É possível - e aconselhável - nutrir a destruição. Não te preocupes se, por isso, passas a desnutrir a ilusão; se é ilusão, não existe de verdade. Não é preciso (nem faz sentido) alimentar coisas que não estão realmente vivas. É estar a deitar comida fora: atirá-la para o ar, deixá-la cair no chão - e, com ela, também tu te deixares voar e estatelar.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Peixinho do Mar
"(...) a questão é que eu não estou interessada meramente em ganhar experiência. Eu que seja a pessoa mais inexperiente do mundo mas que, quando seja para falar, seja para falar de amor. Se não é para ser nada de sério ou com a intenção de ser sério... 'migos, fui-me. Se não for ele há-de ser outro peixinho do mar. 'Peixinho do mar, podemos passar ou não?', 'Só quem tiver a cor... verdadeira!'"
- Maria numa conversa a 30 de maio de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
T.E.S. XI - Trabalho Entre Sessões
(Nota: o T.E.S. IX e X não foram muito relevantes para publicar aqui no blog, por isso saltemos para o XI)
Tarefa: colocar, em cada frase (acrescentando palavras, se necessário): pelo menos duas vírgulas; pelo menos um travessão e/ou dois pontos e/ou par de parêntesis.
Tarefa: colocar, em cada frase (acrescentando palavras, se necessário): pelo menos duas vírgulas; pelo menos um travessão e/ou dois pontos e/ou par de parêntesis.
"Parecia completamente surreal toda aquela situação. Era de facto estranho. A incerteza de ela estar na sua frente fazia-o esquecer-se da razão. Não havia distinção alguma do que era real e do que não era. Os sonhos e a realidade fundiam-se naquele instante. Não dá para acreditar a que ponto tudo isto chegou. Tudo parecia difuso e enublado."
Parecia (completamente) surreal que toda aquela situação estivesse, contra todas as suas expectativas, a acontecer. Era, de facto, estranho - muito estranho. Não o podia negar: tinha a incerteza de ela estar mesmo, ali, na sua frente - e isso fazia-o esquecer-se da razão. Não havia distinção alguma, que pudesse fazer, do que era real e do que não era - não se julgava capaz disso naquele momento. Os sonhos e a realidade fundiam-se, naquele instante, como se os milagres fossem possíveis: sempre havia julgado que não eram. Não dá para acreditar a que ponto tudo isto chegou: o seu mundo tinha, como acontecia a tantos outros (e tantas outras vezes), rodado a trezentos e sessenta graus. Tudo parecia difuso e enublado - mas o coração, esse, era claro: não aguentava nem mais um minuto longe dela.
29. Bingo
Rodam os números, confundem-se as horas, misturam-se os dias em correntes de sorte ou de azar. Vamos tendo cartão verde, amarelo ou vermelho para continuar.
Bingo! Não importa a cor: importa continuar.
28. Vertical
Olhar para o que está no nosso horizonte ou olhar para cima, para tudo o que ainda podemos alcançar?
terça-feira, 27 de maio de 2014
26. Satisfazer
A curiosidade é uma coisa que não se satisfaz - nunca se satisfaz, pois isso implica que ela esta presente. Contudo, uma vez satisfeita, deixa de ser curiosidade. Passamos a satisfazer outra coisa qualquer.
Estou curiosa para saber o que é essa outra coisa qualquer. E agora?
23. Sopa
Bem que se podia fazer uma analogia entre a vida e comer sopa: estamos sempre a uma colher de ser ainda mais fortes e saudáveis.
21. Saciar
No mundo há muitas contradições - ou muitas pessoas ridículas. Todos já fomos ridículos pelo menos uma vez, em que foi o que menos nos satisfez que mais nos fez ter fome e pedir por mais.
20. Ausência
Podia dizer que não conheço ausências - precisamente por nunca as ter visto. Podia dizer que o que não se vê, não existe. Mas é mentira: uma grande, grande mentira.
Às vezes, são as coisas que não acontecem que mais fazem as coisas acontecer - que mais nos fazem sentir existir.
19. Sul
Um dia encontrei e perdi o norte. Estou certa que está na altura de dar oportunidade ao sul para mostrar o que vale.
18. Surripiar
Naquela manhã, pensava em ti quando um passarinho piou à janela. "Pronto", pensei, "já fui."
Surripiaste-me a atenção, é certo; fizeste logo com que o dia, num mero pormenor, me sussurra-se toda uma melodia apaixonada.
sábado, 17 de maio de 2014
17. Pressentimento
Tenho o pressentimento (ou pré-sentimento) e que vou voltar a amar. Será que esta previsão (ou pré-visão) se irá mesmo concretizar?
sexta-feira, 16 de maio de 2014
16. Abrandar
Há pessoas demasiado impulsivas - demasiado brutas na interpretação do dia-a-dia. Em vez de tornarem mais brandos os seus passos, abrem o andar às largas na direção de um qualquer julgamento - como quem tem urgência de fazer valer o seu ponto de vista.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
15. Carta
Querido Eu do Presente,
Não desvalorizes absolutamente nada: nem sequer os silêncios no meio desta carta. Pode aparentá-lo - mas ela é tudo menos pequena.
Com amor,
Eu do Passado.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
14. Sonolência
A tristeza e a sonolência confundem-se no pesar das pálpebras; ambas denunciam cansaço.
terça-feira, 13 de maio de 2014
13. Mar
Estendo-me e enrolo-me, toco e fujo, avanço e recuo na areia que piso tal e qual uma onda do mar - uma onda de ser.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
12. Tangerina
Tangerina: uma fruta que sempre achei muito à tangente da laranja. Sinceramente, não compreendo o porquê de termos adotado o nome da última para falar de uma mesma cor. É devido àquela história do "respeitinho aos mais velhos"? É por isso?
domingo, 11 de maio de 2014
10. Altruísmo
Altruísmo: tentativa mais ou menos momentânea de estar à altura das expectativas bondosas que temos acerca de nós mesmos.
08. Personalizar
Personalizamos tudo: o que vemos, o que ouvimos, o que cheiramos, o que tocamos, o que provamos.
07. Uva
Em vez de massa (cinzenta) tinha uvas na cabeça. Não se importava: a massa, por vezes, vinha transformada à priori e ela gostava de confecionar o produto final por si própria.
Depois, bebia vinho para celebrar.
06. Livraria
A Bela não seria tão Bela se o Monstro não lhe tivesse dado uma livraria. Faltar-lhe-ia qualquer coisa: um pouco de encanto, talvez.
Quem me dera que os meus monstros me dessem livros - às vezes também sinto que me falta qualquer coisa no confronto com a realidade: um manual de instruções, uma visão mais mágica do mundo, um puxão que me faça ser mais terra-a-terra... Sei lá.
05. Agora
- Estamos oficialmente juntos. E agora? O que vai acontecer?
- Agora? Agora vamos parar à praça pública. Vais ver: seremos assunto de toda a gente não tarda. Vai haver muita movimentação, muitas bocas a falar: tal e qual acontecia nas ágoras da Grécia Antiga. Por muito que pareça que este palrar é coisa recente, por muito que isto vá ocorrer precisamente agora... estes hábitos não são de agora.
04. Susto
- Depois já sei como é que é: quando morrer, morres comigo.
- Ahn?! Tu partes e eu morro? Tornas-te fantasma e, a mim, obrigatoriamente, dá-me uma coisinha má? Nem pensar! Posso assustar-me contigo: morrer de susto já é esticar a corda. Vê lá o que dizes: ainda te enforcas nessas palavras.
03. Divertir
Sou só eu que consigo divertir-me ao reparar que nada de divertido está a acontecer aqui e neste preciso instante?
T.E.S. VIII - Trabalho Entre Sessões
Tarefa: criar um texto - com princípio, meio e fim - com seis frases e em que haja quatro dois pontos.
Deitou-se ao fim de mais um dia, questionando-se o que é que tinha feito de errado: nada; não encontrava nada - nenhum momento em que não tivesse dado o máximo (o melhor possível) de si. Aparentemente, não tinha sido o que suficiente - ela: não tinha sido o suficiente. Apesar de toda a sua entrega, dedicação, compreensão - apesar da pessoa maravilhosa que era a toda a hora -, o seu amor deixou-a no último minuto. Largou-se a chorar noite dentro, só pensando no quão imensa era a sua falta de coragem para enfrentar o futuro: no quão desejava estar morta - tudo o que fizera, tudo o que era, tinha sido em vão.
