sábado, 1 de outubro de 2016

Interrail: Amesterdão (3rd Stop)

Dia 29 de julho, 14h30, e eis que Amesterdão começa a marcar pontos logo desde o momento em que pusemos o pé fora da estação de comboios. Como começámos a perceber nas cidades anteriores, os mapas da cidade estavam todos perto ou à porta de saída para a rua, pelo que nos dirigimos à busca do de Amesterdão. Mal demos por ele, uma senhora local não nos deu sequer tempo de o olhar mais do que dois ou três segundos: perguntou-nos se precisamos de ajuda e para que rua precisávamos de ir. Explicámos-lhe que procuravamos o Stayokay Amsterdam Hostel, ela respondeu-nos acenando em total compreensão como se fosse usual toda a gente procurar esse hostel (viemos a perceber que deve ser mesmo usual, pois todas as pessoas com quem nos cruzávamos a pedir informações da localização do dito cujo quase que nos interrompiam para nos dar indicações mal começávamos a proferir o seu nome), direcionando-nos de imediato para o número de autocarro que teríamos de apanhar. Assim o fizemos, mas, nabos que somos no funcionamento holandês, acabámos por apanhar o autocarro certo na direção contrária. Já aqui eu tremia de frio, pois apesar de ter previsto, antes de sairmos de Bruxelas, que seria boa ideia andar de calças de fato de treino de meia perna ao invés de calções - uma vez que a terceira cidade se encontraria mais a norte e, portanto, seria mais gelada -, o vento e os chuviscos que entretanto caiam não estavam a ajudar-me a sentir confortável. Ao percebermos que não estávamos a ir na direção certa, saímos naquela mesma paragem e deslocámo-nos para o outro lado da rua de forma a aguardar o autocarro que efetivamente precisávamos, tendo ainda ficado um tempo ao frio - e eu a sofrer. Finalmente ele lá chegou, e lá saímos na rua que nos tinha sido indicada como a mais próxima do hostel.
Depois de umas quantas voltinhas nos arredores sem encontrar a nossa acomodação, começámos a tecer o nosso juízo quanto às pessoas holandesas após um outro senhor, já de alguma idade, se dirigir de imediato a nós por nos ver com as folhas do Google Maps na mão, falando-nos num inglês perfeito e caminhando connosco até a um local mais perto do hostel: são as pessoas mais amo-ro-sas-de-sem-pre. De verdade. Este senhor em específico falou connosco das mais variadas coisas, a título de exemplo: contando que já tinha ido a Portugal e tencionava ir mais mas que agora se encontrava doente, perguntando-nos o que andávamos ali a fazer e o que fazíamos da vida - tendo tecido ao Arlindo os mais sinceros elogios por ser ilustrador, coisa rara em Portugal e que, no entanto, foi olhado como profissão de topo em todos os outros países em que estivemos (já quanto a mim, quando lhe disse que estudava psicologia, riu-se na minha cara e perguntou o que eu ia fazer com isso; no entanto, não foi rude a fazê-lo, e eu fiquei a saber que nunca seria muito boa ideia emigrar para a Holanda para exercer como psicóloga). O senhor, de facto, acabou por nos deixar perto de uma torre - a torre do hostel - mas, na minha cabeça, não deveria ser aquela a torre, pelo que ainda entrámos no edifício ao lado (um café) para perguntar a uma rapariga que estava ao balcão para onde nos tínhamos de dirigir. Ela riu-se, naturalmente, tendo-nos dado indicações que, no entanto, não compreendemos, pelo que ainda tivemos de perguntar a uma outra rapariga que passou por nós na rua e aí sim, percebemos a razão dos risos da anterior. Demos entrada no hostel e eis simpatia em pessoa de novo: a senhora da receção era toda sorrisos para nós, falando-nos dizendo piadas, perguntando-nos de onde éramos e o que ali fazíamos, dando-no papéis com informações disto e daquilo, um mapa da cidade a nosso pedido, e perguntando-nos se tínhamos alguma dúvida em que ela nos pudesse ajudar - se tudo isto parece, agora pensando, regras básicas de boa educação e hospedagem, a verdade é que até então não o tínhamos experienciado em local de dormida algum. A simpatia imensurável chegou ao ponto de até a senhora das limpezas, ao subirmos para o andar do nosso dormitório, nos perguntar se precisávamos de ajuda, ter-nos dirigido à porta do nosso quarto e depois ter-se despedido com um grande sorriso, colocado os phones nos ouvidos, e ter dado continuação ao seu trabalho enquanto dançava e cantava qual típica negra alegre que vemos nos filmes. Um encanto.
