até ao momento em que deixara de ser forte e se metamorfoseara ao seu colo uma lebre.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«[...] o amor que a une a Karenine é melhor do que o amor que existe entre ela e Tomas. Melhor, e não maior. Tereza não quer culpar nenhum dos dois, nem Tomas nem ela, não quer dizer que eles poderiam amar-se mais. Parece-lhe é que o casal humano foi criado de tal forma que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior àquela que pode ter (pelo menos na melhor das suas variantes) o amor entre o homem e o cão, essa estranha coisa da história do homem que o Criador certamente não previu. 
É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenine. Nem sequer exige que ele a ame. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: Gostará ele de mim? Já terá amado alguém mais do que me ama a mim? Amar-me-á mais do que eu o amo? Todas estas interrogações que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, o inspecionam, não se arriscarão a matá-lo na casca? Se somos incapazes de amar, talvez seja por desejarmos ser amados, ou seja, por queremos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem reivindicações e não querermos senão a sua simples presença. 
E ainda há mais uma coisa: Tereza aceitou Karenine tal e qual como ele é, não tentou modificá-lo, deu a sua anuência prévia ao seu universo de cão, não quer confiscar-lo, não tem ciúmes das suas tendências secretas. Se o educou, não foi com a intenção de modificá-lo (como um homem quer sempre modificar a sua mulher e uma mulher o seu homem), mas simplesmente para lhe ensinar a língua elementar que havia de permitir-lhes compreenderem-se e viverem os dois juntos. 
E também: o seu amor pelo cão é um amor voluntário, ninguém a obrigou a isso. [...] 
Mas sobretudo: nenhum ser humano pode presentear outro com um idílio. Só o animal pode fazê-lo porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evolução. Karenine ia traçando em torno de Tereza e de Tomas o círculo da sua vida fundada na repetição e também esperava o mesmo deles. 
Se, em vez de ser um cão, Karenine fosse um ser humano, certamente que já teria dito a Tereza há muito tempo: "Ouve lá, já estou farto de vir todos os dias com um croissant na boca. Não és mesmo capaz de me arranjar outra coisa?" Nesta frase, encontra-se resumida toda a maldição do homem. O tempo humano não anda em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o homem não pode ser feliz: a felicidade é o desejo de repetição. 
Sim, é verdade, a felicidade é desejo de repetição [...].»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser

sábado, 8 de agosto de 2015

«A vizinha para para perguntar a Tereza: "O que é que o seu cão tem? Parece que vai a coxear!" Tereza responde: "Tem um cancro. Só lhe resta muito pouco tempo de vida", e sente a garganta tão apertada que mal consegue falar. A vizinha apercebe-se das lágrimas de Tereza e põe-se a ralhar com ela: "Santo Deus! Não me diga que se vai pôr a chorar só por causa de um cão!" É uma boa mulher. Não o disse por maldade, mas para tentar consolar Tereza. Tereza tem consciência disso e já vive há tempo suficiente na aldeia para saber que, se os camponeses gostassem tanto dos seus coelhos como ela gosta de Karenine, não matariam nenhum e não tardariam também a morrer de fome rodeados de bichos por todos os lados. No entanto, sente o que a vizinha lhe disse como uma hostilidade. "Eu sei", responde ela sem protestar, mas despede-se rapidamente e prossegue o seu caminho. Sente-se sozinha com o seu amor pelo seu cão. [...] 
Prossegue, portanto, caminho com as suas vitelas, que lá vão com os flancos a roçar, e mais uma vez pensa com os seus botões que aqueles bichos são realmente muito simpáticos. Mansos, sem malícia, às vezes de uma alegria pueril: só parecem cinquentonas gordas a armarem-se às meninas de quatorze anos. Nada mais tocante do que vacas a brincar.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. É claro que o Génesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Tinha sido preciso aquela longa viagem para entender que a realidade é mais do que o sonho, bem mais do que o sonho.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser

08. Furta-cor

Fui hoje a casa da minha avó e estavam lá as minhas primas gémeas, divertidíssimas com um daqueles tubos de plástico que se vendem em alguns espetáculos - daqueles com várias luzes, que se abanam no alto e logo fazemos parte de um mar de gente e de furta-cor. Claro está, quiseram-mo mostrar em todo o seu esplendor: fui puxada ora por uma, ora por outra, para todos os recantos escuros lá de casa, para reparar quão bem tais cores se viam fosse em que escuridão fosse.

