sábado, 3 de setembro de 2016

Do tema "Asas"

(1) 
Liberta as asas, clamam os ditos. E há quem não perceba nada de que a dica era para se desprender da rotina e voar, voar mais longe: liberta antes a mão das asas das chávenas de café e chá, esses que engole à pressa em dias de trabalho rotineiro, e acaba por se queimar. Larga as asas, aconselham os amigos, a família... Só que há quem tenha os pés tão assentes na terra que leva na literal o que é metáfora, acabando por largar os sacos cheios de compras na direção dos dedos - e nem os sapatos os salvam de largar um grito de dor. Abre as asas, ouve-se por aí; e logo a seguir vê-se um senhor que segue a instrução à risca, transformando-se num ápice num lambão a querer todo o céu para si e a dar uma cotovelada ao vizinho do lado.
Por outro lado... olho para ti e flutuas só por andar. Tu flutuas ainda que com os pés no chão, ainda que muito ciente que por vezes não se pode fazer da vida um poema de sorrisos. Só que nessas alturas, se for preciso, sorris e e dizes que, lá por serem de lágrimas, não quer dizer que alguns não possam ser poemas - ou não os houvesse também de saudades, de perdas, de dores. Não tens asas das que se veem como se veem nos pássaros - mas é evidente que voas. Quem disse que as asas reais tinham de ser fisicamente visíveis? As tuas não são; porém existem e levam às nuvens num simples abraço.

(2) 
Adoro que o nosso dar de mãos seja como um bater de asas que nos eleva juntos pelo céu ao mesmo tempo que nos permite a liberdade das direções a tomar. O amor é difícil de definir, mas com certeza não serão dois passarinhos juntos no baloiço de uma gaiola: chega a um ponto em já não sabem (nem conseguem) ser mais do que aquilo. Não nos encontro presos a essa definição de não-amor, felizmente; para dizer a verdade, não nos encontro presos a qualquer definição, seja do que for. O que bate certo, ou afinal o amor não é suposto ser isso mesmo? Algo sem limites, sem palavras? Não vamos por rótulos nesse tópico, que eles não o servem. Vamos por sentimentos, que só assim é possível falá-lo, escrevê-lo, pintá-lo, representá-lo,... demonstrá-lo. Só sei que te amo, e que amo sermos assim: algo além do baloiço fechado numa divisão - uma união que se formou e que se mantém livremente, decidindo, também, livremente voar um bocadinho mais longe, todos os dias, além barreiras.

- textos meus, publicados hoje, em Os Sonâmbulos

Sem comentários:

Enviar um comentário