domingo, 3 de agosto de 2014

« [...] agir. Ainda não se sabe se sob-agir se sobre-agir. Agir por baixo dos acontecimentos ou agir por cima dos acontecimentos. Mas agir tem de ser. Agir é urgente.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
« [...] Muitas vezes, o melhor caminho não é encontrar uma nova solução; é, isso sim, encontrar um novo problema. Ou pelo menos vesti-lo de uma maneira diferente.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
«[...] Aos poucos vai perceber que ser rebelde é muito pouco rebelde. Aos poucos vai perceber que viver cada dia como se fosse o último é uma tristeza sem igual - e vai passar a viver cada dia como se fosse o primeiro. Com projetos, com planos, com caminhos. Aos poucos vai crescer. E vai, aí sim, rebelar-se. E revelar-se.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
«[...] Diagnóstico: é um caso típico de sub-felicidade alimentada. O observador prefere a sub-felicidade própria à infelicidade alheia.
Cura: a infelicidade. Só quando sentir a profunda infelicidade estará em condições de reagir. Só a infelicidade profunda consegue gerar uma acção profunda. Enquanto só existe sub-felicidade só há sub-acção.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
«Todos os Homens têm direito ao amor. É tempo
de castrar o amor, de o libertar do peso dos sexos
sem lhe tirar o prazer do sexo. É tempo de castrar
o amor, de dizer que tudo o que existe é amar -
e não um pénis, não uma vagina; dizer que tudo
o que existe é o amor ou nada. Ou o amor
ou nada. Todas as vidas se dissolvem
em cansaço, todas as vidas
se dissolvem em ausência. Basta o amor
para curar de todas as precisões. Todos os Homens
têm direito ao amor.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
«[...] E eu 
digo que não. Não paro porque não cedo. Não 
me abaixo porque me quero. Assim como sou, só
assim como sou, sempre assim como sou. O demente
que não precisa de mentir, o louco
que tem pena do hipócrita que foge, do perdido
que se esconde. Sou o perdido e o que goza
o perdido, o dominado e o dominador, o que
mesmo quando perde se sente vencedor. [...]»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
«A dor primeira. A dor final. A dor primeira e a dor última. Pensei. Acreditei que sim. Que seria aquela. Que nenhuma dor poderia chegar perto dela. Nem sequer longe. Acreditei que seria a mais alta das dores, a mais intensa das dores. [...] E agora chega isto. E agora chega esta. [...] E que dor é esta senão a maior de todas? E que dor é esta senão a que mais me dói - a que mais algum dia me doeu? Porque é esta que eu, agora, sinto - e não a outra. Porque é a esta que eu, agora, me entrego.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas

Tal cão, tal dona

Reparava, há pouco, enquanto passeava o Yeti, que de facto há traços de verdade a escaparem-se para diante dos nossos olhos naquele dito de os cães serem iguais a seus donos ou, ao contrário, os donos serem iguais a seus cães:
O Yeti leva tudo à frente. Tem, sempre, de ter alguém ou algo à sua frente. Se pressente que há algo que lhe está a escapar ou se houve algo que deixou para trás, vira teimoso. Não arreda pata e vira constantemente o focinho para o alvo nas traseiras. Ele estanque. Ele à espera. Uma pessoa até puxa por ele, ele até dá uns passos em frente, mas logo continua a teimar. E é ele à espera outra vez. Após análise do que o precede, passa-lhe: de novo, olhar e caminhar em frente. Lá está ele, depois e de repente, a olhar e a farejar tudo o que é sítio. À procura de qualquer coisa. Nem sabe bem o quê, aposto - é descobrir o que encontrar, qual explorador em busca de desvendar mistérios. Às vezes acho, ainda, que, quando lhe dá para empoleirar as patinhas em cima de um muro e esgueirar a franja para o lado de lá, está a perscrutar a paisagem. Só a perscrutar, como quem a aprecia. Às vezes parece que só pode: não há cão, nem gato, nem gente, nem animal nenhum do outro lado. Não sei o que lhe chama a atenção. Mas é vê-lo a insistir em fintar o horizonte, por muito que lhe incite a continuação do passeio. Ah, e quando o bicho dá de caras com um pedaço de relva verde, verdinho, verdão, bem ali ao seu alcance? Ou quando se solta a rédea (como quem diz trela)? Ai - a promessa de algo bom. Lá vai ele sem olhar a quê. Ele é velocidade. Ele é determinação. Ele é a própria vontade. Tiro e queda. Largada fugida.
Como eu me revejo em tudo isto.
Diz que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.
Pois quer-me parecer às vezes que, numa de verosimilhança, escrevo sempre o mesmo blog.
«Está satisfeita consigo, com o que é. Com o que vive por fora do viver.
A vida é, muitas vezes, mais interessante por fora do viver: por fora do que é realmente viver. Por fora dos passos, por fora das ações, por fora do que acontece. E por dentro do que dá os passos, do que protagoniza a ação, do que faz com que algo aconteça.
Não importa o que acontece; importa o que nos acontece: o que acontece em nós com o que acontece a nós. E não é, nunca é, a mesma coisa.
O que acontece a nós não é - de maneira nenhuma - o que acontece em nós.
E quem ainda não o descobriu ainda está encoberto.
E quem ainda não o descobriu ainda está encoberto: aqui está uma boa definição de amor.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas
«Esta mulher (vamos chamar-lhe, doravante, apenas, "a prostituta") parece - apesar de viver, tudo o indica, a mesma vida de Cátia Cassandra - bem mais animada e feliz. Não será, certamente, por ter algo de diferente; será, isso sim, por ser algo de diferente.
A vida é, mais do que aquilo que é, aquilo que quem a vive encontra nela. Há sempre diversos ângulos de visão. Cada um escolhe o seu.
Cada um escolhe o seu: aqui está uma boa definição de amor.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas

03. Saudade

Saudades de algo que já lá vai; mas é algo que se sente aqui e agora e que procura satisfação futura.
Afinal a saudade conjuga-se em que tempo gramatical?

03. Yoga

Há dias que quase - quase - podiam levar-nos a pensar que estamos no meio de uma aula de yoga: só com alguma flexibilidade e paz de espírito é que se consegue subsistir. E com força. Muita força.

sábado, 2 de agosto de 2014

Alegria à Altura

Rir tijolos, muros, arranha-céus, muralhas, castelos, ruas, aldeias, cidades: mundos inteiros.

Imitando a construção frásica do Chagas Freitas (e a rezar para que ele nunca tenha escrito esta):

Se não queres ter trabalho: então não é amor.

02. Luz

Confesso que a discoteca não é meio para uma menina como eu. Isso mesmo: aqui e agora, tal como anteontem e lá, sou nada mais do que uma menina. E, como a generalidade das meninas, a minha imaginação transforma o mundo em redor, volta não volta. Tanto é assim que, entre volta não volta da minha saia, olhava para o tecto onde luz de todas as cores se ia acendendo e apagando: acedendo e apagando; e às tantas eu não estava mais numa discoteca. Estava numa floresta, à noite, em que pequenas fadas cintilavam céu adentro.
Diz que é história verídica. Diz, não: jura - que de ideias luminosas está ela cheia.

02. Cheirar

- Passeava o rosto pelas barraquinhas da feira e passou em frente de uma com velas perfumadas. O moço da bancada convidou-a para cheirar uma. Qualquer uma. Ou, pelo menos, uma que fosse. Acabou por não se aproximar.
- Ah! Cheirou-lhe a esturro e não foi.
- Não. Ficou anestesiada perante as milhares possibilidades de odores que uma chama pode ter.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

« [...] Everybody Has Got a Dark Side: Do You Love Me? Can You Love Mine? [...]»

A propósito da publicação anterior: lembrei-me desta música (que, estranhamente, consegue-se adaptar-se bastante bem a uma história de um(a) estudante no seu curso académico).