07. Bilhete

Ontem passou-me pela cabeça a ideia louca de te escrever um bilhete. Realço o louca: seria como escrever a minha sentença, pois quando entrego palavras de mim a alguém vai todo o meu coração com elas. Expressar-te o meu carinho agora, do nada, apenas porque me apetece dizer-te o quanto te gosto, seria arriscar-me a entrar numa rua e vê-la ilusoriamente sem retorno no preciso momento em que te entregasse o manuscrito. Pelo que logo me detive, a detive (à ideia) e a expulsei. Não são becos que pretendo quando me faço à estrada, e por agora seria tudo o que conseguiria ver. Não é o momento. Se algum dia for, isto é, se algum dia conseguir ver outra coisa que não um muro, acredita que não terei receio algum em escrever todos os bilhetes (só de ida) do mundo.
«No reino do kitsch totalitário, as respostas já estão sempre preparadas e excluem toda a pergunta que seja realmente nova. Donde se infere que o verdadeiro adversário do kitsch totalitário é o homem que pergunta. A interrogação é como uma faca que rasga a tela do cenário para permitir que se veja o que está atrás. Foi precisamente esse o sentido que Sabina deu aos seus quadros numa conversa com Tereza: à frente, a mentira inteligível, e, por detrás, a incompreensível verdade.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Todas as crenças europeias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Génesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por consequência, que procriar é uma coisa boa. Chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.
Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. Apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! O desacordo com a merda é metafísico. O instante da defecção é a prova quotidiana do caráter inaceitável da criação. Das duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível. 
Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.
É uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX sentimental e que depois se vulgarizou em todas as línguas. Mas a sua utilização frequente fê-la perder todo o valor metafisico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal. Deus ofereceu a liberdade ao homem e, portanto, pode admitir-se que ele não é responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela existência da merda incumbe inteiramente àquele que criou o homem, e só a ele.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Não tinha a certeza de estar a proceder bem, mas tinha a certeza de estar a proceder segundo a sua vontade.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«A rapariga falava de tempestade com o rosto banhado por um sorriso sonhador, e ele olhava para ela com espanto, quase com vergonha: ela vivera algo belo e ele não o vivera com ela. A reação dicotómica das suas memórias à tempestade notura exprimia toda a diferença que pode haver entre o amor e o não-amor. 
Ao falar de não-amor, não quero dizer que Tomas se tenha comportado como um cínico com a rapariga, que, como costuma dizer-se, não tenha visto nela senão um objeto sexual: pelo contrário, gostava dela como amiga, apreciava-lhe o caráter e a inteligência, estava pronto a ajudá-la sempre que precisasse. Não era ele que se portava mal com ela: era a sua memória que, sem que ele pudesse dizer palavra, a excluíra da esfera do amor. 
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que regista aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria. [...] 
Fiz já notar como as metáforas são perigosas. O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«O que se passaria se Tomas recebesse uma fotografia como aquela? 
Pô-la-ia na rua? Talvez não. Com certeza que não. Mas o frágil edifício do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse edifício repousava sobre o pilar único da sua fidelidade e os amores são como os impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser

06. Conversar

Arlindo: - Mais vale esperar que apareça alguém que valha a pena, e não esperar que apareça alguém.

- Das conversas à beira-rio; 6 de agosto de 2015

05. Ordem

Risca uma folha. Risca apenas. Em completa desordem. E, talvez, sem quase dares conta, venhas a encontrar desordem.

