quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Interrail: Paris (1st Stop)

[Demorou, mas cá está: o relato de 1 de 8 cidades. As restantes chegarão aos poucos, talvez pouquinhos - contudo, chegarão. Chegarão sim, que depois de um trabalho enorme para esta primeira cidade ficar escrita como deve ser, não faz sentido saltar borda fora e deixar as outras a ver navios. Recuerdos são recuerdos].

A nossa grande aventura começou a contar oficialmente o tempo perto das 19h de 25 de julho. Após um dia inteiro dentro de um misto de entusiasmo e nervos e sem saber bem o que fazer devido a todos os minutos passados a pensar quando chegaria a hora de partir, deslocou-se o meu pai de propósito à porta do prédio (o da minha mãe, onde vivo durante a semana) para me dar um beijinho de despedida. Pude ver-lhe a emoção nos olhos por entre todos os avisos para ter cuidado e desejos de que me divertisse (uma emoção que se veio a repetir quando me veio regressada sã e salva dos quinze dias fora) e, depois de alguns mimos, lá voltei para casa onde poucos minutos depois chegou o meu padrasto - isto é, a minha boleia para a estação de comboios. Pois que padrasto, mãe, mano e eu pusemo-nos então a caminho da casa do meu amor para o ir buscar, e foi uma vez lá chegados que descobri que tinha acertado em cheio no tamanho da mala de campismo: exatamente do mesmo tamanho que a do meu par (o melhor par que podia ter ao lado, digo-vos: esta viagem só me veio provar ainda mais isso). O caminho de carro para a Gare do Oriente foi o que se seguiu, onde houve uma recapitulação das recomendações dos meus pais para mim e para o Arlindo. Uma vez no Oriente: mais despedidas. Umas quantas fotografias fofinhas a nós os dois, assim como a mim junto desta parte da minha família,... sem faltar umas quantas piadas do meu irmão, que não hesitou a tentar quebrar o gelo dos nervos parentais com um "deixem estar, ela daqui a uma semana está de volta" entre risos. "Lamentei" desiludi-lo, dei-lhe um abraço apertado e disse-lhe para também aproveitar bem  semana de hóquei que se lhe seguiria (o meu irmão joga hóquei e é o segundo ano consecutivo que durante o verão vai para uma espécie de campo de férias da modalidade), divertir-se nas próximas duas semanas (e divertiu; soube que mal parou em casa, e isso no fim de tudo conta-me que a minha mãe-galinha também se tornou mais corajosa para deixar os seus pintainhos vaguear assim),... E pronto: despedidas feitas, finalmente eu e o meu amor sozinhos!
Tendo de fazer tempo até às 21h36, rumámos ao Centro Comercial Vasco da Gama (fomos à casa de banho, depois o meu amor, mais tarde, também foi comprar canetas pretas para desenhar - que se havia esquecido de as trazer de casa)... E queimámos os últimos momentos antes da subida para a plataforma ferroviária na sala de espera da Gare, onde por entre alguns telefonemas e mensagens trocadas comecei a notar-me a ficar muito mais calma e tranquila do que em todos os dias (e até segundos) anteriores. Não nego que esta viagem não me apoquentou várias vezes com receios: muitas vezes tremi por dentro, imaginei os piores cenários, e tentei relativizar inúmeras vezes. Mas ali... ali é que, mesmo mesmo prestes a partir, pareceu tudo amainar naturalmente, e os sorrisos de uma alegria-criança começaram a sair facilmente um atrás de outro.


Chegado o comboio, tivemos, enfim, o primeiro desafio de todos: encontrar a nossa carruagem, uma vez que tínhamos lugares reservados (ao contrário de praticamente todas as cidades por onde passámos é impossível sair de comboio de Lisboa sem reservar comboios - fica a informação). E digo desafio porque não tardámos a descobrir que a carruagem era na ponta oposta àquela que estávamos na altura, pelo que tivemos de correr para não perder a nossa saída. Não perdemos, como é calculável.