Acabou por adormecer (quiçá, achado que para sempre); contudo, acordou na manhã seguinte, lavou-se, vestiu-se, foi trabalhar - recebeu imensas chamadas do mundo. Uma delas foi da mãe: queria relembrá-la de como a avó sorria com tanta vitalidade sempre que a via e que, com certeza, nunca quisera deixá-la - que se havia lição a retirar dos tempos difíceis que se haviam passado (e que ainda iriam ocorrer no futuro) era a de que a força conseguia lá estar apesar da doença.
T.E.S. VII - Trabalho Entre Sessões
Tarefa: Criar três exemplos de uso do travessão seguido de vírgula e três usos de travessão isolado - se possível num texto só (com, no máximo, oito frases).
Não era uma criança dada a desportos de velocidade - se era para fazer algo por desporto que fosse outra coisa. Não gostava de ocupar o seu tempo a correr de um lado para o outro no parque; dava-lhe a sensação que o tempo urgia - coisa que queria evitar que acontecesse a todo o custo e pela qual, portanto, não pretendia ser apanhada. Era uma criança que preferia - por exemplo - trabalhar em torno da sua resistência às brincadeiras. Preferia passar horas e horas a fio trancada num ginásio mental de diálogos entre os seus brinquedos e ver até quando os conseguia continuar a desenvolver. No entanto, chegando um ponto em que não os conseguia estender mais, eram os exercícios de flexibilidade os que acabavam escolhidos pois - já se sabe - ela não gostava de momentos encolhidos. Era pequena e gostava de tudo quanto pudesse puxar por si - não desejasse ela crescer a todos os níveis -, desde que fosse devagarinho - para não se ver logo acabada.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Estamos Desertos por ler coisas destas
«[...] Será o amor para sempre impossível? Não. Provavelmente só é muito difícil, como tudo o que vale a pena. Porque o mais fácil é apaixonarmo-nos. Complicado é mantermo-nos apaixonados, interessados. Não é obviamente em câmara ardente que se segura um amor para sempre, mas duvido que seja com renovação de roupagem que nos fazemos vestir de felicidade. Precisamos de saber dar aos outros como se fosse a nós mesmos e interessarmo-nos por quem amamos como se fosse connosco. Porque só assim nos mantemos interessantes, precisos, parceiros, nossos. Porque essa é a característica patente nas relações que duram: nas relações familiares, quase sempre imortais.
Embora fundamental, este altruísmo para com quem amamos não chega. Precisamos de saber renovar, de aprender e dar de novo, de começar tudo como se fosse hoje a última vez. Como se fosse a primeira vez, num rastilho com cheiro a pecado até o aroma ser doce outra vez. Porque um amor sem altos e baixos é como um deserto: adormecemos na monotonia de uma paisagem sem cor.»
- da crónica Solteiros 3.0: o amor deixou de ser para sempre? in P3
Mais um post sobre amor; mais umas linhas através das quais me identifico - a mim e à minha história - nas entrelinhas.
02. Sair
Imagina que atravessas uma porta. Quando sais de algum sítio entras automaticamente noutro.
Contudo, quando não tens a certeza se já saíste ou entraste, estás na ombreira. Como quem encara o passo que ainda tem de dar, mas refugia-se num ombro familiar.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Sobre o Desafio "Caixa das Palavras"
Era para aderir ao desafio da Caixa das Palavras, lançado pela Pê, como uma espécie de "continuidade" do Palavrar a Cada Dia de abril. No entanto, estou cheia de trabalho. Nem cabeça tenho tido para estar cem por cento a par das aulas do Workshop de Escrita Criativa... Vou chegar ao fim-de-semana com duas sessões para pôr em dia - a da semana passada e a desta.
De momento, não me posso comprometer com cumprir desafio algum para além do meu próprio curso. Mas vá: cumpri o dia 1 da Caixa (em que a palavra era "vestido").
Para além de ter sido o dia em que me pus à procura de um vestido para o meu aniversário, escrevi o seguinte:
Apareceu vestido de verde. Disse-me que a esperança lhe assentava melhor, pelo que não podia não ter investido em si.
Finalmente o momento chegou
Um dos momentos altos da vida de uma pessoa será aquele em que se apercebe que está a completo cargo do seu coração, entendeu a Maria no dia 4 de maio de 2014, a vinte dias de fazer vinte anos. Tumba. Sinto-me, finalmente, livre... finalmente. O post de dia 30 fez por bater certo, veem? Não fosse a escrita uma das minhas melhores amigas. Não fossem os meus batimentos cardíacos intermediados por letras.
The problem...
...was not you. It was the fear you made me feel, pensou a Maria algures entre abril e maio - e muito bem.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
29. Calor
O calor é frequentemente associado a coisas boas, felizes ou intensas; o frio: o contrário. Porém, há quem encontre calor no frio: quiçá, numa manta - quiçá, em algo mais complexo do que isso.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
28. Mente
As mentiras podem ser tão complicadas de entender quanto a mente. Talvez, em parte, por serem feitas dela.
domingo, 27 de abril de 2014
27. Cigarros
Ela bem queria (na sua inocência) ser uma cigarra para que não parecesse tão mal que se casasse com cigarros.
sábado, 26 de abril de 2014
26. Anatomia
Que mania essa a de tentar descobrir a anatomia das coisas. Das físicas, das não físicas - e até das que têm física e não têm físico.
Nem tudo é (para o) animal. Nem tudo dá para descobrir a estrutura: o que é e como é cada parte.
Nem tudo é (para o) animal. Nem tudo dá para descobrir a estrutura: o que é e como é cada parte.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
25. Bar
- Traga-me mais um copo por causa da minha vida, caro senhor. Traga-me mais um copo que eu não a suporto mais a correr nas veias. Dizem-me que melhor será se for álcool que para aqui estiver, pois eu já disse que se é para me tirarem o sentido da vida, então tirem-me antes os sentidos.
Um bar é um local onde devia estar alguém que advertisse as pessoas para pararem de beber o próprio sangue. Um barman - um homem a sério, como aqueles que se descrevem por aí, sabem? Que tirasse o sentido a isto - nem que tivesse de recorrer a chapadas na cara para acordar esta gente.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
T.E.S. VI - Trabalho Entre Sessões
Tarefa: produção de um texto, com sete frases, em que apareçam cinco parêntesis - em dois dos casos o que está lá dentro está, segundo o nosso entendimento de escrevente, num patamar inferior, e em três dos casos está em patamar superior.
O que é que há no fim (ou no princípio, não sei bem) do nosso mundo? Uma cascata de mágoas a cair num vazio (infinito)? Ou lágrimas de alegria a jorrar para o infinito (deixando o vazio para trás)? Por só conhecermos mundos em formato redondo não há o que nos permita ter a certeza de onde acaba um limite e começa outro, creio. Terminamos, muitas vezes, a rodar sobre aquilo que nos é familiar. Se é a tristeza quem conhecemos (tanto faz se ainda há pouco ou desde sempre) dificilmente conseguiremos imaginar o que há para lá do mundo senão desfeches em quedas de água. Se, pelo contrário, é o júbilo o felizardo, então, nunca haverá nada de finito num (improvável) fim.
24. Morango
Chá, torradinhas e doce de morango. Por não haver quem seja alvo do meu amor e mos traga à cama, vou eu mesma faná-los à cozinha para me armar esse cobiçado miminho. Se não gostares de ti, quem gostará? Não é isso que se indaga por aí? Todavia, tudo acaba por se suceder às custas do meu (ignorante) coração. Não vê ele que se deixa, por isto, consumir? Não?
quarta-feira, 23 de abril de 2014
23. Vivência
Quando penso em vivências... não me apetece pensá-las. É frequente que se insurjam na mente aquelas que tive contigo, em pleno confronto com aquelas que tenho agora sem ti. E, se há um confronto, há a ameaça iminente de um golpe desferido aqui ou acolá. Claro que não me apetece pensá-las - julgo eu: erroneamente.
Não me apetece é revivê-las.
terça-feira, 22 de abril de 2014
22. Ficar
Ficar e partir aos poucos ou partir e ficar inteiro? A mudança assusta-nos ou é a sobrevivência que nos aterroriza as necessidades?
segunda-feira, 21 de abril de 2014
21. Luta
Estás a lutar contra ou a favor do luto? Se vives tempos de guerra não fiques por te esclarecer.
I'm so damn romantic
- coisas que se passam no Instagram da Maria, parte II
domingo, 20 de abril de 2014
20. Meia
- Então? Que me dizes? Dividimos a casa a meias?
- Não. Desculpa, não posso aceitar uma proposta dessas. Não me agrada nada essa ideia de estabelecer fronteiras. Não quero nada a separar-me de ti. Se é para arranjar um local para viver, não quero nada disso; nada de cada um ficar na sua metade.
sábado, 19 de abril de 2014
19. Novo
Ainda era jovem e queria sempre fazer algo novo. Quando envelheceu, tudo o que queria era fazer(-se) de novo.
