
Seis da manhã. Ente veste collants, dá o nó à camisa, aperta botões, gira a saia e troca o passo, apita o telemóvel para minha surpresa... e quão doces podem ser as surpresas!... É uma mensagem da afilhada a desejar bom dia. Respondo-lhe, animada, e já a conceder-lhe esse desejo (tal e qual qualquer aspirante a fada madrinha) no meu coração. Há-de ser um bom dia, um grande dia - penso. E assim, com a pulsação a fazer festinhas na ansiedade miudinha (para a acordar, bem se sabe), desço e subo ruas de capa negra ao ombro rumo à paragem de autocarro. Ter uma afilhada que, embora não tenha ido à Faculdade a semana inteira por motivos de força maior, se pôs a conduzir, de propósito e de madrugada, de Santarém a Lisboa, para estar presente no dia de Praxe por que tanto aguardávamos, é só uma das milhares de razões que, naquele dia, me fez vibrar de amor por dentro (e por fora, como depois mostraram as tantas lágrimas de Maria Madalena ao fim da tarde - o que é digno de verdadeiro destaque, pois nem me chamo Madalena; mas já retomarei este assunto).
Começa o dia de Praxe, começam os jogos e começam os sorrisos. Começo a achar que é automático. Um automatismo que, felizmente, me faz tiro ao alvo desde o ano passado, quando também eu vestia a camisola do caloiro, toda sarapintada de tinta, terra, e outras substâncias que tais. Digam o que disserem, é inevitável: há de haver sempre alguém nas redondezas com um sorriso genuíno estampado no rosto. Saber que isso não muda para caloiros e trajados, seja qual for a sua geração, e por muitas voltas e reviravoltas que o mundo dê, é um grande motivo de orgulho para mim e aquilo que me faz continuar a achar que vale a pena - todas as penas, aliás (a dos passarinhos, dos patos, das almofadas, seja o que for) - vestir-me de branco e negro pela vida académica. Ou por toda a vida, para ser mais precisa, pois não há o que apague tudo aquilo que se vive na faculdade e graças a ela. Não esqueci, esqueço ou esquecerei como foi ser praxada ao lado de pessoas que rapidamente se tornaram parte de mim; e também sei, cada vez mais e melhor, que não me vou esquecer de como é trajar e praxar ao lado delas. De referir todas as parvoíces, conversas e confidências que, em tão pouco tempo, já fazem da nossa história algo tão imenso. De referir todas as gargalhadas que preenchem silêncios, e todos os choros que no silêncio irrompem mas que logo são afagados por abraços... abraços que não duram, apenas, aquele momento. Duram para sempre. Quando os damos, sentimo-lo, sabemo-lo de imediato: aquele momento não tem nem segundos, nem minutos por duração. Sejam quais forem as razões, boas ou más, que o sustenta. À semelhança do que fiz noutros textos, repito: o dito de que "os amigos da faculdade, são amigos para a vida" não podia fazer mais sentido. O circulo de amigos que ganhei e que é reforçado de forma intemporal, tal como eu tive a oportunidade de constatar, pela milésima vez, há três dias atrás, nesse tão querido dia do Batismo de que aqui tento falar, faz com que cada saltar para fora da cama ou cada retorno tardio e exausto a ela tenha outro conforto. Saber, então, que tudo isto é eterno... é indescritível.
Indescritível também foi sentir - algo que também não esqueci, esqueço ou esquecerei - uma alegria imensa a tomar conta de cada cantinho do meu corpo e alma enquanto caloira. E indescritível, também, é saber, cada vez mais e melhor, que não irei esquecer como é senti-la enquanto trajada. De facto, a vinte de março de dois mil e catorze, também tive a oportunidade de, uma vez mais, ouvir da boca e do coração FPIE-ULiano uma mensagem importantíssima dirigida aos nossos pequenos (e em tudo extensível à restante comunidade): "somos uma família. Sempre que falarmos da nossa instituição, do nosso curso, vamos estar a falar da nossa família". Sabem? Não há maior verdade do que esta. Nem sempre estamos todos vestidos de igual. Nem sempre pensamos de maneira igual. Nem sempre concordamos ou suportamos variadas situações de maneira igual. Mas, daqui a uns anos, quando tivermos dito adeus à idade de estudante e seguido em frente com os nossos caminhos, vai saber bem ver alguém que estudou no mesmo sítio que nós a passar na rua. Mesmo que não seja a pessoa com quem mais nos identificávamos, vamos pensar "olha! Aquele/a era da minha faculdade" e, invariavelmente, sentir uma pontinha de satisfação que seja. Porque por muitos aspetos das nossas personalidades que possam discutir entre si, por muito que possam haver pessoas que não são, como disse, aquelas com quem mais nos identificamos, há um aspeto, pelo menos um, que faz a identidade de todos: somos uma família. E a família une-se, aconteça o que acontecer. A família continua a aparecer, a dar a cara - mesmo que o Universo esteja a um segundo de eclodir. Mesmo que o céu esteja tão negro que quase nos engole. Mesmo que haja zangas e divergências e que ninguém consiga ser perfeito. A família continua a lutar uns pelos outros. Não é que ponha de lado todas as fissuras, arranhadelas e feridas que possam existir - não põe. Não é que não haja momentos em que aquilo que mais apetece fazer é desistir - não. O que faz mossa continua lá... Mas é precisamente isso que torna tudo tão bonito. Apesar de tudo, continuo a testemunhar a minha família a juntar-se, a reunir-se. A união é incondicional e vai além de todas as aparências que possam tentar declarar o contrário. Aperceber-me disto de novo... garanto-vos: fez-me atingir todos os mais elevados graus de apaixonada pelos quais já estive pela minha Praxe Académica.