Unclear


«I am trying to learn and I'm dying to know
When to move on and when to let it go
A curious feeling no one can explain
I just don't know if I'll risk it again

When the futures so unsure
When the futures so unclear

So you swallow your heart and you swallow your pride
You gotta be tough if you wanna survive
They'll chew up and they'll eat you alive
You never give up on the dreams in your mind

We walk, we walk on
Our time, our time will come
We walk, we walk on
Our time»
«[...] o fim que se persegue está sempre oculto. Uma rapariga que quer um marido, quer uma coisa que desconhece completamente. O rapaz que anda em busca da glória não faz a mínima ideia do que a glória é. O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Tinha uma vontade brutal de fazer qualquer coisa que a impedisse de voltar atrás. Tinha vontade de anular brutalmente os últimos sete anos da sua vida. Eram as vertigens. Um inebriante, um incontrolável desejo de cair. 
Poderia talvez dizer que ter vertigens é embriagar-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«A nossa vida quotidiana está sempre a ser bombardeada pelos acasos, mais exatamente por encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos, ou seja, por aquilo a que costuma chamar-se coincidências. Há uma coincidência quando dois acontecimentos inesperados se produzem ao mesmo tempo, quando se encontram um com o outro: por exemplo, Tomas aparece no restaurante precisamente no momento em que a rádio está a dar Beethoven. Na sua imensa maioria, este tipo de coincidências passa totalmente despercebido. Se o homem do talho tivesse vindo sentar-se a uma mesa do restaurante em vez de Tomas, Tereza não teria reparado que a rádio estava a dar Beethoven (embora o encontro de Beethoven com um homem do talho também não deixe de ser uma coincidência interessante). Mas o amor a nascer aguçou-lhe o sentido da beleza e, por isso, nunca mais esquecerá essa música. Sempre que a ouvir, há-de sentir-se comovida. Tudo o que se passar à sua volta nesse instante ficará aureolado com o brilho dessa música e será belo. 
No começo do grosso volume que Tereza trazia debaixo do braço no dia em que veio a casa de Tomas, Ana vê pela primeira vez Vronsky em circunstâncias bastante estranhas. Estão ambos no cais de uma estação onde alguém acabara de cair para debaixo de um comboio. No fim do romance, é Ana que se atira para debaixo de um comboio. Esta composição simétrica, em que o mesmo tema aparece no princípio e no fim, pode parecer demasiado "romanesca". Estou disposto a admiti-lo, mas só se romanesco não significar para os que me estão a ler algo de "inventado", "artificial","sem semelhança com a vida". Porque a vida humana também é assim que é composta. 
É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura da sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo. Ana poderia ter posto termo à vida de outra maneira qualquer. Mas, no momento do desespero, foi atraída pela sombria beleza do tema da estação e da morte, desse tema inesquecível associado ao nascimento do amor. Mesmo nos momentos da mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida. 
Não há, portanto, razão nenhuma para censurar os romances e o seu fascínio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos (por exemplo, o encontro de Vronsky, de Ana, do cais e da morte, ou o encontro de Beethoven, de Tomas, de Tereza e do copo de aguardente), mas há boas razões para censurar o homem por ser cego a esses acasos na sua vida quotidiana e assim privar a vida da sua dimensão de beleza.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Mas um encontro não é precisamente tanto mais importante e cheio de significação quanto mais depende de um grande número de circunstâncias fortuitas? 
Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. O que acontece por necessidade, o que já era esperado e se repete todos os dias é perfeitamente mudo. Só o acaso fala. Nele é que deve tentar-se ler, como as ciganas fazem com as figuras deixadas no fundo de uma chávena pela borra do café.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Tomas ainda não sabia que as metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Censurava-se intimamente, mas acabou por pensar que, no fundo, não se saber o que se deve querer é normal:
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem nunca retificada em vidas posteriores.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela? 
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é. 
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes. 
Que escolher, então? O peso ou a leveza?»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
«Digamos, portanto, que a ideia do eterno retorno designa uma perspetiva em que as coisas não nos parecem como é costume, porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade. Essa circunstância atenuante impede-nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. Poderá condenar-se o que é efémero? As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser

04. Pausa

Não te esqueças de definir as tuas paragens. Parar tanto pode significar pôr em pausa como parar de vez.

03. Saltar

Há que saber quando saltar fora do barco para enfrentar realmente o mar. Há barcos que não pretendem qualquer travessia, mas sim fazer a vez de um bote salva-vidas (que, nesses casos, poderá fazer tudo menos salvar-nos).

02. Singular

Na pluralidade dos dias por vezes só encaixamos um acontecimento singular. Acontece quando só ele basta - e já somos (in)felizes.