Sim, Piscologia. Eu amo-te na mesma.

Terceiro Ano: Welcome To The Dark Side

Quanto ao horário e optativas do próximo ano: vou chorar ali um bocadinho e já volto...

[Maria retira-se e vai lá para o fundo; ela é uma fonte a sair pelos olhos e a gritar aos sete mares: porquêeeeeeeee]
[Maria acalma-se]
[Maria retorna impávida e serena]

Olha: pelo sonho é que vamos, já se dizia na minha secundária.

01. Linear, Viajar, Belas-letras (parte II)

Como nada é linear - nem eu: o que não me falta são curvas e contracurvas - mudei de ideias quanto à forma de olhar, este mês, a viagem que a Caixa das Palavras tem a capacidade de promover. Celebremos as belas das letras dando, a cada uma delas, em cada palavra, espaço para brilhar só por si. Ao invés de em cada dia fazer um texto com as três palavras, vou fazer três textos diferentes cada dia, correspondente aos três meses em falta. Assim obrigo-me a uma ginástica mental bem feita, em vez de uma aglomeração forçada, como que feita às pressas (ainda que não seja feita às pressas), e a fugir ao objetivo original da Caixa. Como diz a pê, a que tem plenos direitos de autora no projeto (ler a publicação integral clicando aqui): a ideia não é cumprir tarefa, é dedicar tempo a cada palavra, não é sequer escrever grandes prosas ou micropoemas, é ver onde cada palavra ou o turbilhão delas nos leva. no fundo, ser botes à deriva no mar das palavras.

Muito bem. Assim sendo, vamos aos balanços e remodelações:
  • Aplicação da palavra linear ao meu dia: feita, há muito (ver aqui) (a propósito: as palavras dos dias dois, três e quatro de junho também já têm texto - clicar em cima do nome dos dias para lê-los);
  • Aplicação da palavra viajar: pois que fique esta mesma publicação, julgo-a adequada (apesar de também roçar um pouco nas outras duas palavras em questão, como é óbvio);
  • Aplicação da palavra belas-letras: penso que a última publicação que fiz, quanto à Caixa de Palavras, é aquela que se lhe encaixa (espreitar aqui).
Até mais.

T.E.S. XVII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: "Uma mulher beija um homem." Vamos contá-lo em três versões (em não menos de 80 palavras e não mais de 120 palavras):

1. 90% de comum vs 10% de único;
2. 90% de único vs 10% de comum;
3. 50% de comum vs 50% de único.

1: Um dia chuvoso e um pensamento triste: quantas vezes estes dois não faziam par? Mas tinha de sair à rua: ir trabalhar e contrariar a sua indisposição.
Ao caminhar no passeio, questionava-se sobre o que é que poderia fazer para realizar os meus sonhos, sempre adiados: seja por compromissos no emprego, seja por outros fenómenos da vida.
Não sabia o que fazer. Se calhar tinha de se forçar a fazer qualquer coisa. Talvez conseguisse alguma coisa do mundo se se (es)forçasse de alguma forma.
Ao primeiro homem sozinho e distraído que viu, surpreendeu-o com um beijo no rosto. 
Desejava dar amor a alguém, fosse como fosse.
E disse, para si mesma, que beijar um desconhecido, beijá-lo no rosto, também era forma válida de amar e acarinhar.

2: Um dia chuvoso e um pensamento triste: quantas vezes estes dois não faziam par? Mas tinha de sair à rua: ir trabalhar e contrariar a sua indisposição.
Ao caminhar no passeio, começou logo a executar mentalmente as suas funções: não as do emprego que lhe dava de comer, mas as do que a mantia realmente viva: que cada gota de chuva seja um conta-gotas quanto ao momento em que realizarei pelo menos um desejo meu. - Pensava. - Pelo menos um.
De repente: uma ideia genial: uma promessa de sucesso.
Ao primeiro homem sozinho e distraído que viu, surpreendeu-o com um beijo. Não nos lábios: no rosto. Interessava-lhe dar amor a alguém, fosse como fosse.
Desejo de amar alguém: concretizado.

3: Um dia chuvoso e um pensamento triste: quantas vezes estes dois não faziam par? Mas tinha de sair à rua: ir trabalhar e contrariar a sua indisposição.
Ao caminhar no passeio, começou logo a executar mentalmente as suas funções: não as do emprego que a alimentava, mas as do que a mantia realmente viva: o que posso eu fazer para realizar os meus sonhos, sempre adiados?
Enquanto pensava: uma ideia: podia não ser o que imaginara, mas sabia que às vezes tinha de contornar os seus ideais para ser bem sucedida no mundo.
Ao primeiro homem sozinho e distraído que viu, surpreendeu-o com um beijo no rosto. 
Desejava dar amor a alguém, fosse como fosse; e, de alguma forma: consegui-o.

Profundidade vs. Economia Narrativa - Exercício do Workshop de Escrita Criativa III (Aula XVII)

Tarefa: "João roubou a carteira da mãe e fugiu de casa." Vamos contá-lo agora mesmo em três versões (com no mínimo 60 palavras e no máximo 80 palavras):

1. 90% de profundidade vs 10% de economia;
2. 90% de economia vs 10% de profundidade; 
3. 50% de profundidade vs 50% de economia.

1: Tinha a certeza que a mãe nem ia dar pela sua falta. A tristeza por saber que ela apenas choraria a sua carteira roubada enublava-lhe o pensamento. Sentia-se mergulhado num passado e num futuro cinzentos.
Queria sobreviver, viver feliz. Como cuidar de si? A mãe nunca lho ensinara. Ela própria não sabia fazê-lo.
Tinha de começar por algum lado. Por onde? Entrou numa loja.
- Vai fugir?
Empregada de balcão assertiva. Não sabia era se fugia da solidão ou para ela.

2: Certificou-se de que a mãe já estava a dormir e roubou-lhe a carteira. Munido, esgueirou-se até à loja da bomba de gasolina mais próxima e fez o seu pedido.
- Vai fugir?
- Não querendo ser indelicado, não lhe diz respeito.
Pegou nas coisas compradas e fez-se à estrada.

3: "Onde está a minha carteira" era tudo o que a sua mãe iria perguntar. "Onde está o João": isso nunca - como nunca perguntou.
- Eram três latas de salsichas e um saco de pão. E aqueles pacotes de sumo.
Viu o rosto da empregada da loja a contorcer-se de desconfiança. Desconfiado estava ele de que aquela era a sua única hipótese.
- Vai fugir?
Sim. Não sabia era se da solidão ou para ela.
Pegou nas coisas compradas e fez-se à estrada.
«Estar sozinho é, ironicamente, uma das melhores formas de se fugir da solidão.
Estar connosco, só connosco, a ouvir o que temos para nos dizer, a sentir o que temos para nos nos sentir, a tocar, com as nossas próprias mãos, os nossos próprios medos, as nossas próprias frustrações, os nossos próprios pontos negros.
A solidão é, cada vez mais, a incapacidade para estar sozinho: a incapacidade para nos sentarmos diante de nós, realmente diante de nós (de só nós), e olharmos e dizermos e fazermos e mudarmos e alterarmos. Sem dó.
E muito menos com piedade.
Sem misericórdia.
Dizer tudo o que há para dizer. Fazer tudo o que há para fazer.
Sem fugas.
Sem os outros.
O outro é uma das melhores formas de nos evitarmos.
Andamos por ali, à volta de nós, acreditando - ou querendo acreditar para não doer - que é lá, lá fora, no outro, que está o problema que interessa resolver. E vamos andando assim, sempre a subir as escadas a caminho de fora de nós.
Mas malogradamente nunca existe fora de nós - existe, quando muito, o ligeiramente dentro dos outros.
É o máximo a que podemos almejar: ligeiramente dentro dos outros. E isso nos casos de maior cumplicidade.
Ligeiramente dentro dos outros permite-nos crer que estamos ligeiramente fora de nós.
Mas não.
Estamos sempre profundamente dentro de nós. Não existe fora de nós. Nem ligeiramente existe fora de nós.
Caminhar, naquilo que interessa, é uma forma de espelho: quanto mais andamos na direção de fora de nós mais andamos na direção de dentro de nós - e mais nos penetramos, e mais nos entramos. E fugir é uma impoossibilidade.
Estar sozinho é a cura de grande parte dos problemas do homem.
Estar realmente sozinho é uma forma de génio: um ato reservado a uma elite de intelectuais.
Só um génio consegue estar sozinho sem se isolar.
A Constituição da República, a Constituição de todas as Repúblicas, deveria obrigar a um limite mínimo de tempo sozinho para cada cidadão:
"Todo o indivíduo tem a obrigação de estar sozinho durante pelo menos uma hora por dia."
Uma frase. Uma só frase. Tão simples - e tão decisivo.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas

01. Linear, Viajar, Belas-letras

Estudei na área de Letras e Humanidades pelo secundário. Belas histórias se leram nos livros, algumas tão belas que se conseguiam tornar enfadonhas - o que fazia, precisamente, com que não deixassem de ter a sua graça. Outras não tinham tanta sorte: eram, somente, enfadonhas. Talvez não nas ideias e escrita do autor, mas para a atenção apaixonada dos meus olhos e ouvidos. Sobre isso, exponham-se agora todas as queixas, comichões e transtornos: nenhuma viagem pela língua portuguesa é linear. Nem uma. Ainda ontem disse-me o Chagas Freitas no livro In Sexus Veritas que quem vende a língua que sai do corpo tem muito mais mérito do que quem vende a língua que sai da cabeça... porque a do corpo é aquela... está ali... está à vista... é aquilo e não passa daquilo... é uma língua que lambe e dá prazer... é para isso que serve e não esconde aquilo para que serve.... Já a língua que sai da cabeça, e que por vezes se transmuta para o papel, nem sempre se sabe o que é, para que serve, qual a sua intenção de base: o autor disse cicrano; mas e se ele quiser dizer fulano? Assim uma pessoa não se entende, tece desentendimentos mil dentro de si, forma-se um batalhão de ideias. Corre risco de se perder. Posto isto, é claro que haja quem se queixe dessa guerra; da guerra em geral. Para que é que se está a estudar isto assim, pergunta o povo. O que é que vai na cabeça deste pessoal para nos ensinar isto assim, sabe-se lá o que é que o autor queria realmente dizer, pasma-se a sala de aula. A toda a classe, eu, amiga que sou, dou então resposta a esse desespero generalizado: nunca ninguém disse que, lá por a língua estar impressa em linhas, esta fosse linear. E agora pergunto eu: porque raio é que assumem que é? Porque raio é que se queixam como se só uma interpretação dos acontecimentos fosse possível? Ainda não entenderam que, se se veem postos num campo de batalha, a função é lutar? Cada um tirar os seus trunfos, muito próprios, dos bolsos? O objetivo é o debate. Debaterem-se. E aí é que está o mérito: consegui-lo. Aí é que esta o mérito de toda a escolaridade: não no autor que guiou até à guerra, mas em quem o lê. Quem o lê escolhe o caminho a seguir; diga-se, até, que escolhe  para onde quer viajar. O autor dá o mapa, dá as opções; o leitor decide qual dos trilhos quer desbravar e descobrir. No que já está definido, nas linhas, todos nos encontramos sem problemas; já nas entrelinhas cada um sabe de si.

"Caixa das Palavras" de Agosto

Vamos lá retomar o desafio à maneira que eu disse que retomaria (fazendo uma misturada dos três meses, portanto: sobre isso, clicar aqui).

[ dia 1 ] - belas-letras
[ dia 2 ] - luz
[ dia 3 ] - saudade 
[ dia 4 ] - negociar
[ dia 5 ] - neutro
[ dia 6 ] - momento
[ dia 7 ] - licenciatura
[ dia 8 ] - sumariar
[ dia 9 ] - veneno
[ dia 10 ] - protestar
[ dia 11 ] - construir
[ dia 12 ] - sortido
[ dia 13 ] - traço
[ dia 14 ] - joaninha
[ dia 15 ] - três
[ dia 16 ] - contemplar
[ dia 17 ] - belas-artes
[ dia 18 ] - apalavrar
[ dia 19 ] - pé
[ dia 20 ] - promessa
[ dia 21 ] - suspirar
[ dia 22 ] - hábito
[ dia 23 ] - arte
[ dia 24 ] - sal
[ dia 25 ] - caricaturar
[ dia 26 ] - surpresa
[ dia 27 ] - madrugada
[ dia 28 ] - troca
[ dia 29 ] - proteger
[ dia 30 ] - tolice
[ dia 31 ] - justo

quarta-feira, 30 de julho de 2014


Quem, como, quando e onde és tu?



Mesmo mudando imenso, diz que não se muda assim tanto.

Passa o tempo e passa-se tudo: eu também passo e, por vezes, passo-me. Mas, depois, vai-se a ver e não me passei. 
Diz que sou tão eu à mesma.

Ainda há segundos, foi assim:

Mano: - Que estás a fazer? Estás a escrever no teu blog?
Eu: - Sim.
Mano: - Entre o Sol e a Lua... como há Marte e Vénus.

Só para saberem

Somos trinta e sete sobreviventes na reta final do Workshop de Escrita Criativa. Quando começámos, há cinco meses, éramos setenta e oito pessoas (à progressiva dizimação de pessoal, acustomei-me a atribuir culpas a vários fatores: falta de tempo, dinheiro e disposição para prosseguir caminho). Atente-se, porém, que somos só uns vinte e poucos que continuam a pôr-se a par das aulas. E eu pergunto: qué dos outros dez que lá estão... mas não estão?

T.E.S. XVI - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: "João é ganancioso." Toca a mostrar, no nosso TES, e não gastando mais de 200 palavras, isso mesmo - sem nunca o dizermos.

- Durante anos, João, anos! Pensei que o pai me desvalorizava por admitir ser gay. Estás a ver estas marcas? As putas destas cicatrizes? Soubesses tu as vezes que ias ficando sem irmão. Cabrão, que para além dos sentimentos, tenho os pulsos todos deformados. Há anos que dava comigo a receber menos mesada do que tu. E agora apanho-te a moveres dinheiro do meu envelope para o teu?!
O pai de João e Miguel quase nunca parava em casa: trabalhava horas e - às vezes - dias a fio. Como tal, deixava-lhes cartas na mesa do hall de entrada.
- Entrámos para a faculdade e foste o único que vi receber um cartão de felicitações e dinheiro para pagar os estudos. Eu fui para medicina, João, como o pai sempre quis. Tive de trabalhar para o pagar, tive zero de apoio monetário. Fiz de mim gato e sapato... Por tua culpa! Tu, que ainda por cima seguiste os teus sonhos. Eu abdiquei dos meus para poder ser um bocadinho, nem que num aspeto, um sonho de filho para o pai. Insolente. Não fizeste isto por eu ser gay, de certeza. Também és! Só que eu tive tomates para contar ao pai.

(Voilá: centro e noventa e nove palavras).

A Trave-Mestra - Exercício do Workshop de Escrita Criativa II (Aula XVI)

Tarefa: construir uma micro narrativa, com no mínimo 60 palavras e no máximo 100 palavras, que mostre que a Joana é uma pessoa muito sensível – sem dizer que ela o é.