Sobre o Fim da Insónia de Ontem:
Foi quando pensei "um dia, vou ter insónias por boas razões" que, intimidada para com as suas parcas estruturas, a vigília teve um ataque de ansiedade; de tão fraca que se sentiu, foi-se abaixo.
Tragam-me um sonho, por favor.
(Des)pedem-se Respostas
| in Farol do Cabo Sardão, abril de dois mil e catorze. |
Não sei se sei apreciar, completamente, esse poema. Nem sequer sei se consigo entender em que medida, ou até que ponto, este mundo poderá ser considerado um poema. Mas vejamos: se eu conseguisse entender tudo, também conseguiria ser humana?
A (tua) natureza (a da tua vida) desafia-te.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
18. Janela
- Por favor, abre a janela! Quero atirar-me de cabeça. Estou a sufocar dentro desta casa; sinto-me esmagada, já não caibo neste ninho.
- Nem penses! Ainda não estás pronta. Primeiro tens de deixar crescer as asas. Antes disso, não vais voar... por muito que tentes.
T.E.S. V - Trabalho Entre Sessões
Tarefa: produzir um texto, com sete frases (atenção: nem mais uma nem menos uma), em que haja (...) um ponto e vírgula em cada frase. Pode ter também vírgulas - mas tem de ter um ponto e vírgula em cada frase. Não mais, não menos: um ponto e vírgula. Mas frases ligadas entre si: um texto só. Sete frases = sete pontos (finais ou outros). E, no meio deles, um ponto e vírgula.
Uma vez, como tantas outras, pôs-se à caça; de todas as vezes que adotava essa postura procurava, sempre, a melhor presa possível. Deixava que a noite caísse e, então, embrenhava-se nas ruas; era rara a esquina que não explorasse. Se não fosse daquela vez seria, certamente, numa seguinte; parecia decidida a somar tanta gente quanto possível às suas garras.
Não estava para brincadeiras; nem sabia o que isso era, fizesse isso parte da sua espécie. Havia uma fome que, quando ignorada, quase que a matava; havia uma necessidade urgente por saciar.
Não era capaz de passar muito tempo sem se atirar a algum homem; o que lhe valia é que saía sempre bem sucedida. Foi assim que acabou com o rei na barriga; foi assim que, a partir daí, se tornou, oficialmente, a loba mais temida de toda a aldeia.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
17. Cama
De todas as vezes que mais enlouquecia estava na cama. Não devido ao sexo; não devido ao álcool. Mas devido à euforia; à alegria imensa que ameaçava explodir com o peito, combinada com mil e um sorrisos de fazer doer as bochechas. Ou, então, devido à dor; ao choro agoniante e contínuo que sentia - como se o quisessem transformar, à força, de humano em cascata.
Não era não conseguir controlar o que fazia o corpo aquilo que mais o enlouquecia, ao deitar. Era aquilo em que sabia que ainda podia ter alguma mão, de alguma maneira, mas que, por qualquer razão, se esquecia de que assim o era capaz.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Solidão? Dão - mas é a mão.
“Sabes uma coisa? – disse-me. – Por vezes sinto-me mesmo sozinho. Sinto-me mesmo, mesmo sozinho.
Fiz um gesto afirmativo com a cabeça.
- Sim, toda a gente se sente de vez em quando.
- Pois é. Toda a gente se sente.”
- in Os Filhos do Afecto, de Torey Hayden
Não; não me sinto sozinha. Já não, pelo menos. Quiçá, algures no tempo que lá vai, fosse assim. Mas o nevoeiro sempre se levanta, as cortinas afastam-se – e o mundo acaba por se tornar visível aos olhos. Não me sinto sozinha e, na verdade, nunca o estive; agora, sei-o. Tenho – sempre tive – três, quatro ou, até, cinco mãos cheias de amigos que fazem com que eu seja muito mais do que quem seria sozinha.
Não me sinto sozinha. Este vazio não é a falta a quem dar a mão que, volta, não volta, apalpo à volta. Sinto é muito o espaço vago que ainda tenho para quem mais quiser entrar na minha vida.
16. Corvo
- Que tipo de pássaro a minha alma é?
- Como assim?
- Tenho pensado se as almas não poderiam ser comparadas a pássaros, caso aquela história de as almas voarem tivesse algum fundamento de verdade… Se assim fosse, o que achas que a minha poderia ser?
- Não sei bem. Talvez uma arara. És muito alegre e uma imponente faladora… por vezes um pouco chata, confesso.
- Ei! – risos.
- Estava a brincar – risos. – Mas também és simpática e estás sempre pronta para a festança. Vives num mundo colorido. – pausa. – E eu? Que alma pensas que sou?
- Talvez um canário. És belo e encantador; a quem muito apraz cantar e ouvir cantar a qualquer hora, que será sempre um espanto.
- Não sei. Por vezes sinto-me mais como um corvo – negro que só eu, poisado no ramo de uma qualquer árvore, já velha, já a descascar; no meio de uma qualquer estrada abandonada.
terça-feira, 15 de abril de 2014
15. Ato
Atuar em palco é só uma maneira de seres mais sincero contigo mesmo porque, aparentemente, é a única maneira de seres sincero com quem te aplaude ou chora por ti. Ao menos, aí, sabem que estás a usar máscaras; que é assim que és e estás correto; que faz tudo parte do ato.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
14. Conseguir
Passar à frente do passado e viver mais o presente, no futuro. E conseguir desemaranhar isto?
domingo, 13 de abril de 2014
13. Viagem
Queria ver novos lugares. Alargar o meu mapa cerebral - o das terras e o das ideias.
Então, vi; arejei...
Viajei.
sábado, 12 de abril de 2014
12. Determinação
O único propósito que admitia ter era a grande vontade que o evadia desde que se lembrava ser gente. Era lógico: estava (pré)determinado a fazer o próprio destino.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
quinta-feira, 10 de abril de 2014
T.E.S. IV - Trabalho Entre Sessões
(Antes de começar, faço um pequeno parêntesis: o T.E.S. II tratava-se da realização de uma ficha e, o T.E.S. III, de rever a matéria já leccionada. Daí a impossibilidade - e irrelevância - de os publicar aqui)
Tarefa: criar um texto em que só usem vírgulas e pontos - com não mais de 150 palavras.
É mais fácil começar a escrever sobre amor do que sobre qualquer outra coisa. Contudo, sabe-se, em termos concretos, mais sobre qualquer outra coisa do que sobre amor. Por isso mesmo, também se poderia dizer que é mais fácil pegar no dicionário, juntar-lhe a pontuação e a gramática, e começar a escrever, sabendo o que escrevemos, sobre seja o que for que queiramos escrever e que não seja amor. Resta tentar perceber porquê.
Talvez o dicionário não tenha sido feito de forma suficientemente grande para definir amor. Quiçá a pontuação não sirva de nada, visto que ainda não inventaram um sinal para os suspiros. Quem sabe a gramática, aqui, só atrapalhe quem tenta construir uma frase que seja. Se assim for, então, também deverá ser por isso que, amando tanto que só nós, parecemos uns tontinhos, quando amamos. Tanto amamos que nada, sobre como amamos, conseguimos mostrar como, eventualmente, amaríamos.
10. Pensamento
Amo(-te) porque penso. Se não pensasse, duvido que (te) amasse. Não teria sentimentos – quiçá apenas emoções: uma paixão curta aqui, um encanto passageiro ali. Sentir(-te-)ia aqui, sentir(-te-)ia ali; mas logo me fugiria(s). Teria de (te) conhecer uma e outra vez, pois não me recordaria (de ti) no momento transato, no minuto seguinte.
Mas… amo(-te); porque penso. Anda(s)-me fugido. Falta-me conhecer(-te). Não (te) recordo. Mas sei que (te) amarei.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
09. Dor
Não te deixes convencer por essa ideia idílica de que fechar os olhos, temporária ou permanentemente, faz com que tudo melhore. Se assim fosse, porque choras ao tentares fazê-lo? Porque te dói?