01. Confiar

Quando tremo que nem varas verdes, por norma acalmo-me ao sussurrar-me pedaços (que descubro) de confiança, tais como: trata-te como tua melhor amiga; confia em ti como tal. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Quinze dias parada e longe de tudo dá nisto

Ainda me estou a habituar ao ritmo de Lisboa. Apesar de estar de férias, voltou a rotina e a correria - ainda mal parei em casa e continuo com uma lista interminável de coisas para fazer. Agora estou aqui a ganhar coragem para ir ao ginásio e estudar código antes de uma outra aula de código, só que já estou a morrer de sono e cansaço.

Julho foi...

01/07. Último exame da licenciatura e 
almoço com a Rute, Jorge e Nês.
Há, pois, amores maiores que pizza (só numa 
de avisar potenciais wanna be hipsters que andem por aí).


02/07. Into the Woods versão Oeiras
(muito mais suportável e bonita que o filme,
isso sem dúvida alguma - de longe).


03/07. Pela primeira vez, ir assistir
a um treino de hóquei do mano.
Tal avô, tal neto: um dia temos
campeão!


04/07. Espetáculos de ballet. Também querer dançar.
Ao fim de duas horas e meia de mais do mesmo 
aguentar o sono e a fome pela afilhada - esse meu amor maior
que ia atuar a meio e depois já só quase quase no fim.


05/07. Primeiro dia de praia.


06/07. Reaprender a fazer vídeos, a.k.a. 
surpresa do 40º aniversário do meu padrasto
a caminho!


07/07. Apanhar sol na varanda.


08/07. Novas páginas. 
Novos capítulos. 
Novos livros.


09/07. Ir às origens; sentir com outros olhos.
Cortar e criar raízes.

10/07. Passeios por Lisboa fora. Paisagens, história(s), 
arte, sonhos; imaginar, construir e ver castelos - mas a 
partir da realidade. Arranca (ou repõe) corações.

11/07. Casamento do Carlos e da Andreia 
com lançamento de balões LED brancos pelo
ar: amor, amor, amor. Também quero algo assim
quando/se chegar a minha vez. Muitos que olharam o céu 
por esta hora devem ter julgado ver uma chuva de meteoros.

12/07. Ser uma criança crescida no Pavilhão
do Conhecimento.

13/07. Primeiro dia da vida em que pintei as unhas dos
pés. E claro que foi em dois tons diferentes ou não tinha
tanta piada.

14/07. Diz que se apertares um ovo nas extremidades
ele não se parte, mesmo que com toda a força. Foi 
o instrutor mais doido (no bom sentido) de código da  minha 
escola de condução que para lá nos ensinou e eu confirmo.
Diz ainda ele que os Smart devem ser dos carros mais seguros 
que andam para aí porque são muito feitos à base deste sistema: 
o exterior desfaz-se todo em caso de acidente, mas a estrutura 
interior é fortíssima.

15/07. Malas para a viagem a Cuba:
in progress.

16/07. (Fingir) abraçar aqui.
«É urgente amar
É urgente um barco no mar»
diz Eugénio de Andrade.

17/07. "Eu não sou assim tão pequenina,
já tenho sete anos, não tenho quatro!", diz
a Ninês com um sorrisinho reguila e fofinho
perante o tamanho dos seus talheres. Falo da 
minha prima e afilhada: veio cá jantar. O  Rúben, 
meu primo e primeiro mano emprestado também veio. 
Foram o auge do meu dia após limpar a casa inteira. 

18/07. Árvores à vista.


19/07. Aniversário do mano e celebração do 40º 
aniversário do padrasto. Uma festa enfeitada com surpresas.


20/07. Chegada a Cayo Coco e a vista linda, linda, linda 
e em tudo mais indescritível do quarto. Dançar junto à 
varanda como que perto pertinho da areia e do mar, e 
estando, sem dúvida, no céu.


21/07. Primeiros banhos no paraíso dos tons de azul 
a puxar para o transparente.


22/07. Experimentar enfrentar medos. Fazer snorkling 
junto aos corais e adorar. Next step: batismo de mergulho 
(num qualquer outro ano e viagem por chegar).


23/07. Devorar livros na praia até à última página: 
mission accomplished.


24/07. Festa à noite na praia: aprender coreografias 
com a ajuda dos bailarinos cubanos; encontrar a 
matilha de cães fofos do hotel a dormir na areia; uma das 
cadelinhas a acompanhar-os todos os passos sob a lua.