Os nossos lugares calharam ser dois de quatro, tendo à nossa frente calhado duas freiras espanholas - muito simpáticas por sinal, embora não tenhamos trocado mais do que umas palavrinhas e sorrisos educados com elas... e de referir, também, que o meu amor logo aqui começou a mostrar uma das facetas lindas que tem: oferecer-lhes ajuda para colocar as malas nas prateleiras do cimo da carruagem (voluntariou-se quase que automaticamente para ajudar imensa gente ao longo de todos os comboios - um amor enorme, enorme). Ainda estavam as luzes da carruagem acesas e as nossas vizinhas da frente começaram logo a fechar os olhos para arrocharem; eu e o meu amor não o fizemos logo (nem a maioria das pessoas na carruagem) - começámos por jantar o que ele tinha trazido num tupperware para os dois (rissóis vegetarianos e arroz). Quando as luzes diminuíram de facto, aí sim, tentámos dormir. Claro que dormir num comboio noturno e sentados não é o mesmo que dormir num hostel ou hotel (até porque não quisemos reservar os vagões com camas, pois eram mais caros e fomos de Interrail com o objetivo de poupar ao máximo), pelo que dormimos às mijinhas. Ainda que assim e com algum frio (o meu amor emprestou-me o seu super-casaco para me tapar, mas no dia seguinte, quando me admitiu que tinha passado um pouco de frio apesar das minhas insistentes perguntas ao longo da noite quanto a se ele estava bem e se queria o casaco, claro que lhe ralhei), descansámos mais ou menos bem; das idas às casas de banho que nos eram disponibilizadas é que já não se pode fazer tantos elogios - foram as mais mal-cheirosas de todas pelas quais passámos, tanto que tinha de prender a respiração para lá entrar e não me dar a volta ao estômago.
Vim a descobrir que, enquanto dormia, fui apanhada pela câmara do meu telemóvel de boca aberta. Ora pois que, mal tive oportunidade, vinguei-me e apanhei o namorado assim também. Nesta altura, as duas freiras já tinham saído no seu destino; porém, quando achávamos que poderíamos finalmente esticar as pernas... chegou, de imediato, outro senhor. Este não nos falou ou olhou uma única vez que me recorde, e aproveitou para também dormitar um bocado até Hendaya - a nossa primeira paragem e que, para lá chegar, presumimos termos passado pelos Pirinéus (isto porque Hendaya já faz parte de França, mas fica na fronteira entre Espanha e esta última).


Uma vez em Hendaya, tivemos de reservar o nosso comboio seguinte e que nos levaria à primeira cidade que exploraríamos: Paris. Tivemos alguma sorte pois uns minutos mais e a bilheteira iria fechar. De bilhetes de TGV na mão (no TGV também não é possível viajar sem reservas, embora em França já haja alguns caminhos ferroviários alternativos e mais prolongados para viajar de cidade em cidade - algo que fizemos em praticamente todas as ligações de comboio seguintes nos restantes locais em que andámos), explorámos ainda um pouco dos arredores da estação de Hendaya, onde nos deparámos com um café de portugueses (embora não tenhamos lá entrado). Estivemos também na sala de espera da estação por uns momentos, onde vimos um senhor que, na sua mochila, colocou um papel em que perguntava se queriam casar com ele pois precisava de um passaporte europeu. Por fim, e de forma a não voltarmos a correr para apanhar o comboio como nos acontecera no Oriente, fomos procurar o TGV e a nossa carruagem. Não só encontrámos a carruagem, como a Margarida e o Miguel: dois jovens portugueses de idade aproximada à nossa, ela enfermeira, ele de recursos humanos, também a fazer um Interrail e que calharam ser os nossos vizinhos da frente deste percurso. Falámos todos quase a viagem inteira, inclusive do nosso destino (o Miguel, por exemplo, levantou uma bela questão: as pessoas querem ir a Paris ver a Torre Eiffel ou ir à Torre Eiffel ver Paris?, sendo que para o último caso aconselhou ver Paris da Torre de Montparnasse, pois já o havia feito uma outra vez e, para além de se pagar menos e evitar-se tantas filas, de noite era lindíssimo), o que facilitou a passagem das horas que já se começavam a tornar penosas (vinte e uma horas no total a viajar não é pêra doce!). Foi nesta viagem, também, que descobri que por muita vontade que tivesse de poupar algum dinheiro por esse meio, que não ia sobreviver sem comprar cafés. Comecei a ficar com uma ligeira dor de cabeça e, mal o proferi, o meu amor foi-me comprar um... e trouxe-me também um chocolate com bolacha. Tentei resistir em comê-lo por inteiro logo ali, mas também não fui bem sucedida: muito, muito bom... ainda que caro (evitem comprar coisas no comboio, evitem!). Uma outra pequena nota acerca do percurso Hendaya-Paris, ainda que, talvez, não muito importante para alguns (mas eu quero anotar): as casas de banho do TGV foram as melhores de todas (you don't say ou o TGV não foi a reserva mais cara de todas, 18€ para dois com o passe Interrail), o que claro que foi um alívio face à experiência Lisboa-Hendaya e restaurou a esperança de que nem todas as viagens fossem muito penosas nesta parte da satisfação das necessidades básicas.
Os últimos momentos no comboio já foram passados de pé de tão quadrados que nos sentíamos nos assentos, até que... chegados a Paris! A alegria, os pulinhos nas primeiras passadas, os rostos sorridentes, os peitos cheios de vontade de bater ao som da cidade. Contudo, o primeiro passo: perceber se eram preciso reservas ou não para Bruxelas, a visitar dois dias depois, uma vez que se fossem necessárias teríamos de tratar disso o mais rapidamente possível para não arriscar ficarmos em terra. Ora pois que a senhora disse que sim, que eram precisas reservas, embora eu tivesse visto no site do Interrail (e na aplicação de telemóvel oficial do Interrail) que era possível ir sem elas. Felizmente fui inteligente o suficiente para imprimir todos os horários de comboio que tencionávamos apanhar e, quando os mostrei à senhora, ela aí já disse "ah, sim! É possível ir, simplesmente vão demorar mais tempo e em vez de uma hora e meia levam três". "Não faz mal", respondemos nós (ainda para mais depois de vinte e uma horas de viagem... o que é que são três horas? Peanuts!), e o assunto ficou logo resolvido aí. Permitam-me aproveitar esta passagem para aconselhar todos os viajantes a, de facto, fazerem o mesmo: imprimam as ligações de comboio que querem apanhar, ou vão sempre tentar-vos vender reservas (foi o que aconteceu ao Miguel e à Margarida - percebi depois deste episódio; isto porque eles nos contaram que estavam sempre a dizer-lhes que tinham de pagar as viagens e reservar lugares, e que por isso ainda não tinham usufruído dos descontos de Interrail). Ou seja: se o vosso objetivo for poupar dinheiro, quando se dirigirem aos balcões das informações, a pergunta não é "Temos de fazer reserva para x sítio?" mas sim "É preciso reserva para o comboio x à hora y?". Compreendido?