Desengana-te. Dormir nunca faz a dor se ir.
terça-feira, 8 de abril de 2014
08. Cidade
Era uma vez uma cidade onde cada avenida, cada rua, cada esquina, cada prédio, cada apartamento, cada pessoa, tinha, não uma, mas muitas histórias. Era, não uma, mas muita vez que essas histórias produziam mais trânsito, mais fumo e mais ruído do que a própria cidade.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
07. Sentimento
Achei que era feliz quando estavas a meu lado. Contigo, achei que vivia a verdadeira versão da felicidade. Agora, sem ti, perguntam-me como estou. Digo que não podia estar mais feliz e penso, para mim, que afinal não sei se sabia alguma coisa sobre o que era esse sentimento. Será que, sem ti,... minto?
domingo, 6 de abril de 2014
06. Azul
Uma vez, quase me fizeram crer que azul era a cor dos dias. De manhã à tarde, o céu era sempre azul claro: límpido, sem quaisquer brancos ou cinzentos a manchar-lhe a tão imensa luminosidade. Nem ao cair a noite, quando seria de esperar que tudo escurecesse, isso se perdia. Até era bonito de se ver, sabes? Tantas, imensas estrelas a cintilar, envolvidas por um manto azul escuro.
Mas os dias acabavam sem eu me aperceber. Via sempre tudo da mesma maneira, de manhã à noite, e esqueci-me de pensar nas coisas do princípio ao fim. Então, vi-o partir para Inglaterra. Foi atrás de outro sonho que lhe tirasse o sono, que lhe permitisse apreciar, de novo, o horizonte. Senti-me triste. Azul, sabes? Em inglês dizem que é essa a cor com que se fica quando se está triste.
Peço-te: não me deixes azul. Quero conhecer, contigo, todas as tonalidades que tem o mundo.
sábado, 5 de abril de 2014
05. Água
São amores que, de tão comovidos, ameaçam saltar dos olhos apaixonados cá para fora - para o mundo, para toda a gente ver. Depois, é o roçar de peles onde, sem dares por isso, és concebido por entre gotas de suor. Cresces dentro de um saco cheio de água durante nove meses que parecem ora uma eternidade, ora um par de momentos fugazes. Nasces a chorar e, quem te ama, quase se esquece do cansaço, da fome, da sede - só para poder olhar para e por ti, só por mais um pouco. Vais crescendo e, mesmo que tenhas olhos castanhos, derretes-te se te recitam poemas que dizem que eles são tão profundos como o tom do mar. Às tantas, também tu escreves sobre um grande amor. Mas ele passa a correr. É igual a tantos outros rios que te rasgam as paisagens. Até que, um dia, dás por ti a olhar a vida de maneira diferente e descobres um rio que se prolonga. E, nessa altura, são amores que, de tão comovidos, ameaçam saltar dos olhos apaixonados cá para fora - para o mundo, para toda a gente ver. Tal como tu viste. Queres percurso mais transparente do que este?
sexta-feira, 4 de abril de 2014
04. Brinde
Era uma criança despreocupada. Alegria, para ela, podia ser dar com um brinde numa caixa da Happy Meal ou num ovo da Páscoa. Algo simples e tão certo como, por vezes, encontrar um cromo num pacote de batatas fritas ou umas quantas amostras de champô nas revistas do cabeleireiro da mãe.
Mas o tempo passou e, como algo tão certo, a menina cresceu. Até casou. Foi então que ela viu que, afinal, era por ela se preocupar e por nada ser, na verdade, tão certo quanto pensava que ali estava: a brindar o homem a quem queria dar toda a alegria. Toda - e que, por infinitamente o amar, nunca bastaria.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
03. Faca
Há facadinhas que bem querem fazer-se passar por garfadas; mas não. Não nos picam, não nos espicaçam. Cortam-nos a língua e atravessam-nos a garganta.
02. Amor (um verbo é Amor; o outro, nunca o será)
Quando dou por mim, tudo se repete - (a)mando-te pedras e flores dos pés à cabeça.
Desafio "Palavrar a Cada Dia"
Resolvi abraçar um desafio que vi ser referenciado no blog da Pê. Diz o dito cujo que ideia é pegarem na palavra do dia e escreverem. Não tem de ser no sentido literal, não tem de ser "acerca dela". Podem escrever textos mais longos, mas como o objectivo é ninguém desistir pelo caminho talvez os parágrafos mais curtos sejam uma boa solução. Identifiquem sempre o tema do dia. Escrevam, escrevam muito!
Assim seja. Os primeiros três dias aqui estampados, já de seguida! Contudo, fazendo um pequeno à parte, não sei se estes primeiros poderão ser chamados de "textos". Estarão mais próximos de micro-narrativas do que outra coisa, julgo. Um par de frases em que me diverti a brincar com as palavras - como quem não sabe fazer outra coisa senão continuar a vincar um hábito seu.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Sobre o Fim de How I Met Your Mother
Tears. Tears. Tears.
Série perfeita. Perfeita. Perfeita sendo imperfeita. Imperfeita, aqui, é um elogio. As it should be everywhere.
"Adorei. Adorei mesmo. Sinceramente... achei que o final foi o mais humano e realista de sempre.
'Na vida não há nem inícios, nem meios, nem finais perfeitos'... simplesmente, as coisas acontecem. E penso que foi isto que a série tentou mostrar. As coisas acontecem e, independentemente do que aconteça, a viagem vale por si. O relato do Ted... foi super humano e rico. A ideia era chegarmos aí, penso: tudo o que nos acontece... é imenso! Cada momento... mexe connosco. Preenche a nossa vida, FAZ a nossa vida. Só que as coisas não são lineares na vida... nunca foram, não são, e dificilmente o serão. Conseguimos muitas coisas que queremos (mas nem tudo) e muitas que não queremos. Mas é a vida. Imperfeita que só ela.
O problema é que, para muitos, o facto da vida ser imperfeita desta maneira não é algo bom...
O problema é que, para muitos, o facto da vida ser imperfeita desta maneira não é algo bom...
Para mim, esta série retrata a vida. E é isso que a torna uma série perfeita... o facto de ser imperfeita e abalar as nossas expectativas. 'É o inesperado que torna os dias especiais'.
Adorei. Fiquei apaixonada por HIMYM para a vida; ainda mais do que já estava."
domingo, 30 de março de 2014
Dos poemas que dizem tudo sem dizer
"Eu quero escrever-te.
Escrever para te ler
para voltar a ti quando me apetecer
quando estiveres na tua vida que não tenho
entretida em coisas que não conheço
na superfície que a profundidade de nós não alcança
como fundo do mar que não vê o sol.
Para quando dormires como ontem.
Para quando os deuses não conspirarem a nosso favor.
Para quando o potencial de felicidade de afligir
ou fugires de nós, se tiveres coragem. Não tenhas!
Penso nisso, sabes.
E conspiro com os deuses para seres tão fraca quanto forte
Não é de ti esta imperfeição das palavras,
o sentido que fazem é menor do que o sentido que têm.
Eu quero escrever-te
para te esconder em mim
para te ver ontem, o resto da minha vida.
O nosso ontem [...]"
Escrever para te ler
para voltar a ti quando me apetecer
quando estiveres na tua vida que não tenho
entretida em coisas que não conheço
na superfície que a profundidade de nós não alcança
como fundo do mar que não vê o sol.
Para quando dormires como ontem.
Para quando os deuses não conspirarem a nosso favor.
Para quando o potencial de felicidade de afligir
ou fugires de nós, se tiveres coragem. Não tenhas!
Penso nisso, sabes.
E conspiro com os deuses para seres tão fraca quanto forte
Não é de ti esta imperfeição das palavras,
o sentido que fazem é menor do que o sentido que têm.
Eu quero escrever-te
para te esconder em mim
para te ver ontem, o resto da minha vida.
O nosso ontem [...]"
- "O nosso ontem!"
por Daniel Oliveira, in A Persistência da Memória
sexta-feira, 28 de março de 2014
Batismo (parte II): 27 de Março de 2014
Minha pequenina,
Aconteceu: foi água a escorrer pelos teus caracóis, mas também foi amor - água misturada com palavras que fazia questão de te dizer, que desejava muito que chegassem até ti para além do pedacinho do Jardim do Campo Grande que, então, se estava a tornar teu (e meu) para sempre. Sim, para sempre: não é todos os dias que água do lago se confunde com a da chuva e a das lágrimas... É um resultado único, inesquecível, que decorre de episódios muito, muito particulares - como quem diz... especiais.
É o que é inesperado que torna as coisas especiais... E foi assim que quis que este dia fosse para ti: que tivesse alguma coisa que não fosse expectável viveres de forma alguma. Que batesse à porta do teu coração de surpresa, de alguma maneira, como quem tenciona oferecer o ramo de flores que segura na mão. Ora, neste caso não era um ramo de flores, mas uma estima inestimável por ti, afilhada. Tanto assim foi que, depois, foi ouvir-te soluçar baixinho, de comovida, nos meus braços, e eu sem conseguir - nem querer - tirar o sorriso de derretida do rosto. Desconfio que, por estar tão anestesiada com o momento, mal conseguia fazer outra coisa senão isso... São efeitos colaterais de grandes intervenções, já se sabe, pois claro. Pelo que não me espanta nada ter caído a noite e ainda me encontrar no mesmo estado... ou, ao ter acordado hoje, ter sentido a necessidade de fazer mais um registo deste (tão indescritível) dia que ganhou um novo (e lindo) significado no calendário.