Um encanto já não foi, porém, os rapazes que calharam connosco no dormitório: nem um olá, por muito que sempre que entrássemos no quarto os cumprimentássemos (no fim da nossa estadia o Arlindo jurou-me tê-los ouvido falar brasileiro, ainda por cima! Ou seja: entendiam-nos perfeitamente até quando nem inglês falávamos, e porém fazia questão de permanecer completamente calados na nossa presença).
First things first: uma vez poisadas as coisas e tendo eu mudado a minha vestimenta para calças de ganga de forma a ficar mais quentinha, dirigimo-nos para umas mesinhas do lado de fora do hostel para almoçar o que sobrara da francesinha, agora dividida entre duas sandes e o tupperware. Almoçámos com vista para um parque infantil a uns metros de nós, onde umas crianças jogavam um jogo tipicamente holandês, contou-me o meu amor, mas cujo nome, confesso, não sei. Pusemo-nos, enfim, a caminho da nossa aventura do dia.
Não demorou muito para que eu, friorenta que sou, me voltasse a sentir ficar gelada, pelo que o Arlindo me emprestou o seu (maravilhoso) casaco, jurando-me estar sem frio e ainda apoiando o argumento no facto de ter vestida uma camisola de manga comprida (de facto, o meu homem chegou a andar de t-shirt em algumas cidades ao passo que eu precisava de casaco e, de forma a provar-me que tinha calor, dizia-me para tocar-lhe na pele do braço... que, efetivamente, eu notava quente de todas as vezes). A chuva miúda que encontrámos à chegada voltou a Amesterdão nesta altura em que fomos passear pela cidade e, para alguém que nunca achou muita piada em andar à chuva, espanto-me agora comigo ao guardar tal coisa como uma das que mais gostei que acontecessem enquanto passeávamos.
Claro que algo que é mais do que constatável em Amesterdão desde o primeiro minuto, para além dos imensos e belos canais, são as bicicletas everywhere - até parques de estacionamento para bicicletas há! E ai de nós se nos atravessássemos por engano na ciclovia que corríamos o risco de ser atropelados (uma coisa interessante de verificar é que em todas, TODAS as cidades por onde passámos havia bicicletas a circular na rua e semáforos específicos para tal circulação; já em Lisboa, esqueçam lá isso - embora também se perceba parcialmente esse facto devido a Lisboa se tratar da cidade das sete colinas). De facto, na ida para o centro (e em todo o lado), passámos junto a umas quantas ciclovias e também por uma ponte de madeira sob um canal com um chorão numa das margens (adoro chorões, e aqui pude deliciar-me com alguns, tal como, mais tarde, em Berlim). Ao atravessar esta ponte, algo que também começámos a avistar foi a forte presença da comunidade LGBT na cidade: num edifício ao fundo estava uma bandeira da comunidade, e em muitos outros encontrámos bandeiras (algo que não sabemos se se veria com tanta força devido a um evento que ia ocorrer dali a uns dias como anunciava alguns cartazes, ou se a população já teria mesmo mente aberta face a esta questão - como todos deveríamos ter, na verdade: we are all people but we don't treat ourselves as equals). Caminhámos de seguida por um caminho junto àquilo que se assemelhava um porto, meio incertos se nos estaríamos a deslocar na direção certa - tendo sido um grupo de três jovens que nos confirmou estarmos muito perto de chegar ao centro (um grupo composto por um rapaz e duas raparigas que o meu amor me descreveu como uma das raparigas estando a ser alvo de engate do rapaz; já em Bruxelas ele tinha dado conta de um outro rapaz hospedado no nosso hostel a fazer conversa com uma rapariga no jardim do edifício - por alguma razão, ele tem olho mais atento que eu para estas coisas).
No centro, a caminho do mapa central da estação para verificar onde ficava o anexo da Anne Frank - algo que eu muito queria ver e que não estava indicado no mapa que nos foi dado no hostel -, o meu amor voltou a chamar-me à atenção para algo que, quando chegámos à cidade, ele já tinha observado: o humor holandês nos cartazes publicitários, explicando-me quanto eles estavam inteligentemente bem feitos. Outra coisa que fiquei a conhecer da parte do meu amor é o seu desgosto para com o Bansky - altamente publicitado na cidade. Após este me ter explicado o conceito de arte do dito cujo, sinceramente, também não me tornei a sua maior fã: too much darkness.