Finalmente, e falando em mais paixões... Da mesma maneira que não esqueci, esqueço ou esquecerei como foi transbordar de carinho enquanto afilhada, também sei, cada vez mais e melhor, que não me vou esquecer de como é fazê-lo na pele de madrinha. Minha querida afilhada, agora falando diretamente para ti: és um orgulho. Disse-te enquanto nos abraçávamos, submersas em emoção por, afinal, não te batizar naquele dia, e volto a dizer-te aqui e em todos os lugares do Planeta em que tal oportunidade me for concedida. Para além de tudo aquilo porque já passámos juntas e que já tanto me toca... Foste de propósito para a faculdade. Por mim, por nós. Por mais um momento juntas, o tal momento. Aquele que esteve lá desde início (não fossemos nós tão parecidas), e que mais tarde se traduziu nas palavras inevitáveis: "queres ser minha madrinha? Sim!". Tal não podia passar ao lado neste relato. E ver-te sorrir, tantas vezes, ao longo daquele dia... foi como se me tivesse sido dada (mais) uma prenda. Ver-te a transpirar de contentamento com os teus colegas, saber-te bem, e que se estava a formar em ti a memória de um Batismo verdadeiramente especial, não me podia ter preenchido mais por dentro. És a prova viva de que, no fundo, uma comparência maior ou menor nos dias de Praxe não faz, necessariamente, o espírito académico. Melhor: o espírito de adorar estar viva. Perdoa-me, pois realmente não te sei dizer como deve ser o quanto brilhaste aos meus olhos. Sejam ou não estas palavras exageradas para os demais, foi assim que te vi... e que te vejo, no teu dia-a-dia, sempre que falas de um sonho ou o percorres. Não te sei dizer quão derretida me deixaste quando, pelas atividades de Praxe se terem estendido um pouco mais do que o previsto, me disseste que te tinhas de ir embora mas que, assim, ias esperar pela tua amiga, que também tinha ficado triste por não conseguir ser batizada no dia para, então, serem batizadas juntas. És linda. De que outra maneira te poderei descrever? És linda. Espero, em breve, conseguir proporcionar-te a segunda melhor parte do batismo que alguma vez poderias ter tido. Estão ler isto, pessoas? Estão? É uma promessa. E vocês são as testemunhas.
«Chorar, como eu chorava
Ninguém pode chorar
E amar, como eu amava
Ninguém pode amar.»
Da vossa,
Maria (com o
"Madalena" emprestado)
[À Inês, pelas gargalhadas engasgadas e pela companhia durante todo o almoço. À Maria, pelo momento das Marias Zen e Petrificada. À Rute, por ter vindo toda carregada para a faculdade para conseguir fazer tudo e, ainda assim, estar ali connosco. À Catarina, pelo abraço chorão que agora se tornou um marco. À Joana à e Carolina, por serem madrinhas exemplares, tanto para quatro meninas lindas, no sentido literal, como para mim, vossa amiga. A todas as outras que não estiveram lá nesse dia, mas que estão em todos os outros. À (outra) Inês, pela primeira prestação na TAPCE para a FPIE-UL, e que me marejou o cantinho dos olhos. Ao André, por ter feito com que eu e a Catarina não nos ficássemos apenas por um abraço chorão nesse dia. À minha Milene, por tudo aquilo que já aqui referi e ainda vou referir - por fazeres de mim a madrinha mais babada do Infinito.
A todos os que não mencionei, mas que ainda assim tornaram este dia especial, como já o fizeram em tantos outros: obrigada. Tanto que, em casa, voltei a largar-me a chorar quando me abracei à minha capa, cada vez mais valiosa para mim, antes de a guardar.]