não há começos perfeitos, nem fins perfeitos. nem sequer há viagens perfeitas entre esses dois pontos. claro que convém perceber a que “perfeito” me refiro quando escrevo isto. algo que sempre retive foi a delicadeza de cada palavra empregue e, a verdade, é que estas transportam significados extremamente poderosos – porém, quiçá, subjetivos. por vezes; pelo menos, por vezes, dependendo de quem as usa e de quem as recebe, seja lendo ou ouvindo…
espero que, com o decorrer deste livro, que espero que seja longo, muito longo, e não apenas longo o suficiente, mas longo o arrebatador, vão entendendo melhor o que quero dizer quanto à alegada falta de perfeição do começo das histórias, do seu decorrer e do seu fim.
tal e qual este começo. nunca na minha vida pensei começar a escrever um livro assim: sem uma ideia definida, sem nada de inspirador à minha volta a empurrar-me rumo a um objetivo específico, claro… mas não é assim mesmo que “a vida acontece”? vinda sabe-se lá de onde, como ou porquê?
a vida parece-me uma história sem regras ou linearidades aos nossos olhos. não vou aqui discutir se elas, embora não as vejamos, ainda assim, não terão a possibilidade de existir. sei que tudo indica para que morra sem conseguir uma resposta escarrapachada a qualquer indagação que faça nesse âmbito. como também não considero que esse debate me seja prioritário ou verdadeiramente útil, não lhe vou aqui dedicar nem mais uma referência.
aquilo que espero conseguir fazer-vos ver, caríssimos, é que não há cá regularidades entre expectativas e o que ocorre de facto. poderá haver alturas em que assim parece: que as coisas coincidem com aquilo que delas aguardávamos. porém, não creio que tais coincidências se verifiquem na totalidade. o mundo é demasiado complexo para que se consiga projetar cada detalhe da realidade.
engraçado como, dito isto, também eu já me fartei de declarar que “espero isto” e “espero aquilo”, ainda vou nos primeiros parágrafos. será possível existir sem expectativas, por muito matreiras que elas possam ser? bem o duvido. aliás, tenho a certeza que não é assim.
gostava ainda de ter escrito estas linhas numa tarde sentada frente ao rio Tejo, no Cais do Sodré. é, para mim, um local já com algum significado, para além de o achar cheio de potencial para dele arrecadar inspiração e nele construir um sentido pessoal ainda maior. quão bonito não seria dizer que comecei o meu livro diante do rio, ao ar livre, sentido o vento, ouvindo os pássaros e o embate das ondas, o som dos carros e das pessoas, tudo camuflado com um leve cheiro a maresia e com um ou outro olhar perdido para o horizonte… podem imaginá-lo?
contudo, estou sentada à secretária do meu quarto, com a cabeça sob o antebraço, caderno e caneta na mão. faz-se tarde, o meu irmão já dorme e os meus pais conversam por meio de sussurros, também eles já deitados. também eu quero ir dormir e, por isso, estou desejosa de terminar o que para aqui estou a escrevinhar. e esta? quem esperava esta? eu não.
é mesmo assim que vai começar este livro? parece-me que sim. nem tudo pode despoletar como queremos, mas isso não quer dizer que nada despolete de todo. a vida acontece.
uma aventura absolutamente inesperada acabou de começar. com um começo tudo menos perfeito, mas começou.
- Maria, fevereiro de 2014.
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