25/07. Acordar ao nascer-do-sol e deixarmo-nos maravilhar. 
Quando se pensava que íamos acordar só para ir ver os golfinhos 
na sua ronda matinal pelas águas do mar, eis que somos 
presenteados com ainda mais magia.


26/07. Visita à praia Pilar (foto na imagem, considerada a praia 
mais bonita de Cuba e a oitava mais bonita do mundo, pelo 
que nos foi constatado) e a Cayo Guillermo. Mar-piscina, mar-chá,
mar-sopa.


27/07. Esperas prolongadas pelo autocarro de volta para 
o aeroporto e as últimas bebidas no bar do átrio (Pinacolada 
na imagem acima). Nostalgia por estar tudo a terminar.

28/07. Amanhecer sobre as nuvens.


29/07. Algarve e matar as saudades todas do peludo tonto, 
ali escondido atrás do móvel da televisão a dormitar. 
Mostrar as fotografias da viagem à família.


30/07. Jardins e Karenine, Karenine e jardins.
Acabar a Insustentável Leveza do Ser e deixar-me tocar 
com as últimas páginas sobre Karenine.


31/07. Dias de perfeita moleza.
Descansar, ouvir música 
e pensar na vida a meia-luz.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Caixa das Palavras" de Agosto

[ dia 1 ] - confiar
[ dia 2 ] - singular
[ dia 3 ] - saltar
[ dia 4 ] - pausa
[ dia 5 ] - ordem
[ dia 6 ] - conversar
[ dia 7 ] - bilhete
[ dia 8 ] - furta-cor
[ dia 9 ] - investir
[ dia 10 ] - revista
[ dia 11 ] - atrevimento
[ dia 12 ] - proteínas
[ dia 13 ] - rádio
[ dia 14 ] - salientar
[ dia 15 ] - retratar
[ dia 16 ] - sapo
[ dia 17 ] - sintomático
[ dia 18 ] - sorvete
[ dia 19 ] - sossego
[ dia 20 ] - solidão
[ dia 21 ] - preto
[ dia 22 ] - psicologia
[ dia 23 ] - repulsa
[ dia 24 ] - alento
[ dia 25 ] - sorteio
[ dia 26 ] - sete
[ dia 27 ] - abstracto
[ dia 28 ] - prosa
[ dia 29 ] - inventar
[ dia 30 ] - exteriorizar
[ dia 31 ] - humanizar

31. Suplemento

Faço parte do grupo de vegetarianos que não precisa de tomar suplementos alimentares por causa do regime de alimentação que faz para estar bem ou ter os valores nutricionais no sítio. A única coisa que tomo já tomava antes de me tornar vegetariana, que é o ferro por causa da tendência para a anemia. E não, os valores da anemia não aumentaram nem diminuíram. Manteram-se iguaizinhos. Contudo, cada caso é um caso e não digo que não sejam precisos suplementos para nada: concerteza alguns vegetarianos precisam, e se não sempre quiçá em alguma fase da sua vida (não excluo, portanto, vir a precisar de suplementos alguma vez - eu sei lá, pode acontecer ou não). O que é certo é que também há muito boa gente com uma alimentação mais convencional a tomar suplementos, e outras tantas que também não precisam. Assim, só posso concluir que o truque aqui é mesmo ter cuidado com a alimentação que se faz seja em que regime alimentar for, e tentar equilibrá-la o mais possível com o estilo e ritmo de vida que se leva. Se andarmos para aí a morrer e a não nos aguentarmos nas canetas, aí é que algo tem de mudar no prato: seja pôr mais legumes, seja pôr carne, ou seja pôr suplementos por recusa física e/ou emocional dos alimentos em si.

30. Laranja

Um sumo de laranja e um café, ou as duas poções perfeitas a rematar o pequeno-almoço de uma estudante de psicologia. Não é de propósito, mas a associação entre factos acabou de o ser (uma vez que a cor de psicologia é laranja e estas são, precisamente, as duas bebidas que me preenchem as manhãs).

