«A rapariga falava de tempestade com o rosto banhado por um sorriso sonhador, e ele olhava para ela com espanto, quase com vergonha: ela vivera algo belo e ele não o vivera com ela. A reação dicotómica das suas memórias à tempestade notura exprimia toda a diferença que pode haver entre o amor e o não-amor.
Ao falar de não-amor, não quero dizer que Tomas se tenha comportado como um cínico com a rapariga, que, como costuma dizer-se, não tenha visto nela senão um objeto sexual: pelo contrário, gostava dela como amiga, apreciava-lhe o caráter e a inteligência, estava pronto a ajudá-la sempre que precisasse. Não era ele que se portava mal com ela: era a sua memória que, sem que ele pudesse dizer palavra, a excluíra da esfera do amor.
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que regista aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria. [...]
Fiz já notar como as metáforas são perigosas. O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.»
Ao falar de não-amor, não quero dizer que Tomas se tenha comportado como um cínico com a rapariga, que, como costuma dizer-se, não tenha visto nela senão um objeto sexual: pelo contrário, gostava dela como amiga, apreciava-lhe o caráter e a inteligência, estava pronto a ajudá-la sempre que precisasse. Não era ele que se portava mal com ela: era a sua memória que, sem que ele pudesse dizer palavra, a excluíra da esfera do amor.
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que regista aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria. [...]
Fiz já notar como as metáforas são perigosas. O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.»
- Milan Kundera in A Insustentável Leveza do Ser
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