ainda me dóis... às vezes. às vezes não é dia sem pensar em ti, embora a dosagem dessa droga que o cérebro me faz administrar nas veias rumo ao coração já não surta tanto efeito. ainda bem que já é só às vezes, ou assim me agarro à Esperança. porque, ora, como os pensamentos ainda não têm rosto, dá para inventar um se for preciso. para toda a tristeza, desilusão e mágoa, finge-se um está tudo bem e toca a andar, porque para a frente é que é Lisboa. como as palavras ainda não falam sozinhas, dá para deixar algumas coisas atravessadas na garganta, porque talvez assim se silencie a malícia dos gritos que nos ensurdeceriam o que as memórias têm de bom. é que ainda por cima, às vezes, parece que não sei onde se meteram as memórias que detenho enquanto nossas. encontro uma ou outra que lá se destaca mais, mas os pequenos detalhes desmontam-se do corpo de partida e bem deves imaginar o serviço que é para dar com eles. às vezes, quando tento adivinhar o que pensarias de determinado assunto ou como é que reagirias a determinada situação, assusto-me se me deparo com tudo às escuras. mal te vejo, como és tu? pergunto-me, e fico absolutamente desnorteada por me serem fornecidas tão poucas pistas. às vezes parece que sei pouco mais que o facto de seres uma excelente pessoa. será que na altura das mudanças terei posto o mais que pude de teu e da nossa casa dentro de uma qualquer caixa que ainda está por desempacotar? será que a caixa anda por aí perdida na escuridão? é verdade que ainda não tive tempo para arranjar todas as luzes de que preciso na minha nova casa, e talvez quando tudo estiver mais arrumado e nos conformes lá dê com a caixa em alguma divisão. espero que até lá não haja nenhum terramoto, pois aí não sei se saberia dizer se ele teria empurrado a caixa para um qualquer canto ainda mais recatado ou se teria posto a dita cuja mais ao meu alcance. daí a, às vezes, não ter a certeza se quero que as conversas que, às vezes, nos imagino a ter venham a ocorrer. se elas virassem terramotos de mim, o que aconteceria? qual destas coisas? às vezes o desconhecido assusta-nos. e por isso é normal que eu, às vezes, talvez, tente voltar a ter tudo sob controlo. quero dizer: às vezes faço por arrancar notícias tuas daqui e de acolá. procuro outros meios de continuar ligada a ti, pois ligada a ti sentia-me sob alçada da segurança. a propósito, a Robin Scherbatsky diz que o futuro é assustador, mas nós não podemos simplesmente correr para o passado porque nos é familiar. aí está: talvez às vezes me arme em desportista de meia-leca. não pode ser. não posso ser meia-isto ou meia-aquilo. tenho de me ser inteira e, para isso, é perigoso reforçar a dependência face a ti seja no que for. como poderei sê-lo se achar que algo que só a ti te diz respeito me está condicionar em parte? não está. se sou eu que acho, sou eu que estou a colocar grades. às vezes, então, faço-me minha própria prisioneira. mas só às vezes. a droga que me levou à prisão perde qualidade dia após dia e o interesse nela esmorece.
- Maria, fevereiro 2014.
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