30. Salvar

Quando a questão começa a ser "ou salvas um amor, ou salvas-te a ti", talvez seja boa ideia salvares-te a ti, pois creio que por essa hora não haverá amor algum a salvar - não com esse nome. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Fez-se Luz VII

- É fora de série.

(Fora de série, i.e., que salta fora; que se desenquadra de tudo o resto - constituído por produtos tão iguais entre si como que produzidos em série numa fábrica de estilo fordista).
Numa qualquer vez apontei-o nas notas do telemóvel para não me fugir: se não fosse a Caixa das Palavras, talvez eu não escrevesse aqui metade das coisas que vão decorrendo na minha vida - faça-o mais direta ou indiretamente. Engraçado, uhn? Como a partir de uma simples palavra conseguimos fazer todas as ligações e mais algumas e, enfim, adaptá-la às nossas situações correntes ou que nos sejam, em algo, mais fulcrais (pertençam a que tempo pertençam). 
Tanta, tanta vez escrevo realidades - tantas outras pura imaginação. E ainda há tantas, tantas mais que ponho uma a mascarar a outra!
Mãe: - Os maus pensamentos materializam-se em moscas à volta da cabeça.

- 30 de julho de 2015

29. Princesa

pê. Princesa pê. Desde que vi que a palavra de dia vinte e nove era princesa, foi isso que pensei: pê.

29. Sociável

Tenho-me descoberto uma pessoa muito mais sociável do que julgava ser. Julgava-me muito mais metida comigo mesma do que realmente sou, uma vez que não é raro andar no mundo da lua (mesmo que ao sol). Porém, e apesar de prezar muito o meu espaço e os momentos em que estou só na minha companhia, preciso muito de me rodear de pessoas numa base regular. Falar com elas, vê-las sorrir e rir - para isso contribuir. Sou apaixonada pelo contacto humano e dou por mim, quando estou com os outros, a querer prender-lhes o rosto no meu olhar enquanto falam, a desafiar-me constantemente a notar-lhes a pureza e espontaneidade das expressões humanas, a captar tudo quanto aquele momento mo permite.

28. Resolver

"Todos nós temos medos, temos coisas por resolver, falhas, problemas,... é normal", disse a Cata há tempos numa conversa, que depois ainda se estendeu na minha mente com o "nada fica 100% resolvido, tu sabes" da Cláudia. Nessa altura, insisti em assinar por baixo estas falas mal me chegaram, tanto por meditá-las como por senti-las na pele. De facto, duvido que tudo tudo fique cem por centro resolvido de uma vez para sempre. Quantas vezes lembramos as nossas feridas, mesmo que com crosta ou saradas? Assim, não é tanto a não resolução completa de uma dada situação até ao mais ínfimo pedacinho, pequenino pequenino, que julgo verdadeiramente crítico: será antes o não conseguirmos adaptarmo-nos à situação, deixando-a interferir brutalmente no nosso bem-estar.

28. Reviravolta

Revira-te para voltares.

domingo, 2 de agosto de 2015

27. Acaso

27. Sinalizar

Não precisas de sinalizar um sinal no queixo para assinalares a tua beleza.

26. Rir (parte II)

26. Rir

«Rir é expressar-se fraturado; rendido, sem defesas, muros atrás dos quais esquivar-se, esconder-se; é esvaziar a vida da linearidade e essencialismo. Rir, rir tanto... às gargalhadas... é ser ovo sem casaca e, assim, afirmar, sem dualismos, que afinal não somos muralhas, realezas político-económicas ou até ontológicas, mas simples vulnerabilidade, alegria que também se canta.
[...] rir é um abrir de grilhões.»

- Desconhecido

26. Borboleta

De borboletas já falei muito, e de quando em vez lá dou com elas, novamente, presentes em todo o lado - ou sou eu que já as vejo em todo o lado. Contudo, ainda não falei de tudo o que delas sei em mim. Não vos contei que tenho borboletas na parede do quarto em casa do meu pai, embora já o possam ter adivinhado numa fotografia. Não vos confessei que um dos passeios que mais princesa me fizeram sentir foi a um borboletário - o que, efetivamente, se relacionou com uma fase de mudança da minha vida (já todos perceberam que associo as borboletas à mudança, certo?). E também ainda não disse que minha mãe tem uma borboleta como tatuagem, esta em forma de M: M de Maria, de mudança, de mais e melhor; nem que essa borboleta "voou" de um sítio para o outro da barriga quando ela engravidou do meu mano.