- Oh António, que bonito que tu estás. Dá cá dois beijos. Esse casaco!... Assenta-te tão bem! Pareces um senhor. Abraça-me, que tenho tantas saudades tuas.
Tinha estado com a avó Joana ainda ontem.
- A avó também está muito bonita. Com essa alegria toda parece mais nova. Como está?
- Agora bem. Que atencioso, trazeres o casaco do teu avô vestido hoje... Por minha causa! Continuas a pôr-me alegre com pequenos gestos. Sabes quanto sinto a falta do meu homem.
Aqueles olhos lacrimosos e brilhantes sorriram-lhe. Como era hábito, não tinha planeado nada. A avó ficara emocionada sem querer, uma vez mais.

(Cem palavras: certinhas).

terça-feira, 29 de julho de 2014

«Onde para o amor que eu não o encontro, que eu não o consigo encontrar,
apenas homens que gostam de homens e homens que gostam de mulheres,
ou então mulheres que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres,
e não há maneira de encontrar homens e mulheres que não procuram homens nem procuram mulheres, homens e mulheres que procuram pessoas,
simplesmente isso, simplesmente pessoas,
Nada é mais raro do que pessoas.
Ando todos os dias, a todas as horas, à procura de homens e mulheres que sejam apenas homens e mulheres que são pessoas, e que são pessoas simplesmente à procura de pessoas como elas, pessoas que procuram pessoas,
procurar pessoas é a única busca que vale a pena,
procurar pessoas é a única procura que deve ser procurada,
e o amor, onde está o amor,
Se precisa de ser procurado: então não é amor.»

- Pedro Chagas Freitas in In Sexus Veritas

domingo, 27 de julho de 2014

T.E.S. XV - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: misturar os nomes com os adjetivos de outros campos lexicais. Criar um texto com oito frases em que usemos pelo menos quatro desses pares.
  • Dois nomes comuns relacionados com gastronomia: comida, garfo
  • Dois nomes comuns relacionados com amor: vontade, indiferença
  • Dois nomes comuns relacionados com geografia: carta, território
  • Dois adjetivos relacionados com astronomia: cadente, brilhante
  • Dois adjetivos relacionados com automóveis: veloz, magnífico
  • Dois adjetivos relacionados com moda: magra, curta

Os quatro pares criados e usados: território veloz, indiferença magra, carta cadente, comida curta.

Para objetivos tão grandes quanto os seus o amor era comida curta. Não tinha tempo para isso, dizia. Era um rotineiro de passos rápidos, declarava não se poder dar a coisas que saltassem da agenda e o obrigassem a estar com gestos cuidados. Soubesse ele que o facto de ser humano também faz com que tenha uma indiferença magra, que de um momento para o outro fica cadavérica e perece a seus pés (pois a seus pés cai o coração). Oh, meu homem: na verdade o amor é um território veloz e que nos envolve sem mais nem menos - damos um passo e já lá entrámos; não há tempo, pois não - mas é para nos darmos conta. Deixe-se de cálculos matemáticos para prever os resultados dos seus dias. Escreva antes uma carta cadente: ponha a descoberto os seus picos de força e de fraqueza numa mesma folha. Descubra-se e ame; ame-se a si e ao que lhe surgir.

T.E.S. XIV - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: construir um texto, com trezentas palavras no máximo, em que criem e usem três pares únicos.

Os três pares únicos criados e usados: penas esmifradas, caminho tigrado, refeição rasteada.

Andas tão feroz - de tal maneira que, quando corres, parece que o tens de fazer lentamente, não te tivesses feito mestre imponderado dos teus passos. Contigo anda a morrer tudo o que precisaria de plano prévio, o que tem de ser feito de repente, e apressas-te a tornares-te homicida sem arquiteturas. Das asas que tinhas já só restam penas esmifradas e pergunto-me constantemente se o que deixaste para trás é o rasto dos teus sonhos. Parece-me que te meteste por um caminho tigrado: ora te safas, ora te lixas. Vais de encontro ao teu próprio perigo e depois, se necessário, acomodas-o na pele; isso vê-se à distância, de tão riscada que ela está com as feridas que ganhaste e que acabaram por desenhar um padrão bem demarcado no teu ser. Chegas ao pé de mim e deparo-me logo com a tua refeição rasteada: estiveste a rasgar com os dentes o que te seria saudável de digerir. Não engoliste nenhuma palavra doce que te dirigiram. Deixaste-te, mais uma vez, consumir pela raiva - pela tua zanga insaciável com a vida.

(Cento e oitenta palavras, olé).

CONSEGUI!...

Eis a minha vitória de verão.


Posso nunca vir a acabar o curso (meh; não sejas mentirosa, Maria! Nem tu acreditas nessa possibilidade... Há que ter noção das nossas capacidades, então?!)... Mas, porém, no entanto, não obstante, contudo... poderei dizer que consegui ganhar o 2048.

Dos Diálogos Matinais:

Mãe: - Não queres mesmo vir connosco?
Eu: - Não, ainda teria de me ir despachar...
Mãe: - Nós também ainda não estamos despachados.
Eu: - Pois, mas eu sou mais lenta.
Padrasto: - Por alguma razão te chamam Maria Caracol.
Mãe: - Não sei se o caracol será da cabeça, ou... [risos]

Sim, pessoas, eu tenho o cabelo aos caracóis.
E sim: por vezes também sou uma lentidão no processamento mental de informação.
Boa, mãe. Sem querer, acertaste em cheio - e logo dois em um!

sábado, 26 de julho de 2014

«Não é a pastilha, não são os amigos influentes, não é a fortuna material, não são os livros que se leu e a acumulação de cursos e "saberes" intelectuais, etc., que nos tornam felizes e saudáveis.
E também: não é a falta de dinheiro, não é um determinado emprego, não é uma mãe dita "chata" e invasora e "abandonante", não é uma infância dita "problemática", não é não viajar ou não ter férias na neve, não é não ter um curso superior, etc., que nos tornam infelizes, fracos ou doentes.
É, sim, na nossa relação com estes teres ou não teres de uma vida que se joga e se desenha a nossa pessoa, com essa capacidade de ser feliz ou infeliz.
Nós somos a nossa relação com os factos da nossa vida, não somos os factos da nossa vida. É nessa capacidade de nos relacionarmos e de nos transformarmos que está o segredo da saúde e da felicidade, que pode não ser uma palavra científica, mas é uma verdade, é mesmo "a" verdade, o objetivo da nossa humanidade, mesmo da dos "cientistas" (seja o que for que ciência possa querer dizer!).»

- Isabel Abecassis Empis, in Cada um vê o que quer... num molho de couves

sexta-feira, 25 de julho de 2014

T.E.S. XIII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: Esta semana vamos usar uma palavra nova em cada dia. Todos os dias: escrever um texto, de não menos de quatro ou cinco linhas, em que usemos uma palavra que não conhecíamos antes. Palavras que não conheçamos de todo. Podemos ir ao dicionário e tirar à sorte. Depois usamo-las num texto - pelo menos um por dia.


Dia 1, cubicar: medir o volume de um sólido ou a capacidade de um espaço; medir em unidades cúbicas = cubar

Neurónios à obra: está na hora de cubicar a mente. Mas advirto-o já: não julgue, ao se cruzar comigo no caminho e ao dar com o alerta amarelo das obras colocado no canto do passeio, que ando a martelar em ideias fixas, seguido de um limar de arestas para que estas ganhem uma forma mais consistente. Não, senhor; nem pensar! Eu cá não quero sujar mãos - nem nada - nessas coisas. Sou uma exploradora, sabe? E caso também fosse um saberia, pois - se explorasse algumas páginas do dicionário - que cubicar significa medir uma coisa qualquer em centímetros cúbicos (e digo centímetros a título de exemplo, que também me podia ocupar de procurar os milímetros ou até mesmo os metros e quilómetros). Olhe, senhor: tudo o que eu quero saber é quantos molhos de ideias diferentes cabem na minha cabeça. Por isso é que estou para aqui armada em arquitecta. Agora que já andei para aí com régua e esquadro - e descobri que não há régua nem esquadro que chegue para achar a capacidade da massa cinzenta - veja lá o que acha da primeira ideia que tive de um conjunto infinito delas que ainda terei. Estava para aqui a imaginar: até seria engraçado que alguém, ao ver-me nestes propósitos e a ouvir-me dizer que está na hora cubicar, pensasse que o que eu quero é construir um prédio de cubos, não seria?