Continuando... Segundo passo: encontrar o hostel. Foi aqui que começaram os problemas de dois jovens acabadinhos de chegar a estas vidas, fresquinhos, novinhos em folha - com muito para aprender. Cansadíssimos, e eu ainda desabituada do peso de uma mala de campismo cheia às costas (que, como já dei a entender acima, comprei-a mesmo de propósito para esta aventura), foi logo nesta paragem que nos começámos a aperceber que os mapas que imprimi do Google Maps estavam extremamente pobres em pormenor e não nos iam bastar para encontrar os nossos locais de dormida (ainda que tenham sempre servido de pistas vagas preciosas; afinal de contas, nunca dormimos na rua!). Tentámos caminhar a pé: não resultou. Deitei umas lágrimazinhas de frustração para aqui para o meio, e o meu amor ainda tentou comprar-me um café para meu consolo (embora eu não o tenha bebido porque, se já estava a ficar nervosa, a cafeína não ia resolver muito; acabou por bebê-lo ele). Decidimos então apanhar o metro até a um local que conseguíssemos identificar relativamente mais perto do hostel e, aí sim, tentar encontrá-lo a pé. Quando entrámos no metro... aí é que foram elas. Comecei a sentir-me efetivamente em pânico: montes e montes de pessoas à minha volta, um metro labiríntico cheio de corredores para aqui e para acolá e em algumas zonas estreitos, os avisos que fazia a mim mesma ainda em Lisboa para me afastar de locais com multidões a ecoar na minha cabeça. Sentia-me uma barata tonta, com o coração a mil, apressada, a querer sair dali à força toda com medo que arrebentasse alguma bomba. Não me sentia segura ali, e só puxava o Arlindo pelo braço enquanto o ouvia a dizer-me para ter calma. Só quando voltámos a sair de debaixo de terra é que comecei a respirar de novo, embora logo tenha começado a ficar muito mais queixosa. Doía-me tudo. O meu amor também estava cansado, mas ainda assim mais capaz de se autorregular que eu, tanto que se voluntariou para me levar a mala mesmo que com a dele às costas também. O meu herói naquela altura e no resto daquela noite, é o que tenho a dizer, pois apesar das minhas perguntas se ele estava mesmo bem ele dizia sempre que sim. Lá demos com o hostel após uma senhora americana super simpática nos ter ajudado e um francês ter tentado ajudar mas estar a mandar-nos para o lado contrário. Outro choque: apesar de ter tudo o que de básico precisávamos (cozinha, casa de banho, cama), o hostel era num prédio super estreitinho. Naquilo que é o equivalente ao -1 nos prédios, era a cozinha partilhada, a sala dos cacifos e uma casa de banho; no rés-do-chão um bar, onde havia mesas e, supostamente, wifi (que não estava a funcionar muito bem); no primeiro e segundo andar, quartos com beliches de três cama, chuveiro e lavatório e, entre cada andar, uma pequena portinha com uma sanita. Ou seja: tínhamos de andar sempre a subir e a descer pelo hostel, que achei pouco acolhedor - nomearia-o de claustrofóbico, aliás. Chegados ao nosso quarto e tendo em conta que o inquilino que ficou connosco ainda não estava lá, apenas as suas coisas, desabei por completo em choro. Chorei imenso de nervos e de cansaço, e o meu amor jura que me ouviu dizer que queria voltar para casa apesar de eu não me lembrar dessa parte; lembro-me, sim, de ele dizer que não havia problema algum assim que eu quisesse voltar, que não ficava chateado e que voltávamos, e de eu a dizer que queria tentar levar a viagem até ao fim, que era algo que queria fazer. Acalmou-me com o carinho que tem mostrado ter para comigo desde que estamos juntos, referindo que era a minha primeira grande viagem e que era normal eu estar assim, deixando-me jorrar as lágrimas todas que queria, relembrando-me que também era a primeira grande viagem dele e que ele também estava nervoso, mas que estava tudo bem. Sabendo-nos juntos e desejante de jantar (levámos noodles para a primeira noite), tomar um bom banho e dar início a uma boa noite de sono... Demos o dia por terminado e reservado apenas a essas três coisas, assim como dar notícias aos pais de que tínhamos chegado e, eventualmente, conhecer o nosso companheiro de quarto. Este revelou-se um rapaz da América Central (falava espanhol) bastante simpático e prestável, deixando-nos ficar nas camas mais juntas (ele estava na cama do meio do beliche), disponibilizando-se para sair do quarto sempre que eu precisasse de me arranjar, não colocando problemas aos despertadores que tivéssemos de pôr... Não tenho queixas, mesmo tendo chegado ao quarto uma ou duas vezes e notar-se que ele tinha estado a fumar coisas à janela, e mesmo chegando ele ao quarto às tantas da manhã por ter estado a trabalhar (trabalhava de noite num bar, porém nunca fez muito barulho ao deitar-se).
