quarta-feira, 12 de março de 2014

"os sonhos significam aquilo que lhes atribuímos depois"

até hoje, há três sonhos particularmente importantes que tive na minha vida. tu protagonizaste dois deles, e sempre depois de finda a nossa relação (na realidade).

foi em novembro do ano passado que tive o primeiro, pouco tempo após a dita cuja. "sonhei que estavas a meu lado, a falar com a minha mãe. às tantas, disseste-lhe algo como vou justificar todos os comportamentos que tive. mas disseste-o no sentido de 'a vida vai justificar-te a ti, Maria, todos os comportamentos que tive, os bons e os aparentemente menos bons'.
foi então que te abracei."

o outro data não mais do que quatro dias atrás. não tanto, se calhar. sonhei que (neste sonho, à semelhança do outro, também já tínhamos terminado) tiraste aquela que era a nossa cama de junto da parede e puxaste-a para ao pé da janela, colocando-a na horizontal. semi-nus, chamaste-me para me sentar contigo nela. "vem ver a lua e as estrelas", disseste. como se me dissesses o aclamado "está tudo bem" que tanto procuro, e eu imediatamente to retribuísse, ao responder ao teu pedido ou convite, não sei bem - quiçá fosse os dois. e assim ficámos, a mirar o céu azul escuro, de um tom quase elétrico, onde o brilho dos astros sobressaía com uma intensidade inigualável, mas natural, fácil. o quarto onde estávamos os dois, com os corpos semi-expostos frente a frente, estava emerso no escuro. mas, à janela, as coisas não eram tão assim. havia um pequeno sombreado, de uma cor diferente da escuridão do quarto, uma cor um pouco mais clara, mais suave, ligeiramente mais luminosa, a cair sobre os nossos ombros.

para além de ter sido um sonho bonito, por si, esmiucei-o em significados. o facto de teres deslocado a cama da parede para a janela foi como se tirasses a nossa história de um beco. como se a pusesses longe de um muro liso, em branco, impenetrável, para a aproximares de uma saída, porque quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. como se pusesses a nossa história a postos para mirar o horizonte, posicionando, inclusivamente, a própria cama na horizontal. o que disseste a seguir, já eu referi o que sei que significou e a importância que conferiu a todo o desenrolar do acontecimento que aqui discrimino. e terá sido esse "está tudo bem" mútuo e bidireccional que levou a que o brilho das estrelas e da lua, então por nós objectadas, se insurgisse tão fácil e natural. o facto de estarmos semi-nus frente a frente, também sei o que significou. remetia para o facto de não sermos propriamente estranhos um para o outro. pelo contrário. conhecemo-nos relativamente bem. partilhámos ainda um considerável montante de coisas entre nós. o facto de ali estarmos, sobre a nossa cama - a nossa história, portanto - fintando, juntos, o que tínhamos à nossa frente, era-nos claramente importante. aquela vista noturna e, contudo, em tudo luminosa, tinha-nos um grande impacto em ser partilhada. um impacto positivo. como se, por ali estarmos, disséssemos "ainda há esperança e muitas coisas boas para nós lá fora. juntos, como amigos, e separados, como indivíduos". o facto de o quarto estar escuro, então, talvez remetesse para o de, por enquanto, encontrarmos a nossa relação num local meio apagado. contudo, à janela, lá estava ela representada: a luz, a possibilidade de reacender a nossa vida. e, então, talvez por isso, sob os nossos ombros não assentava uma carga tão pesada. a escuridão parecia mudar, devagarinho, para sombra, devido a essa luz. nunca poderia haver sombreados sem um pouquinho de luz; se não a houvesse, permanecia-se no escuro, carregado que só ele. então... então espero que, não só em sonhos, mas também no coração e onde nos realmente nos encontramos, haja sempre uma janela.

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