Dia 2, franchinote: rapaz pretensioso e atrevido; janota presumido.

Tira uma pessoa férias do que é sufocante no dia-a-dia, mete-se a todo o vapor (do que lhe sobrou do ano que passou) a caminho da praia para limpar, com o mar, os olhares de um mundo - por vezes demasiadamente convencido de que é janota - e, de tão contaminada que está, julga que tem o azar de o acaso estar a favor desse "por vezes" - uma vez mais. Até na praia! - pensaria uma qualquer mulher desesperada, ao dar de caras com o homem musculado em calções de banho. Que franchinote, para se estar a exibir assim, comentaria ela, de si para si. Bom seria ser a consciência dessa mulher, nem que por uma vez, para lhe dizer algo como: ó minha senhora, tenha calma. O senhor não é presunçoso nenhum. Está na praia. Lembre-se de avaliar as situações de acordo com os seus contextos.

Dia 3, cavouqueiro: o mesmo que cabouqueiro: aquele que faz caboucos; aquele que escava; cavador; aquele que trabalha em minas.

Caro sentimento mau, quero informá-lo que só me é caro por fazer a minha alma pagar caro por se vender a si. É que não há nada que lucre consigo: vendo-me a si e ainda pago por isso. Assim deixa-me enterrada. Com os dois pés na cova. Quando trocamos de papéis, meu caro? Já está na sua hora. Eu faço de cavouqueiro desta vez, mas com a diferença de que lhe torno a terra cheia de destroços um lugar confortável para poisar. Talvez veja no mundo subterrâneo uma casa ideal para morar, em que se encaixe, e desabite o meu coração, demasiado apertado para guardar restos de tudo e de mais alguma coisa.

Dia 4, vetustez: qualidade do que é vetusto (muito velho, antigo, deteriorado pelo tempo, respeitável pela sua ancianidade) = vetustade

Não aprendeu a vestir-se bem nem a ter os cabelos alinhados. O dinheiro não chegava para pagar extravagâncias. Aprendera a ver a humanidade a nu e a embelezar o que é desarrumado. Podia ser que fosse melhor assim: acabar uma velha sábia e nunca chegar a ser princesa. Ao menos podia ter quase cem por centro de certezas de que quem a admirava o fazia pelo que ela tinha dentro. Um dia, em conversa com o seu marido - o seu aldeão encantado (como lhe chamava em segredo) -, ouviu-o surpreendê-la nestas palavras: "antes fazer vénias a vossa vetustez do que a vossa majestade".

Dia 5, jusante: refluxo da maré = baixa-mar, vazante; lado para onde desce a água da maré vazante, ou para onde se dirige a água corrente de um curso de água, em oposição a montante; local situado depois de um determinado facto ou situação (ex.: queremos prever problemas a jusante)

Maré jusante não significa que esta esteja a vazar, ao contrário do que se pensa. A maré está lá toda, tão cheia quanto antes; apenas há momentos em que tem de dar um ou outro passo atrás para, depois, com todo o balanço, irromper para a frente. Nunca o sentiram na pele? Somos como a maré. Quando recuamos é para que sejamos capazes de dar o salto mais tarde... ou não é? E recolhermo-nos em nós não significa que algo nos ameace de que iremos ficar vazios. Recolhemo-nos cheios e, depois, brotamos de repente: ainda (ou mais) cheios.

Dia 6, remir: adquirir de novo = conseguir, resgatar; conseguir a libertação de outrem ou de si = libertar, livrar; tirar ou sair do perigo ou da condenação = salvar; ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a = expiar; oferecer ou receber compensação = compensar, ressarcir; sentir arrependimento = arrepender-se; sinónimo geral = redimir

Esgueirou-se para o quarto a seguir a jantar o mais rápido que pôde. Com a comida já há muito preparada e, por fim, totalmente ingerida, mais um segundo na cozinha e não teria como se escapulir das palavras e dos olhares inquiridores dos restantes; seria inútil culpar cebolas acabadas de cortar pelas suas lágrimas. Chegada ao quarto, atira-se para a cama e aí se deixa ficar. Permite o choro molhar todo e cada remir que aprisionava dentro há tanto tempo e que vê finalmente em liberdade. Acaba por adormecer, consolada - há muito tempo que se queria livrar daquelas grades e correntes em torno dos seus arrependimentos e que lhe limitavam o espaço de manobra ainda mais do que as próprias culpas.
Que chovesse à vontade, desde que ela pudesse sentir essa chuva. Antes livre e à chuva do que presa com o sol a brilhar.

Dia 7, flostria: folgança, fanfarronada, brincadeira.

Nunca duvido de nada - sou uma corajosa. Noutro dia (tinha eu catorze anos - agora tenho vinte) uma amiga minha resolveu preparar-me uma bela surpresa. Com um sorriso em tudo radiante - e que, aparentemente, eu vi a metades (não dei conta de uma matreirice ali escondida no canto da boca) - dirigiu-se a mim com uma caixa de sapatos forrada com folhas de papel. "É para ti, tem desenhos lá dentro", disse-me, esticando o presente homemade até às minhas mãos. Eu, na minha inocência aventureira, acreditei sem olhar a quem, e removi empolgada a tampa de cartão. Até dei um salto e um grito - de susto, que dali de dentro saiu de imediato uma abelha hiperativa a voar; cá para mim aquela hiperatividade toda ainda era, mas é, stress pós-traumático - tanto da própria abelha como meu, que me descaí num valente susto. Já a minha amiga descaiu-se em gargalhadas imensas, tal fora a facilidade da flostria.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Unpack Your Heart

«[...] Hold on to what makes you feel, don't let go, it's what makes you real [...]»


«We are dead to rights born and raised
We are thick and thin 'til our last days
So hold me close and I'll surrender to your heart
You know how to give and how to take
You see every hope I locked away
So pull me close and surrender to my heart

Before the flame goes out tonight
Yeah, we'll live until we die

So come out, come out, come out
Won't you turn my soul into a raging fire?
Come out, come out, come out
'Til we lose control into a raging fire
Into a raging fire
Come out, come out, come out
Won't you turn my soul into a raging fire?

You know time will give and time will take
All the memories made will wash away
Even though we've changed, I'm still here with you
If you listen close, you'll hear the sound
Of all the ghosts that bring us down
Hold on to what makes you feel
Don't let go, it's what makes you real

If the flame goes out tonight
Yeah, we'll live until we die

So come out, come out, come out
Won't you turn my soul into a raging fire?
Come out, come out, come out
'Til we lose control into a raging fire
Into a raging fire
Come out, come out, come out
Won't you turn my soul into a raging fire?

Let the world leave us behind,
Let your heart be next to mine
Before the flame goes out tonight,
We can live until we die

Come out, come out, come out
Won't you turn my soul into a raging fire?

Come out, come out, come out
Won't you turn my soul into a raging fire?
Come out, come out, come out
'Til we lose control into a raging fire
Into a raging fire»

You don't need to Try


«Oooh
Oooh

Put your make-up on
Get your nails done
Curl your hair
Run the extra mile
Keep it slim so they like you, do they like you?

Get your sexy on
Don't be shy, girl
Take it off
This is what you want, to belong, so they like you
Do you like you?

You don't have to try so hard
You don't have to, give it all away
You just have to get up, get up, get up, get up
You don't have to change a single thing

You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try
Yooou don't have to try

Oooh
Oooh

Get your shopping on, at the mall, max your credit cards
You don't have to choose, buy it all, so they like you
Do they like you?