No dia seguinte e após descansarmos como deve ser (isto é: dormir umas horas de seguida numa cama!)... O quadro cinzento do dia anterior branqueou-se por completo. Nem uma pinga de mau-humor, de pânico, de stress - aquilo a que chamo resultado de uma noite revitalizadora.
Acordámos bem cedinho, e das primeiras coisas a fazer foram as compras: uns pãezinhos para o pequeno-almoço, uma compota de frutos vermelhos sem açúcar (que o meu amor não consome coisas com açúcar adicionado; esta compota durou-nos os quinze dias todos até ao fim, pelo que não tivemos de nos preocupar mais com o que pôr no pão do pequeno-almoço quando este não estava disponível nos hosteis e hotéis em que ficávamos), uns sumos de laranja para a manhã e hora de almoço ou lanche..., mais pãezinhos para o almoço com umas cenouras para pôr lá dentro e uns tomates cherry para acompanhar (foi o almoço mais pobre que fizemos de toda a viagem), peças de fruta, batatas e ervilhas para fazer um caril para o jantar,... e está no ir para o momento. Voltámos para o hostel, poisámos as compras que não precisávamos no quarto com o maior cuidado possível para não incomodar o nosso colega de quarto (embora tenhamos ainda entrado e saído umas quantas vezes, algumas por mea culpa, ops), comemos, fizemos as sandes para o almoço e tchanam: estava na hora! Lá fomos nós passear, descobrir Paris a pé!
A primeira descoberta foi ridícula: o caminho para a estação de comboios - uma vez que teríamos de nos deslocar para lá pelos nossos próprios sapatos de forma a apanhar o comboio para Bruxelas às 6h da manhã em ponto no dia seguinte, sendo improvável que houvesse já metro antes dessa hora para nos transportar ao local. Ora qual não foi o facepalm mental que dei em mim mesma quando me apercebi que era só andar em linha recta a partir do hostel até chegar à estação em cerca de dez, quinze minutos a pé de caminho (c-o-m-o-a-s-s-i-m gastámos 3,60€ no dia anterior de metro e andámos que tempos à procura da nossa estada?! Ai). Acabei por dar razão ao Arlindo, que no dia anterior tinha-me sugerido irmos em determinada direção (a correta, portanto) enquanto procurávamos orientar-nos e eu recusara devido à rua em questão não me inspirar confiança pelo seu aspeto. Filmei esta constatação a dar-lhe razão (o que o deixou todo contente, claro) e porque de facto foi o acontecimento mais ridículo de sempre. Neste entretanto, cruzámo-nos com uma sessão fotográfica em que uma rapariga com um ar todo mázona sexy poisava em pé, e de cócoras, e sentada, e assim, e assado, numa ponte construída sob as linhas férreas, havendo um conjunto de letras riscada a giz no chão (que sugeria uma qualquer marca de moda). Na estação, aproveitámos para filmar e fotografar o que não tínhamos registado no dia anterior, inclusive um monumento de uma casa torta, que só nesse dia percebemos o que era: um memorial em jeito de homenagem a um terramoto que havia ocorrido em Paris.


