sexta-feira, 14 de março de 2014

Os Efeitos Secundários de um Workshop Colectivo de Escrita Criativa Online

O ser humano tem manias e modas, para não falar da mania de andar na moda e da moda de ter a mania. Faço parte da blogosfera há oito anos. Ando a impulsionar o meu bichinho da escrita há aquilo, em tempo, que é quase metade da minha vida (contarei neste próximo Maio vinte anos). Até há cinco meses atrás, durante estes oito anos, escrevi sempre com maiúsculas como deve ser em bom português (ou diga-se antes em boa gramática, não importa a língua). Via uns quantos bloggers a pôr tudo corrido a minúsculas e achava-lhes piada. Ainda acho, mas isto só quando estamos a falar dos bloggers certos - aqueles que esgrimam as palavras que nem espadachins de alta competição, conscienciosos de cada jogada; com uma técnica tão estudada que na prática se torna estética. Ora, o que se sucede? De repente, vinda de lado nenhum (bom: tecnicamente, se é vinda, tem de haver pelo menos um lado de onde vir) dá-se toda uma reviravolta técnica na vida da Maria. E é claro que a estética vai atrás de arrastão; se for preciso (e mesmo que não fosse) até aos trambolhões. Não precisei de mais nada: eis ela, Maria, a ganhar a mania - a de colocar tudo corrido a letras minúsculas. Até podia ser uma mania desculpável se um acto de minúscula envergadura como esse servisse para evitar que os tralhos da estética fossem grandes demais quando puxada a reboque, sem dó nem piedade, pela técnica. É que as maiúsculas, por vezes, conseguem ser a coisa mais trapalhona do mundo. Vejam o M, por exemplo. Se se deslocar muito rápido ainda tropeça nas próprias pernas. E nem falemos no T. Se for a altas velocidades ainda se esquece de baixar a cabeça diante dos obstáculos e depois, pum, bate com a testa na ombreira de uma porta. Mas não foi uma mania desculpável destas a que se apoderou da Maria. Foi uma mania de andar na moda. Obviamente que, logo de seguida, surgiu a moda de ter a mania. Tocou logo à campainha cá de casa, ainda estava o T meio zonzo à porta e a sentir a sua testa toda achatada. E isto não ocorreu só uma vez! Então não é que a mania de que o blog ficava com uma estética muito bonita com tudo em letra pequena começou a tocar à malfadada campainha to-dos os di-as? Pois claro, se estava na moda ter a mania...
Contudo, as modas passam. Passam tantas vezes pelo mesmo sítio, que acabam por passar para ir para outro sítio. Isto é: retiram-se. E é então que surgem outras novas ou retomam as velhas. Nunca se sabe o que poderá vir a reboque da técnica - é como o que se encontra atrelado à traseira dos carros dos recém-casados. Como é moda dizer desde a velha-guarda, quando se casa casa-se com o novo e com o velho (ou passará a dizer-se agora por uma inovação de costumes).
Neste caso, recuperou-se a moda e a mania antigas: a de escrever tudo certinho e direitinho, num ode à escrita clássica. Se estivéssemos a falar de música, teria escrito antes "numa ópera à música clássica" ou "numa orquestra à música clássica". Como estamos a falar de escrita, ficou "ode".
Culpemos o meu (fantástico, maravilhoso, de babar e invejar) professor de escrita criativa por ter sido a fonte de inspiração para escrever este ode (ou texto, pronto). Culpemo-lo, porque agora que voltei a inspirar esta droga, a escrita, recuperei o vício antigo. Bastou um par de linhas para me viciar imediatamente outra vez. Disse ele "outro mandamento decisivo: rigor absoluto. Sempre. A escrever no chat, a escrever uma mensagem de telemóvel, a escrever um e-mail, a escrever numa caixa de comentários. Não há textos de primeira e textos de segunda. Se se escreve: escreve-se para ser perfeito". Fiquei-me logo por ali.
Mentira: não fiquei. E ele também não! Disse "outra dica ainda: usemos frases - aquelas coisas que têm pontos no final. Nada de palavras penduradas na web". Pronto. A partir daqui, não houve mais volta a dar. O vício de escrever, e escrever respeitando o mais possível cada palavra e cada letra fez casa. Não se limitou a tocar à campainha.

Obrigada, Pedro Chagas Freitas, pela experiência (que ainda agora começou).

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