Wait a second,
Why, should you care, what they think of you
When you're all alone, by yourself, do you like you?
Do you like you?

You don't have to try so hard
You don't have to, give it all away
You just have to get up, get up, get up, get up
You don't have to change a single thing

You don't have to try so hard
You don't have to bend until you break
You just have to get up, get up, get up, get up
You don't have to change a single thing

You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try

You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try
Yooou don't have to try

Oooh
Oooh

You don't have to try so hard
You don't have to, give it all away
You just have to get up, get up, get up, get up
You don't have to change a single thing

You don't have to try, try, try, try
You don't have to try, try, try, try
You don't have to try
You don't have to try

Take your make-up off
Let your hair down
Take a breath
Look into the mirror, at yourself
Don't you like you?
Cause I like you»

Amor Incondicional


«Oh no, did I get too close?

Oh, did I almost see what's really on the inside?
All your insecurities
All the dirty laundry
Never made me blink one time

Unconditional, unconditionally
I will love you unconditionally
There is no fear now
Let go and just be free
I will love you unconditionally

Come just as you are to me
Don't need apologies
Know that you are worthy
I'll take your bad days with your good
Walk through the storm I would
I do it all because I love you, I love you

Unconditional, unconditionally
I will love you unconditionally
There is no fear now
Let go and just be free
I will love you unconditionally

So open up your heart and just let it begin
Open up your heart and just let it begin
Open up your heart and just let it begin
Open up your heart

Acceptance is the key to be
To be truly free
Will you do the same for me?

Unconditional, unconditionally
I will love you unconditionally
And there is no fear now
Let go and just be free
'Cause I will love you unconditionally (oh yeah)
I will love you (unconditionally)
I will love you
I will love you unconditionally»

EVERYBODY (and EVERY-SOUL)


«We come into this world unknown
But know that we are not alone
They try and knock us down
But change is coming, it's our time now

Hey... everybody loses it,
Everybody wants to throw it all away sometimes
And hey... yeah I know what you're going through
Don't let it get the best of you, you'll make it out alive
Ohh

People like us we've gotta stick together
Keep your head up, nothing lasts forever
Here's to the damned, to the lost and forgotten
It's hard to get high when you're living on the bottom


Oh woah oh oh woah oh
We are all misfits living in a world on fire
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us

Hey, this is not a funeral
It's a revolution, after all your tears have turned to rage
Just wait, everything will be okay
Even when you're feeling like it's going down in flames
Ohh

People like us we've gotta stick together
Keep your head up nothing lasts forever
Here's to the damned, to the lost and forgotten
It's hard to get high when you're living on the bottom

Oh woah oh oh woah oh
We are all misfits living in a world on fire
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us

Oh woah oh oh woah oh
You've just gotta turn it up loud when the flames get higher
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us

They can't do nothing to you, they can't do nothing to me
This is the life that we choose, this is the life that we bleed
So throw your fists in the air, come out, come out if you dare
Tonight we're gonna change forever

Everybody loses it, everybody wants to throw it all away sometimes
Ohh

People like us we've gotta stick together
Keep your head up nothing lasts forever
Here's to the damned, to the lost and forgotten
It's hard to get high when you're living on the bottom

Oh woah oh oh woah oh
We are all misfits living in a world on fire
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us

Oh woah oh oh woah oh
You've just got to turn it up loud when the flames get higher
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us

Oh woah oh oh woah oh
We're all misfits living in a world on fire
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us

Oh woah oh oh woah oh
You've just got to turn it up loud when the flames get higher
Oh woah oh oh woah oh
Sing it for the people like us, the people like us»

Isso é Canção Crónica


«As minhas muletas deitei-as fora
A minha marreca já não me dobra

Ó senhor doutor
esta doença só me dá para dançar

A dor já não maça e eu não me canso
E é cada guinada que eu até canto

Ó senhor doutor
esta doença só me dá para dançar

Faça qualquer coisa,
que eu não tenho mais razões p'ra me queixar

Já não emagreço nem fico gorda
E qualquer excesso deixa-me em forma

Ó senhor doutor
esta doença só me dá para dançar

O meu triste pranto ri-se com gosto
E o bem-estar é tanto que eu já nem posso

Ó senhor doutor
esta doença só me dá para dançar

Faça qualquer coisa,
que eu não tenho mais razões p'ra me queixar

A todo o mal do mundo dou bailarico
e até no futuro já acredito

Ó senhor doutor
esta doença só me dá para dançar

Gabo a má sorte do meu destino
E se vier a morte faz par comigo

Ó senhor doutor
esta doença só me dá para dançar

Faça qualquer coisa,
que eu não tenho mais razões p'ra me queixar

Faça qualquer coisa,
que eu não tenho mais razões p'ra me queixar»

Lisboa (não) é a Cidade Perfeita


«Ainda bem que o tempo passou
e o amor que acabou não saiu.
Ainda bem que há um fado qualquer
que diz tudo o que a vida não diz.
Ainda bem que Lisboa não é
a cidade perfeita p'ra nós.
Ainda bem que há um beco qualquer
que dá eco a quem nunca tem voz.
Ainda agora vi a louca sozinha a cantar,
do alto daquela janela.
Há noites em que a saudade me deixa a pensar:
Um dia juntar-me a ela.
Um dia cantar,
como ela.

Ainda bem que eu nunca fui capaz
de encontrar a viela a seguir.
Ainda bem que o Tejo é lilás
e os peixes não param de rir.
Ainda bem que o teu corpo não quer
embarcar na tormenta do meu.
Ainda bem se o destino quiser
esta trágica história, sou eu.
Ainda agora vi a louca sozinha a cantar,
do alto daquela janela.
Há noites em que a saudade me deixa a pensar:
Um dia juntar-me a ela.
Um dia cantar,
como ela.»

sábado, 19 de julho de 2014

Puxa um Cordelito Aqui e Acolá e Faz um Laço

Nasci às seis da manhã e o meu mano às seis da tarde. Depois, temos a minha mãe e o meu padrasto que nasceram, ambos, ao meio dia e meia.

E não querem que eu seja menina das associações mágicas?!

Nota: falando em laços, fale-se de prendas e de festas: feliz aniversário, maninho. Onze aninhos já cá cantam (os parabéns).

Sobre a Licenciatura

Parece-me, entonces, que com o primeiro e o segundo ano, vamos numa média de 15,95.

Well done, Maria. Well done.


sexta-feira, 18 de julho de 2014

A realidade dos salões de beleza (diz a cliente para a cabeleireira):
- Olhe, eu só me lembro que no casamento a mãe dela chorava, chorava... Passado um tempo o casamento definhou. Com isto, uma vez, enquanto conversávamos, a senhora disse-me assim: boda molhada, boda amaldiçoada.
- Viver a dois não é fácil...
- Pois não, uma relação não é nada fácil. É agora fácil.

A realidade do amor (diz-me a minha mãe, o mais baixinho possível, para nenhuma das duas comadres escutar):
- Eu acho que é fácil. Para mim é... Se não fosse eu não estava onde estou. Se não fosse fácil nem valia a pena.

Resumindo: se é amor, é fácil. O amor é fácil; difícil é a falta dele - essa é que é essa.

É bom ser sonhadora; acordar todos os dias com um propósito - com mais uma oportunidade para realizar um sonho.

T.E.S. XII - Trabalho Entre Sessões

Tarefa: escrever um texto absolutamente LIVRE com não mais de 150 palavras.