Nunca tinha tido a capa à chuva... senão por ti. Nunca tinha posto a capa sobre terra molhada... senão por ti. Nunca me tinha visto com um penico na mão e a postos para realizar um batismo... senão por ti. Ainda não estou nestas andanças, as do traje e da praxe, há muito tempo... Mas ainda bem que tudo isto começou por ser assim: por ti! Agora, sei-o, tê-lo-ia escolhido mil vezes: ser por ti!...
É uma honra ser tua madrinha; uma emoção feliz que toma conta de mim e que, espero, também venhas a sentir tomar conta de ti pelas mais variadas razões ao longo da tua história.
Que o sintas muitas vezes, seja por isto, por aquilo... seja pelo que for, desde que tenhas alguma alegria sempre, todos os dias - seja de que tamanho for, mas que esteja presente, nem que seja um bocadinho, todos os dias - a tomar conta de ti! No que depender de mim, sabes que estou aqui para tudo o que for preciso...
Numa frase: para ti e por ti, o melhor do melhor que for possível acontecer (e fazer acontecer).
«Quero ficar sempre estudante
Para eternizar a ilusão de um instante
E sendo assim, o meu sonho de amor
Será sempre rezado baixinho dentro de mim.»
Obrigada por, também tu, teres chegado para dar sentido a esta quadra... a esta etapa... e à minha vida.
Bem-vinda! ♥
"Se é para ir com o corpo gelado para casa mas com o coração quente, então vale a pena.
Um batismo, um abraço... e uma amizade abençoada. Diz a chuva, mas primeiro nós! De ontem e de hoje em diante."
Da tua madrinha babada,
Maria
domingo, 23 de março de 2014
Batismo (parte I): 20 de Março de 2014
Seis da manhã. Ente veste collants, dá o nó à camisa, aperta botões, gira a saia e troca o passo, apita o telemóvel para minha surpresa... e quão doces podem ser as surpresas!... É uma mensagem da afilhada a desejar bom dia. Respondo-lhe, animada, e já a conceder-lhe esse desejo (tal e qual qualquer aspirante a fada madrinha) no meu coração. Há-de ser um bom dia, um grande dia - penso. E assim, com a pulsação a fazer festinhas na ansiedade miudinha (para a acordar, bem se sabe), desço e subo ruas de capa negra ao ombro rumo à paragem de autocarro. Ter uma afilhada que, embora não tenha ido à Faculdade a semana inteira por motivos de força maior, se pôs a conduzir, de propósito e de madrugada, de Santarém a Lisboa, para estar presente no dia de Praxe por que tanto aguardávamos, é só uma das milhares de razões que, naquele dia, me fez vibrar de amor por dentro (e por fora, como depois mostraram as tantas lágrimas de Maria Madalena ao fim da tarde - o que é digno de verdadeiro destaque, pois nem me chamo Madalena; mas já retomarei este assunto).
Começa o dia de Praxe, começam os jogos e começam os sorrisos. Começo a achar que é automático. Um automatismo que, felizmente, me faz tiro ao alvo desde o ano passado, quando também eu vestia a camisola do caloiro, toda sarapintada de tinta, terra, e outras substâncias que tais. Digam o que disserem, é inevitável: há de haver sempre alguém nas redondezas com um sorriso genuíno estampado no rosto. Saber que isso não muda para caloiros e trajados, seja qual for a sua geração, e por muitas voltas e reviravoltas que o mundo dê, é um grande motivo de orgulho para mim e aquilo que me faz continuar a achar que vale a pena - todas as penas, aliás (a dos passarinhos, dos patos, das almofadas, seja o que for) - vestir-me de branco e negro pela vida académica. Ou por toda a vida, para ser mais precisa, pois não há o que apague tudo aquilo que se vive na faculdade e graças a ela. Não esqueci, esqueço ou esquecerei como foi ser praxada ao lado de pessoas que rapidamente se tornaram parte de mim; e também sei, cada vez mais e melhor, que não me vou esquecer de como é trajar e praxar ao lado delas. De referir todas as parvoíces, conversas e confidências que, em tão pouco tempo, já fazem da nossa história algo tão imenso. De referir todas as gargalhadas que preenchem silêncios, e todos os choros que no silêncio irrompem mas que logo são afagados por abraços... abraços que não duram, apenas, aquele momento. Duram para sempre. Quando os damos, sentimo-lo, sabemo-lo de imediato: aquele momento não tem nem segundos, nem minutos por duração. Sejam quais forem as razões, boas ou más, que o sustenta. À semelhança do que fiz noutros textos, repito: o dito de que "os amigos da faculdade, são amigos para a vida" não podia fazer mais sentido. O circulo de amigos que ganhei e que é reforçado de forma intemporal, tal como eu tive a oportunidade de constatar, pela milésima vez, há três dias atrás, nesse tão querido dia do Batismo de que aqui tento falar, faz com que cada saltar para fora da cama ou cada retorno tardio e exausto a ela tenha outro conforto. Saber, então, que tudo isto é eterno... é indescritível.
Indescritível também foi sentir - algo que também não esqueci, esqueço ou esquecerei - uma alegria imensa a tomar conta de cada cantinho do meu corpo e alma enquanto caloira. E indescritível, também, é saber, cada vez mais e melhor, que não irei esquecer como é senti-la enquanto trajada. De facto, a vinte de março de dois mil e catorze, também tive a oportunidade de, uma vez mais, ouvir da boca e do coração FPIE-ULiano uma mensagem importantíssima dirigida aos nossos pequenos (e em tudo extensível à restante comunidade): "somos uma família. Sempre que falarmos da nossa instituição, do nosso curso, vamos estar a falar da nossa família". Sabem? Não há maior verdade do que esta. Nem sempre estamos todos vestidos de igual. Nem sempre pensamos de maneira igual. Nem sempre concordamos ou suportamos variadas situações de maneira igual. Mas, daqui a uns anos, quando tivermos dito adeus à idade de estudante e seguido em frente com os nossos caminhos, vai saber bem ver alguém que estudou no mesmo sítio que nós a passar na rua. Mesmo que não seja a pessoa com quem mais nos identificávamos, vamos pensar "olha! Aquele/a era da minha faculdade" e, invariavelmente, sentir uma pontinha de satisfação que seja. Porque por muitos aspetos das nossas personalidades que possam discutir entre si, por muito que possam haver pessoas que não são, como disse, aquelas com quem mais nos identificamos, há um aspeto, pelo menos um, que faz a identidade de todos: somos uma família. E a família une-se, aconteça o que acontecer. A família continua a aparecer, a dar a cara - mesmo que o Universo esteja a um segundo de eclodir. Mesmo que o céu esteja tão negro que quase nos engole. Mesmo que haja zangas e divergências e que ninguém consiga ser perfeito. A família continua a lutar uns pelos outros. Não é que ponha de lado todas as fissuras, arranhadelas e feridas que possam existir - não põe. Não é que não haja momentos em que aquilo que mais apetece fazer é desistir - não. O que faz mossa continua lá... Mas é precisamente isso que torna tudo tão bonito. Apesar de tudo, continuo a testemunhar a minha família a juntar-se, a reunir-se. A união é incondicional e vai além de todas as aparências que possam tentar declarar o contrário. Aperceber-me disto de novo... garanto-vos: fez-me atingir todos os mais elevados graus de apaixonada pelos quais já estive pela minha Praxe Académica.