25. Gargarejar

Sempre achei piada ao som do gargarejar atrás das portas da casa de banho ao começo do dia. Sempre o ouvi como uma das sinetas que assinalam o alvorecer. Inevitavelmente, que também assinalam as novas oportunidades para os desafios e concretizações.

25. Conhecer

Quantas vezes nos (re)conhecemos quando nos desconhecemos?

24. Melhorar

O mundo melhorará quando, para além de respeitarmos os animais, os olharmos nos olhos. Já experimentaram?

24. Vício

Os vícios que temos não existem sem nós. O cómodo "ah, isto já é vício" não é mais do que um voluntário querer por mantê-lo, e não uma situação irreversível que se torna mais forte que nós sem permissão concedida.

Divagares

- Temos olhos de cores diferentes. Será que vemos de cores iguais?
- Não.
- Não?
- O mundo há de ter sempre cores diferentes para cada visão. Mesmo que com os olhos de cores iguais, será sempre como se fossem de cores diferentes.
- Então e poderei dizer que os meus olhos podem mudar de cor a qualquer momento mesmo que se mantenham castanhos?
- Sou dessa opinião.

23. Sítio

Já pensaram que todos os sítios que os nossos passos e olhares alcançam são automaticamente parte de nós? Ora nos estejam mais marcadamente evidentes na memória ora de dedos mais enlaçados no esquecimento, são-nos. São-nos algo ou pouco, muitíssimo ou quase nada, mas são assim porque lhes demos um qualquer significado mais ou menor e, por isso, refletem de imediato quem somos, a nossa história. A mais fina linha do padrão da madeira da cómoda lá de casa, o mais ínfimo grão de areia pegado à pele: desde que o visualizemos, já é nosso, já somos nós de alguma maneira. Todos os sítios e tudo o que deles apreendemos, a partir do preciso momento em que o percecionamos, torna-se logo mais um dado (um conjunto infindável de dados, para ser mais precisa) de como o nosso mundo é para nós. São tudo aquilo que conhecemos e tudo aquilo que alguma vez poderemos descrever e contar. Nesta lógica, pergunto-me: quantos contos e capítulos já poderia dizer de mim e do que vivi? Perco as contas e só posso comentá-lo como verdadeiramente mágico, dada a infinidade de possibilidades que só o percurso de um apenas ser humano reserva numa imensa complexidade de pormenores, que se agrupam de uma forma completamente única a cada segundo que passa. Cada segundo é mais uma imensa aventura. Mais uma descoberta da vida, mas da nossa vida. É impossível fazê-la escapar à nossa interpretação, pois não há um ser humano que conheça uma mesma coisa num mesmo momento minuciosamente da mesma maneira. Quão fantástico isto é? Tudo, todos os segundinhos já vividos e a viver, são mesmo a nossa própria história e quem somos; logo de imediato. E é precisamente aí, nesse ponto, que nos (con)fundimos com o Universo (ou não fossemos parte dele).

23. Venda

Mesmo que conheçamos os tracejados dos caminhos e os usemos (como não podia deixar de ser) como bengala, quer queiramos, quer não, a existência do futuro só nos concede passos de olhos vendados. Somos cegos das surpresas.

22. Resistir

Adoro quando a sensação de impotência impregna todas as minhas resistências e sou então incapaz de ansiar por outra coisa que não o momento em que voltarei a pegar no livro que estou a ler, de tão empolgantes que me estão a ser as suas páginas. Aconteceu-me a partir da segunda metade do Orgulho e Preconceito e, logo de seguida, na sequência dos primeiros parágrafos d'A Insustentável Leveza do Ser. Ao último a minha mãe também não resistiu quando o espreitou numa das minhas pausas, tanto que mo roubou no resto desse dia e lá tive eu de aguentar a sede pelas últimas cerca de cinquenta páginas que me restavam para o terminar.

