sábado, 8 de agosto de 2015

«A vizinha para para perguntar a Tereza: "O que é que o seu cão tem? Parece que vai a coxear!" Tereza responde: "Tem um cancro. Só lhe resta muito pouco tempo de vida", e sente a garganta tão apertada que mal consegue falar. A vizinha apercebe-se das lágrimas de Tereza e põe-se a ralhar com ela: "Santo Deus! Não me diga que se vai pôr a chorar só por causa de um cão!" É uma boa mulher. Não o disse por maldade, mas para tentar consolar Tereza. Tereza tem consciência disso e já vive há tempo suficiente na aldeia para saber que, se os camponeses gostassem tanto dos seus coelhos como ela gosta de Karenine, não matariam nenhum e não tardariam também a morrer de fome rodeados de bichos por todos os lados. No entanto, sente o que a vizinha lhe disse como uma hostilidade. "Eu sei", responde ela sem protestar, mas despede-se rapidamente e prossegue o seu caminho. Sente-se sozinha com o seu amor pelo seu cão. [...] 
Prossegue, portanto, caminho com as suas vitelas, que lá vão com os flancos a roçar, e mais uma vez pensa com os seus botões que aqueles bichos são realmente muito simpáticos. Mansos, sem malícia, às vezes de uma alegria pueril: só parecem cinquentonas gordas a armarem-se às meninas de quatorze anos. Nada mais tocante do que vacas a brincar.»

- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser

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