
Tinha acabado de viver um acontecimento violento. As memórias de um peixe e de uma tartaruga tinham acabado de dar à costa e eu vi-os ali, estendidos, à espera da minha reação. Ia mesmo deixá-los secar, sujos pela areia como se nada fosse? Ia colhê-los e devolvê-los ao mar para que retomassem o seu caminho? Ou iria pegar neles, levá-los para casa, colocá-los num aquário e cuidar deles com todo o amor que conseguisse? Era assim que me sentia. Dividida, perdida, confusa naquelas memórias que sem querer se misturavam com o meu presente. Um antigo amigo voltou a falar-me, eu voltei a falar-lhe. Pensei no quão bonito seria voltar a cuidar de um aquário colorido e vivo. Mas depois assaltaram-me todas as outras memórias - não só as decoradas em conchas bonitas e brilhantes, como todas as forçosamente fechadas e adormecidas nelas. Ouviu-se uma rebentação dentro de mim. Num ápice, e porque algo tinha de ser feito antes que o peixe e a tartaruga me morressem ora por abandonados ora por erroneamente colhidos, resolvi-me, perante o que se fez meu alarme, a devolvê-los ao mar. Ao menos sabia que, aí, de uma maneira ou de outra, por já ser esse o seu meio natural, o peixe e a tartaruga tinham mais probabilidades de se safarem. Fi-lo, mas fi-lo e percebi continuar a ouvir o burburinho das ondas ao fundo (pois o mar nunca para - vim a entender mais tarde): não teria mesmo sido capaz de cuidar do peixe e da tartaruga? Teriam eles mais amor no mar do que comigo? Ainda iria a tempo de os encontrar, se me arrependesse por perceber que não tinha tomado a melhor decisão? O (a)mar é assim, feito de rebentações, de marés vazas e cheias; um passo e desfere-nos, outro e acalma os arranhões. Fazendo-me escutar nas minhas inquietações, acabaram por me recomendar os horizontes abertos. Deixar a opção que tomei surtir o seu efeito, pois só após os resultados é que podemos apercebermo-nos se há algo ou não a corrigir ou a melhorar. Não descartar a possibilidade de necessitar de correr ao mar por ver borbulhar ao fundo - sinal do peixe e da tartaruga estarem gravemente injuriados e no risco de perecer. Contudo, dar-lhes a oportunidade de morarem e crescerem felizes no caminho marítimo que é seu.
Julgo mesmo que merecemos a oportunidade de morar e crescer felizes no caminho marítimo que é de cada um de nós individualmente. Sim: nós conseguimos!... Torço genuinamente por isso. Pois, de facto, merecemos vencer!
Sem comentários:
Enviar um comentário