quinta-feira, 19 de novembro de 2015

03. Pertença

Vou pertencendo; mas de forma definitiva não pertenço a nenhum lugar - pois não. Vou só pertencendo. Pertenço-me a mim e nem a mim sei se me pertencerei para sempre, uma vez corpo sem vida. Posso pertencer a tudo, e ao mesmo tempo não pertenço a nenhum lugar nem a nada - nem à minha própria alma sei se pertencerei, pois a alma vai mudando com o tempo aqui e ali, eventualmente até mudar radicalmente... Ou melhor: que alma é a minha? Não pertenço a nenhum lugar, tempo, ou a coisa alguma. Pertenço-me sempre, ainda que sem conseguir definir bem quem sou, como sou; pertenço-me sem saber ao que é que pertenço, pois vou-me descobrindo e reinventando, em cada sítio e em cada momento. Ainda bem que assim é: que pertenço sem pertencer; que não pertencendo, ainda assim, vá pertencendo. Ainda bem que ser pessoa é como ser uma raiz que se fixa mas que, se necessário ou se se quiser, se pode transplantar livremente de vaso em vaso, para assim continuar a crescer e viver.

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