“Dá asas à imaginação” disseram eles. Eu pensava que a imaginação já tinha asas – que já era como um pássaro por si só, embora possivelmente preso numa gaiola e à espera de uma corrente de sorte que obrigasse a abertura da portinhola; de uma corrente de ar (entenda-se). Tudo muito bem que, tenha o pássaro as asas que tiver, se estiver preso é como se não as tivesse… Mas tem: deixem-se de metáforas; as asas estão lá – não servem é para nada. Em vez de pássaro, a imaginação até podia ser dragão; contudo, se após cuspir fogo contra o metal da jaula para o derreter continuar presa, serve de quê ter a capacidade de voar milhares de quilómetros, planar mundo fora? Há que reformular: a resolução do problema não está em oferecer asas mas em combater a prisão da imaginação – libertá-la, deixá-la ir. Deveriam dizer, antes, “dá liberdade à imaginação”.

TAC Estrutural & Teste de QI Linguístico - Exercício do Workshop de Escrita Criativa

Sobre a Tarefa: TAC porque este é o exercício em que, com toda a transparência, todos os possíveis problemas virão ao de cima. E Teste de QI Linguístico porque esta é, sem dúvida, uma bela forma de percebermos qual é a nossa capacidade ao nível da produção escrita. Aqui vai:

4 - 3 - 5; 1,4,3: 5. 1,3,1,5 - 2 - 1.
(parágrafo)
3: 4! 4, 2, 5; 5 - 3 - 3; 3, 2?
(parágrafo)
2 (3), 4 – 3...
(parágrafo)
1,2, 4. 3: 5, 3, 3; 1, 4, 6 - 4 -, 5, 3, 2: 4, 2. 
(parágrafo)
3.

Esse é o molde para o exercício.

Em que consiste: escrever um texto que encaixe no molde. Tal como nos exercícios anteriores deste género: os números presentes correspondem ao número de palavras. Por exemplo:

4 - 3 - 5; 1,4,3: 5.
Naquele dia de sol - um grande dia - resolvi ir à praia sozinho; feliz, mas mesmo muito feliz, dei um mergulho: o mortal mágico do costume.



4 - 3 - 5; 1,4,3: 5. 1,3,1,5 - 2 - 1.
Um dia vou vencer - na maior descontração - o campeonato contra mim mesma; e, sem mais ilusão alguma, entender a verdade: este fora em meu favor. Eu, então absolutamente encantada, sorrirei, sorrirei imenso e em gargalhadas - como nunca - estrondosas.

3: 4! 4, 2, 5; 5 - 3 - 3; 3, 2?
Sempre dei gargalhadas: mas nunca nessa forma! Numa forma de excitação, absolutamente pura, por nunca ter havido problemas; problemas verdadeiramente alarmantes e descabidos - fora do normal - face à coerência; coerência da vida, faço-me entender?

2 (3), 4 – 3...
Por enquanto (não sei quanto), ainda não consegui vencer - os obstáculos desafiam-me...

1,2, 4. 3: 5, 3, 3; 1, 4, 6 - 4 -, 5, 3, 2: 4, 2.
Contudo, se atenta, compreendê-los-ei como meros desafios. Obstáculos são desafios: não há qualquer anormalidade neles, nem lados lunares, nem fados mortais; sei, apesar de ser contra-indutivo, que não há quaisquer artimanhas obscuras - revoltas mundanas contra mim -, pois por muito que sofra, que doa intensamente, faz parte: lutar contra mim fere, é natural.

3.
Mas vencerei naturalmente.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

«Não sabia o que dizer. Aquilo que Edna disse não era globalmente falso. Lori não se dava bem na sala de aula. Era inegável que, em muitos aspetos, o seu comportamento era o de uma criança perturbada. Fora assim noutras ocasiões; seria certamente assim naquele momento. Lori precisava de ajuda. Mas essa não era a verdadeira questão. Quem pensávamos que estávamos a enganar? Estaríamos verdadeiramente convencidos de que aquilo que acontecera tinha sido culpa de Lori? Estaríamos tão cegos?
Não foi Lori. Fomos nós. Dan, eu, Edna, todo aquele estúpido sistema escolar. Os responsáveis éramos nós; não era Lori. Será inadaptação desistir? Quando estamos fisicamente incapacitados para fazer alguma coisa e, mesmo assim, tentámos fazê-la durante três anos, seremos loucos por já não aguentarmos a pressão? Se Lori fosse cega ou surda ou não tivesse braços, teríamos cometido a brutalidade de lhe provocar um esgotamento, mas, como tinha uma incapacidade que ninguém via, éramos capazes de deitar as culpas para cima dela. E podíamos ficar tranquilamente sentados e fazer aquilo em que os profissionais são bons: o papel de Deus.»

- Torey Hayden in Os Filhos do Afeto
«- Não, não. Não é isso que quero dizer. Não está bem porque não era assim que eu queria desenhar. Não era perfeito, como eu queria que fosse. Mas sabes uma coisa em que estava a pensar, Tor? - perguntou e fez uma pausa, com a voz trémula enquanto passava mais um olhar minucioso pelo desenho.- O que eu estava a pensar era: é perfeito. Não a parte que vemos, mas o que está dentro de nós. Na minha cabeça, o pássaro era perfeito.
Virou-se para olhar para mim e esboçou um sorriso.
- E isso para mim é o bastante para gostar deste desenho, mesmo que não seja realmente perfeito. Porque... bem, porque sei que podia ser... - afirmou e, virando-se para mim, perguntou: - Sabes o que quero dizer?
- Sim - confirmei, acenando a cabeça. - Creio que sei.
- As coisas nunca são realmente perfeitas - comentou. - Mas dentro de nós podemos sempre vê-las perfeitas se tentarmos. Isso torna as coisas belas para mim.
- És uma sonhadora, Lor.
Olhou-me fixamente, com aqueles olhos escuros e redondos e para além de todos os sorrisos. Não disse nada.
- É bom ser sonhador.

O desenho do pássaro azul nunca foi afixado no nosso jornal de parede. Levei-o comigo para casa. Afixei-o sobre a minha cama para me fazer lembrar, pelo menos duas vezes por dia, da beleza num mundo imperfeito.»

 - Torey Hayden in Os Filhos do Afeto

Quando a Estrada me transportou num Carro

Regresso a Lisboa de um fim-de-semana em família. Os meus olhos perdem-se algures entre a janela do carro e a paisagem enquanto estou imersa em pensamentos difusos e pouco definidos.
Subitamente, desperto. Noto na ponte que em tempos transportou uma menina sonhadora num autocarro - com o coração aos pulos porque ia ter o seu primeiro encontro. Ainda por cima com ele; quão tal me era doce... Vejo o Amoreiras lá ao fundo. Lembro-me do local em que vi o teu sorriso pela primeira vez, dirigido diretamente para mim.
Bons tempos. Boas memórias.
Depois, olho em frente. Desperto mais ainda. Estou noutra estrada completamente diferente - o que, de certa maneira, é reconfortante.
As bordas da estrada estão preenchidas por folhagem verde em todo o lado; desenham-se algumas árvores e arbustos pequenos que não se podiam assemelhar mais vivos. O sol brilha com toda a força. Também é bonita, esta estrada. E ainda bem.

domingo, 13 de julho de 2014

Filósofa de Banheira com "wanna-be" Psicologia à mistura (e, sobretudo, humanidade)