22. Ambicionar

Post-its escritos e afixados pela mente e pelo coração.
«- És muito cruel! - gracejou a irmã. - Não me deixas sorrir e, afinal, desafias-me a fazê-lo a todo o momento.
- Como é difícil, em certos casos, ser acreditado!
- E impossível mesmo, noutros!
- Mas porque teimas em querer convencer-me de que sinto mais do que afirmo?
- Eis uma pergunta a que mal sei responder! Todos gostamos de dar lições, embora só possamos ensinar o que não merece a pena aprender. Desculpa-me, e, se persistes em apregoar indiferença, não me escolhas para tua confidente.»

- Jane Austen in Orgulho e Preconceito
«Apenas à tarde, quando se lhes reuniu para o chá, Elizabeth se aventurou a abordar o assunto e, depois de exprimir em breves palavras o quanto a entristecia o que ele devia ter sofrido, o pai respondeu-lhe:
- Não digas isso. Quem devia sofrer, senão eu? A culpa foi minha e é justo que lhe sofra as consequências.
- Não deve ser tão severo para consigo! - observou-lhe a filha.
- Fazes bem em prevenir-me contra esse perigo! A natureza humana é tão propícia a deixar-se arrebatar por ele! Não, Lizzy, deixa-me sentir, ao menos uma vez na vida, o quanto a minha atitude foi merecedora de censura. Não receio ser dominado por essa impressão. Há de passar depressa.»

- Jane Austen in Orgulho e Preconceito
«- É, de facto, um caso extremamente desagradável e que, sem dúvida, vai dar muito que falar. Devemos procurar suster a maledicência e suavizar as nossas chagas abertas com o bálsamo da consolação fraternal.»

- Jane Austen in Orgulho e Preconceito
«Mrs. Bennet, a cujo quarto todos subiram, depois de alguns minutos de conversa em baixo na sala, recebeu-os exatamente como era de esperar, isto é, com lágrimas e lamentações, com inventivas contra o vil procedimento de Wickman, e com queixumes acerca dos seus sofrimentos e da sua pouca saúde, censurando todos, exceto a pessoa que, pela sua culpada indulgência pelos erros da filha, era a principal responsável.»

- Jane Austen in Orgulho e Preconceito
«- [...] A distância e a proximidade são coisas relativas e dependem das mais diversas circunstâncias. [...]»

- Jane Austen in Orgulho e Preconceito
« - [...] os meus dedos - observou Elizabeth - não se deslocam sobre este teclado com a mesma mestria que verificou amiúde noutras mulheres. Não dispõem da mesma força ou rapidez e não provocam a mesma expressão. Mas isso sempre julguei ser por culpa minha, pois não me dei ao trabalho de me exercitar. Não que me convença de que os meus dedos não sejam capazes como os de qualquer outra de uma execução superior.»

- Jane Austen in Orgulho e Preconceito

21. Aproveitar

Por favor, aproveitem os vossos talentos (e incitem os que vos rodeiam a fazerem o mesmo): os que nos assaltam enquanto vontades que vêm de dentro; e aqueles que são praticados quase sem querer, como a suavidade do toque e a doçura da voz.

21. Afadigar

Só de ler a forma infinitiva do verbo sinto a minha respiração a fazer-se pesar e os músculos dos ombros e costas a curvarem-se adiante. Afadigar assemelha-se-me a uma insistência na fadiga, um arrastar do movimento cansado que ainda assim insiste em se prolongar até à completa exaustão. Afadigar soa-me a um verbo limite, daqueles que se fazem logo sentir mal lidos, escutados ou pronunciados - e fala de, precisamente, ir caminhando cada vez mais na direção dos limites.

20. Prescindir

Prescindir dos percalços por sete dias e cantar:

«Estou em Cuba
Não me chateies que eu agora estou em Cuba».

20. Agradecimento

Agradeço a incerteza. A impressão na barriga. O movimento lento dos dedos dos pés. O brilho rompante nos rasgos dos olhos. A doçura do canto dos lábios a espreitar. As lágrimas a molharem o rosto como chuva ou rio, a tornarem maçãs rosadas como se rosas feitas de delicadeza e espinhos regassem. Agradeço a melodia e o ritmo das estações e as suas transições da forma como mais ou menos se espera - edificando e destruindo esperanças. Agradeço tudo o que acontece de uma forma ou de outra - nem que seja numa ou noutra parcela -, porque apesar de tudo é a minha história e é ela que me deixa ser completamente humana assim.