Finalmente, e falando em mais paixões... Da mesma maneira que não esqueci, esqueço ou esquecerei como foi transbordar de carinho enquanto afilhada, também sei, cada vez mais e melhor, que não me vou esquecer de como é fazê-lo na pele de madrinha. Minha querida afilhada, agora falando diretamente para ti: és um orgulho. Disse-te enquanto nos abraçávamos, submersas em emoção por, afinal, não te batizar naquele dia, e volto a dizer-te aqui e em todos os lugares do Planeta em que tal oportunidade me for concedida. Para além de tudo aquilo porque já passámos juntas e que já tanto me toca... Foste de propósito para a faculdade. Por mim, por nós. Por mais um momento juntas, o tal momento. Aquele que esteve lá desde início (não fossemos nós tão parecidas), e que mais tarde se traduziu nas palavras inevitáveis: "queres ser minha madrinha? Sim!". Tal não podia passar ao lado neste relato. E ver-te sorrir, tantas vezes, ao longo daquele dia... foi como se me tivesse sido dada (mais) uma prenda. Ver-te a transpirar de contentamento com os teus colegas, saber-te bem, e que se estava a formar em ti a memória de um Batismo verdadeiramente especial, não me podia ter preenchido mais por dentro. És a prova viva de que, no fundo, uma comparência maior ou menor nos dias de Praxe não faz, necessariamente, o espírito académico. Melhor: o espírito de adorar estar viva. Perdoa-me, pois realmente não te sei dizer como deve ser o quanto brilhaste aos meus olhos. Sejam ou não estas palavras exageradas para os demais, foi assim que te vi... e que te vejo, no teu dia-a-dia, sempre que falas de um sonho ou o percorres. Não te sei dizer quão derretida me deixaste quando, pelas atividades de Praxe se terem estendido um pouco mais do que o previsto, me disseste que te tinhas de ir embora mas que, assim, ias esperar pela tua amiga, que também tinha ficado triste por não conseguir ser batizada no dia para, então, serem batizadas juntas. És linda. De que outra maneira te poderei descrever? És linda. Espero, em breve, conseguir proporcionar-te a segunda melhor parte do batismo que alguma vez poderias ter tido. Estão ler isto, pessoas? Estão? É uma promessa. E vocês são as testemunhas.
«Chorar, como eu chorava
Ninguém pode chorar
E amar, como eu amava
Ninguém pode amar.»
Da vossa,
Maria (com o "Madalena" emprestado)
Maria (com o "Madalena" emprestado)
[À Inês, pelas gargalhadas engasgadas e pela companhia durante todo o almoço. À Maria, pelo momento das Marias Zen e Petrificada. À Rute, por ter vindo toda carregada para a faculdade para conseguir fazer tudo e, ainda assim, estar ali connosco. À Catarina, pelo abraço chorão que agora se tornou um marco. À Joana à e Carolina, por serem madrinhas exemplares, tanto para quatro meninas lindas, no sentido literal, como para mim, vossa amiga. A todas as outras que não estiveram lá nesse dia, mas que estão em todos os outros. À (outra) Inês, pela primeira prestação na TAPCE para a FPIE-UL, e que me marejou o cantinho dos olhos. Ao André, por ter feito com que eu e a Catarina não nos ficássemos apenas por um abraço chorão nesse dia. À minha Milene, por tudo aquilo que já aqui referi e ainda vou referir - por fazeres de mim a madrinha mais babada do Infinito.
A todos os que não mencionei, mas que ainda assim tornaram este dia especial, como já o fizeram em tantos outros: obrigada. Tanto que, em casa, voltei a largar-me a chorar quando me abracei à minha capa, cada vez mais valiosa para mim, antes de a guardar.]
sexta-feira, 21 de março de 2014
T.E.S. I - Trabalho Entre Sessões
Tarefa: escrever um texto com (não mais, não menos) sete pontos finais e (não mais, não menos) seis vírgulas.
Cá vai disto:
Pela manhã há um vazio. Já não sei o que é ouvir uma voz a espreguiçar-se a meu lado, a puxar por um par de sílabas sonolentas. Quem não dorme de todo são os ponteiros do relógio, esses brincam neste silêncio que, sendo assim, não é um silêncio. É uma inquietação, daquelas que ressoa sem parar. É o tempo a passar, passando com passos tão pesados que estremecem o chão e as paredes. A minha casa está a abanar. Resta saber se é a tremer ou a dançar.
- escrito dia 15 de Março pela uma da madrugada.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Os Efeitos Secundários de um Workshop Colectivo de Escrita Criativa Online
O ser humano tem manias e modas, para não falar da mania de andar na moda e da moda de ter a mania. Faço parte da blogosfera há oito anos. Ando a impulsionar o meu bichinho da escrita há aquilo, em tempo, que é quase metade da minha vida (contarei neste próximo Maio vinte anos). Até há cinco meses atrás, durante estes oito anos, escrevi sempre com maiúsculas como deve ser em bom português (ou diga-se antes em boa gramática, não importa a língua). Via uns quantos bloggers a pôr tudo corrido a minúsculas e achava-lhes piada. Ainda acho, mas isto só quando estamos a falar dos bloggers certos - aqueles que esgrimam as palavras que nem espadachins de alta competição, conscienciosos de cada jogada; com uma técnica tão estudada que na prática se torna estética. Ora, o que se sucede? De repente, vinda de lado nenhum (bom: tecnicamente, se é vinda, tem de haver pelo menos um lado de onde vir) dá-se toda uma reviravolta técnica na vida da Maria. E é claro que a estética vai atrás de arrastão; se for preciso (e mesmo que não fosse) até aos trambolhões. Não precisei de mais nada: eis ela, Maria, a ganhar a mania - a de colocar tudo corrido a letras minúsculas. Até podia ser uma mania desculpável se um acto de minúscula envergadura como esse servisse para evitar que os tralhos da estética fossem grandes demais quando puxada a reboque, sem dó nem piedade, pela técnica. É que as maiúsculas, por vezes, conseguem ser a coisa mais trapalhona do mundo. Vejam o M, por exemplo. Se se deslocar muito rápido ainda tropeça nas próprias pernas. E nem falemos no T. Se for a altas velocidades ainda se esquece de baixar a cabeça diante dos obstáculos e depois, pum, bate com a testa na ombreira de uma porta. Mas não foi uma mania desculpável destas a que se apoderou da Maria. Foi uma mania de andar na moda. Obviamente que, logo de seguida, surgiu a moda de ter a mania. Tocou logo à campainha cá de casa, ainda estava o T meio zonzo à porta e a sentir a sua testa toda achatada. E isto não ocorreu só uma vez! Então não é que a mania de que o blog ficava com uma estética muito bonita com tudo em letra pequena começou a tocar à malfadada campainha to-dos os di-as? Pois claro, se estava na moda ter a mania...
Contudo, as modas passam. Passam tantas vezes pelo mesmo sítio, que acabam por passar para ir para outro sítio. Isto é: retiram-se. E é então que surgem outras novas ou retomam as velhas. Nunca se sabe o que poderá vir a reboque da técnica - é como o que se encontra atrelado à traseira dos carros dos recém-casados. Como é moda dizer desde a velha-guarda, quando se casa casa-se com o novo e com o velho (ou passará a dizer-se agora por uma inovação de costumes).
Neste caso, recuperou-se a moda e a mania antigas: a de escrever tudo certinho e direitinho, num ode à escrita clássica. Se estivéssemos a falar de música, teria escrito antes "numa ópera à música clássica" ou "numa orquestra à música clássica". Como estamos a falar de escrita, ficou "ode".
Culpemos o meu (fantástico, maravilhoso, de babar e invejar) professor de escrita criativa por ter sido a fonte de inspiração para escrever este ode (ou texto, pronto). Culpemo-lo, porque agora que voltei a inspirar esta droga, a escrita, recuperei o vício antigo. Bastou um par de linhas para me viciar imediatamente outra vez. Disse ele "outro mandamento decisivo: rigor absoluto. Sempre. A escrever no chat, a escrever uma mensagem de telemóvel, a escrever um e-mail, a escrever numa caixa de comentários. Não há textos de primeira e textos de segunda. Se se escreve: escreve-se para ser perfeito". Fiquei-me logo por ali.
Mentira: não fiquei. E ele também não! Disse "outra dica ainda: usemos frases - aquelas coisas que têm pontos no final. Nada de palavras penduradas na web". Pronto. A partir daqui, não houve mais volta a dar. O vício de escrever, e escrever respeitando o mais possível cada palavra e cada letra fez casa. Não se limitou a tocar à campainha.
Obrigada, Pedro Chagas Freitas, pela experiência (que ainda agora começou).
quinta-feira, 13 de março de 2014
de estados inteligentes no facebook toda a gente gosta
"é engraçado não é? como a vida muda assim de súbito, é tal como a música que tens na cabeça, um minuto está lá, depois pensas em algo e a música muda. mas às vezes sentes saudade de ter aquela música de antes e por isso buscas a sensação que te levou até ela. mas, até conseguires mantê-la na cabeça durante muito tempo, já é outro assunto. está na hora de mudar de música e de seguir em frente."
créditos para o Afonso. o meu grande e sábio amigo, está visto.