Despacho-me do duche. Como é hábito, pego na toalha húmida com a intenção de a estender lá fora para secar. Desço as escadas da vivenda que dão acesso para o jardim e passo pelo meu irmão a brincar com o primo. 
- Então...? 
Estão a divertir-se, pensei, completando a questão que lhes dirigia e que, verbalizada, se ficou pelo incompleta. A dar pelos rostos das crianças - iluminados pelos sorrisos, ritmados pelos risos - quis acreditar que sim.
Quis acreditar que sim.
De repente, dá-se uma recapitulação automática na minha mente de toda a divagação de pensamentos que me tinha ocorrido há momentos - no duche, está claro; quem é que nunca foi filósofo de banheira?
Promessas: tinha sido esse o assunto sobre o qual andara a refletir.
Estou a prometer, a mim própria, que está tudo bem. Que eles se estão mesmo a divertir. Estou a assumir isso.
Foi o que pensei imediatamente de seguida.
Sabem? Mais do que aquilo que as pessoas nos dizem, mais do que aquilo que elas nos mostram, o mais sensível e determinante de tudo é como nós pensamos acerca disso e, portanto, o que pensamos acerca disso. Esse é o limbo entre cair e manter o equilíbrio.
Mais sério do que o que os outros nos prometem é, talvez, o que prometemos a nós mesmos sobre os outros. Isso sim: é o verdadeiro causador de problemas quando uma promessa que o outro nos faz se quebra, seja por que razão. Ou quando, apesar de o outro não nos ter prometido nada, nós achamos que este o fez - nem que seja por sentirmos que é como se o tivesse feito através de ações, de forma indireta; nem que seja porque queríamos muito que, de facto, uma promessa tivesse sido realmente feita (e, em consequência, cumprida).
Erros de comunicação ocorrem a toda a hora - erros de leitura de segundos, de terceiros... e de nós mesmos. É normal.
Erros na vida e da vida.
O facto de uma promessa não ser cumprida - ou não se concretizar, pois de facto há quem como que prometa coisas sem recorrer a palavras (isto é, baseando-nos apenas nas intenções que dessas pessoas deduzimos) - não quer dizer que esta não fosse verdadeira quando criada. Claro que existem promessas que nada têm de verdadeiro desde início, mas há as que têm. Há quem prometa coisas com toda a sua vida. A genuinidade disso não deve ser posta em causa. O que deve ser posto em causa é que é "com toda a sua vida". Não é com a nossa. São vidas das quais não temos controlo nem podemos esperar ter. Se temos alguma influência? Sim, em parte. Controlo? Não. Nem na nossa própria vida temos total controlo, quanto mais na dos outros...
Acidentes de percurso ocorrem a todos. Imprevistos estão no virar da esquina. Até na esquina da mente - mas já dizia o James da Clínica Privada: If it felt like love, then it was. Don't let the perspective you have now diminish the feelings you had then. That wouldn't be fair. 
Quero dizer: lá porque as coisas já não são de x maneira no presente, não quer dizer que não foram de x maneira no passado. Tirem os macacos da cabeça, meus caros, que eu também já os tive e bem sei o quão desagradável é ter a cachimónia transformada numa selva - o que se vive para trás também é real. Não foi. É. Não deixou de ser só porque o tempo passou. No passado ninguém mexe, já ninguém altera. O presente é que mudou e é outro.
Retomando: mais sério do que o que os outros nos prometem é, talvez, o que prometemos a nós mesmos sobre os outros. Esse é o limbo: as expectativas que depositamos, não sobre os outros, mas sobre o que podemos determinar sobre os outros - sobre toda a nossa vida.
Sejamos cuidadosos. Não paremos de acreditar no que queremos e de lutar por isso, pois é assim que o obtemos. Contudo, não sejamos demasiado rígidos e implacáveis. Tiremos as palas. Saibamo-nos flexíveis perante o imprevisível e o indesejável, capazes de nos adaptarmos ao que antes nos parecia inconcebível de acontecer ou de aceitar. Aconteça o que acontecer, a nossa vida não terminou enquanto estivermos cá.
Estamos cá. E os nossos sonhos - talvez não em específico, mas no geral - não terminaram.

"Caixa das Palavras" de Julho

"Marimbei-me" - e aparenta ter sido assim: à grande - para a caixa das palavras do mês anterior, dados os já referidos exames da faculdade. Como já fazem, também, alguns dias do mês de julho (e visto que agora quero é organizar a minha vida e esticar dedos, mãos, pernas - tudo e mais alguma coisa), tive uma ideia brilhante - e que, por vezes (nas palavras que o justificarem), até poderá ter algumas parecenças com os exercícios de escrita criativa que foram propostos no workshop que ando a fazer (e que em breve publicarei aqui pelo blog).

Em agosto, a partir de dia 1, vou tentar criar um texto com a palavra do dia, não só do mês em questão, como de julho e junho. Isso mesmo: no dia 1 de agosto, vou escrever um texto com a palavra de dia 1 de agosto, 1 de julho e 1 de junho - assim por diante, até ao fim do mês.

Para já, aqui fica a lista de palavras de julho, para depois ser mais fácil fazer a misturada.

[ dia 1 ] - viajar
[ dia 2 ] - cheirar
[ dia 3 ] - yoga
[ dia 4 ] - retribuir
[ dia 5 ] - afocinhar
[ dia 6 ] - solidificar
[ dia 7 ] - safadez
[ dia 8 ] - sensatez
[ dia 9] - elástico
[ dia 10 ] - roda
[ dia 11 ] - recortar
[ dia 12 ] - transmitir
[ dia 13 ] - retocar
[ dia 14 ] - admoestar
[ dia 15 ] - transparecer
[ dia 16 ] - trabalho
[ dia 17 ] - mentira
[ dia 18 ] - revolto
[ dia 19 ] - galhofar
[ dia 20 ] - voar
[ dia 21 ] - soneto
[ dia 22 ] - adiantar
[ dia 23 ] - ponto
[ dia 24 ] - ziguezague
[ dia 25 ] - ubiquidade
[ dia 26 ] - batalhar
[ dia 27 ] - saborear
[ dia 28 ] - treze
[ dia 29 ] - solidariedade
[ dia 30 ] - senão
[ dia 31 ] - repousar

sábado, 12 de julho de 2014

Clichés em toda a parte, questões-chave

- Os clichés existem porque as pessoas são umas teimosas, não é? Têm de repetir as coisas na vida uma e outra vez até terem a certeza do que é e não é real...
- Umas glutonas, é o que elas são! Pares de olhos e de ouvidos que papam tudo. Sejam boas ou más bocas.
- São é umas ingénuas. Umas madre Teresa de Calcutá. Perdoam e deixam passar uma e outra deixa repetida, uma atrás da outra, como se nada fosse. Por ventura sabem a que se deve o uso da expressão "madre Teresa de Calcutá"? E tantas outras popularidades confundíveis com banalidades? Ou é preferível ficar na ignorância despreocupada?

Está aberto o diálogo.

Clichés à parte, frases-chave

«Insistir em algo que nunca dá certo é como calçar uns sapatos que já não servem. Magoam. Causam bolhas e às vezes até faz sangue. E aí percebes que o melhor é ficar descalço. Deixar totalmente livre o coração enquanto vives. Deixar livre os pés, enquanto crescem. O número muda. E o que insistias em calçar, não servirá mais. Ás vezes é preciso esquecer o que queremos para começar a entender o que merecemos.»

- por Daniela Fonseca

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Folha de linhas. Linhas de um Caminho de Ferro. De um Caminho Ferranho. A seguir.

Aquele momento em que estás a pôr em dia a leitura de todas as sessões do workshop de escrita criativa em atraso (estive com exames da faculdade, daí a ter negligenciado o tempo para tudo e mais alguma coisa exterior à vida académica, inclusive todos os escritos aqui do blog) e lês O comentário. Aquele que te obriga a parar porque algo dentro do peito saltou, estremeceu - não sei bem.


Não quisesse eu ser escritora e esse ser um dos meus sonhos mais upa-upa, não estava estarrecida e enternecida (sim, sim - exatamente assim: tudo ao mesmo tempo e à molhada) a olhar para o ecrã. Sem, ainda, conseguir continuar a ler as sessões.

Sim, Maria: estás a lutar por um sonho. Já reparaste? Já paraste mesmo para pensar nisso? Para o consciencializar?
Estás a ir a passos de bebé  - mas a caminhar. Quão poderoso soa isto? Quão audível é o som dos teus pés a tocar o chão? Ainda que devagarinho, devagarinho.

Devagarinho, devagarinho... vamos ver onde é que vamos dar.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Qual é o cenário da tua vida?

Queria um background cheio de flores...
Procurei-as.