Caminhámos, caminhámos,... E as primeiras paragens foram dois jardins, o segundo aparentemente concorrido, pois quase todos os bancos estavam ocupados e havia pessoas ora a conversar, ora a descansar, ora a caçar Pokémons (julgo que terá sido a única pessoa que ao longo da viagem inteira vimos a jogar PokémonGo: um rapaz com um chapéu do Pikachu e agarrado ao telemóvel), e até a dormir na relva (alguns aparentavam tratar-se de sem-abrigo). No entanto, eram de facto bonitos: o primeiro tinha uma fonte, o segundo um memorial de um senhor qualquer  e uma pedra com umas escrituras que não entendi bem mas da qual gostei (para além de ter gostado muito da tabuleta do jardim - pancas minhas). Outra coisa que reparámos ao longo de vários caminhos de Paris, é que há imensas estátuas, monumentos e até portões em que alguns acabamentos são dourados, o que na minha opinião dá todo um brilho à coisa por contrastar com a pedra, por vezes escurecida com o tempo (algo que também me encantou milhões em Bruxelas depois, e que ainda irei relatar).






Às tantas: o rio Sena. Parámos para observar a paisagem, fotografá-la, e acabámos por descer umas escadinhas de forma a almoçarmos junto ao rio. Tenho a dizer que, apesar do almoço ter sido algo que pobre em nutrientes, foi dos mais agradáveis que senti que tivemos em termos de paisagem. Entretanto, como uma das coisas que o meu amor mais queria ver em Paris era visitar o museu de Orsay, foi para aí que nos dirigimos findo comer. Pelo caminho, para além de avistarmos o Louvre, dei por mim maravilhada com o facto das margens do rio estarem cheias de uma espécie de contentores-loja metálicos cuja tampa se abria e expunha imensos livros e pinturas... imensos!... Adorei esse pormenor.




Antes de chegarmos ao museu, deparámo-nos com um outro pelo caminho: expunha arte chinesa e era de entrada livre. Não se pagando, aproveitámos para entrar, e apesar de não ter nada de por aí além e ser pequenino, tinha coisas girinhas e sempre foi mais um para juntar à soma final de museus visitados durante a viagem. Já o museu de Orsay... o museu de Orsay, esse sim - foi dos mais bonitos a que fomos em todo o Interrail, se não mesmo o mais!... Passámos horas lá dentro... horas!... Pelo menos umas duas passámos de certeza, pois para além de grande, era (e é) riquíssimo em variedade e beleza. Tinha arte desde o tempo dos gregos percorrendo as seguintes épocas, salas para um só artista (como o Van Gogh), para uma só corrente (como o meu querido Impressionismo - gosto imenso do Impressionismo!), e até um salão digno de um palácio de príncipes e princesas (com o qual me pasmei e encantei milhões, pois não estava à espera de dar com coisa assim)... Um must. Ah, e coisa boa para os menores de 25 anos: não se paga a entrada, apenas a partir dessa idade. Resumindo e concluindo: só pagámos 12 euros pelo meu amor ter 27 aninhos (o que acabou por ficar como se tivéssemos pago 6 euros cada um).