"o primeiro amor nunca se esquece". parcialmente correto, meus caros, e estupidamente sobrevalorizado. nunca se esquece nenhum amor. nem um. tenha vindo na ordem que veio e que bem lhe tenha dado na gana. este era um ponto.
outro, era sobre esta mania de demarcar uma e outra vez, sem parar, em cada passagem, texto, livro, conversa, enfim, o primeiro amor como o derradeiro, o mais intenso, o único, o especial, o que é para durar a vida toda. já irrita. é só uma ideia pop e muito, muito pobre, potencialmente embrutecedora quando levada muito a sério. o impacto do primeiro amor resume-se à surpresa de sentir coisas que nunca antes se havia sentido dentro de nós, em relação a um outro ser humano. a força da coisa não vai além disso. dificilmente vai ser o melhor amor da vida de alguém, aquele ideal e tal que nunca se esquece, pelo qual se fica agarrado até ao fim dos dias, passe o tempo que passar. deus ma livre. vão ver, vão ver que, depois de terem vivido mais do que um amor, os que estão para trás mudam na relevância que têm: não na que tiveram no passado, essa fica intacta na nossa consciência e continuará a ter todo o reconhecimento que lhe é devido. mas na do presente. se em vez do primeiro amor falássemos do último, então estávamos bem. era isto.
quarta-feira, 12 de março de 2014
"os sonhos significam aquilo que lhes atribuímos depois"
até hoje, há três sonhos particularmente importantes que tive na minha vida. tu protagonizaste dois deles, e sempre depois de finda a nossa relação (na realidade).
foi em novembro do ano passado que tive o primeiro, pouco tempo após a dita cuja. "sonhei que estavas a meu lado, a falar com a minha mãe. às tantas, disseste-lhe algo como vou justificar todos os comportamentos que tive. mas disseste-o no sentido de 'a vida vai justificar-te a ti, Maria, todos os comportamentos que tive, os bons e os aparentemente menos bons'.
foi então que te abracei."
o outro data não mais do que quatro dias atrás. não tanto, se calhar. sonhei que (neste sonho, à semelhança do outro, também já tínhamos terminado) tiraste aquela que era a nossa cama de junto da parede e puxaste-a para ao pé da janela, colocando-a na horizontal. semi-nus, chamaste-me para me sentar contigo nela. "vem ver a lua e as estrelas", disseste. como se me dissesses o aclamado "está tudo bem" que tanto procuro, e eu imediatamente to retribuísse, ao responder ao teu pedido ou convite, não sei bem - quiçá fosse os dois. e assim ficámos, a mirar o céu azul escuro, de um tom quase elétrico, onde o brilho dos astros sobressaía com uma intensidade inigualável, mas natural, fácil. o quarto onde estávamos os dois, com os corpos semi-expostos frente a frente, estava emerso no escuro. mas, à janela, as coisas não eram tão assim. havia um pequeno sombreado, de uma cor diferente da escuridão do quarto, uma cor um pouco mais clara, mais suave, ligeiramente mais luminosa, a cair sobre os nossos ombros.
para além de ter sido um sonho bonito, por si, esmiucei-o em significados. o facto de teres deslocado a cama da parede para a janela foi como se tirasses a nossa história de um beco. como se a pusesses longe de um muro liso, em branco, impenetrável, para a aproximares de uma saída, porque quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. como se pusesses a nossa história a postos para mirar o horizonte, posicionando, inclusivamente, a própria cama na horizontal. o que disseste a seguir, já eu referi o que sei que significou e a importância que conferiu a todo o desenrolar do acontecimento que aqui discrimino. e terá sido esse "está tudo bem" mútuo e bidireccional que levou a que o brilho das estrelas e da lua, então por nós objectadas, se insurgisse tão fácil e natural. o facto de estarmos semi-nus frente a frente, também sei o que significou. remetia para o facto de não sermos propriamente estranhos um para o outro. pelo contrário. conhecemo-nos relativamente bem. partilhámos ainda um considerável montante de coisas entre nós. o facto de ali estarmos, sobre a nossa cama - a nossa história, portanto - fintando, juntos, o que tínhamos à nossa frente, era-nos claramente importante. aquela vista noturna e, contudo, em tudo luminosa, tinha-nos um grande impacto em ser partilhada. um impacto positivo. como se, por ali estarmos, disséssemos "ainda há esperança e muitas coisas boas para nós lá fora. juntos, como amigos, e separados, como indivíduos". o facto de o quarto estar escuro, então, talvez remetesse para o de, por enquanto, encontrarmos a nossa relação num local meio apagado. contudo, à janela, lá estava ela representada: a luz, a possibilidade de reacender a nossa vida. e, então, talvez por isso, sob os nossos ombros não assentava uma carga tão pesada. a escuridão parecia mudar, devagarinho, para sombra, devido a essa luz. nunca poderia haver sombreados sem um pouquinho de luz; se não a houvesse, permanecia-se no escuro, carregado que só ele. então... então espero que, não só em sonhos, mas também no coração e onde nos realmente nos encontramos, haja sempre uma janela.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
(só pela piada) dizem eles que...
"a Maria é muito ligada à família. é emotiva e costuma exagerar nos seus cuidados, por isso, corre o risco de sufocar as pessoas que ama! tem muita energia e, como tal, deve sempre manter-se ocupada com alguma coisa. nos relacionamentos amorosos ou mesmo de amizade, quando se magoa, recolhe-se para dentro de si mesmo e só sai quando recebe um pedido de perdão."
- by Rádio Comercial
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
ainda a propósito do post anterior: brincar com as palavras para chegarmos a uma coisa à séria - o que significa conjugar um verbo (funciona com qualquer verbo e com qualquer tempo de conjugação)
naquele momento, tinhas de ser tu, tinha de ser eu. e fomos.
considere-se o tempo de conjugação do verbo em destaque. está no passado, mas a retratar uma realidade, algo que aconteceu mesmo. e, se aconteceu, contou. para ambos. já como, de que maneira, não importa: contou, pelo que marcou a diferença na vida um do outro. só por ter acontecido, já contou.
e pronto. a brincar, a brincar, dizem-se as verdades.
sobre ti: o (A)Final.
no final, podes não te ter revelado a pessoa certa para mim, nem eu a pessoa certa para ti. mas (afinal) não é, de todo, isso que conta: o que importa e sempre importará, é que nos revelámos a pessoa certa um para o outro em determinado ponto da nossa vida. e, nesse ponto, fomos verdadeiramente cruciais um para o outro. de uma coisa, eu sei: não faria sentido ter sido com qualquer outra pessoa. naquele momento, tinhas de ser tu, tinha de ser eu. e fomos.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
um capítulo às vezes solto por aí
ainda me dóis... às vezes. às vezes não é dia sem pensar em ti, embora a dosagem dessa droga que o cérebro me faz administrar nas veias rumo ao coração já não surta tanto efeito. ainda bem que já é só às vezes, ou assim me agarro à Esperança. porque, ora, como os pensamentos ainda não têm rosto, dá para inventar um se for preciso. para toda a tristeza, desilusão e mágoa, finge-se um está tudo bem e toca a andar, porque para a frente é que é Lisboa. como as palavras ainda não falam sozinhas, dá para deixar algumas coisas atravessadas na garganta, porque talvez assim se silencie a malícia dos gritos que nos ensurdeceriam o que as memórias têm de bom. é que ainda por cima, às vezes, parece que não sei onde se meteram as memórias que detenho enquanto nossas. encontro uma ou outra que lá se destaca mais, mas os pequenos detalhes desmontam-se do corpo de partida e bem deves imaginar o serviço que é para dar com eles. às vezes, quando tento adivinhar o que pensarias de determinado assunto ou como é que reagirias a determinada situação, assusto-me se me deparo com tudo às escuras. mal te vejo, como és tu? pergunto-me, e fico absolutamente desnorteada por me serem fornecidas tão poucas pistas. às vezes parece que sei pouco mais que o facto de seres uma excelente pessoa. será que na altura das mudanças terei posto o mais que pude de teu e da nossa casa dentro de uma qualquer caixa que ainda está por desempacotar? será que a caixa anda por aí perdida na escuridão? é verdade que ainda não tive tempo para arranjar todas as luzes de que preciso na minha nova casa, e talvez quando tudo estiver mais arrumado e nos conformes lá dê com a caixa em alguma divisão. espero que até lá não haja nenhum terramoto, pois aí não sei se saberia dizer se ele teria empurrado a caixa para um qualquer canto ainda mais recatado ou se teria posto a dita cuja mais ao meu alcance. daí a, às vezes, não ter a certeza se quero que as conversas que, às vezes, nos imagino a ter venham a ocorrer. se elas virassem terramotos de mim, o que aconteceria? qual destas coisas? às vezes o desconhecido assusta-nos. e por isso é normal que eu, às vezes, talvez, tente voltar a ter tudo sob controlo. quero dizer: às vezes faço por arrancar notícias tuas daqui e de acolá. procuro outros meios de continuar ligada a ti, pois ligada a ti sentia-me sob alçada da segurança. a propósito, a Robin Scherbatsky diz que o futuro é assustador, mas nós não podemos simplesmente correr para o passado porque nos é familiar. aí está: talvez às vezes me arme em desportista de meia-leca. não pode ser. não posso ser meia-isto ou meia-aquilo. tenho de me ser inteira e, para isso, é perigoso reforçar a dependência face a ti seja no que for. como poderei sê-lo se achar que algo que só a ti te diz respeito me está condicionar em parte? não está. se sou eu que acho, sou eu que estou a colocar grades. às vezes, então, faço-me minha própria prisioneira. mas só às vezes. a droga que me levou à prisão perde qualidade dia após dia e o interesse nela esmorece.