Percorrendo as amorosas ruas de edifícios atijolados e canais com flores enfeitados e de barquinhos recheados, lá demos com o anexo da Anne Frank (salva-me o meu amor nesta coisa da orientação, ou iríamos sempre parar ao local contrário). Após quase duas horas na fila... vimos o anexo. Não estava mobilado porque o pai, o único sobrevivente, não o quis assim, retirando praticamente tudo o que o compunha. But worth it: as divisões dizem muito por si, em todas elas há pequenas transcrições do diário da Anne e outros documentos a explicar tanto como era a época como cada divisão do anexo e, a par de uma maquete "mobilada" e de uns quantos vídeos com a participação de alguns dos envolvidos na vida de Anne (o pai inclusive), no final foi possível olhar a capa do diário original e também algumas folhas soltas do mesmo, expostas. Foi aquele local histórico e tão repleto de emoções uma das razões que mais me fez querer ir a Amesterdão à parte da própria beleza da cidade, pelo que agradeço ao meu amor por ter insistido em irmos vê-lo de facto - uma vez que quando lá cheguei e fisguei a fila gigante para entrar tive vontade de desistir ou não íamos ver muito da cidade, julgava. Havia, inclusivamente, um museu que o meu amor queria ver e que acabou por ficar para uma outra visita, pois ele de facto insistiu que fossemos onde eu queria.
De referir que, enquanto esperávamos na fila para entrar no anexo, debatemo-nos o que seria o símbolo xxx em quase todos os edifícios por onde passávamos (como ilustrado nas fotografias acima) e que então se encontrava na igreja à nossa frente. Só chegados a Lisboa descobrimos: respeita ao brasão da cidade. No entanto, ainda permanece o mistério do ano esquisito que estava inscrito em numeração romana nessa mesma igreja.
Outro pormenor digno de ser guardado em palavras é que em Amesterdão, à semelhança de Bruxelas, os candeeiros também eram decorados: tanto tendo inscritas formas ao longo dos postes como no cimo dos mesmos. Ah, quão bonita cidade em tudo!...
De apaixonar ainda a doce memória do namorado me ter convidado, ainda durante a espera, a olhar aquilo que parecia um coração desenhado no céu através das nuvens. O nosso coração.







Saídos do museu, era boa ideia começar a pensar onde iríamos jantar: não tendo este hostel cozinha à disposição, seria em Amesterdão que gastaríamos um dos momentos "comer fora". Estando eu com uma vontade imensa de comer massa, entrámos num restaurante italiano que, apesar de todo chique de aspeto, parecia fazer preços relativamente aceitáveis. O meu amor estava todo satisfeito por estarmos num restaurante assim, que até flores e velinhas tinha à mesa, pois nunca me tinha ainda levado a um restaurante mais "romântico". Foi-nos dado o menu para a mão e, a par de água para beber (água que era mesmo italiana e que foi de beber e chorar por mais - pode parecer estranho tecer elogios a uma água, mas foi sem dúvida  a melhor do planeta até à data de todas as águas provadas... e também se faz sentir no preço: logo 5€ por ela), eu pedi aquilo que me parecia um prato de massa vegetariana e o Arlindo uma pizza. A pizza chegou-lhe num tabuleiro de madeira e... eis que o meu prato também chega, mas sem massa. Ora eu me tinha enganado e pedido um prato anti-pasti, ora aquilo estava registado na secção errada do menu (pois eu juro que me recordo estar a ver uma coluna com pratos de massa indicados). O meu amor pareceu ficar mais desiludido que eu, manifestando que queria muito que eu satisfizesse o meu desejo - tanto que me prometeu que cozinhava massa numa das próximas refeições que realizássemos.
Descrevendo o meu prato: era uma mistura de legumes algo "ranhosa" de comer isolada, mas que quando acompanhada pelo maravilhoso pão que vinha junto... transformava-se: ficava um prato de facto bom - principalmente se o pão fosse comido à mão com os legumes lá dentro (coisa que não quis fazer logo, receando ser um restaurante demasiado fino para isso; cedi quando me apercebi que de facto era mesmo muito melhor comer aquele prato com a mão).