No meio do museu e ainda antes de sairmos: chamadas e mensagens da minha mãe no telemóvel. Estava a stressar, como eu já previa que acontecesse uma vez ou outra. Lá lhe liguei de volta. Falei com ela, acalmei-a, e o meu amor também o fez. Tive de lhe prometer dar mais notícias também por telemóvel, ou a mãe galinha não ia conseguir relaxar com mensagens para o Facebook duas vezes por dia (de manhã e à noite). Bom: corridas as exposições de uma ponta à outra, voltámos ao mundo das ruas parisienses e sentámo-nos a lanchar, novamente, junto a outra pare do rio, onde descobrimos que os sumos de laranja do Carrefour são a coisa mais amarga da vida e que não os compraríamos novamente. Próxima paragem: Torre Eiffel - pois o que seria ir a Paris sem a ver? Mais caminhámos, e mais (re)vimos: (uma vez mais) o Louvre na outra margem do Sena, gigante que só ele (ainda bem que não o vimos, ou gastávamos o dia inteiro, ou mais, só nele - fica para outra altura); duas rodas gigantes ao fundo, algures no meio da cidade; pontes e mais pontes, inclusive aquela uma vez já cheia de cadiados - e que, no entanto, continua bastante cheia, pois existem pessoas a vender cadeados ali no meio e as pessoas, parvas, compram e continuam a colocá-los; mais estátuas e estatuetas, algumas com acabamentos dourados (de novo: lindíssimas); mais do que um corvo a vaguear nos passeios, quase como se fossem os pombos de Lisboa; e, perto de chegar à Torre Eiffel, sendo já perto do final da tarde, um museu que ficámos com vontade de ver numa outra visita a Paris: um museu cheio de verde dentro e fora - dentro em forma de jardim ao ar livre e com várias esculturas de aspeto tribal, fora em jeito de musgo e trepadeiras nas paredes de tijolo (o quão eu deliro com trepadeiras!). Quanto à Torre Eiffel em si: lá chegámos e lá a vimos, imponente, tirámos as fotografias da praxe, observámos os jardins a nosso redor com pessoas sentadas e deitadas aqui e ali a aproveitar o seu tempo, e pusemo-nos a fazer o caminho de volta. A volta, esse, fizemo-la na margem do rio que dava para o Louvre, onde tivemos a oportunidade de passar por outros jardins que ainda não tínhamos apreciado, inclusive um que todas as pessoas com uma (ou várias) costelas de POC iam adorar: árvores meticulosamente alinhadas umas com as outras, até nas folhagem.











Já perto do hostel, o Arlindo descobriu um bocadinho mais do mel que já muitos amigos meus descobriram: o quão é fácil gozar comigo. Virou-se para mim e disse: "olha ali um unicórnio". Adivinhe-se o que eu fiz: olhei. Sentença assinada. Fartou-se de rir com a minha reação e passou a tentar fazer o mesmo a viagem inteira com outros animais e personagens, conseguindo, algumas vezes, que eu olhasse de facto (em minha legítima defesa: muitas vezes olho sem pensar e, no caso do unicórnio, imaginei que pudesse ser um qualquer peluche ou autocolante na montra de uma loja, ou até mesmo alguém vestido de mascote).
Ao fazer o jantar conhecemos duas raparigas italianas que estavam a fazer Interrail como nós e, ao jantar, enviei uma fotografia (tirada de propósito) de nós à mesa aos meus pais - uma vez que as fotografias de eu a dormir de boca aberta no comboio (as únicas que tinha no telemóvel, pois todas as outras estavam nas máquinas fotográficas por descarregar) não descansaram a minha mãe, levando-a a imaginar cenários em que eu pudesse ter sido raptada e estivesse numa cave escura (as fotografias em questão, como tinham sido tiradas de noite, estavam naturalmente escuras). A partir da fotografia à mesa e a sorrir, julgo que ficou mais calma e mais convencida de que ninguém estaria a controlar a minha conta de Facebook.
Despachámo-nos, arrumámos o mais possível as nossas malas e deitámo-nos o mais cedo possível, uma vez que no dia seguinte teríamos de acordar às 4h da manhã para estarmos a sair, o mais tardar, perto das 5h do hostel, pois (como já antes referi) tínhamos comboio às 6h da madrugada para Bruxelas e teríamos ainda de encontrar qual a linha férrea a apanhar. No dia seguinte de facto assim foi: às 5h estávamos a sair do hostel sob a chuva, ensonados, mas cheios de motivação e vontade para o que nos reservaria a seguir. Na estação bebi ainda um café das máquinas enquanto a linha do comboio a apanhar não aparecia indicada nos ecrãs e, uma vez no comboio, tomámos o pequeno-almoço que havíamos preparado antes de deixar a nossa primeira estadia para trás. A segunda esperava-nos - e nós esperávamos por ela.

Sem comentários:

Enviar um comentário