- Maria, fevereiro 2014.
dia dos namorados, vida da Amizade.
diz-me a Mimoquinhas assim, depois de termos desejado uma à outra um bom dia dos Amores: "oh, amor. estou sempre aqui para ti. vais arranjar um príncipe lindo lindo, vais ver. és uma pessoa linda, toda a gente vê. só falta a pessoa certa para ti! também te adoro."
♥
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
one of the million reasons why I love himym
"kids, I've been telling you the story of how I met your mother, and while there's many things to learn from this story, this may be the biggest. the great moments of your life won't necessarily be the things you do, they'll also be the things that happen to you. now, I'm not saying you can't take action to affect the outcome of your life, you have to take action, and you will. but never forget that on any day, you can step out the front door and your whole life can change forever. you see, the universe has a plan kids, and that plan is always in motion. a butterfly flaps its wings, and it starts to rain. it's a scary thought but it's also kind of wonderful. all these little parts of the machine constantly working, making sure that you end up exactly where you're supposed to be, exactly when you're supposed to be there. the right place at the right time."
- Ted Mosby, in How I Met Your Mother
again: não acredito que haja um plano, é preciso ter cuidado com as palavras que se usam e, para a visão que tenho da vida and stuff, neste mini-discurso nem sempre se fez a escolha mais acertada das mesmas... mas que o universo está sempre em movimento... se está!
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
um capítulo aventureiro à solta por aí
não há começos perfeitos, nem fins perfeitos. nem sequer há viagens perfeitas entre esses dois pontos. claro que convém perceber a que “perfeito” me refiro quando escrevo isto. algo que sempre retive foi a delicadeza de cada palavra empregue e, a verdade, é que estas transportam significados extremamente poderosos – porém, quiçá, subjetivos. por vezes; pelo menos, por vezes, dependendo de quem as usa e de quem as recebe, seja lendo ou ouvindo…
espero que, com o decorrer deste livro, que espero que seja longo, muito longo, e não apenas longo o suficiente, mas longo o arrebatador, vão entendendo melhor o que quero dizer quanto à alegada falta de perfeição do começo das histórias, do seu decorrer e do seu fim.
tal e qual este começo. nunca na minha vida pensei começar a escrever um livro assim: sem uma ideia definida, sem nada de inspirador à minha volta a empurrar-me rumo a um objetivo específico, claro… mas não é assim mesmo que “a vida acontece”? vinda sabe-se lá de onde, como ou porquê?
a vida parece-me uma história sem regras ou linearidades aos nossos olhos. não vou aqui discutir se elas, embora não as vejamos, ainda assim, não terão a possibilidade de existir. sei que tudo indica para que morra sem conseguir uma resposta escarrapachada a qualquer indagação que faça nesse âmbito. como também não considero que esse debate me seja prioritário ou verdadeiramente útil, não lhe vou aqui dedicar nem mais uma referência.
aquilo que espero conseguir fazer-vos ver, caríssimos, é que não há cá regularidades entre expectativas e o que ocorre de facto. poderá haver alturas em que assim parece: que as coisas coincidem com aquilo que delas aguardávamos. porém, não creio que tais coincidências se verifiquem na totalidade. o mundo é demasiado complexo para que se consiga projetar cada detalhe da realidade.
engraçado como, dito isto, também eu já me fartei de declarar que “espero isto” e “espero aquilo”, ainda vou nos primeiros parágrafos. será possível existir sem expectativas, por muito matreiras que elas possam ser? bem o duvido. aliás, tenho a certeza que não é assim.
gostava ainda de ter escrito estas linhas numa tarde sentada frente ao rio Tejo, no Cais do Sodré. é, para mim, um local já com algum significado, para além de o achar cheio de potencial para dele arrecadar inspiração e nele construir um sentido pessoal ainda maior. quão bonito não seria dizer que comecei o meu livro diante do rio, ao ar livre, sentido o vento, ouvindo os pássaros e o embate das ondas, o som dos carros e das pessoas, tudo camuflado com um leve cheiro a maresia e com um ou outro olhar perdido para o horizonte… podem imaginá-lo?
contudo, estou sentada à secretária do meu quarto, com a cabeça sob o antebraço, caderno e caneta na mão. faz-se tarde, o meu irmão já dorme e os meus pais conversam por meio de sussurros, também eles já deitados. também eu quero ir dormir e, por isso, estou desejosa de terminar o que para aqui estou a escrevinhar. e esta? quem esperava esta? eu não.
é mesmo assim que vai começar este livro? parece-me que sim. nem tudo pode despoletar como queremos, mas isso não quer dizer que nada despolete de todo. a vida acontece.
uma aventura absolutamente inesperada acabou de começar. com um começo tudo menos perfeito, mas começou.
- Maria, fevereiro de 2014.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
essencial é ter esperança.
ditos como um dia encontrarás a pessoa que te fará entender por que é que nunca deu certo com mais ninguém não me servem, estão fora do meu guarda fato se subentendem um qualquer plano predeterminado. para mim, o que acontece é, simplesmente, o que acontece - sem explicações misteriosas por trás.
não posso acreditar que vá encontrar a pessoa que ficará comigo para a vida. contudo, penso que (e por muito magoada) enquanto houver esperança de a encontrar, o mundo ainda não está perdido.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
I'm so damn funny
sou uma garrafa mas também tenho direito de me ver ao espelho, ou não?! ainda por cima tenho olhos e sou uma estrela!!...
- coisas que se passam no instagram da Maria.
nota: a ideia de pôr os olhos na garrafa foi da Mariana. o resto fui eu que inventei.
para que se reúnam de novo as partes.
talvez não se partam corações. talvez apenas se construam muros à volta deles e sejam esses muros que, posteriormente, magoam.
talvez se erga apenas uma parede no lugar onde antes havia uma porta aberta e seja o cimento que custa a digerir... o cimento, onde havia uma passagem para um Amor estendido horizonte fora, sabe-se lá até que infinito. é que o coração não digere coisas... apenas bombeia vida! daí a custar a ideia de digerir seja o que for. daí o confronto com uma parede magoar - essa necessidade de reduzir as vistas, de esquecer a porta que dava acesso a um sonho bonito: àquele, que se acreditava ser possível de realizar... a necessidade de virar as costas a uma vida que se queria sentir pulsar dentro de nós.
talvez seja tudo culpa das paredes; de se deixar de abrir uma porta que se costumava abrir, passar por ela e tocar o mundo do outro lado, sentirmo-nos unidos a ele... talvez seja isso que faz doer o coração.
talvez se erga apenas uma parede no lugar onde antes havia uma porta aberta e seja o cimento que custa a digerir... o cimento, onde havia uma passagem para um Amor estendido horizonte fora, sabe-se lá até que infinito. é que o coração não digere coisas... apenas bombeia vida! daí a custar a ideia de digerir seja o que for. daí o confronto com uma parede magoar - essa necessidade de reduzir as vistas, de esquecer a porta que dava acesso a um sonho bonito: àquele, que se acreditava ser possível de realizar... a necessidade de virar as costas a uma vida que se queria sentir pulsar dentro de nós.
talvez seja tudo culpa das paredes; de se deixar de abrir uma porta que se costumava abrir, passar por ela e tocar o mundo do outro lado, sentirmo-nos unidos a ele... talvez seja isso que faz doer o coração.
independentemente de tudo, a verdade e o desafio reside aqui:
quebrou-se uma ligação, uma vez erguido o muro.
uma vez erguido o muro, não basta saltá-lo para que se reúnam de novo as partes. o muro continua lá.
quebrou-se uma ligação, uma vez erguido o muro.
uma vez erguido o muro, não basta saltá-lo para que se reúnam de novo as partes. o muro continua lá.
tem de se destruir o muro. deitá-lo completamente abaixo.
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