Após o jantar, tivemos ainda direito ao deleite de explorar Amesterdão ao cair da noite. Lindo. Não tenho como descrever a cidade, e acredito que tão pouco terá o meu amor. Rendemo-nos por completo a todos os sítios por onde passámos e ficámos, sem dúvida, com muita vontade de voltar. Aqui deu-se novamente a prova da simpatia dos holandeses: uma senhora, que ia a caminho de casa, iniciou despreocupadamente uma conversa connosco ao ver-nos muito curiosos com um túnel que dava para um lago e um jardim. Explicou-nos ser aquela a zona da sua casa e, se num momento ficámos atrapalhados por estar a olhar lá para dentro, esta rapidamente nos pôs à vontade, convidando-nos a passar o tal túnel que não havia problema nenhum (até porque estava aberto ao público e ela morava simplesmente num prédio ali ao lado - não se tratava de propriedade privada), e ainda se deteve uns minutos connosco a pôr-nos a par de alguns factos acerca daquela zona.






No regresso para o hostel, um episódio pitoresco ocorreu - um daqueles que eu e o meu amor ainda rimos, constrangidos, quando o recordamos. Pois que no nosso trajeto, o meu amor começou a elogiar um dos prédios pelo qual passámos, dizendo que gostava muito dele e pedindo-me para olhar para cima para que também o pudesse constatar. Assim o fiz... mas não vi nada: rapidamente desviei a cara. Isto porque parece que o trajeto que o meu olhar fez para se dirigir ao topo do prédio passou, no entretanto, por uma grande janela no rés-do-chão cujo interior se encontrava perfeitamente iluminado e, lá dentro, estava um homem sem t-shirt. A-ver-go-nha. Rimos muito, atrapalhados e fugindo dali.
Uma vez no hostel, subimos ao quarto para ir buscar o computador e, no lobby, falarmos novamente com os nossos pais. O Arlindo fez uma chamada de Skype com a mãe e eu, após ter enviado as mensagens que precisava de enviar para o chat do Facebook pelo telemóvel, fui comprar um postal para uma colega minha, a Rita. Esta havia-me pedido para lhe enviar um de Amesterdão estava eu ainda em Portugal e, ao escrevê-lo, não pude deixar de pensar como ela ia amar mesmo aquela cidade, principalmente as pessoas: todas amorosas e sistémicas como ela, não estivesse, nesse preciso momento, o pessoal da receção a jogar volley lá dentro uma vez que já não tinham trabalho para fazer (entreguei o postal na receção no dia seguinte aquando do check-out e ela deu-me notícias de o ter recebido quando chegámos a Barcelona).
No dia seguinte levantámo-nos cedinho, tendo-nos decidido despacharmo-nos nas casas de banho que haviam no lobby ao invés daquelas no quarto para não incomodar os nossos companheiros que ainda dormiam (ainda que tivessem sido antipáticos - até porque, naquele momento, havia mais um numa das camas e que ainda não tínhamos visto). Demos conta de que havia já pessoas à espera que a zona do pequeno-almoço abrisse, sendo que algumas estavam bastante ensonadas - mas, quanto a este último ponto, os seguranças do hostel não deixavam que ali dormitassem (o que se percebe, pois há quartos disponíveis desde que se pague por eles). Uma vez na zona do pequeno-almoço foi o autêntico deleite: foi aquele o pequeno-almoço mais rico de todos, com mais variedade e qualidade e que nos deixou, realmente, satisfeitos.
Feito o check-out e tendo em conta que ainda recordávamos mais ou menos o percurso que, no dia anterior, tínhamos feito a pé, resolvemos não apanhar transportes até à estação. Para pouparmos tempo e garantirmos que chegaríamos a horas do comboio rumo a Berlim, o meu amor ensinou-me um truque para andar mais depressa até à estação a pé (dar passadas mais largas, mantendo a mesma velocidade e aproveitando todas as descidas) e eu também lhe ensinei um outro para fazer mais facilmente as subidas (inclinar o tronco para a frente).
Uma vez no comboio para Berlim e ao fazer as contas de todos os gastos realizados, só se veio a confirmar aquilo que já sabíamos: Amesterdão foi a cidade mais cara de todas em que estivemos, sendo 1 dia nela equivalente a 2 dias noutra - tanto que nos nossos planos iniciais de Interrail pensávamos gastar 2 dias em Amesterdão, mas acabámos por reorganizar tudo graças a isso e gastar antes 2 dias em Munique, em que pensávamos gastar só 1. Foi, contudo, na opinião de ambos, a melhor cidade do Interrail (ali a competir muito renhidamente com Bruxelas, à qual decidimos atribuir o segundo lugar do top).

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